Gostei de ler o artigo de João Carlos Espada, na American Interest Online, acerca das eleições presidenciais americanas. Contudo, discordo da ideia avançada acerca do desaparecimento do anti-americanismo na Europa. Muito pelo contrário, a vitória de Obama é a expressão do anti-americanismo europeu e do anti-americanismo europeu na América. Por outras palavras, Obama significa a vitória da europeização da América. A verdade é que os europeus e os americanos, que tanto gostam de Obama, não gostam da América qua América. No mesmo sentido, leio o artigo de João Carlos Espada no Expresso. Achei interessante a ideia de que a esquerda e direita americanas estão mais próximas uma da outra do que estão das suas homólogas europeias e vice-versa. Mas não deixo de pensar que se trata de uma ideia verdadeira há 40 ou 50 anos mas com pouca actualidade nos dias que correm. E também aqui se trata do resultado do processo de europeização da América. A esquerda americana está hoje muito próxima da esquerda europeia. Os intelectuais de esquerda americanos são cada vez mais parecidos com os intelectuais de esquerda europeus. O mesmo não se passa à direita. Pelo contrário, embora de um modo menos evidente do que o movimento que acontece à esquerda, os intelectuais de direita europeus é que são cada vez mais parecidos com os intelectuais de direita americanos. O debate actual entre a esquerda e a direita é cada vez mais o debate entre a Europa e a América - respectivamente, claro.
Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)


2 comentários:
Caro Nuno,
A dicotomia que apresenta parece ser a correcta. No entanto, já não consigo ver nela uma boa notícia ou uma situação desejável ou sustentável.
A divisão a que alude apenas funciona devido a um completo afunilamento das ideias em discussão nas respectivas zonas geográficas. Não existe (ou, a existir, é precária) uma verdadeira ligação euro-americana na qual possam coexistir visões diferentes sobre problemas idênticos. Os socialistas ou sociais-democratas sinceros em solo americano anseiam por inspiração europeia porque as receitas que propõem, com as suas grandezas e misérias, não são tidas por compatíveis com o "Sonho Americano". Da mesma forma, os defensores europeus da economia "à la USA" não são vistos como europeus "autênticos". Isto, para além de imbecil, é vergonhoso.
E a vergonha alastra, qual mancha de óleo, quando se percebe a riqueza da História das Ideias no espeço euro-americano. De cada vez que Huckabee surge com um discurso que combina valores tradicionais com solidariedade e coesão sociais, quase matam o homem e dizem que é da "esquerda religiosa" (ou do "socialismo beato", segundo Henrique Raposo). No fundo, lembra-me Disraeli a falar de duas Inglaterras século e meio antes de Wallerstein falar em "fractura social", ou Bismarck a criar protecção social para trabalhadores fabris. Dificilmente heróis da esquerda, europeia ou americana. Similarmente, Burke, santo padroeiro de imensa direita, era um "whig", e notou-se: durante muito tempo, era rara a causa "avançada" do seu tempo que não contasse com o seu apoio. E, pelo meio de todo o seu liberalismo, escreveu algumas das linhas mais maravilhosamente conservadoras do pensamento ocidental. Onde é que o arrumamos? E aos liberais herdeiros do jacobinismo de outras eras?
Enquanto durar a farsa da identificação da Direita com o capitalismo e da Esquerda com o socialismo, há-de persistir a divisão que refere. Essa divisão é artificial e impede de pensar em condições. Tanto que agora, em Portugal, a pseudo-direitinha que cá temos fica tonta quando um PS lhe rouba o programa económico e quando a crise lhe reduz a pó o que resta desse programa. Sobram as questões civilizacionais, que tocam mais fundo e são mais determinantes, mas aparentam render menos votos...
Desculpe o tamanho disto, mas não se pode ser telegráfico em questões sérias.
Cordialmente,
Fernando Barragão
Isto de se invocar uma alegada "europeização da América" deve ser, como diz o outro, uma questão séria. Porque será então que não páro de me rir?
Enviar um comentário