Terça-feira, Maio 20, 2008

Náusea

Poucas pessoas terão tido estômago para assistir a toda a entrevista que Luis Filipe Menezes deu há minutos a Constança Cunha e Sá. Sim, é uma questão de estômago, que é um orgão mais resistente do que o cérebro.
Fiquei mal disposto. Mesmo fisicamente.
O verdadeiro Menezes era o desta entrevista. Não aquela coisa mole que se arrastava tristemente por restaurantes e barbeiros na reportagem "do lado humano" da Sic em Gaia. Ele agora está mais solto. E revela-se.
Aquilo a que se assistiu agora foi uma coisa miserável. O homem não se controlava em contradizer-se descaradamente. Inacreditável.
Parecia destilar ressentimento (quase ódio?) por todos os poros. De todas as vezes que se referia a Pacheco Pereira, a Manuela Ferreira Leite, a Marcelo Rebelo de Sousa, fê-lo num registo, num tom de ressentimento pessoal.
Lá voltou o queixume do "símbolo ao contrário" (dito por ele que ia virando, não o símbolo, mas o próprio Partido). "O dr. Pacheco Pereira", que "ganha a vida" (esta expressãozinha deliciosa do ganhar a vida...) a atacar o Partido e os "sucessivos líderes". É pago para isso, portanto. Embriagado de fel, prosseguiu que o terríbil Pacheco até "derrubou Cavaco Silva" [sic!] E depois, espumando, diante duma Constança estupefacta, o homem deu um toquezinho lumpen à injúria: "ou acha que é a vender livros sobre o dr. Cunhal que o dr. Pacheco Pereira ganha a vida?" Lindo, não é? Está aqui muita coisa: o desprezo bronco (sempre popular) pelo "intelectual" que sabe ler e escrever livros e, ainda por cima, vejam só, livros "sobre o dr. Cunhal" e coisas assim esquisitas. "As bases querem-no, ao tal "dr. Pacheco Pereira", fora do Partido", disse Menezes sem parar quieto na cadeira. Logo que a jornalista lhe perguntou se ele podia "falar pelo sentimento das bases", respondeu, atónito com a perplexidade dela, que sim, que por enquanto ainda podia. Então não podia? Elucidativo.
Tudo isto sempre numa sofreguidão do disparate que não me lembro de ter visto em algum político. Nem muitos ditadores do terceiro mundo conseguem ser tão criativos.
Afirmou a sua "equidistância" relativamente aos três candidatos ao Partido. Insultando-nos a todos, teimou na afirmação da sua "equidistância".
Ele é, de facto, uma pessoa invulgar. Recebe Santana e Passos Coelho, diz não querer receber Ferreira Leite, e chama-lhe "a pior ministra das Finanças dos últimos trinta anos", uma "má ministra das Finanças e uma péssima ministra da Educação". Nesta mesma entrevista fala dela com rancor e chega a compará-la desfavoravelmente a José Sócrates! Equidistância, portanto. Heroicamente afirmada. Nas nossas barbas.
Constança tenta mostrar-lhe a contradição e veio então a pérola da noite em aforismo:
"A equidistância tem o limite do carácter."

É verdade.

5 comentários:

Anónimo disse...

Mas acaba de escrever um post cheio de ressentimento contra o ressentimento. Comedia involuntaria?

João Pedro disse...

Anónimo:

Não senti ressentimento no artigo do Carlos Botelho. Apenas surpresa, e talvez pena ao ouvir uma entrevista que revela toda a instabilidade emocional e falta de honestidade política do Dr. Menezes

cmarisa disse...

Que querias Carlos? O homem não tem mesmo dimensão política.

"Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré".
in Sábado (21 de Maio)

Áurea disse...

"Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré".
Interessantíssima e brilhante esta dedução/comparação! :))))

Assentador disse...

Carácter e Pacheco Pereira no mesmo texto não me parece coerente! O Dr. PP devia por uma vez passar da teoria à prática e seguir o caminho do Dr.Judice que pelo menos teve a coerência de abandonar o partido uma vez que não se revia nele!