Uma das coisas que me surpreenderam em Madrid (sim, eu sei, sou um provinciano - ou talvez seja do nosso cantinho) é a grande quantidade de imigrantes. Não apenas os tradicionais estremenhos, manchegos ou andaluzes, que sempre tentaram fugir à pobreza das suas regiões vindo para a capital do império. Agora há bairros, sobretudo periféricos, onde sul-americanos, chineses e marroquinos estão em óbvia maioria.
Tanto quanto pude observar, à vol de oiseau, os primeiros adaptam-se com relativa facilidade. Falam espanhol, são católicos (vi muitos na Missa de Domingo, hábito tribal que hão-de perdoar-me em nome do multiculturalismo) e só o fenótipo ameríndio os denuncia de imediato como estrangeiros. Os asiáticos, talvez os mais exóticos para a Espanha histórica, dominam o pequeno comércio, vendem na rua ou em mercearias esconsas e são tratados com um desdém mal contido pelos descendentes de Carlos V. Os magrebinos vêm de muito perto, da margem fronteira do Mediterrâneo, provavelmente via enclaves de Ceuta e Melilla, e deslocam-se em famílias, sempre com crianças e mulheres de shador. Falam o que me pareceu ser berbere (não o árabe) e são mais exuberantes no tom, no volume, nos gestos do que os outros.
Um dado curioso: todos têm filhos - muitos. Se não me falha a memória, a taxa de natalidade dos imigrantes, exceptuando os de Leste, é claramente superior à dos espanhóis. Se a tendência se mantiver, será interessante acompanhar os seus efeitos na demografia espanhola. Aqui ao lado, vivem-se em tempo real as migrações talvez mais semelhantes, na quantidade de pessoas e na diferença de culturas, às "invasões bárbaras" que, nos séculos V e VI, mudaram a face da Europa.
Madrid é hoje uma capital tão multiétnica como Londres ou Paris. Esqueçam a crise económica, o terrorismo e as autonomias. Algo me diz que o grande desafio de Espanha nas próximas décadas, como por todo o velho continente, será a integração dos imigrantes.



3 comentários:
Pedro,
O desafio da integração é de hoje não de amanhã...
E a Europa não sobrevive sem a natalidade dos seus imigrantes.
Relembro que Portugal, pela 1ª vez desde 1916, teve em 2007 mais óbitos que nascimentos o que é assustador quando a agenda portuguesa se centra no aborto e omitem-se políticas de apoio à maternidade.
Telmo Corvacho
"Na missa"?
Telmo, estou de acordo.
Anónimo, não é "na missa", mas na Missa.
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