No decurso da entrevista dada esta semana à TSF, Francisco Louçã teve um ‘momento Negri’, criticando a ‘burguesia marxista’ do PCP pelo seu silêncio comprometido com o desvirtuamento da revolução chinesa. Louçã garantiu que ao contrário do PCP, o BE ‘não aceita a exploração capitalista desenfreada (sic)’ na R. P. da China. Durante o programa “Descubra as Diferenças”, ao comentar esta tirada de Louçã, disse que o produto real da R. P. da China crescera 140% no período compreendido entre 1980 e 2000. Só dei por isso ao ouvir a gravação: o número correcto é 440%. Peço desculpa pelo lapso aos eventuais ouvintes do programa.Sugeri que Louçã deveria perguntar aos chineses por que razão toleram a tal ‘exploração desenfreada’. Disparate. A evidência da transformação económica da R. P. da China e das enormes melhorias que trouxe às condições de vida de milhões de seres humanos aconselham a que Louçã não pergunte nada a ninguém. Ao contrário da convicção popular, certas perguntas evidentemente ofendem. Aliás, não é por ignorância que Louçã descreve esse processo cinicamente como ‘exploração desenfreada’. Perceber o motivo é um dos benefícios da entrevista. Pelo tom e pela linguagem utilizada é notório que Louçã se imagina um revolucionário em perpétuo ajuste de contas contra um mundo conspurcado pelo dinheiro. Na R. P. da China o 'grande salto em frente' de Mao Tsé Tung causou mais de 30 milhões de mortos. No total, o regime socialista chinês é responsável por mais de 70 milhões de mortos. Para o genuíno revolucionário isto é irrelevante, não tem ‘significado’ perante a transcendentalidade do ideal.
Mas desconfio que o Louçã terrorista revolucionário é uma fraude: não seria capaz de proclamar, como Saint Just, que ‘despreza o próprio pó que o forma’; de viver –e morrer– pela revolução. Se rejeita o acesso limitado ao poder político não o faz porque isso o impede de promover a revolução mas porque não lhe serve verdadeiramente os seus objectivos. Eis o ‘segredinho sujo’ do Bloco: não se trata de promover a revolução socialista, mas de satisfazer clientelas políticas sociologicamente identificáveis entre a classe média urbana e a elite cosmopolita. Nem Louçã nem nenhum outro dirigente do BE está verdadeiramente apostado em acabar com o ‘capitalismo desenfreado’ em Portugal. O que os divide é um mero cálculo político de circunstância: de um lado as vantagens do poder, os confortos e as sinecuras; do outro, a flexibilidade desobrigada da barricada e da chantagem política. Os que preferem o poder, imaginam-se um ‘partido responsável’; os outros, como Louçã, imaginam-se eternos revolucionários. Todos eles sonham com a revolução permanente, mas a piolheira ‘obriga-os’ a viver mais modestamente: em desonestidade permanente.


6 comentários:
Excelente texto Fernando.
Assinalo a enorme complacência com o que os jornalistas e comentadores nacionais continuam a mostrar perante as contradições desse grande demagogo chamado Francisco Louça.
Bom post. Devia escrever mais vezes.
O que é que o senhor FCG, que não sei quem seja, sabe sobre a desonestidade do Louçã? Nada. Mas é o costume, basta falar em certos partidos e a direita eriça-se logo. Habituem-se, como dizia o outro, que o Louçã está para lavar e durar. Infelizmente para vocês.
Para durar está, agora para lavar não sei. Bem, ele a semana passada cortou o cabelo e tudo, vamos ver...ele no Seminário não tomava muitas vezes banho, garanto eu que fui seu contemporâneo e copiava nos exames de hebraico e teologia III por ele. Só que eu apenas cheguei a cónego e o Francisco já é deputado e Monsenhor.
Coisas da vida...
FCG, não percebo o seu comentário. Percebi que não gosta do Francisco Louçã, enfim... quanto à China, não chega para caracterizar o regime chinês dizer que milhões de chineses agora vivem com melhores condições de vida. Suponho que se esteja a referir-se a mais dinheiro para comprar objectos. Quer exemplos de ditaduras totalitárias que melhoraram a condição de vida das pessoas nesse sentido? Posso dar-lhe o exemplo da Ubião Soviética, da Alemanha nazi... quer mais? A realidade é que se vive na China uma ditadura, onde não há liberdade de expressão, onde um partido único comanda praticamente tudo. Você ganha lá dinheiro, se o partido deixar e se você não abrir a boca. E quanto a liberdade sindical? E quanto a condições de trabalh?
Dito isto, pergunto: para quê tanto assanhamento para com o Louçã? Não seria melhor guardar as energias para denunciar o que se passa na China?
Pedro António
Mas o Louçã agora é maoista? Ou a favor da "Ubião Soviética"(sic) - deve ser a nova Rússia de Putin...
Enviar um comentário