Domingo, 16 de Novembro de 2008

O primeiro-ministro cinético

Quando posto perante a questão das grandes obras públicas e perante o problema (na verdade, sarilho) da famosa "avaliação" dos professores, o primeiro-ministro, invariavelmente, responde com a não-resposta de 'o país não pode parar', ou 'é óbvio que não se pode voltar atrás' (no passado estará, não a idade do ouro, mas a idade da lama – do pântano, imagino), etc.
Lembro-me que 'Portugal não pode parar' foi também um slogan do PSD de Cavaco Silva. Mas, aí, tratava-se de uma expressão usada em campanha eleitoral (em bandeiras, cartazes, etc) e, tanto quanto me lembro, não era usada por Cavaco como resposta prêt à porter para a mínima objecção durante a função executiva propriamente dita. Isso é mais um sinal de que o Governo actual "governa" em permanente campanha eleitoral.
Não havendo respostas que efectivamente respondam às objecções, ou até mesmo às simples dúvidas levantadas, só resta a Sócrates e aos seus (cada vez mais seus) ministros arremessarem com bordões.
Dizer-se 'o país não pode parar' a torto e a direito é sempre o tipo de parvoíce que soa bem. E o primeiro-ministro, um espertalhão a dizer parvoíces, sabe-o bem. Talvez por detrás de tanta eficácia retórica estejam coisas como 'parar é morrer' e outras sabedorias do género.
Sócrates padece de uma espécie de deslumbramento cinético que é perigoso. Tudo indica que, para ele, o permanente movimento se auto-justifica. O movimento, enquanto tal, é argumento de si mesmo. Não importa em quê, de que coisas, em que condições, nem como, nem para onde. Não se pode parar. Deve-se avançar e é tudo.
Estas belas tiradas do primeiro-ministro são embriagantes. Esta defesa do movimento pelo movimento sem mais, custe o que custar (expressão muitíssimo adequada), corresponde a uma trepidação do pensamento que impede que se fixe o olhar e se veja as coisas com nitidez, se atente nelas. Não passa de um ruído que distrai, perturba, não deixa pensar - barra de imediato o caminho à simples interrogação, à dúvida. Sufoca. Pretende ocupar todo o espaço sem deixar sequer uma nesga que seja para qualquer ponto de vista alternativo. O discurso de Sócrates é "totalitário", não por considerar os outros pontos de vista como errados, mas sim porque os marca como inadmissíveis.

2 comentários:

Anónimo disse...

Inacreditável.

O primeiro-ministro foi eleito em... quando? e o senhor agora, finalmente, descobriu a pólvora.

Toda a gente sabe que Sócrates é cheio de ar e governa para a televisão.

No entanto, será reeleito.

Razão para dizer que este país tem exactamente o que merece.

O mesmo anónimo disse...

Desculpe-me a "entrada a pés juntos", não era minha intenção ser agressivo consigo - nem com o seu comentário, que tem tanto de oportuno como de bem escrito.

A minha animosidade deve-se mais à sensação de impotência gerada por este tipo de textos, e a inconsequência que lhe subjaz.

Em relação a esse assunto (e isto, retoricamente, vai ser um golpe de rins), o final da blogosfera já foi vaticinado por algumas pessoas pelo mundo fora. Dizem que o que está a dar agora é o FaceBook e o Twitter.

Ou seja: aquilo que, em tempos, representou uma lufada de ar fresco na participação política do cidadão, carrega agora um cheiro pesado a bafio, para não falar de um desfilar incomensurável de egos, que, por vezes, oferecem um espectáculo lamentável.

Não é, contudo, especialmente à sua pessoa - nem a este blog - que dirijo este reparo. Falo de um modo geral.

Tudo isto para dizer que a blogosfera ameaçou - na altura da polémica sobre o diploma do primeiro-ministro - e nunca chegou a materializar-se.

Resumindo: estes comentários ao seu texto poderiam figurar em qualquer comentário à saga "Magalhães" - ou a "bimby", como já vi por aí alguém chamar-lhe.

Mas, uma vez mais, peço desculpa pelo tom agressivo, espero que não o interprete como um ataque pessoal.

Podia ter-me contido. Não o fiz. Mas confesso que foi uma tirada algo aleatória.