Segunda-feira, Maio 19, 2008

Liberalismo ou conservadorismo?

O liberalismo e o conservadorismo apresentam contornos distintos quando olhados sob a perspectiva da política, da economia, da religião e da ciência. Daqui resulta que as pessoas podem ter um pensamento liberal em alguns assuntos (p. ex., a defesa do mercado livre) e conservador noutros (p. ex., a penalização do aborto). Mais ainda, não é difícil encontrar pessoas com um pensamento simultaneamente liberal e conservador sobre um mesmo assunto (p. ex., a legalização do casamento homossexual como incentivo à estabilidade das relações entre pessoas do mesmo sexo). Isto acontece porque a vida humana é acompanhada de contradições irredutíveis a chavões ideológicos. De qualquer modo, um chavão é uma chave que abre muitas portas e nos pode ajudar a ver com maior clareza alguns problemas.

A ideia de liberalismo radica no início do século XVI e evoluiu a par do projecto revolucionário a que habitualmente damos o nome de modernidade. A palavra "liberal" foi cunhada no início do século XIX para reunir os partidários das revoluções liberais em curso, contra as quais se insurgiam os conservadores partidários da restauração do antigo regime. O projecto revolucionário moderno amadureceu e atingiu a sua expressão política máxima no século XX com as revoluções totalitárias. Postos perante os limites do projecto revolucionário moderno, e face à ausência de instrumentos teóricos capazes de perceber a natureza daquilo que o Miguel Morgado aqui resumiu como uma "tempestade de sangue e aço", tornou-se menos evidente a oposição entre liberais e conservadores. É o período em que os conservadores se diziam "amigos do liberalismo" e denotavam algum interesse pela leitura de Burke e Tocqueville. Mas é também o período em que os liberais se confrontaram com a obrigação de retornar à metafísica clássica e cristã que o seu projecto revolucionário moderno quis abolir.

No século XXI, o aspecto do liberalismo e do conservadorismo continuará a espelhar dois posicionamentos possíveis face ao projecto revolucionário moderno. Superada a ameaça totalitária, e não se vislumbrando no horizonte uma alternativa ao regime democrático liberal, o projecto revolucionário moderno vai transitando do domínio da política para o domínio da tecnologia. E neste domínio, talvez ainda mais do que no domínio da política, são os olhos conservadores da metafísica clássica e cristã que melhor nos podem guiar contra os perigos do liberalismo de vanguarda.

8 comentários:

Miguel Morgado disse...

Benvindo, Nuno, à tempestado de sangue e aço.

Miguel Morgado disse...

Ou "bem-vindo", é como quiseres

Pedro Picoito disse...

Bem-vindo, de facto, Nuno.

Anónimo disse...

Julgava que este blogue tinha por desporto falar do que se não sabe, estranho o tom excessivamente cauteloso de quem não quer dizer disparates.
Quanto ao conservadorismo, julgo que a ideia é que depois do século passado, em que a civilização foi reduzida a cinzas, o conservadorismo morreu. Ou queremos conservar cinzas?

Anónimo disse...

A reacção, portanto. Bem vindo.

Nuno Lobo disse...

Miguel e Pedro,
obrigado por me receberem no Cachimbo.

Anónimo1,
ou isso ou fazer como o sonâmbulo de que fala FN na GC54; se a opção é entre dois sonhos, prefiro sonhar o primeiro, pois é o único que se apresenta como possivelmente verdadeiro.

Anónimo2,
obrigado pelas boas-vindas.

Gonçalo M Vassalo Moita disse...

Muito bem-vindo à sala de fumo, Nuno. Boas cachimbadelas!!

Nuno Lobo disse...

Gonçalo,
obrigado, é sempre bom dar umas baforadas num bom cachimbo.