Terça-feira, Maio 20, 2008

Não é por nada, mas até os gays deviam ter algum sentido da realidade



O Supremo Tribunal da Califórnia, depois da batalha de recursos que acompanha sempre estas coisas por terras do Tio Sam, declarou a constitucionalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E logo Andrew Sullivan, a mais famosa improbabilidade da blogosfera americana (gay, católico e republicano) veio saudar a memória de Lincoln, fazendo um paralelo implícito entre o fim da escravatura e o movimento pelos "direitos dos homossexuais".
É por estas e por outras que não consigo levar a sério o orgulho gay.
Convém lembrar que a América, há apenas meio século e não no tempo de Lincoln, tinha escolas separadas para brancos e negros, lugares reservados nos autocarros segundo a cor da pele, casas-de-banho públicas diferentes para raças diferentes e até uma organização bastante popular em certas regiões, o Ku Klux Klan, que se dedicava com zelo e regularidade ao velho exercício da "caça ao preto".
Comparar o racismo com a suposta homofobia do casamento heterossexual é um pouco insultuoso para todos os que, mesmo depois da conquista dos direitos civis, eram obrigados a ir para as aulas sob escolta da polícia.
Quando forem alvo de verdadeira violência, como parece que aconteceu o ano passado ali para os lados de Viseu, os gays vão comparar-se com quem?
Com os tibetanos?

24 comentários:

Carlos Botelho disse...

Pois, Pedro... Andam por aí algumas (bastantes) pessoas um bocadinho confusas... Piedosas, mas confusas.

Jacinto disse...

Deviam tentar afirmar os seus "direitos" na Santa Rússia...
Isso sim,isso é que era um "orgulho"corajoso...

Nuno Evangelista disse...

Tenho por hábito ler este blog, porém é a primeira vez que o comento.
Começo por uma declaração de princípio: Sou homossexual. Não se espere, portanto, imparcialidade nas palavras que a seguir escreverei.
A discriminação (tanto a negativa como a positiva, mas isso é outra conversa) tende a colocar em causa o bem-estar social de cidadãos, limitando-lhes direitos que outros interpretam como adquiridos. O casamento é disso exemplo. Tenho para mim que o casamento é a institucionalização de uma relação humana, apresentando-a perante o Estado obtendo daí determinados deveres e regalias. O não permitir esta possibilidade a qualquer cidadão, de forma responsável e idêntica, não é mais do que a diferenciação baseada em critérios subjectivos, nascidos de ideologias/crenças/valores vários, tal como, em tempos e no nosso tempo, o é fazer baseado na tonalidade cutânea de alguém.
“Quando apanharem a sério, como parece que aconteceu o ano passado ali para Viseu, os gays vão comparar-se com quem?” – De forma calma e ponderada, lhe digo que a construção frásica é ofensiva. Entenderei a sua existência por desconhecimento próprio, esperando que assim se mantenha. Sentir na pele, literalmente, o peso da diferenciação, acarreta também uma carga psicológica só compreensível por quem sentiu a culpabilização por algo involuntário. A homossexualidade, tal como ser branco ou preto, não é uma decisão, é uma característica como tantas outras que me definem e me acompanham. Desta forma, inevitavelmente, e dentro de determinados limites, creio ser compreensível a aproximação entre formas de discriminação.
Refere-se, no seu texto, a situações concretas de diferenciação entre raças, dando a entender (salvo erro meu) que essas sim eram formas de discriminação menosprezando, de certa forma, a discriminação de homossexuais. Se é certo que me é permitido partilhar o meu espaço com heterossexuais, não esqueçamos a alteração de valores necessária para que se termine com a discriminação psicológica existente em tratamentos sociais e inter-pessoais diferenciadores (tal como acontece entre raças, bem sei, mas que por existirem não se entendam como correctos).
Termino, distanciando-me de manifestações exageradas de orgulho, por considerar que não é assim que se conseguirá alterações que se desejam de equiparação entre cidadãos. Porém, é também aconselhável que se faça um esforço por uma análise da substância dessas manifestações exageradas, por forma a compreender que existem bases concretas e credíveis que a sustentam.

Anónimo disse...

A mim o que me desagrada e irrita e este habito de escolher uma opiniao disparata para criticar em tom acerbico: a resposta a um disparate e para mim tao disparatada como o disparate original e mostra a incapacidade de dizer algo inteligente ou ate de se interessar por algo importante.

João disse...

Desse ponto de vista até essa discriminação social de que fala, não tem valor algum, quando comparada com o que sofriam há 100 anos atrás, tratados à chicotada. Acharia correcto dizer à comunidade negra há 50anos que tinham muita sorte, 'porque antigamente é que era'. Tenha dó. Já que é assim, e já que vê os homossexuais como um grupo, também sofreram as consequências do holocausto há 60 anos atrás. Chega?

IIMPRESSÕES DE FIM DE VIAGEM disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
lukachenko disse...

O Pedro certamente concordará que todo e qualquer discriminação é um insulto ao espírito democrático, e ao facto de nunca, ou raramente as lutas contra todo e qualquer atitude discriminatória não são homogêneas. Umas são rápidas e (as vezes eficazes), outras, nem por isso - só em lume brando, como o cozer do arroz...

João disse...

E que eu saiba a malta do KKK defrontados com uma presumível bichona não eram propriamente amistosos... digo eu. Falhou qualquer coisa na sua análise. Se calhar é o facto de não levar a sério o orgulho gay e ver essa manifestação como orgulho em ser gay.

Aramis disse...

Tal construção ideológica, e refiro-me a ideias e não a ideologias, "Quando apanharem a sério, como parece que aconteceu o ano passado ali para Viseu, os gays vão comparar-se com quem?", a simples hipótese criada de que tal situação possa acontecer e o modo como é textualizada, num tom tão discorrente, provoca-me uma aversão profunda. Trata-se de uma retórica hedionda que fere a susceptibilidade humana. Sou gay, sou humano... Sim, a minha susceptibilidade está em questão!

Pedro Picoito disse...

Nuno Evangelista, João e Aramis, deixo aqui uma resposta rápida, reservando para mais tarde o comentário ou o post mais longo que se impõe.
Obviamente que estou em total desacordo com o que o KKK faria aos homossexuais ou com o que os aspirantes a KKK de Viseu fizeram (embora sejam duas coisas diferente, convenhamos). A simples sugestão de que possa concordar com esses actos pode dar muito jeito no debate, e confesso que já estou habituado, mas não é um argumento. Não é porque esse tipo de discriminação não tem nada nada a ver com o casamento. Em todo o caso, e para não ofender ninguém, vou reformular a frase. A discriminação é sempre condenável, seja qual for o motivo. Mas o racismo é um tratamento desigual e injusto a uma condição que não se escolhe, a cor da pele, enquanto o casamento heterossexual é um contrato entre duas pessoas cuja condição é uma escolha (ser heterossexual) porque o contrato em si é discriminatório (só posso casar com esta pessoa, só posso casar com uma pessoa de cada vez, não posso casar com menores, não poso casar com parentes consanguíneos, não posso casar com o meu animal de estimação). O casamento é por definição excluente, o direito ao ensino público, por exemplo, é universal. É esta a grande diferença. Nuno Evangelista refere-se a discriminação subjectiva ou psicológica (corrija-me se o estiver a ler mal) e Aramis a susceptibilidade. O que quis dizer foi que os negros passaram por bastante mais do que por uma discriminação psicológica ou susceptibilidade ferida. É este o ponto fundamental do post e os vossos comentários, por muito que eu os compreenda e entenda legítimos, confirmam a razão por que o escrevi.

Anónimo disse...

Caro Nuno Evangelista,

Simpatizo com o tom cordial do seu comentário e com algumas coisas que escreve. No entanto, discordo de si quando afirma que "o casamento é a institucionalização de uma relação humana". Não é, nunca foi. É o instituto que une duas pessoas de sexo diferente, que se amam, que planeiam ter filhos e viver familiarmente. Em relação às tais "manifestações exageradas", também não acredito nessa sua ideia de que "existem bases concretas e credíveis que as sustentam". Não me parece. Sabendo que estou a generalizar, diria que se tratam de manifestações naturais de quem tem uma natureza "desnaturada". Sou da opinião de que se devem arranjar formas de incluir todas as pessoas num mundo que é de todos, mas não o devemos fazer a qualquer preço. Assumir aquilo que somos também passa por assumir as nossas diferenças, caso contrário não estamos a ssumir nada.

Miguel Maria

João disse...

Pedro,

tocou no ponto fundamental, o casamento é um acto discriminatório por natureza, nasceu da vontade de duas pessoas se unirem para a vida. Ou seja, o casamento não nasceu como um contrato abstracto onde são estipuladas claramente as discriminações que dele advêm. Como tal, para mim não faz sentido que justifique a discriminação do casamento homossexual com base em discriminações abstractas, criadas à posteriori para definir 'casamento'. Porquê? Porque não existe pressão social para que se considerem válidas as uniões incestuosas e poligâmicas que tantas vezes se referem. O casamento é visto hoje em dia, por alguns, como um contrato sacrosanto, proventura de origens divinas e como tal inviolável. Ora isto faz algum sentido? Se existe actualmente uma enorme pressão social para que se realizem casamentos homossexuais, faz sentido negar essa vontade com base em discriminações abstractas, que não têm tradução social na realidade?
Ou será que, no fundo se trata de uma questão de nomenclatura, de forma a conservar o 'casamento' nessa condição inviolável? A denominação de união civil para casamentos homossexuais seria mais aceitável na conservação dessa condição?

Quanto à discriminação, olhe bem para o título do post. Pegou na opinião de UM gay e extrapolou a sua análise para todo o grupo(?). Costuma fazer-se isso quando essa pessoa tem uma cor de pele diferente.
Mas ainda assim, concordo que as comparações deste tipo não fazem sentido. Os homossexuais não sofreram uma discriminação social activa pelo simples facto de que a cor da pele não se consegue esconder como a homossexualidade. Ainda assim não quer dizer que o sofrimento não esteja presente. Porque está.

Cumprimentos

Nuno Evangelista disse...

Caro Pedro Picoito, já que se refere a um futuro comentário/post mais aprofundado, permita-me que lhe garanta, desde já, a minha leitura atenta.
Porém, alguns comentários ao seu comentário. Não utilizei como argumento uma possível simpatia sua pela violência que refere. Referi, e repito, que considero ofensivas as suas duas últimas frases, tendo já apresentado a devida justificação. Portanto, escusemo-nos a essas referências, e prossigamos a discussão que se pretende de ideias e não pessoal. Dito isto, concordo consigo quanto à natureza discriminatória do casamento nos pontos em que refere, e noutros que, provavelmente, existirão. Porém, e esperando obter uma resposta sua, lhe pergunto qual o motivo de incluir como limitação do casamento a existência de sexos diferentes?
Quanto à sua afirmação: “O que quis dizer foi que os negros passaram por bastante mais do que por uma discriminação psicológica ou susceptibilidade ferida.”, creio que uma outra citação sua responde: “Quando forem alvo de verdadeira violência, como parece que aconteceu o ano passado ali para os lados de Viseu, os gays vão comparar-se com quem?” Respeitem-se as devidas proporções, tenha-se em conta as diferenças de número (não querendo reduzir vítimas a números), mas creio que respondeu a si próprio: a violência existe.

Caro Miguel Maria. “Assumir aquilo que somos também passa por assumir as nossas diferenças, caso contrário não estamos a ssumir nada.” Concordo e subscrevo.
Digo-lhe sem ironia ou sarcasmo que não percebi a expressão “natureza ‘desnaturada’”.

Termino com uma referência ao segundo texto do João. “A denominação de união civil para casamentos homossexuais seria mais aceitável na conservação dessa condição?”. Remeto para o seguinte texto de Fernanda Câncio http://5dias.net/2008/05/16/o-que-ha-num-nome

Anónimo disse...

bem a propósito do assunto em debate: http://www.boreme.com/boreme/funny-2006/gayusa03-p1.php

Fernando Martins disse...

Com base em quê se pode afirmar que "existe actualmente uma enorme pressão social para que se realizem casamentos homossexuais"?

João disse...

FA,

obviamente com base apenas e só na minha percepção.

Luis M. Jorge disse...

Pedro, você agarra-se a estas causas perdidas como a Hillary Clinton aos brancos de Kentucky — nunca desiste.

Quanto ao aborto ainda o entendia: estava em causa a "vida" do feto, e tal.

Mas agora, qual é o problema de alargar um casamento civil? Perdem-se os resquícios de uma sacralidade que nunca teve? Ofende-se nosso senhor por paralelismo?

Ou o problema reside apenas na observação melancólica de um continente que se despede, um a um, dos seus valores, dogmas e preconceitos penosamente elaborados por dúzia de concílios em dois mil anos de cristandade?

Que existam cortejos de grunhos na Guarda a bradar contra os paneleiros é uma coisa. Não tente encontrar para eles uma legitimação racional.

Anónimo disse...

"existe actualmente uma enorme pressão social para que se realizem casamentos homossexuais"?

Não se importa de explicar melhor, Pedro? Eu acho que confunde o país, com meia dúzia de blogs e meia dúzia de politicos excêntricos. Onde é que está a enorme pressão social, afinal? Devemos viver em paises diferentes. É que no país em que vivo, um casamento entre homossexuais, só clandestinamente, salvo um ou outro pequeno enclave em Lisboa... e como é no país em que o Pedro vive?

Adérito

Anónimo disse...

Enganei-me no nome: o destinatário do meu comentário é João, e não Pedro.

Adérito

Pedro Picoito disse...

Caro Luís, esta não é uma causa perdida, como o aborto não era. As minhas "vitórias" não se medem assim. Mas, mesmo que seja, prometo que não vou agarrar-me aos brancos do Kentucky.

Anónimo disse...

Caro Pedro:
Só uma achega técnica: o casamento é um contrato entre pessoas de sexo diferente. Sempre foi assim (nao foi a religião Católica, ou Judia, ou Muçulmana que o criou)por ser um instituto natural, que teve origem com a origem do Homem.
Se duas pessoas do mesmo sexo querem ter um contrato, podem ter, mas isso não será casamento, sendo antes outra coisa.
Já agora, por rigor técnico: não há qualquer discriminação com base na opção sexual com a actual lei. De facto, eu não sou homossexual e, mesmo que quisesse casar com uma pessoa do mesmo sexo, não op podia fazer. Ou seja, o que a lei declara é que para haver casamento as pessoas têm que ser de sexo diferente. A lei não pergunta a ninguém a sua opção sexual. Por isso, se dois heterossexuais do mesmo sexo quiserem casar, a lei também não deixa, apesar de serem heterossexuais. Não deixa porque a noção de casamento implica pessoas de sexo diferente.
Nem os homossexuais nem os heterossexuais podem casar com uma pessoa do mesmo sexo, podendo qualquer deles casar com uma pessoa de sexo diferente.
Isto é tanto mais assim quanto sabemos que muitas das pessoas que se declaram homossexuais estão apenas num "momento" homossexual, tendo tido anteriores relacionamentos heteossexuais. Por exmplo, das conhecidas lésbicas portuguesas que recorreram até ao Tribunal Constitucional para poderem casar 8nõ me lembro do nome delas), uma delas já tinha um filha, fruto de um casamento anterior. Ou seja, ela pôde casar....
Cumprimentos
Luís G.

Luis M. Jorge disse...

Veja lá é se não cai nos braços protectores de um negão com falinhas mansas e promessas fáceis — isto sem sairmos do contexto altamente respeitável das eleições americanas, como é óbvio. Depois de toda essa conversa sobre o flagelo do racismo, seria muito engraçado vê-lo ao lado do Obama.

JÚLIO SILVA CUNHA disse...

"Convém lembrar que a América, há apenas meio século e não no tempo de Lincoln, tinha escolas separadas para brancos e negros..."

Acredito que queria dizer; "em certos estados da america"!!!

Nao se esqueca que na semana passada a america celebrou o facto de um branco (o primeiro) ter-se formado pela mais prestigiada universidade "negra" americana!!!

João disse...

"Não se importa de explicar melhor, Pedro? Eu acho que confunde o país, com meia dúzia de blogs e meia dúzia de politicos excêntricos. Onde é que está a enorme pressão social, afinal? Devemos viver em paises diferentes. É que no país em que vivo, um casamento entre homossexuais, só clandestinamente, salvo um ou outro pequeno enclave em Lisboa... e como é no país em que o Pedro vive?"

Tem razão, no país em que vivo as pessoas dizem-me na cara que a minha cura é gasolina em cima com um fosforo atras. :) Se vê o que eu chamo de pressão social como o número de pessoas que aprovam algo, então vamos a isso, peguem na garrafinha de gasolina.