Quarta-feira, Maio 14, 2008

Sob a calçada, o deserto (I)

Ando há tempos para postar umas notas sobre a memória do Maio de 68, essa jornada épica rumo à felicidade e tal, mas decidi-me por uma coisa mais simples. O que se passou foi há muito descrito por Raymond Aron, testemunha privilegiada e menos hagiográfica do que os saudosistas de serviço. Aron publicou um livrinho-entrevista, La Révolution Introuvable, poucos meses depois dos acontecimentos. Voltaria a analisá-los numa conferência em Israel em Fevereiro de 69, editada em Junho desse ano na Political Science Quarterly, e em Le Spectateur Engagé, outro livro-entrevista saído em França em 81 e entre nós dois anos depois, com o título O Espectador Comprometido.
Aqui no Cachimbo, vou transcrever alguns excertos desta última obra, na tradução portuguesa da Moraes. O vivíssimo diálogo (até se ouvem as cadeiras a voar) com os soixante-huitards Jean-Louis Missika e Dominique Wolton, estudantes universitários à data, é a melhor introdução que conheço ao tema. E mostra, ao mesmo tempo, como a atitude perante 68 dividiu profundamente a França entre direita e esquerda nas décadas seguintes, tanto como a escolha entre capitalismo e socialismo - de que era, aliás, um reflexo. Até hoje. Não foi Sarkozy quem prometeu acabar com "o espírito de 68"?
"DW- Em Maio de 68, apareceu como porta-voz da maioria silenciosa. (...)
JLM- Era um conservador?
RA- Se isso vos dá prazer... De facto, era muito hostil à organização da Universidade, tal como ela era. Mas não era partidário da sua destruição, tal como vocês tinham vontade de fazer. (...) A agregação não era mais que uma questão entre todas aquelas que eram discutidas. Em Maio de 68 houve o quê? Uma semana de tumultos de estudantes. Depois duas semanas de greves que se alargaram progressivamente a quase toda a França e que paralisaram a vida económica do país. Houve uma semana de crise política, em que quase se pensou que o regime podia desmoronar-se sob os golpes de Cohn-Bendit. Nesse dia, na última semana, fui gaullista.
DW- Ah! Finalmente!
RA- E quando ouvi o discurso do General De Gaulle na rádio, a 30 de Maio, fiquei convencido de que o assunto estava resolvido. Ouvia em minha casa com amigos e gritei: Viva De Gaulle! (...) Eu achava inteiramente indigno que bandos de garotos derrubassem o governo, o regime e a França política."
(cont.)

2 comentários:

Casca de Carvalho disse...

A lucidez de Aron.

José Ramos disse...

De Gaulle é um grade filho da puta, é o que é. Desculpe, Pedro, não resisti. Tenho o Raymond Aron quase na melhor das contas. Nisto e não só, prefiro de longe Sartre, apesar de...

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou