Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Autofagia política

À pergunta "Porque tem Portugal mais intenção de voto à esquerda em toda a Europa Ocidental?", Rui Taveres responde "Porque Portugal é o pais com mais desigualdades em toda a Europa Ocidental" (PÚBLICO 10 de Dezembro 2008). A resposta não é descabida. De qualquer modo, Portugal é desde há muito um país desigual e isso não impediu as maiorias da Aliança Democrática de Sá Carneiro e do PSD de Cavaco Silva. Mais ainda, depois dos governo do PS de Guterres e do actual PS de Sócrates, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda. O problema da direita portuguesa actual é a liderança. Paulo Portas é um líder competente mas dificilmente consegue mobilizar os que ainda não estão mobilizados; a promessa da conquista do espaço à direita no PSD não foi cumprida. Por seu lado, o PSD demora a acertar o passo desde que Durão Barroso assumiu a presidência da Comissão Europeia. O Rui Tavares alerta para o facto da subida da esquerda não ser um mero episódio mas eu continuo convencido que o problema da direita portuguesa ainda radica naquele fatídico ano de 2004 em que o Primeiro-Ministro abandonou o país e nas consequências imediatas dessa decisão, concretamente as sucessivas lideranças que se lhe seguiram, até hoje.

5 comentários:

Nuno disse...

Tem aí um ponto.
Seria bom que Durão Barroso, agora endeusado à boa maneira da sociedade portuguesa, sedenta por um qualquer sucesso na senda internacional, fosse realmente responsabilizado por toda a conjuntura política que agora se vive em Portugal.
O problema da direita em Portugal pode ser mais estrutural que conjuntural. O episódio recente no Parlamento deixou-me alarmado precisamente porque revela um problema no PSD mais profundo que uma liderança fraca.
E mesmo sendo de "esquerda" (se é que o PS de hoje, Guterres incluído, se pode considerar isso), é a democracia como instituição que está ameaçada para os próximos anos.
P.S.: considerar Cavaco Silva um governo "à direita", parece-me um pouco exagerado, não acha?

Paulo Martins disse...

Eu acho que é antes uma consequência e não uma causa, ou seja, Portugal é o país com maiores desigualdades sociais pois vive e respira os valores de esquerda ...

Nuno Lobo disse...

Esquerda e Direita não são coisas que existam na realidade política independentemente do espaço e tempo; são conceitos relativos que adquirem sentido no contexto em que emergem. Posto isto, penso que sim, penso que os governos de Cavaco Silva foram à direita.

O episódio recente transcende - evidentemente! - o PSD; é mais um sinal da nossa cultura política e parlamentar.

Penso que as desigualdades socias de Portugal se devem a muitas causas. Os "valores de esquerda" terão a sua quota parte de responsabilidade.

Nuno disse...

"O episódio recente transcende - evidentemente! - o PSD; é mais um sinal da nossa cultura política e parlamentar. "

O pior é que este episódio não transcende o PSD. Mesmo aceitando a ideia do que diz sobre a cultura parlamentar, o que se passou foi uma enorme falha dos aparelhos partidários que não aconteceriam num PS, já para não falar no PCP, BE ou mesmo CDS.

Revelou uma enorme desorganização, desmotivação, desinteresse e, atrevo a dizer, uma inferioridade política que os combates que se aproximam não pediam, a bem da democracia.

A questão final que permanece é, se um partido se mostra incapaz de organizar o seu próprio corpo de deputados, o que dizer dos destinos de um país...

Anónimo disse...

Desculpem, mas o governo de Cavaco de Direita teve pouco, já de BPN