Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

O Lobo das Estepes (4)

Sob a sombra de Nietzsche II (O “Último homem”)

No post anterior, chamei à atenção para as semelhanças entre a cenas da secção 125 d’A Gaia Ciência e do prólogo ao Zaratustra; importa, porém, notar a seguinte diferença: enquanto o louco d’A Gaia Ciência anuncia a morte de Deus, Zaratustra anuncia o super-homem. Acontece que esta diferença existe apenas — assim reza a minha leitura comparada das duas passagens — para tornar transparente a sua equivalência fundamental; quando lemos a secção 125 d’A Gaia Ciência à luz do prólogo do Zaratustra e vice-versa, percebemos que a morte de Deus e o advento do super-homem estão intimamente ligados: o super-homem representa o tipo humano exigido por um mundo onde doravante Deus já não existe.

Mas o paralelo não cessa aqui. N’A Gaia Ciência, depois de anunciar a morte de Deus, e face ao riso da multidão, o louco cala-se, atira a candeia ao chão, de tal modo que se partiu e se apagou, e diz de si para si: “Chego cedo demais; o meu tempo ainda não chegou. Este acontecimento terrível ainda não chegou ao ouvido dos homens.” Do mesmo modo, no prólogo ao Zaratustra, depois de anunciar o super-homem, e face ao riso da multidão, Zaratustra cala-se e diz de si para si: “Eis que eles se riem. Eles não me compreendem; não sou a boca para estes ouvidos.”

Os homens na praça pública são resumidos por Nietzsche com a expressão “Último Homem” — o último homem é o “homem mais desprezível”. Como terei oportunidade de dizer num próximo post, a figura do “burguês”, que Hermann Hesse apresenta n’O Lobo das Estepes, enquadra-se perfeitamente na expressão do “Último Homem” de que nos fala Nietzsche.

Próximo post: Sob a sombra de Nietzsche III (Conclusão)

3 comentários:

Anónimo disse...

Estimado Nuno,

Tenho acompanhado a sua série de escritos relativos ao Lobo das Estepes e devo dizer que apresenta ideias interessantes...
Terá certamente uma formação na área das humanidades, filosofia talvêz, para escrever com uma boa dose de "sensibilidade" estes textos, contrastando com a boa dose de "ser mordaz" com que escreve os seus textos políticos...

Nuno Lobo disse...

Sensibilidade filosófica e política mordaz, parece-me ser um casamento interessante. Espero que continue a acompanhar a série - mais um post e passo directamente à leitura do Lobo das Estepes.

Anónimo disse...

Irei acompanhar com muito interesse. Sabe que me faz lembrar um mestre que tive na faculdade?
Continue pois...