Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Passar das märchen

Das Märchen, a polémica ópera de Emmanuel Nunes encomendada pelo São Carlos, estreou ontem à noite com pompa, circunstância e transmissão directa para a Casa da Música e dezena e meia de teatros por esse país fora. A bem, já se sabe, da "descentralização da cultura".
Dizem as más línguas que o atraso de um ano na entrega da encomenda levou à demissão de Paolo Pinamonti, incomodado com o silêncio do Secretário de Estado da Cultura Mário Vieira de Carvalho. Não sei se sim ou se não, e não me interessa muito. Nunes está longe de ser uma das minhas preocupações melómanas. Como, aliás, parece estar longe de ser para a esmagadora maioria dos portugueses. Segundo o Diário de Notícias de hoje, no Porto assistiram à transmissão 165 pessoas, em Coimbra cerca de 150, em Beja 83 e em Leiria 25. No Funchal, a lotação do Teatro Baltazar Dias esgotou, mas o DN omite qual a lotação do Teatro Baltazar Dias. Ah, e que os bilhetes eram de graça. A bem da "descentralização da cultura", suponho.
Não tenho mais dados, mas o que eu gostava de saber é o custo total da operação, incluindo a encomenda. Não porque, como diz o João Gonçalves, ainda haja em Portugal gente que morre à espera de uma ambulância.
Nem vou por aí. Basta-me ficar pela política cultural socrática. A temporada do São Carlos começou em Dezembro (não é gralha, é mesmo Dezembro) e logo, por azar, com um Rigoletto arrasado pela crítica.
E para quê? Para a "estreia mundial" de uma ópera vista em ecrã panorâmico por meio milhar de compatriotas nas berças.
O nosso provincianismo é infinito.

14 comentários:

carlosi disse...

Excelente post. Também aprecio muito ópera, mas é vergonhoso esbanjar recursos escassos em encomendas de óperas, quando há portugueses a nascerem e a terem serem atendidos em "salas de urgência" móveis e sobre rodas.
É o provincianismo infinito das actuais elites políticas aqui de Lisboa no poder, de facto.
Esvaziar de recursos o interior para provocar o sobrepovoamento das cidades, não serve nem aos dos campos nem, muito menos, aos das cidades...

E fico-me por aqui já que me apetecia usar um ou dois palavrões apropriadamente adjectivantes desta vergonha...

Anónimo disse...

Elites?? Politicas??? Elites politicas????
Vamos directamente ao ssunto: os gajos que estão, agora, no poder e que nos, se e eles governam.
Meu caro amigo: elite, apedar de tudo, é um conceito sociológico ( e cultural) que ainda não perdeu, por enquanto, o seu sentido inicial.
O mal da nossa pátria é (e sempre foi) a ausência completa de coincidência entre o que são as (raras) elites culturais e as outas: as elites politicas (ou de poder)e as elites financeiras (ou da massa). Por isso é que não existe, entre nós, uma verdadeira tradiçaõ de mecenato. Por isso é que os Varas, Jardins (os dois), Ferreiras, Pires, Costas, Roques, etc. etc.,são quem são e o que são...

Anónimo disse...

Já agora, estou inteiramente de acordo com o post do Picoito.

tric disse...

palavras para quê!!

http://video.google.com/videoplay?docid=4338014799627496373&q=I+republica+portuguesa&total=691&start=10&num=10&so=0&type=search&plindex=0

tric disse...

palavras para quê!!?? (2)

http://youtube.com/watch?v=PDO5efovK7U

Anónimo disse...

o que a mim incomoda nao sao so os subsidios para a opera, mas os subsidios em geral.


em relacao ao video, parece que o governo/parlamento portugues resolveu a questao.

1. risco de pobreza-familias numerosas- pagamos-lhes abortos. daqui a dez anos nao ha familias numerosas

2. risco de pobresa-idosos isolados-fecham-se tres ou quatro urgencias no interior do pais e estes morrem no caminho para o hospital

Estamos sequestrados pelo Estado. Nao podemos/temos dificuldade em optar por sistemas de saude privatizados, nao temos apoios a maternidade e um sistema educativo liberal. enfim!

Anónimo disse...

É extraordinário como alguém que veio a terreiro por causa de um Tiepolo - de questionável interesse para a colecção portuguesa de arte se os recursos são parcos - para o qual sairam dos cofres do Estado 1,5 milhões de Euros (em moeda antiga qualquer coisa como 300 000 cts), põe-se agora "Aqui d'El-Rei!" que gastaram uns milhares de euros valentes na encomenda de uma obra original a um compositor português (não italiano, português). E, ainda por cima, com o argumento mais que demagógico do problema da saúde - o Dr. já se parece com o Manuel Monteiro.

Afinal em que ficamos, defendemos e fomentamos a nossa cultura ou nem por isso?

Ou o seu critério de cultura se resume aos seus gostos e interesses pessoais?

Nesse caso, meus amigos, abaixo o Museu de Arte Antiga, que não serve para nada e abaixo o IEP que ainda serve para menos...

Anónimo disse...

???!!! glug!!! obs!!! rnhec!!
como assim?

Pedro Sá disse...

Chega desta política cultural em que se acha que o erudito tem que existir e que o gosto do povo tem que ser educado !

Anónimo disse...

Pronto, está bem! Mas, ó Pedro Sá, explique lá isso melhor, troque a coisa por miúdos, senão ficamos todos na mesma. "O erudito tem que existir..."? Repita láoutra vez, que não percebi:

Pedro Picoito disse...

Anónimo das 4.30 de ontem, apetece-me dizer que o Tiepolo é muito mais português do que o E. Nunes porque está cá há cem anos, enquanto E. Nunes vive em Paris há quase cem anos. Mas vou escrever um post a sério para responder.

Anónimo disse...

E o Eusébio ? E o Joaquim Agostinho? e o Manoel de Oliveira? E a Paula Rego? E Otto Glória?

Anónimo disse...

E o Conde Andeiro? E o Buiça? E os primos do Buiça? E a Mariza? Ou o Tony Carreira? E há o Damásio. E o Manuel José. E o Prof. Neca. E o Paulo Nozolino. E o Zé Manel. E o Cunha Rodrigues, não se esqueçam. O Guterres também, mas só de vez em quando. O Cargaleiro parece que vive em Paris. E o Castelo Branco às vezes vai a Nova Yorque. E o filho da Maria das Dores também. E o Cristiano Ronaldo, claro. Já o Simão, anda cá e lá. E o irmão do Paulo Portas mais todos aqueles deputados europeus que estão em Bruxelas e cá às vezes. E o Carvinho, com um belo lugar em Londres. É verdade, o Ferro também, mas não em Londres, é na Europa. E parece que o Caguilho já tem casa alugada em Paris, para embaixador junto do PSG. Ou esse é o Pauleta. E o Eça, que viveu em Cuba e tudo.Ou o Marquês de Pombal, que foi embaixador por aí, tal como o Garrett. E o Wenceslau de Morais, que tinha a mania que era chinês. Ou o Saramago, que está memso convencido que é espanhol e que nasceu em Ribera del Duero (grande tinto!)
Enfim, malta na diáspora e estrangeirados não faltam.

Anónimo disse...

Dr. Picoito,

É sempre importante ficarmos a saber que um objecto é mais português que um Português que, coitado, vejam lá isto, precisa de sair daqui para poder ganhar uns cobres e sustentar a família e aos seus caprichos.

Que coisa chata esta de nascermos homens e mulheres e ainda por cima ligados às artes. Antes historiador e escritor de blogues...

E, confesso-lhe, eu não questiono a dúvida que lançou, é perfeitamente legítima. Mas não por alguém que acha um Tiepolo importante e os seus 1,5 milhões de euros uma ninharia, para depois atirar-se ao ar com a política cultural do Governo que, veja-se o escândalo, fez uma encomenda de uma ópera a um compositor portuguÊs.

Ao menos tenha a dignidade de se calar, mesmo pensando, para não cair nestes absurdos. É que eu até o tomo por pessoa inteligente.