Ontem, passou-se mais um aniversário da morte de Ian Curtis. Passado o dia de luto, é apropriado publicar aqui alguns excertos de um texto memorável de Miguel Esteves Cardoso de 1981 (na verdade, a ideia foi do FCG, e foi ele que me mostrou o texto, que eu, de resto, desconhecia, mas apetece-me ficar com os louros). O texto acaba assim:
"Nada estranha que, ao fazer-se o balanço do que foram os primeiros anos da década de 80, se faça apenas o balanço dos Joy Division. De facto, à parte outras incidências marginais de inovação, são eles que contam e contêm o destino da música".
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O texto propriamente dito consiste em pequenos comentários a algumas das músicas mais representativas dos Joy Division - duas das quais foram aqui recordadas nesta série dos Loucos Anos 80, "Ceremony" e "Love will Tear Us Apart". Sobre a banda, MEC escreve:
"Joy Division é só um lugar da música. Onde não há mais ninguém e é terrível viajar de passagem, é geral ficar e não poder fugir. Joy Division é só os escombros de uma paisagem, todas as nenhumas tonalidades do negro fixo, a sorte, e a parte branquíssima da solidão. Onde não há mais ninguém e o animal, permanentemente ferido, acho o seu uivo final. Joy Divison é apenas um problema que se pôs à música. E se é trágico que não tenha solução, é certamente belo conhecê-lo inteiramente. E dizê-lo.
Que são esses pedaços e cacos que trazem na palma da mão como se fossem sementes para plantar, bagos para comer?"
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Sobre "Dead Souls", MEC diz:
"Tragos os sonhos usados e gastos à boca da alma, onde derramam e corroem sem jamais se perderem, fechados na prisão tonta do corpo. Alguém os leve para outros; lugares, outros, homens, outros.
O transporte é certo de mão em mão, quando eles se contam, quase sempre depois do sexo e da tarde, quando eles se cantam. Levá-los sem que me levem com eles, na bonita esperança de que de mim não façam a mínima parte. Ficaria com a alma, não intacta, mas ainda inteira, quase pronta para o que lhe restasse, preparada como se fosse nova, menina demasiado envelhecida, velha com uma saia de rapariga, a sorrir como se a sua vida fosse continuar.
Ficaria com outra alma que não a minha. E a tua."
Aqui fica o video de uma versão ao vivo de "Dead Souls"
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