Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

E se Obama fosse candidato em África?

por Mia Couto, Jornal Savana, Maputo, 14/11/2008

«1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. (...)


4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?). (...)

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.»

6 comentários:

Anónimo disse...

Mia Couto é um dos poucos homens lúcidos da actualidade em África.

E ainda por cima escreve bem.

José disse...

Mas por que é que o Bush é para aqui chamado?
Necessidade de estar "à la page" com o modismo "progre"?

ea disse...

Concordo com o comentário anterior.

O que faz aqui o Bush. devia era ser os Eduardo dos Santos, os Chavez, os Castro de Africa , que são tão amigos dos nossos actuais governantes, e que são recebidos pelos soares e pintos de sousa.

Janaina Amado disse...

Ótimo texto do Mia Couto. No Brasil, Obama também é mulato, temos muitas designações de cores por aqui. Mas creio que, entre nós, seria eleito. Ou pelo menos, gosto de pensar assim. Melhor que tenha sido eleito nos EUA, de onde poderá influenciar mais.
Gostei do site, me diverti um bocado com a îrreverência e a inteligência.

Anónimo disse...

Também achei exagerada a referência ao Bush, mas o texto está lúcido e corajoso.
Paulo Marcelo

Adelino disse...

Para quem vive em África e vai observando o que se passa nos diversos países africanos, é visível que há uma onda de descontentamento e que as coisas começam a mudar, mesmo que lentamente.Pelos ventos que correm pelo continente, atrever-me-ia a dizer, ou melhor a acreditar que num futuro próximo existirão candidatos "Obamas" em África.