Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Palavras há muitas


João Miguel Tavares faz no DN de hoje um elogio a Obama. Distante de Pacheco Pereira e António Barreto (Obama é só paleio), João Miguel Tavares está ao lado de Mario Soares (Obama tem qualidades, designadamente a retórica). Pelo caminho, João Miguel Tavares refere Platão e Aristóteles (encheram pilhas de livros sobre a importância da retórica no espaço público). O que João Miguel Tavares já não diz é que Platão e Aristótles emergiram na Atenas do século V e IV como reacção aos sofistas e o uso da retórica como mera técnica de conquista do poder político. É neste contexto que podemos perguntar, "Quem é Obama?" É evidente que Obama não é um filósofo (e, claro está, não tem de o ser). Mas não é evidente que Obama não seja um sofista dos tempos modernos. Já aqui perguntei em que medida é que Obama não está disposto a tudo para garantir os 51% que o conduzirão à Casa Branca. Por outro lado, importa não esquecer que não basta a um político ter os tais “discursos inspiradores” e a tal capacidade de “arrastar milhões às urnas” de que fala João Miguel Tavares. Pelo contrário, a história mais ou menos recente revela que é destes políticos que nós devemos ter mais cuidado. Por tudo isto, é importante esclarecer o seguinte: a retórica de Obama é um fenómeno novo que supera a empobrecedora gestão técnica da coisa pública? ou é a retórica de Obama uma mera redução da política a uma técnica de conquista do poder?

16 comentários:

Laura Abreu disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Joao Galamba disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Joao Galamba disse...

não me parece que Aristóteles partilhe da crítica à retórica defendida por platão. A 'Retórica' de Aristóteles não é prpriamente uma denúncia, nem é uma forma de sofisma. acho eu

douro disse...

Obviamente, Laura!
O que é que interessa e a quem interessa o que pensa o Màrio Soares? Fora isso, acho divertido este desconforto, esta desconfiança, de alguns face ao Obama, como uma espècie de espertalheza por intuirem que ele não pode ser tão bom como parece. Um post com dùvidas que não se fundamentam em coisa nenhuma é sempre uma boa apòlice para mais tarde se poder vir dizer "eu jà desconfiava, eu bem avisara". Pois eu prefiro enganar-me, simplesmente, sem rede. Pode ser um tiro no escuro, mas, à vista das alternativas, é a ùnica esperança que nos aquece.

douro disse...

Havia uma Laura que se transformou em Galamba. Ele hà coisas...

Anónimo disse...

Nao, nao creio que esse seja o problema de Obama. O problema e por um lado a sua ignorancia, decerto superior a de Bush, o que nao e dizer pouco. tem ideias tao velhas, tao completamente refutadas pelos factos.
Mas tambem o modo como a questao racial torna dificil a critica. Esse e o problema: comecam a surgir problemas com que os nossos sistemas politicos nao sabem lidar. O sistema americano, por exemplo, so funciona num ambiente de ataque visceral, em que apenas o melhor sobrevive. Mas como atacar visceralmente um candidato negro?
E o declinio de uma civilizacao.

Nuno Lobo disse...

1. O lugar da retórica no pensamento de Platão e Aristóteles é uma questão técnica que só interessará aos filósofos; o meu post tenta apontar para o facto da retórica não ser suficiente e, eventualmente, poder conter alguns perigos (se houvesse um Sócrates em cada um de nós, o problema estaria resolvido, mas como não há...)

2. Cada um é livre de escolher o calorífero que quiser, sendo certo que o sol é o que aquece mais.

3. Pois, eu tenho dúvidas em relação ao carácter do homem (o episódio do Reverendo Wright é suficiente para legitimar as minhas dúvidas). Em relação à política da identidade, não poderia estar mais de acordo. A coisa ainda andou "mais ou menos" equilibrada quando a adversária era a Hillary e ela pôde sempre dizer estar a ser vítima de sexismo enquanto ele dizia estar a ser vítima de racismo (vale a pena ler o artigo que o David Brooks escreveu em Janeiro no NYT, com o título Identity Trap); agora, com o homem branco McCain, o debate vai ser muito mais complicado e injusto. Seria bom começar a discussão propriamente política.

Joao Galamba disse...

Nuno,

penso que deixa de ser uma questão meramente académica quando se invocam autoridades para desacreditar algo que não pode ser equiparado a mera sofística. O Nuno tenta esvaziar um discurso, reduzindo-o a uma espécie de técnica de manipulação. Eu acho que a retórica de Obama é poderosa, mas rejeito que ela seja vazia de conteúdo. Se quiser, Aristóteles é importante porque ele valoriza a dimensão comunicatva da retórica. A capacidade de mobilização não é um mero adorno, não é um acrescento dispensável.

Cumprimentos,
Joao Galamba

Nuno Lobo disse...

A autoridade dos filósofos foi introduzida pelo autor da crónica que está na base do meu post. Precisamente por serem autores com autoridade é que eu achei importante acrescentar algo que o autor da crónica tinha negligenciado. Penso que estaremos de acordo em relação a isto: a comunicação e a mobilização são importantes, necessários até, mas não são tudo, não são suficientes. Por outro lado, uma coisa é um discurso num comício, outra bem diferente é um diálogo, um combate retórico, sobre a política. O João Galamba sugere que a retórica de Obama não pode ser comparada a mera sofística. Teríamos de começar a discutir os conteúdos do discurso de Obama para saber se é mesmo assim ou não. Num post anterior que escrevi (O crepúsculo da affirmative action), perguntei em que medida o discurso pósracial de Obama não deveria implicar o fim da affirmative action na América? A haver coerência, penso que sim, que deveria. Estas e outras questões têm de ser respondidas para sabermos em que emdida Obama é ou não um aprendiz dos sofistas. (Agradeço o tom cordial dos seus comentários.)

Anónimo disse...

Caro Nuno,

Não compreendo a sua obsessão com o candidato democrata às eleições nos EUA. Será que existe algum "medo" que ele ganhe e se acabe finalmente com a política miserável, em todos os sentido, praticada pelo actual Bush? É que acho estranho que em tão pouco tempo, e faltando ainda tantos meses para as eleições nos EUA, o Nuno escreva dois posts sobre o assunto. Não haverá outro candidato da sua preferência?

Os melhores cumprimentos,

Bernardo Vieira

Nuno Lobo disse...

O sporting está de férias, a política portuguesa não tem qualquer interesse, pelo que sobram as eleições americanas. Obama é um tema a que voltarei em futuros posts.
Cumprimentos, NL

Anónimo disse...

Cá estaremos para ver. Seria também engraçado o Nuno "postar" sobre o outro candidato.

Cumprimentos,

Bernardo Vieira

Anónimo disse...

Ah quanto vão gostar de Bush os Europeus.É só mais uns anos.

Lucklucky

lukachenko disse...

(Não espanta nada que algumas mensagens tenham sido removidas "pelo autor..." É a tal esperteza saloia)


Em Portugal, notei que o julgamento, o pré-juizo é tão precipitado quanto o próprio conceito. Um defeito...
Obama é quem ele é, e não aquele que desejamos que ele seja, ou aquele que nós achamos que deve ser. He´s what he is!
É notório o incômodo (racial, porque não dizê-lo?), ão só na nossa praça, como em grande parte da maioria "branca" (porque não dizê-lo?) perante o facto de um "negro" (porque não dizê-lo?) poder estar seriamente à caminho do magistério público mais importante do mundo.
Por que não esperar para ver? Porque não dar o tão clássico "benefício da dúvida"? Porque não procurar ler, informar-se sobre as ideias concretas que o senador de Illinois defende?
Quem dera à Europa, num momento em que tanto se lamenta a falta de líderança, ou pelo menos do sentido de liderança, que houvesse alguèm, um político com tal gabarito... Quem dera...
Ficamos sempre à margem, com o olhar crítico, do sempre VELHO DO RESTELO. Tudo isto é triste, tudo isto é FADO!

Nuno Lobo disse...

Lukachenko,

As mensagens foram removidas pelo autor... dos comentários, não por mim. E por aqui me fico, por caridade. (Porque não dizê-lo?)

lukachenko disse...

ironia, meu caro, ironia...