
Para defender Amy Winehouse das críticas ao espectáculo em Chelas, o Daniel Oliveira recorre ao velhíssimo cliché, mais velho do que ele talvez suponha, de que não há génio sem excesso. Os gregos atribuíam o talento em palco à inspiração divina, como a palavra música lembra, e há uma relação histórica entre a origem do teatro e os festivais dionisíacos, que também inspiravam muita fuga à regra não propriamente metafórica. Na Idade Média, a arte era veículo de uma liberdade que se viria a perder no século XVI da Reforma e da Inquisição. Basta pensar nas cantigas de escárnio e maldizer, nas danças e folias do Carnaval, nas paródias da liturgia que constituíam um verdadeiro género literário ou até em inúmeros exemplos da escultura que enchia as igrejas, das gárgulas aos cadeirais (e que o Cocanha mostra com a abundância digna do seu nome).
No entanto, o artista antigo e medieval era um artesão, um profissional competente sem biografia nem assinatura. O Renascimento traz o autor, alguém que não se limita a exercer um ofício, mas o faz com estilo e personalidade. O século XVI é o tempo das vidas de artistas, na expressão fundadora de Vasari. Mesmo que não saibamos muito sobre eles, os pormenores biográficos alimentam lendas que chegaram até hoje. Da Vinci e Miguel Ângelo são casos óbvios, mas Caravaggio, produzindo obras-primas enquanto fugia de cidade em cidade por dívidas e homicídio, vive uma errância que antecipa Van Gogh, Rimbaud, Kerouac e tantos outros on the road.
Os séculos XVIII e XIX consagram o "mito do artista maldito", como lhe chamou Eliade, tão caro ao Romantismo. O artista já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade. A sua autodestruição é o preço por nos dar mundos novos e interditos. O fogo do génio queima aqueles que se revoltam contra a condição de mortais. A única verdadeira inovação do século XX é o crescimento do mercado da imortalidade, com os media e a cultura de massas. O Big Brother, que faz da mais literal vulgaridade um objecto de contemplação, representa bem o nosso tempo.
Em suma, os excessos da menina Winehouse são mais convencionais do que todos gostaríamos. Fazem parte do contrato. Não vale a pena invocar genialidades e outras teologias. Quando Amy cai em palco, vêem-na milhões de pessoas, mas ninguém tem o mais leve tremor de espanto. Quando Adão caiu no paraíso, ninguém viu - mas o próprio Deus teve que vir cá abaixo restaurar a Criação.


14 comentários:
Pedro,
Óptimo post. Só não concordo com: "O artista já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade". Nem todos as visões da arte pós romântica são necessáriamente subjectivistas, não concorda?
Concordo, claro. Suponho que esteja a pensar nas visões politizadas, como os vários tipos de arte comprometida, o nacionalismo, o surrealismo, o realismo soviético, o neo-realismo, o futurismo (tão ligado ao fascismo), etc. Mas é justamente nesses casos que o artista mais é um intérprete do progresso da Humanidade e um Prometeu moderno. O progresso é o partido e o fogo sagrado é a causa ao serviço da qual se coloca o artista.
não esqueça que a reforma tambem teve a sua própria inquisição.
calvino mandou queimar vivo o seu companheiro Miguel Servet
Não esqueço. E sugeri-o. Mas não percebo o que é que isso tem a ver com o resto.
calvino está por toda a parte
e o seu companheiro também
E eu não estou a ver em que é que o surrealismo não será subjectivista...
André Breton e o seu apoio ao comunismo, por exemplo.
E Calvino?
Pedro,
também há tomadas de posição à direita, ou não? ts eliot, pound,...
Todos sabemos do empenhamento de Breton e seus pares. Sabemos que ekes tinham uma revista chamada "Le surréalisme au service de la Revolucion". Mas nada disso transforma o surrealismo em "arte comprometida". Há que não confundir os discursos "em torno de" (por muito fundadores que tenham sido) com a coisa em si...
Ha haver arte puramente subjectivista no século XX, será por certo o surrealismo.
O Calvino o quê? Também era comuna?
João, não estou a ilibar nem a acusar ninguém. Limito-me a verficar apenas que o surrealismo tinha um compromisso político. Aliás óbvio.
Luís, essa questão é muito interessante. Se tiver tempo, ainda escrevo um post sobre isso. Para já, deixo o essencial da minha tese: defender uma arte puramente subjectivista, como diz (vamos admitir que é isso), também é uma forma de compromisso político porque é uma tentativa de romper com a tradição, com o cânone, com a sociedade burguesa (cá está a burguesia), ou seja, de fazer a revolução na arte como o comunismo a queria fazer na política. A bandeira do subjectivismo estava realmente "ao serviço da revolução".
Excelente texto, Pedro
bisou
Por acaso, pelo menos no que toca ao surrealismo, não concordo de todo. Acho que havia sim uma forte dissonância entre as posições políticas dos elementos-chave do movimento e a herança Dadá por um lado, e o que foi realmente a praxis artística surrealista...
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