Sábado, Fevereiro 02, 2008

Um passado inconveniente

O que me espanta nestes pequenos pecados no passado de José Sócrates é o grau de descuido e de inconsciência. A falta de cálculo e de prudência que os mesmos revelam são típicos de alguém que politicamente nunca pensou chegar onde chegou. Alguém que nunca pensou que o seu passado mais tarde poderia vir a ser revisitado. Alguém que nunca pensou que mais tarde o seu futuro grau de exposição política e mediática poderia vir a ser enorme. Em suma, alguém que nunca pensou que mais tarde o seu passado poderia vir a ser escrutinado com muita atenção.
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José Sócrates pode negar e desmentir o que bem entender. Não faz muita diferença. Pura e simplesmente, o veredicto da opinião pública há muito que está formado: «you can fool some of the people all of the time, and all of the people some of the time, but you can not fool all of the people all of the time», terá dito Abraham Lincoln.
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Há uma diferença muito grande entre o caso da licenciatura e esta nova vaga de revelações. Os dados agora divulgados são muito mais graves, embora do ponto de vista do juízo de valor da opinião pública seja indiferente.
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O Presidente da República, já se percebeu há muito tempo, não fará qualquer comentário que ponha em causa as condições de governabilidade. A dizer alguma coisa, Aníbal Cavaco Silva desvalorizará episódios como o da licenciatura ou como este.
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Num exercício especulativo, interrogo-me se podendo regressar a 2005 -- sabendo o que sei hoje sobre o caso da licenciatura e o que está em curso, mas sendo o resto tudo igual -- se voltaria a votar em José Sócrates. Não hesito um segundo: sim, votaria de novo.
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O meu problema com José Sócrates não está no seu passado, mas sim no seu presente pós-2005. É para mim inadmissível o modo como desperdiçou uma legislatura com condições únicas de governabilidade. Igualmente importante, não me revejo no seu pragmatismo estratégico que chega a ser um sinónimo de total ausência de valores políticos. José Sócrates é capaz de fazer uma coisa e o seu contrário. O seu pragmatismo levou-o a aceitar a candidatura presidencial de Mário Soares, manifestamente um erro que ele sabia ser um erro. A forma como geriu os acontecimentos na lota de Matosinhos e cujo processo terminou de forma pífia. A forma como tolera a relação do PS de Oeiras com o executivo camarário de Isaltino Morais. Enfim, a lista poderia continuar.
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Pessoalmente, não voltarei a votar em José Sócrates, mas não é por causa dos pequenos pecados cometidos no passado. É, sim, por causa dos pecados cometidos no presente. É isso que me interessa. (Já agora, julgo que será quase desnecessário acrescentar que também não votarei, em caso algum, em Luís Filipe Menezes.)

20 comentários:

Paulo Gorjão disse...

Caro Lukachenko, não admito insultos a terceiros, ainda por cima anónimos. Não me obrigue, pura e simplesmente, a acabar com os comentários.

lukachenko disse...

POis, pelos vistos, a liberdade de expressão é só para alguns.
Mas, não deixo de achar que os senhores do Público são uns crápulas! Bem como quem procura difamar a todo custo o Primeiro Ministro.
Desculpe, Paulo, tem aqui um socialista à perna.. beware...

lukachenko disse...

Julgo ter assinado com o meu pseudónimo, como sempre o fiz. bem sabe da minha ira quanto aos anínimos.

P.S. Já que não admite insultos a terceiro, espero, pelo menos, que também não admita insultos à honra de alguém que, por acaso, é o seu Primeiro Ministro.

Paulo Gorjão disse...

Meu caro Lukachenko, deixe-se tretas. Não aceito que chame filho da puta a alguém na minha caixa de comentários. Se quiser republique o seu texto original sem insultar terceiros e verá que não será apagado. Socialistas, comunistas, bloquistas, socias-democratas à perna não me assusta nada. O escrutínio faz muito bem. Abraço.

lukachenko disse...

POis, faz, pois faz... então, não se viu, no dia 20 de fevereiro de 2005, pelas 20 horas?

Anónimo disse...

Esse também é um assunto que me preocupa... em quem votar nas legislativas de 2009?

Será que com JS batemos no fundo da classe politica?

Paulo Gorjão disse...

Caro anónimo, estamos muito longe de bater no fundo. O 'fundo' tem uma elasticidade surpreendente. Cada vez que pensamos que batemos no fundo constatamos mais tarde que é possível bater ainda mais fundo.

Anónimo disse...

Verdade, mas para nosso bem, espero que o ciclo se altere.

Já agora não respondeu à minha outra pergunta:

"... em quem votar nas legislativas de 2009?"

Paulo Gorjão disse...

Caro anónimo, não lhe posso dizer o que vou fazer em 2009 porque não sei concretamente qual vai ser o cenário. Se as eleições fossem hoje eu votaria em branco ou nem votava.

Anónimo disse...

Penso que a re-eleição de JS será inevitável. É o que a conjuntura económica assim exige. Prova disso foi a recente eleição para o BCP.

Ganhou mais uma vez o sistema.

António P. disse...

Boa noite Paulo Gorjão,
É bom saber que não voltará a votar Sócrates por causa "dos pequenos pecados cometidos no passado" ...mas não deixa de ser curioso ter de os enumerar e dedicar vários posts ao pequenos pecados.
Quanto aos "pecados cometidos no presente " não percebo proque lhe chama pecados.
Cumprimentos

Paulo Gorjão disse...

Caro António, cada pessoa valoriza os factos de forma diferente. Sem querer passar uma esponja no passado de José Sócrates -- longe disso -- interessa-me mais o presente. Apenas isso.

lukachenko disse...

Conversas com o meu umbigo. (To be continued...)

lukachenko disse...

Isso, quando a sanidade psico-social bate bem lá no fundo, rasgando a rede elástica. escuso de o dizer em latim. Quem conhece essa bela e antiga língua, perceberá que não quís, com tal tradução literal, ferir sensibilidades...

António de Almeida disse...

-Também não sei se irei votar em 2009, sei que até hoje em toda a minha vida, apenas por uma vez não fui ás urnas, numas eleições europeias em que estava acamado e gravemente doente, votar á esquerda seria impensável, não votarei PS, nem Luis Filipe Menezes, e será muito pouco provável votar em Paulo Portas. Dramático não?

Anónimo disse...

Não vale a pena dizer que em caso nenhum votaria em L. F. Menezes, porque não votar em Sócrates é precisamente votar em L.F. Menezes!

lukachenko disse...

Que disparate mais gritante essa, de o não-voto ao Sócrates signfique essencialmente um voto ao L.F.Menezes. Deve ser falta de "neurónios políticos".

Nuno Castelo-Branco disse...

Isto cada vez mais parece uma repetição de 1906-08. Vamos a ver se não acaba da mesma forma.

Anónimo disse...

Esta agora... Então eu, que por comodidade o sigo nas coisas da política (quando ouvia muito barulho, ia ao seu blog dar fé) eu, dizia, descubro agora que votou no JS! A mim sempre me pareceu fraquíssimo esse JS e não esperava diferente do que está a ser. E o PGorjão, que está muito mais atento, vai votar nele? Ora esta!... Tenho de o ler com mais cuidado é o que é.
Sobre 2009: governos com maioria absoluta de um só partido, nunca, venham eles donde vierem - e já que está provado que as maiorias se não traduzem em reformas, mas em autoritarismo anquilosante, como as artroses.
Os meus cumprimentos.

Nuno Castelo-Branco disse...

Só gostava que me explicassem uma coisa. Como é que um Estado como o espanhol, com o enorme problema das autonomias que ameaçam constantemente desmembra-lo, consegue ter governos que cumprem integralmente a legislatura. O João Carlos I apenas teve como presidentes do Conselho:
Arias Navarro (herdado de Franco); Adolfo Suarez; Calvo Sotelo; Felipe González; Aznar e o Zapatero.
Por aqui, e se descontarmos os governos provisórios, já vamos em 17 e raros são os que chegam ao fim do mandato. O que se passa? É que me parece que as pessoas já andam fartas do ... "agora é que é!"...