Segunda-feira, Maio 19, 2008

Sob a calçada, o deserto (II)



Continuo a transcrever a peculiar visão de Raymond Aron sobre o Maio de 68 francês, sempre a partir d`O Espectador Comprometido, a extensa entrevista a Dominique Wolton e Jean-Louis Missika.

"R.A.- Aqueles estudantes estavam em vias de destruir a Universidade antiga sem que construíssem outra. Ao mesmo tempo, eles tentavam lançar o caos na economia francesa, que estava reconstruída havia uma geração. Reencontravam-se nos acontecimentos de Maio de 68 recordações das jornadas revolucionárias do século XIX. Mais uma vez, tinha-se a impressão de que os franceses eram incapazes de fazer reformas e capazes ao mesmo tempo de fazer uma revolução. (...)
D.W. - O que é que o chocou mais? A revolta dos estudantes? A atitude dos professores? As greves e a crise social? Ou a deliquescência do Estado?
R.A. - A deliquescência do Estado impressionou-me, exageradamente talvez. A ideia de que um Estado que se apresentava de uma forma decente, respeitável, desse a impressão de se desmoronar com golpes tão fracos, era desencorajante. A França estava de tal modo centralizada e, no regime gaullista, tudo estava de tal forma concentrado na pessoa do general De Gaulle que se, por razões acidentais, a sua autoridade fosse atingida, tudo seria posto em causa. Era ridículo que os tumultos de estudantes na primeira semana fossem tratados por De Gaulle no Conselho de Ministros."
(cont.)

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