Num livro que já fez a sua época, Clinton Rossiter escrevia que "nenhum sacríficio é demasiado grande para salvaguardar a nossa democracia, muito menos o sacrifício temporário da própria democracia". Por razões que agora não vêm ao caso, em termos históricos a direita esteve mais disposta a alinhar por este aforismo do que a esquerda. À esquerda, estas palavras só podem despertar horror. E, convenhamos, há razões para isso. Mas quando o problema em mãos é a fiscalidade assistimos a uma consciente ou inconsciente troca de posições. Se é preciso dinheiro para financiar o Estado, sejam quais forem os serviços prestados e a sua utilidade, estamos dispostos a tudo, incluindo a sacrificar os direitos democráticos dos cidadãos. Em particular, se a situação for de "emergência". Infelizmente, a nossa direita e a nossa esquerda estão de acordo quanto a isto. A presunção da inocência do contribuinte caiu às mãos da primeira, mas com o aplauso secreto da segunda.
Ainda estamos para ver as tropelias e os atentados à democracia e ao Estado de Direito que irão ser feitas para responder ao colapso (que se diz iminente) da segurança social. Perante essa emergência financeira estaremos dispostos a (quase) tudo. E desconfio que a esquerda não prescindirá de estar nessa vanguarda. Com um argumento que será em tudo semelhante ao de Rossiter.
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