Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Joel Serrão (1919-2008)

No meio de uma semana atribulada, não assinalei aqui a morte de Joel Serrão, decano dos historiadores portugueses e uma das maiores influências de gerações e gerações de alunos e investigadores. Faço-o agora, com penitente atraso. Joel Serrão pertencia a uma raça de sábios em extinção: o generalista, o erudito que não estuda temas ou épocas, mas problemas.
Da demografia contemporânea à história do sebastianismo, da obra de Cesário e Pessoa à emigração, da crise de 1383/85 ao nascimento do socialismo em Portugal, muitas foram as teclas que a sua curiosidade inegotável tocou.
Esta recusa da especialização, que também se explica pelo facto de só depois do 25 de Abril ter conquistado um lugar na universidade indígena em virtude de conhecidas simpatias oposicionistas, foi a sua força e a sua fraqueza. Poucos poderiam ter dirigido como ele o monumental Dicionário de História de Portugal, obra de referência sem paralelo entre nós. Por outro lado, é inegável que algumas das teses que defendeu, por exemplo em O Carácter Social da Revolução de 1383, estão claramente ultrapassadas.
Não deixa de ser curioso que esta ambivalência tenha marcado as evocações biográficas que suscitou nos últimos dias. Maria Filomena Mónica chegou a dizer que, ao contrário de tantos outros, ele não tinha "óculos ideológicos". Não é verdade, como o Nuno Ramos de Almeida fez o favor de explicar. Mas não é verdade por razões que o Nuno Ramos de Almeida não explica. A palavra "ideologia", para a geração de Filomena Mónica, equivale a falsa consciência da realidade. É um conceito marxista que encharcou a academia portuguesa dos anos 60 até hoje. Mesmo os historiadores que lhe tentam escapar, e é o caso, acabam por se perder nas entrelinhas. Joel Serrão, tal como Oliveira Marques (que com ele colaborou na direccção da Nova História de Portugal), Adérito Sedas Nunes, Orlando Ribeiro, José Régio, Rodrigues Miguéis, Alexandre O`Neill, Sophia de Mello Breyner e tantos e tantos intelectuais, foi vítima desse horizonte maniqueísta que os queria obrigar a escolher, antes e depois do 25 de Abril, entre a ditadura salazarista e a ditadura da extrema-esquerda.
Devemos-lhes acima de tudo, mais do que uma utópica ausência de ideologia, o exemplo de uma salutar independência de espírito.

2 comentários:

Anónimo disse...

grande madeirense...

Nuno Ramos de Almeida disse...

Ideologia já foi muita coisa. O criador do conceito (Desdutt de Tracy) pensou-a como uma espécie zoologia das ideias. Napoleão, por sua vez, insultou aquelas pessoas,aéreas e pouco ligadas à realidade, como "ideologos".
Em alguns textos de Marx ela é descrita como "falsa consciência". Mas, há mais de um século, Lénine,Schmitd, Karl Mannheim, a Escola de Frankfurt, Bourdieu e tantos outros deslocaram o conceito. E, meu caro, a Filomena Mónica não tem ainda 200 anos. No texto dela é visível a ideia que uma história ideológica é uma história que aceita a ideia da luta de classes, também no campo da história e da historiografia. O elogio de Filomena Mónica a Joel Serrão parece-o converter num historiador positivista, coisa que ele nunca foi.