Toda esta história padece ainda de outra conformação falaciosa. A cegueira de fazer analogias entre realidades constitutivamente tão distintas que não suportam essas mesmas analogias. É um problema ocular.
Qual é o horizonte onde isto se inscreve? O de tudo poder ser tratado da mesma maneira. Por detrás desta tese peregrina, e justificando-a, está a crença de que todas (ou quase todas) as actividades são equivalentes – o olhar com que compreendo uma não tem de ser distinto do olhar com que compreendo outra, porque, na verdade, não são diferentes entre si. Perde-se assim de vista todas as características irrepetíveis e que constituem, por isso mesmo, a identidade de uma actividade humana.
Qual é o horizonte onde isto se inscreve? O de tudo poder ser tratado da mesma maneira. Por detrás desta tese peregrina, e justificando-a, está a crença de que todas (ou quase todas) as actividades são equivalentes – o olhar com que compreendo uma não tem de ser distinto do olhar com que compreendo outra, porque, na verdade, não são diferentes entre si. Perde-se assim de vista todas as características irrepetíveis e que constituem, por isso mesmo, a identidade de uma actividade humana.
A actividade humana de ensinar: essa coisa tão estranha de alterar o ponto de vista de outro ser humano, quase possibilitando-lhe a sua própria identidade a partir de alguém exterior a ele: isto é, aquele que ensina (insignat), imprime uma marca (signum), o seu sinal no outro e, dessa forma, paradoxalmente, emancipa-o, isto é, liberta-o, devolve-o às suas próprias mãos, recondu-lo a si mesmo.
Nesse sentido, os professores são privilegiados, é verdade. É realmente um privilégio operar isso em e com outro ser humano. Essa estranha actividade (que, num certo sentido, permanece um mistério) não é redutível a outras. Não só pela sua dignidade intrínseca, mas também pelo seu modo único de se cumprir: entre muitas outras coisas, há nela um encontro de vontades – é uma actividade igualmente repartida por duas liberdades impossíveis de balizar: a de ensinar e a de aprender. Cada uma das duas é única (ao contrário do mero operar da “matéria”); não subsistem uma sem a outra (não há ensino sem aquele que aprende e sem aquele que ensina – o que tem como consequência algo que muitos não compreendem: que o ensinar não acontece somente do lado do professor, não se reduz apenas ao contributo do professor: do outro lado está um alguém que pode não querer ou não poder aprender – isto é respeitar o aluno, não o considerar como um mero receptáculo passivo); e, finalmente, essas duas realidades (ensinar e aprender) constituem uma terceira identidade resultante do jogo entre as duas. E essa é também única. Quer dizer, sem par, sem um outro equivalente. Portanto, há que ter olhares diferentes para identidades diferentes.


4 comentários:
Leonel Moura
A boa e a má moeda no ensino
leonel.moura@mail.telepac.pt
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Com estes professores e os seus sindicatos o País não vai a lado nenhum. Num momento em que precisamos de ânimo, atitudes positivas e energia, esta gente não pára de ocupar o País com o seu negativismo e reaccionarismo. Já basta de tanta demagogia, falta de seriedade, oportunismo.
A contestação destes professores não visa melhorar o sistema de ensino, mas andar para trás, impedir qualquer avanço positivo, manter velhas rotinas e privilégios. Os argumentos são sempre os mesmos, a falta de diálogo, as coisas mal feitas, as reformas que não são perfeitas. Mas na verdade trata-se de meras palavras usadas e abusadas para esconder a evidência. Esta gente não quer mudança, é contra tudo, tornou-se numa classe conservadora e rabugenta. E já agora falta-lhes o estilo.
Um amigo meu, professor de arte, recomendava logo na primeira aula aos aspirantes a artistas que, se o queriam realmente ser, não deviam ser vistos na rua com um saco de plástico na mão. O estilo conta muito na vida. Há certas coisas que não se fazem e certas companhias que se evitam. Esquecendo este princípio básico da dignidade comportamental, os professores foram-se tornando ao longo dos anos numa verdadeira tropa fandanga, mal encarada, histérica e ridícula, que o País conhece dos pulos na 5 de Outubro, dos cartazes torpes, das ofensas sistemáticas e das viagens de autocarro em direcção às grandes manifestações de Lisboa, animadas pelo caminho com canções de revoluções perdidas e sandes de chouriço.
Objectivamente estes professores não têm sabido dar-se ao respeito. Nas décadas que levamos de democracia a classe perdeu todo o seu prestígio reduzindo-se a um bando ululante, invariavelmente à luta por uma má causa. Transformaram-se numa arma de arremesso das oposições, quaisquer que sejam, entregaram-se nas mãos de sindicatos conservadores, do "antigamente é que era bom" e do travar é que está a dar, que tanto servem a extrema-esquerda como a extrema-direita tal a sanha belicosa, o ódio destilado, a demagogia e a falta de escrúpulos.
São maioritariamente do Partido Comunista mas todos por junto seguem a máxima libertária do "se hay gobierno soy contra". A lista das suas "reivindicações" é longa e fastidiosa: das aulas de substituição à recente avaliação. Mas bem vistas as coisas só têm um e único objectivo: a de querer travar a todo o custo a evolução da sociedade portuguesa. É aliás revelador que esta gente que é suposto educar os mais novos desconheça qualquer verbo positivo e só saiba conjugar o adiar, o revogar, o interromper, o atrasar. Nunca se ouviu uma palavra de apreço pela introdução de computadores nas aulas ou por qualquer outra boa iniciativa dos sucessivos ministros. Pelo contrário, em cada nova ideia vê-se logo um problema, uma chatice. Esta gente é do contra quando devia ser a favor. Agarram-se ao passado quando deviam virar-se para o futuro.
E afinal para quê? Felizmente os professores têm sido sistematicamente derrotados. As reformas vão-se fazendo, o ensino vai-se adaptando às novas condições, muito por firmeza dos governos, mas sobretudo porque há mais professores do que aqueles que se prestam às tristes figuras que vemos nas televisões. Como em tudo, nesta classe também existe a boa moeda ainda que seja a má que domine. É essa que tem feito progredir o ensino em Portugal já que a outra passa os dias em reuniões para tomar as posições mais diversas desde que nenhuma seja vertical. É uma minoria de bons professores que tem aguentado este instável barco. Conheço alguns. Não são bem vistos pelos contestatários porque gostam do que fazem, se dedicam ao ensino e aos alunos e não têm paciência para as jornadas de luta.
Do ponto de vista do interesse do ensino e do País é pois preciso valorizar os bons professores. Ora a questão é mesmo essa. A contestação ao sistema de avaliação não tem nada a ver com os processos, com a papelada que é preciso preencher ou com algumas incongruências que devem ser corrigidas. Esta contestação é simplesmente contra qualquer forma de avaliação, porque muitos destes professores, sempre dispostos a sair para a rua em grande algazarra, mas invariavelmente cansados quando se trata de fazer alguma coisa na escola, sabem que a sua avaliação só pode ser má. A má moeda sabe que o é.
Venho só dar os parabéns. As caixas de comentários devem servir para elogiar e criticar negativamente, como o professor.
MJP
Excelente análise do Carlos Botelho, mostrando como certas realidades se não deixam captar por modelos epistémicos standardizados ou apressadas vontades reformadoras, sem a acutilância da visão inteligente, multimoda e cuidada... muito menos pelo reconfortante e emocional ressentimento injustamente estereotipado, que a todos engole, sem distinção, mas que jamais percepcionará (já nem é uma questão de inteligência) a essência do problema da educação em Portugal, em fase tão decisiva, que é justamente um problema de rumo, não simplesmente de avaliação de professores!
Excelente análise. Para quem quiser perceber.
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