Segunda-feira, Maio 19, 2008

Manuela cravo e canela

O Diário de Notícias publicou ontem um texto meu de apoio a Manuela Ferreira Leite, à semelhança de outros favoráveis aos restantes candidatos. Devido à falta de espaço, o que escrevi saiu com alguns cortes de pormenor. Aqui fica o original.

Quando votarem nas directas de 31 de Maio, os militantes do PSD arriscam-se a escolher o próximo Primeiro-Ministro de Portugal. Espero que seja Manuela Ferreira Leite. Segundo as estatísticas e os opinadores, eu devia ser a última pessoa a esperar tal coisa. Desconfio da social-democracia, pertenço à famosa “geração rasca”, andei em manifs contra o cavaquismo, sei pouco de finanças e tenho uma biblioteca (mas nunca inalei). Tudo me afastaria de Manuela Ferreira Leite, essa tecnocrata do passado. O que é que me leva a cometer o voto na senhora, correndo o risco de ser expulso da minha geração?
Um sentimento pouco nobre e muito simples: o medo de que o partido no qual sempre votei, o PSD, morra de irrelevância. Nos consulados de Pedro Santana Lopes e Luís Filipe Menezes, o PSD entrou num ciclo de esquizofrenia política que o fez perder o contacto não só com o país, mas com a própria realidade. O resultado foi a maioria absoluta do PS, oferecida de bandeja pela incubadora, e a inexistência de oposição com Menezes, que prometeu descer impostos e não descer impostos, desmantelar o Estado em seis meses e não fechar serviços públicos, assinar pactos com o Governo para as obras públicas e rasgar pactos com o Governo para a justiça, tudo e o seu contrário, ao sabor do vento, dos astros e dos soundbites do Dr. Cunha Vaz. Além das tiradas baixinhas, muito baixinhas, sobre os colos de Sócrates, que com Santana eram uns e com Menezes eram outros.
Dir-me-ão que esta ausência de vida (de vida inteligente, pelo menos) acontece sempre que se está longe do governo. Mas isto não é apenas uma travessia do deserto. Isto é o deserto. A ameaça que paira sobre o PSD em 2009 não é ganhar ou perder as eleições, mas ganhar ou perder a vergonha que lhe resta. Não é o regresso ao poder que está em causa, mas a razão de ser do partido. Se o PSD não serve para fazer oposição, também não serve para governar. E, sem o PSD, não há verdadeira alternativa ao PS, o que quer dizer uma nova vitória de Sócrates.
Dos candidatos às directas do PSD, só um pode impedir esse triste fado: Manuela Ferreira Leite. Só ela tem experiência e peso para ganhar a guerra. Santana Lopes foi derrotado pelo actual Primeiro-Ministro, por muitos, e Passos Coelho é o herdeiro oficial do menezismo. Está tudo dito. O país precisa da seriedade de Manuela Ferreira Leite porque, depois das falsas promessas de Sócrates, a única coisa que pede hoje a um político é que seja sério. Com as suas promessas e com os nossos impostos. Não quer piedosas intenções de “esperança” ou de “mudança”. Isso fica para cada um de nós. Quer alguém que saiba o suficiente da vida real para confiar mais nas pessoas, nas famílias, nas empresas, na sociedade civil do que em meia dúzia de fórmulas produzidas nos gabinetes de marketing ou nos jantares do aparelho.
Com Manuela Ferreira Leite, não teremos rosas. Teremos cravo e canela: o sabor amargo da luta e o sabor doce da vitória. Até 2009 e em 2009.

4 comentários:

Francisco disse...

Brilhante! Parabéns.

Anónimo disse...

Sobre a grande imprensa, hoje completamente "rosa" e ao serviço do PS ( veja-se a inacreditável manchete do Público de há dois dias a desvalorizar o desemprego dizenso que tinha descido por causa das "pessoas inativas")nem uma linha...


Enfim, como diz o comentador acima, brilhante,isto não me admira, exceptuando o Dr. AJJardim, os tótós (estou a generalizar, mas a ser, infelizmente, objectivo) dos opinadores-makers do PSD de hoje continuam a não querer perceber o fundamental tabuleiro mediático em que se desenrola a política dos dias de hoje...

Com os melhores cumpts.,
Carlos I.

Pedro Picoito disse...

Desculpe?

Carlos Botelho disse...

Muito bom, Pedro!