Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

3,2,1...

E pronto. Assim sendo, resta desejar um bom ano a todos: aos activos, aos passivos e aos não envolvidos.
Tudo indica que 2008 será um ano mais puro.

Até já!

O Cachimbo vai fechar hoje à meia-noite

Daqui a poucas horas, com as doze badaladas e a entrada em vigor (1 Janeiro 2008) da nova Lei do Tabaco, em concreto do artigo 3.º abaixo transcrito, este blog tornou-se ilegal. Assim, depois de uma denúncia anónima -abaixo os bufos!- vamos ter de encerrar este estabelecimento por ordem da Ministra da Cultura e da ASAE.

Artigo 3.º da Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto:
«O disposto no presente capítulo visa estabelecer limitações ao consumo de tabaco em recintos fechados destinados a utilização colectiva de forma a garantir a protecção da exposição involuntária ao fumo do tabaco.»

Ora, sendo o Cachimbo de Magritte um «recinto fechado destinado à utilização colectiva», e não podendo nós, nem querendo, diga-se, proibir o fumo neste espaço por estar nos nossos genes fumadores, digo, fundadores, vamos ter mesmo de fechar as portas.

Dando cumprimento ao disposto no artigo 11.º, n.º 2, alínea a) da Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto, advertimos: «A frequência deste espaço prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam». Todos os posts posteriores à meia-noite são ilegais e puníveis com coima entre € 2000 e € 3750. A negligência é punível.

Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Adaptações ao nosso tempo

Hoje, não é difícil depararmo-nos com barbaridades (sim, barbaridade é o termo) como as que o Fernando descreve aqui, mas também me parece que uma “adaptação ao nosso tempo” não deve ser recusada enquanto tal. Estou a pensar em peças. Se considerarmos que um texto é “intemporal” (seja lá o que isso for), estaremos perante duas vias possivelmente armadilhadas.
Por um lado, sendo “intemporal”, não há nenhuma necessidade de o embrulhar numa encenação e/ou guarda-roupa familiares a olhos contemporâneos. Tudo se passa como se aquele texto valesse por si e tivesse uma força que vem do passado, intacta, e nos atinge em cheio tal como atingia as audiências da sua estreia – fosse ela em Atenas ou no Globe.
Por outro lado, é precisamente por ser um texto “intemporal”, precisamente por aquelas palavras, por aquela voz ser ainda capaz de nos falar, que deve ser trazido até nós e apresentado de uma maneira que não nos distancie dele – deve ser-nos dado a conhecer num aspecto familiar ao público, para que este não feche de imediato os olhos e se recuse a ouvir logo às primeiras palavras.

Fedra de Seneca/Hipólito de Eurípedes, segundo Stefania Cenean, 1994

Nestas “adaptações”, mais ou menos ousadas, há umas que são autênticos disparates que alienam os textos. Mas há outras que resultam. Neste momento recordo-me duma encenação “conjunta” do Hipólito de Eurípedes e da Fedra de Séneca que talvez enfurecesse os so called puristas. Afrodite, terrível, é uma mulher madura em lingerie e o Coro é composto por mulheres que exibem os seus seios. Não se dirá assim melhor a natureza da deusa e o papel do Coro das mulheres de Trezena? Melhor do que se Afrodite nos aparecesse de chiton. Mesmo que fosse um chiton revelador.
Gosto de pensar numa encenação como uma tradução. Aquele texto está como que a ser traduzido num palco para nós. Pensemos na tradução de um poema: qual é a “melhor”? Aquela que, arqueologicamente, escava os arcaísmos e no-los mostra em palavras literais, mas petrificadas? Ou a tradução que consegue re-criar o poema, que repete em nós o efeito que ele teve nos outros? Aquela tradução que não parece tradução – mas que nos aparece como um original. (O "Torso de Apolo" de Rilke e o de Manuel Bandeira, ou o mesmo (o mesmo?) soneto em Shakespeare e em Vasco Graça Moura) Qual é, na verdade, mais “fiel” ao original?

Euménides de Ésquilo, segundo Peter Hall, 1981

Democracia...

O órfão de dezanove anos e o viúvo de Benazir Bhutto estão já indicados na "imprensa" internacional como seus sucessores à frente do "partido" que ainda é da defunta, do avô e do sogro. Se isto é democracia e a defunta democrata, tenho que esquecer tudo o que aprendi sobre aquele que foi considerado como o pior dos regimes políticos, excluindo todos os outros.

Sábado, 29 de Dezembro de 2007

A morte da ópera

[Nota: texto longo]

Tal como fez em anos anteriores, David Brooks, um dos meus cronistas favoritos, atribuiu nas suas duas crónicas mais recentes os ‘Sidney Awards’ –o prémio fictício com que distingue os melhores ensaios publicados em 2007. Não há restrições temáticas nem de qualquer outra espécie: os ensaios escolhidos por Brooks cobrem assuntos extremamente variados e têm em comum apenas a elevada qualidade. Também não há ‘vencedores’: há apenas a mediação de opinião de Brooks, traduzida num breve resumo de cada um dos ensaios, resumo que simultaneamente apresenta o texto e esclarece os motivos da escolha.

De entre os ensaios eleitos há um que é a minha escolha para ensaio do ano de 2007: “The Abduction of Opera”, de Heather MacDonald, para o número de Verão do City Journal. Muitos recordar-se-ão do escândalo ocorrido em 2006, quando a Deutsche Oper de Berlim cancelou diversas representações da ópera de Mozart Idomeneo. Na encenação de Hans Neuenfels, o rei Idomeneo carrega um saco com as cabeças decepadas de Cristo e Maomé, entre outros. As ameaças de violência feitas por grupos islâmicos assustaram os responsáveis da Deutsche Oper e colocaram a discussão no plano político da liberdade de expressão. Infelizmente não era essa a questão relevante. Poucos se lembraram de perguntar e ninguém foi capaz de explicar, a começar pelo encenador, o que raio faziam as cabeças cortadas de Cristo, Maomé e Buda a ‘passearem’ num saco, numa ópera cujo libreto do séc. XVIII se inspira num episódio da mitologia grega. Bem vindo ao estranho mundo do Regietheater, onde as intenções originais dos autores, a música, o libreto e as definições das personagens são ‘irrelevantes’. Michael Gielen, um influente praticante do género e antigo director da Frankfurt Opera resumiu a ideia com enorme transparência: “what Handel wanted in his operas was irrelevant; more important was what interests us… what we want.”

E o que é que ‘nos’ interessa, o que é queremos? Sexo, claro, what else? Sexo sob todas as formas, quanto mais sórdidas melhor. O pressuposto é o do costume: é preciso ‘desmascarar’, ‘desconstruir’, expor a sociedade como construção ‘hipócrita e opressora’, uma teia de relações ‘exploradoras’ porque assentes em diferenciais de poder, onde o sexo é a única pulsão ‘verdadeira’, o alfa e ómega de uma sociedade ‘imperialista’ e ‘falocrática’ (não há prémios para quem identificar os discursos filosóficos que sustentam esta ‘perspectiva’). Se esgravatarmos a superfície da narrativa com vigor suficiente, lá o descobriremos; o pudor a mascarar a volúpia, a satisfação plena da volúpia limitada apenas por convenções da ‘falsa’ moral social.

As ‘actualizações’ sofridas pelas óperas clássicas encenadas por directores que adoptam esta perspectiva são autênticas desfigurações, convertendo personagens e contextos em ultrajes unidos pela máxima vulgaridade comum. Pelos vistos, o público habituou-se às alarvidades e um Don Giovanni subjugado pelo impulso onanista –que satisfaz em palco– já se tornou ‘habitual’ (veja-se esta inenarrável produção de Calixto Bieito). Seria interessante saber o que diria Kierkegaard, de tais ‘encenações’. Um Rigoletto ‘transposto’ para o Planeta dos Macacos causou menos espanto do que as reticências da soprano alemã Diana Damrau em participar na encenação da Bavarian State Opera. Raros são os músicos que se recusam a satisfazer os delírios escatológicos dos directores artísticos, com receio que isso diminua as suas perspectivas de contratos futuros. A crítica especializada também saltou para o comboio da obscenidade desenfreada. Por exemplo, a crítica de ópera do The Guardian, Charlotte Higgins, pasmou-se perante as reacções de indignação a uma encenação de Un Ballo in Maschera, pela English National Opera:
By Higgins’s own account, it contained the usual “transvestites, masturbation, simulated sex, nudity and, in the opening scene, a row of men sitting on toilets.”

De certo modo, Higgins tem razão. A indignação é relativa: haverá motivo para tão grande espanto com o mau gosto da direcção da ópera de Verdi, quando a mesma English National Opera produziu três anos depois, em 2005, uma encenação da ópera de Wagner Götterdämmerung, onde Brünnhilde se apresenta como uma bombista suicida, que no final se faz explodir em palco, matando o restante elenco?

O argumento de que é necessária uma ‘actualização’ radical da narrativa para que as óperas clássicas permaneçam ‘apelativas’ para o público contemporâneo não é apenas uma licença para a destruição de um património cultural com objectivos políticos evidentes: é intelectualmente desonesto. Por analogia, a fábula do Capuchinho Vermelho necessitará de Hannibal Lecter no lugar do Lobo para permanecer inteligível? Precisará Pinocchio de dealers de droga em vez de uma raposa e de um gato manhoso a desviarem-no do caminho para que se perceba a parábola?

A destruição da ópera clássica tem outra consequência: impede os espectadores de exercerem qualquer esforço de mediação entre a narrativa e o contexto actual e deixa-os incapazes de compreender o tempo e as circunstâncias do autor e da obra. É um efeito terrivelmente empobrecedor –e politicamente muito conveniente: somos cada vez menos capazes de imaginar outros mundos separados de nós pelo tempo, outras formas de organização sócio-política, com valorações completamente distintas das actuais. A pobreza intelectual tende a gerar conformidade, que por sua vez valida as ‘actualizações’ empobrecedoras, num equilíbrio auto-sustentado.

Tal como noutras questões políticas e culturais fundamentais, a esperança e resistência vem do outro lado do Atlântico, sobretudo da Metropolitan Opera House, que permanece fiel à tradição interpretativa cuidada e respeitadora das obras. O director Giancarlo del Monaco, que na Europa encenou a ópera Nabucco transpondo-a para o Iraque de Saddam Hussein, resumiu com simplicidade o princípio separador que hoje segmenta os mercados de ópera europeu e americano: “I have a Eurotrash face for Europe and a classy face for the Americans.”

Noutros tempos acusou-se Cecil B. DeMille e, por continuidade, os maiores produtores de Hollywood de simplificarem, distorcerem e em última análise falsificarem a História nas suas produções, por estarem mais interessados na exibição de um luxo grandiloquente do que no rigor histórico. Havia mesmo uma quadra que resumia o desprezo do produtor pelo rigor histórico:

Cecil B. DeMille
Much against his will
Couldn’t get Moses
Into the War of the Roses.

Mas nunca ninguém se lembrou de o acusar de perverter e destruir a prática cinematográfica a que dedicou a sua vida. O mesmo não se pode dizer dos directores da Regietheater. Não só destroem as obras que encenam como, ainda por cima, o fazem com um desprezo pelo contexto histórico que supera em muito qualquer delírio da Hollywood dos anos dourados. Basta atentar no exemplo de Giancarlo del Monaco: se Cecil B. DeMille teve pruridos em enfiar Moisés na Guerra das Rosas, del Monaco não hesitou em espetar com a figura do Antigo Testamento no meio da Guerra do Iraque.

Não obstante, o princípio geral é o mesmo. Há meio século, os produtores cinematográficos serviam às plateias doses desmesuradas daquilo que as deslumbrava: o brilho falso dos cenários, a grandiosidade (não manipulada por computador) da figuração, as orquestrações balofas. Hoje, os encenadores de ópera servem aos seus públicos exactamente o que eles estão dispostos a consumir. No caso americano, recriações cuidadosas, com respeito pela música, pelo libreto e pelas personagens tal como foram criadas. No caso europeu: lixo.

Para compreender a diferença no estado de coisas entre os dois lados do Atlântico é necessário mais do que diagnosticar a doença intelectual do Regietheater, o que MacDonald faz no seu excelente ensaio. É necessário atentar nos diferentes modelos de financiamento da cultura. Quando, como sucede na Europa, a maior parte dos custos da produção cultural são suportados através de subsídios públicos, as cliques entrincheiradas nas instituições culturais ficam libertas para prosseguirem as suas agendas políticas particulares, independentemente da opinião pública. A ‘morte da ópera’ é afinal parte de uma morte maior: a morte da cultura europeia. E ambas as mortes são fiscalmente assistidas.

[Bom 2008]

Mau em 2007 - Bom em 2008

Para o Paulo Pinto Mascarenhas, e outros que partilham da mesma esperança:
Tenho um pressentimento de que o Paulo Gorjão regressará em breve à blogosfera. A única coisa que sugiro é que o PPM pode ir apagando o linque do Bloguítica. Outras moradas... Mas que sei eu?

Liberalidades

Então é assim.
Menezes denuncia a "opa informal" do PS sobre o BCP e pede a Caixa Geral de Depósitos.
O PS fica com o BCP e dá-lhe a Caixa.
Todos ficam contentes
O PS converte-se definitivamente ao capital.
Menezes inicia o desmantelamento do Estado.
E o liberalismo triunfa.
Feliz Ano Novo.

Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

2007: Imprensa

O Público continua a ser o melhor diário português, embora certas mudanças (o grafismo, o pingue-pongue da página final, os suplementos) demorem a convencer-me. E mantém os melhores colunistas do burgo: Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Pacheco Pereira.

O DN continua o processo de tabloidização em curso, atirando inexplicavelmente para os braços da concorrência alguns dos motivos que o recomendavam, como Medeiros Ferreira, Pedro Mexia ou Luciano Amaral. A concorrência agradece.

A Atlântico continua a existir, o que só por si é uma vitória. Mais do que isso, continua a atrair nomes de peso - Manuel Lucena, Vasco Pulido Valente, José Miguel Júdice -, a par de muita rapaziada nova. Até o Pacheco Pereira teve que lhe fazer um elogio, "independentemente da linha editorial". Longa vida ao timoneiro Mascarenhas, à tripulação e à linha editorial, seja lá qual for.

A Spectator continua tory até ao tutano, mas fez as pazes com Cameron. Sobre o previsto cadáver de Gordon Brown?

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Mrs. Benazir Bhutto

A Sra. Bhutto morreu hoje algures no Paquistão vítima de um atentado terrorista. Sobre a personagem pouco ou nada sei, porque os media que leio, vejo ou ouço, em sucessivos anos de protagonismo político da personagem, raramente conseguiram, para não dizer que tentaram, desvendar a essência de uma personagem contraditória, sedutora, inteligente e muito pouco escrupulosa. Uma figura que apesar de morrer, ou pretender morrer, como mártir da democracia do seu país, fez muitíssimo para diminuir essa mesma democracia enquanto sistema político cujas virtudes não importa agora enumerar. É que mesmo reconhecendo que não é tarefa fácil governar um país até hoje inviável como o Paquistão, as suas duas passagens pela chefia de governos paquistaneses produziram resultados medíocres tanto política como moralmente.
Hoje, e sobretudo fora do Paquistão, há quem chore o desaparecimento da Sra. Bhutto pelas circunstâncias brutais e cobardes em que ocorreu, por nela ver o rosto da luta pela liberdade e pela democracia num país e numa das regiões mais instáveis do mundo.
Por mim, e enquanto aguardo que seja publicada uma biografia da Sra. Benazir Bhutto que faça luz sobre a mulher, o seu percurso e a sua circunstância (Bhutto que desde muito jovem, e inspirada pelo seu pai, se interessara por mulheres que, como Joana d’Arc ou Indira Gandhi, tinham sido líderes políticos marcantes), apenas me interrogo sobre qual terá sido a coligação de interesses que tanto desejava a sua morte. Encontrar uma resposta para esta pergunta não será fácil. Afinal, para onde quer que se virasse, a Sra. Bhutto tinha inimigos dos mais irrecomendáveis. Mas como se não bastasse, há sempre a possibilidade do atentado ter sido o acto de um homem só.
Entretanto, alguns paquistaneses aparecem frente às câmaras de televisão, neste ou naquele ponto da sua terra, destruindo propriedade e perseguindo e matando não se sabe muito bem quem. É o ser humano no seu melhor.

Bhutto

Quando soube da notícia do assassinato de Bhutto, não houve reacção que mais fielmente tivesse reproduzido o que me ia na alma do que a simples declaração do porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi: "Não se vê sinais de paz nessa região atormentada". Simples, mas verdadeiro. O assassinato de Bhutto tem consequências óbvias sobre a situação interna no Paquistão, sobre o ímpeto combatente de resistência às tropas aliadas no Afeganistão, sobre os progressos importantes e notórios no Iraque, e até sobre o Bangladesh, que, segundo o dizer de alguns, é já uma autêntica bomba-relógio. Este não será o último tormento da região. Nesse aspecto, aquela é uma terra de abundância.

2007: Bergman

2007 foi o ano da morte de Ingmar Bergman. A 30 de Julho.
O realizador sueco não era uma das minhas paixões adolescentes. Como a tantos outros, custava-me entrar no seu universo claustrofóbico. Chesterton diz algures que o mundo de Dante é mais real do que o de Ibsen porque tem o inferno, o purgatório e o paraíso, ao contrário do escandinavo, que só retrata o inferno. Durante algum tempo, pensei o mesmo de Bergman, que não nos poupa nenhuma das misérias humanas.
Os seus filmes falam-nos da solidão, da distância entre as pessoas, da hipocrisia das convenções, do egoísmo, da insuportável deficiência física (Sonata de Outono), da decadência da velhice (Saraband, a última obra), da perda da fé, do silêncio de Deus, da morte (O Sétimo Selo), da falta de sentido da vida, que se reflecte na própria ausência de acção. Uma acção que se concentra em diálogos lentos e violentos, densíssimos e cortantes. E nos grandes planos, aliás enormes planos, em que a câmara parece querer entrar pelas personagens.
Tudo o mais é inútil. Os gestos do amor são uma ilusão ou uma mentira e, sem amor, de que serve o resto?
Durante muito tempo, Bergman incomodou-me. Como se a falta de acção na tela nos obrigasse a a olhar para nós próprios, sem gostar do que vemos. Seríamos assim por dentro? Mas na era do cinema de mastigar e deitar fora, descobri que a sua claustrofobia pode ser mais libertadora do que a maioria dos filmes que vemos por evasão, esse triste consolo que Bergman não nos dá. Dá-nos apenas a arte sem artifício.
Na Sonata de Outono, que revi há cerca de um mês na sempre benemérita Cinemateca, há duas personagens principais: a filha (Liv Ullmann) e a mãe (Ingrid Bergman). No reencontro ao fim de vários anos de separação, a filha acaba por revelar à mãe que a odeia porque esta a trocou por uma bem sucedida carreira de pianista e outras aventuras menos espirituais, enquanto o pai tudo suportava em silêncio. Mais tarde, casara com um homem que não amava, um pastor luterano em crise de fé, e tivera um filho, que morrera ainda criança. A memória deste filho e o cuidado da irmã deficiente, abandonada pela mãe num asilo, são as suas únicas razões de viver.
Só a beleza salva estes seres à deriva. A beleza da paisagem nórdica, a beleza da música - Bach, Mozart, Schubert -, a beleza dos rostos das duas actrizes (magníficas, Ingrid Bergman aos 60 anos e Liv Ullmann a fazer de tontinha). E, apesar de tudo, a beleza do coração humano que, para lá do deserto gelado dentro e fora das personagens, entrevê outra coisa mais funda, mais misteriosa, mais verdadeira. "Toda a vida procurei um lar e, quando o tive, não me chegou", diz a mãe, essa detestável mãe que troca a imperfeição do amor pela perfeição da arte.
A beleza salvará o mundo, ensina-nos Dostoievski melancolicamente. Onde quer que esteja, o melancólico Bergman há-de concordar com ele. No outro mundo, também não existe apenas o inferno.

2007: Blogosfera

Mais do que blogues, leio sobretudo bloggers: Filipe Nunes Vicente, Luís M. Jorge e os do Cachimbo. O amiguismo é uma coisa muito feia, eu sei.
Tomo diariamente o rápido nos dois sentidos. À direita, Atlântico, Insurgente, 31 da Armada, Arte da Fuga e Abrupto. À esquerda, Arrastão, Cinco Dias, Zero de Conduta, Kontratempos e Bichos Carpinteiros.
Quando posso, gosto de parar em alguns dos apeadeiros mais subestimados da bloga lusa: A Terceira Noite, O Amigo do Povo, A Natureza do Mal, Les Canards Libertaires, Complexidade e Contradição, Hardblog. E no maradona, que não é subestimado. E no Mexia, idem. E no Viegas, idem idem. E no Vasco Barreto.
2007 foi o ano em que o Paulo Gorjão, o Eduardo Nogueira Pinto, a Helena Botto e o Luís Aguiar Santos deixaram de blogar.
2007 foi o ano em que o Augusto M. Seabra começou a blogar.
2007 foi o ano em que a bloga se dividiu pelo aborto, como outrora pelo Iraque.
O "caso Tiago Mendes" foi um mero reflexo. Façam a prova: quem está a favor, votou sim; quem está contra, votou não.
Viram? Quase não falha. A blogosfera é previsível - faz parte do seu encanto.
2008 trará novidades, mas não surpresas. A menos que eu aprenda a fazer links.

Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

2007: Política nacional

Na política nacional, o ano fica marcado por dois acontecimentos: a vitória do "sim" no referendo do aborto, a 11 Fevereiro, e a vitória de Luís Filipe Menezes nas directas do PSD, a 29 de Setembro.
Da primeira, já tudo se disse. É um sucesso de Sócrates, que liderou (ou fez que liderava) a campanha do PS, tirando esta bandeira à extrema-esquerda. A liberalização do aborto por referendo implica também a queda de uma barreira psicológica: pela primeira vez, uma causa fracturante venceu nas urnas. O método não se estenderá tão cedo às próximas fracturas, a saber eutanásia e casamento gay, mas o precedente está aberto. Vamos passar muitos anos a andar por aqui.
Quem quer enterrar a cabeça na areia, faça favor. Mas quem quer ter uma palavra sobre o futuro dos portugueses, não pode ficar calado sobre o que os divide.
Quanto à eleição de Menezes, trata-se de um retrocesso para o PSD e, portanto, para toda a direita. O tubarão de Gaia está a corresponder às expectativas, tanto dos que o criticam como dos que o defendem, e pelas mesmas razões. As piores. Incoerente, superficial, demagógico, tablóide e - cereja em cima do bolo - suficientemente provinciano para plagiar textos alheios sobre Bergman e Antonioni (ou permitir que outros o façam em seu nome, o que vem a dar no mesmo), Menezes corre o risco de ficar na história como o homem que desmantelou, não o Estado em meia dúzia de meses, mas o PSD em pouco mais do que isso.
Cá estaremos para ver o que fica. Se ficar alguma coisa.

2007


Gosto de balanços. Gosto dos balanços que tanto se fazem por estes dias, às vezes só para respeitar a convenção de que por estes dias se devem fazer balanços. Gosto, mesmo assim. Gosto de olhar para trás. Gosto de ver à distância, longe da tirania do imediato, longe do som e da fúria do que em tempos me pareceu tão grande e o tempo mostrou não o ser.

Devolve-me a perspectiva.

Só isso me ensina quanto errei em juízos apressados, ou superficiais, ou cheios de uma indignação de circunstância que não queria dizer mais nada.

E só isso me ensina que também tive razão aqui e ali.

Nos próximos posts, farei um balanço de 2007. Não um balanço neutro e exaustivo, mas um balanço pessoal e comprometido. O meu balanço.

Vale o que vale.
Vale a pena. Ou não o faria.

Obrigados, no reino da Dinamarca

De acordo com os leitores do Insurgente, aqui o Cachimbo foi o quarto melhor blogue de direita no ano que finda, atrás de monstros sagrados (sem ofensa aos laicos) como o Portugal Contemporâneo, o Blasfémias e o Quarta República.
Ficamos lisonjeados, mas note-se que os insurgentes tiveram a elegância de não levar a votos os vários blogues onde escrevem, o que talvez explique o nosso lugar simpático. Só possível, aliás, porque nos incluíram na short list.
Dito isto, não posso deixar de acrescentar que algo muito estranho se passa com a direita blogosférica - quando os dislates do Prof. Arroja são o melhor de 2007...

Os matizes de Luís Filipe Menezes


Assinalo três passagens da entrevista ao Expresso do novo líder do PSD:

Menezes mantém-se contra os “pactos”, mas defende os "acordos parlamentares alargados": «Eu não tenho simpatia por pactos nas matérias de governabilidade que podem ser decididas por maioria simples no Parlamento. Dai que eu fosse contra o pacto da Justiça. Agora, acordos parlamentares alargados é outra coisa

Menezes considera que ir para a porta das fábricas seria populismo, mas não deixa de afirmar: «Não quer dizer que amanhã não apareça à porta de uma fábrica ou de uma manif mas o que eu quis dizer, em linguagem figurada, foi que havendo um problema ou algo de errado, o PSD está a denunciar

Quanto aos porta-vozes, Menezes afirma que «Para ter porta-vozes é preciso que o sejam de alguma coisa. Neste momento estou mais preocupado em retomar a produção programática

Segundo a Teoria das Cores, o matiz é a característica que define e distingue uma cor. Vermelho, verde ou azul, por exemplo, são matizes. Para se mudar o matiz de uma cor, acrescenta-se outro matiz, aumentando a variedade de um retrato ou de uma personagem.

Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

É costume dizer...

... que não há duas sem três.

Ascensão e Queda

Não consigo deixar de pensar que os problemas do BCP coincidiram com o início daquela campanha de publicidade que tinha o inefável Jorge Gabriel como protagonista. Há quem diga que nestas coisas nao há coincidências. Tenho para mim que aquele sorriso acéfalo nas fotografias espalhadas pelos balcões de todo o país prenunciou a tempestade.

Et incarnatus est



«A verdadeira essência do ensinamento bíblico é relatar factos históricos reais. Não conta histórias simbolizando verdades sobrenaturais, mas é baseado na história, história que aconteceu aqui nesta terra. (...) Et incarnatus est - quando dizemos estas palavras, reconhecemos o facto de Deus ter entrado na nossa história real.»
Jesus de Nazaré, Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, pg.15, 2007

Natal

E para não estragarmos o espírito natalício com o Menezes e o Saramago, aqui ficam os votos de boas festas em nome dos cofumadores deste estabelecimento.
Feliz Natal e Bom Ano Novo para todos!
E que o Menino Jesus nos traga muita paciência...

Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

O Messias

Li há pouco a entrevista de Luís Filipe Menezes ao Expresso.
A blogosfera liberal saudou a chegada do novo Messias, que promete "desmantelar o enorme peso do Estado em meia dúzia de meses".
Recordo apenas, e sem querer estragar a consoada a ninguém, que este mesmo Messias propôs ao PS um pacto de regime para as obras públicas dos próximos dez anos.
É Natal, é Natal, mas não exageremos.

O assalto ao Palácio de Inverno

Em Fevereiro, quando terminar a exposição do Hermitage, parece que o Palácio da Ajuda vai receber uma exposição sobre a vida e obra de Saramago.
Faz sentido.
Depois dos restos do império czarista, os últimos vestígios da União Soviética.

Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Capital "Estrangeiro".

Face à possibilidade, que realmente existe, de o PS e o Governo Sócrates, escondidos por trás dos "accionistas de referência", virem a tomar conta do BCP, o "maior banco privado português", apelo aos grandes bancos estrangeiros para que, mesmo com grande sacrifício, comprem o BCP. Era um grande favor que faziam aos pequenos e médios accionistas, talvez também aos grandes, e uma ajuda que davam à nossa pobre "democracia" e ao nosso "capitalismo" de polichinelo.

Aquele tentaculozinho mole do PS no BCP

"O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, (...) o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. (...) O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. (...) E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor."

PADRE ANTÓNIO VIEIRA, "Sermão de Santo António aos Peixes", 1654.

O mercado de Inverno...

... não é só para o futebol.

Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Foi, não foi?

O Público de ontem trazia uma notícia sobre clínicas suspeitas de aborto ilegal.
Deve haver algum engano.
Toda a gente sabe que o aborto ilegal acabou quando o "sim" venceu o referendo.

Da série "Cachimbos de Lá"

Vincent Van Gogh, Natureza morta (1889)

Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Apontamentos sobre a Escola em autogestão do João Miranda

O Paulo Marcelo, por favor, que não me leve a mal, mas... sinceramente... o tal artigo do João Miranda não é, parece-me, um “excelente texto de opinião” . Será, isso sim, um excelente exemplo de um certo tipo de opinião. Nada tem de extraordinário – é, quando muito, um extraordinário disparate. É um texto de quem não sabe do que fala. E fala do que não sabe dum modo obscenamente assertivo. Seria hilariante, se a matéria não fosse tão grave.
O texto do João Miranda, na verdade, não passa de um texto “ideológico”. E é, de facto, uma defesa da ignorância. Como o são, de resto, os habituais aplausos babados a todas as grosserias programáticas deste Ministério (só nominalmente) da Educação.

O João Miranda, quando escreve sobre a Escola (e não, felizmente, noutros assuntos – aí bem mais certeiro), só me lembra aqueles estrategos de café – dispõem as tropas no terreno da mesinha entre um cinzeiro e duas chávenas e obtêm sempre estrondosas vitórias. Tudo tão simples. Assim todas as vitórias são fáceis: não se tem em linha de conta as características do terreno, as condições do tempo, o moral da tropa (sim, o moral...).

O problema com os textos do João Miranda sobre a Escola é o de serem dotados de uma espécie de boa coerência interna – as suas partes parecem bem concatenadas, isto é, os enunciados articulam-se aparentando constituir um sentido geral e, se nos deixarmos embalar, convence - mas, visto a partir de fora, como um todo, tudo aquilo acaba por se revelar como o que é na verdade: um aborto, um monstro.
Todos estes textos descaradamente bárbaros dos “liberais” sobre a Escola não são mais do que uma forma inteligente de "estupidez".
Há ali um manejo ilusionista de conceitos – o que denota uma certa destreza -, mas tudo isso está inscrito num quadro geral de cegueira. Alegre cegueira. Convicta cegueira.
É uma autêntica pulsão “liberal” que os faz querer “liberalizar” tudo o que mexe sob o sol. Doença infantil do liberalismo.

Tudo o que é dito no texto em questão poderia ser dito de qualquer actividade humana mais ou menos pública – com vários tipos de intervenientes com papéis diferenciados, com serviços prestados, com bens materiais implicados, etc. Tudo aquilo assenta no princípio segundo o qual todas as actividades, independentemente das suas diferenças específicas, são equivalentes. As regras que se aplicam a umas se podem aplicar indiferenciadamente (e indiferentemente...) a todas. O que é um erro.

Perguntará a rapaziada “liberal”: mas por que é que a Escola há-de ser diferente de uma mercearia? Não há que responder. É que a Escola já é, por si, diferente duma mercearia. Quem não consegue ver isso só pode ser lamentado.

Este discurso “liberal” sobre a Escola tem os tiques do parvenu que, chegado perante uma biblioteca, percorre com os olhos as estantes e não percebe. A seguir, desconfia daquilo. Qual é a utilidade daquelas coisas que ocupam um espaço tão precioso? Avalia os livros pelo seu peso (literal). Estes livros, visivelmente inúteis, podiam muito bem ser rentabilizados numa lareira. O seu conteúdo não importa (alguns gatafunhos são imperceptíveis e há mesmo línguas ininteligíveis) – importa sim o papel ser bom combustível ou não. Para que vou estar eu a pagar a manutenção de livros que não produzem uma boa fogueira? E é também importante que um livro não arda rapidamente. Um livro em combustão mais lenta produz calor durante mais tempo e é, por isso, um bom livro.
E porque não há-de isto ser gerido como um lagar? – pergunta-se o teórico. E discorre mesmo, inteligente: se um lagar com demasiadas tulhas mal cheias de azeitonas é um lagar visivelmente mal governado (desperdício de tulhas), então uma escola com demasiadas turmas com menos de 25 ou 20 alunos é uma escola mal gerida. Há aqui turmas a mais caramba! Qualquer pessoa de capacidade mediana vê isso. Não é preciso ser um professor para diminuir o número de turmas.
Pois não, pois não.
Basta um capataz mais ou menos alfabetizado. Alguém com experiência em armazéns.

Aqueles que vêem a Escola como uma fábrica de enchidos (a metáfora é terrivelmente apropriada), e que fazem o transporte da “lógica” desta para aquela, têm sempre a tarefa mais facilitada do que aqueles que não cometem esse disparate. É muito mais fácil fazer analogias fáceis sobre aquilo que é, por natureza, difícil. E essa dificuldade é sempre brandida como um pretexto miserável para a escolha do caminho mais fácil. No nosso tempo, aparece desde logo como mais ridículo aquele que defende a Escola enquanto Escola do que aquele que a compara com uma qualquer salsicharia.

Não partilho de todo daquela embirração dos “liberais” para com os sindicatos. Nem sequer chega a ser um ressentimento de classe. É mais uma reacção agressiva de tipo pavloviano. O próprio título do artigo ( "Autogestão Escolar" ), desonestamente, procura (e conseguirá) causar salivações enfurecidas naqueles que estão sempre dispostos a recordar (a propósito e a despropósito) as “loucuras” do Verão Quente. Os sindicatos são organizações de classe que procuram defender os interesses dessa classe. E depois?... Acontece que uma classe profissional não paira no vazio, mas trabalha num contexto e as suas condições laborais influenciam qualitativamente esse contexto - neste caso, a Escola. E então?...
Sinceramente, o que me desagrada mais nos sindicatos de professores são as manifestações em que se comportam mais como metalúrgicos dos anos 70. Esses comportamentos têm a sua importância "simbólica"... Deviam lembrar-se que não constituem um grupo profissional indiferente. Deviam saber manter-se no seu lugar.

No artigo, lêem-se aquelas frases sonantes: 'quem paga não manda, quem manda não paga'. Isto é, se sou eu que pago, devo ser eu a mandar e não é possível que um tipo tenha o poder de mandar e não tenha o encargo de pagar. Aquela frase do artigo do João Miranda pode dizer-se a respeito de tudo e a respeito de nada – soará sempre bem, parece sempre ser justa. Pode classificar-se esta coisa como mais uma manifestação da ‘síndrome do lojista míope’. Pelos vistos, tudo pode ser reduzido a uma questão de contrapartidas entre pagar e mandar. Mesmo uma coisa como a Escola.
Esquece-se que ensinar é uma actividade sui generis, no sentido radical da expressão. A relação professor-aluno, a apropriação, acompanhada, de saberes é um acontecimento demasiado grave (e ao, mesmo tempo, frágil) para ser sujeito a tratamentos grosseiros. Ao dizer-se isto, pisa-se terreno delicado, porque este é o tipo de enunciados que provoca o riso na rapaziada “liberal”. Insiste-se: uma sala de aula não é equiparável a um armazém de batatas ou à boa distribuição dos tubérculos pelas sacas.
Trata-se aqui de uma coisa que só existe num equilíbrio "ecológico" muitíssimo delicado. Mas esta gente, irresponsavelmente, dedica-se a demoli-la - até que não ficará pedra sobre pedra.
Destrói-se, assim, a Escola. Porque se estraga aquilo que lhe é mais próprio.


Para o ponto de vista(?) em questão há ali clientes que pagam. E há umas criaturas que fornecem uma mercadoria. Aquelas são os professores e a mercadoria é o conhecimento (podemos usar também o antiquado nome de Saber). Os clientes pagantes são os pais. Os fornecedores da mercadoria não são responsabilizados pelo produto e pelo modo como o fornecem. Os clientes, pagam, mas, coitados, não são tidos nem achados no tipo de produto que, sem alternativa, compram. Não lhes é dado o direito de avaliar a qualidade do produto. Coisa de que eles seriam perfeitamente capazes, claro. Ensinar trigonometria ou morfologia, como sabemos, não é diferente de vender sapatos ou presuntos.
São certamente felizes as pessoas que assim pensam. Têm tudo bem arrumadinho nas suas cabecinhas. Não sopra por ali uma dúvida, uma apercepção da radical diferença de uma coisa, uma inquietação. Não estão nunca postas perante uma dificuldade. Tudo é facilmente resolúvel.

Parece que durante anos vivemos sob uma espécie de ditadura mental da Esquerda. Talvez agora tenhamos caído numa ditadura “liberal”. Só que esta agora não chega a ser mental. Não tem espessura cortical para isso.

Seria curioso saber para onde enviará depois os seus filhos esta rapaziada “liberal” – se para as escolas públicas vandalizadas que preconizam, se para as outras.

Uma coisa tão séria como a transmissão e incorporação de conhecimentos é vista por estes voluntariosos teóricos como uma mera reprodução mecânica. Quase como uma coisa de êmbolos e torneiras controladas. O que passa completamente ao lado daquilo que importa.

Espectáculo deprimente II

Ouvir e ver, há pouco, nos Telejornais, o nosso primeiro-ministro, na fronteira da Polónia com a República Checa ou sítio que o valha, todo contente, expressando-se (?) num Inglês pavorosamente "técnico". Com uma pronúncia de fugir e usando as palavras erradas (com vagas semelhanças fonéticas...). E o outro português, o Joseph Barroso, esforçando-se por fazer humor, coitado. À volta, os adultos lá se iam rindo.

Porque será que os nossos governantes, nas cerimónias com os colegas europeus, aparecem quase sempre com aquelas caritas contentes de filho da criada a quem deixam brincar com os brinquedos partidos do filho do patrão?

Espectáculo deprimente I

Mário Soares, ontem, na RTP1, com uma Clara Ferreira Alves pressurosamente sorridente a cada sílaba do ancião, dentro de uma sinagoga, respeitoso de kippah e elogiando Yasser Arafat. Fazendo depois equivaler o ataque bombista ao hotel King David (alvo militar) por parte do Irgun de Menachem Begin em 1946 às matanças indiscriminadas e deliberadas de civis desarmados por parte da OLP e quadrilhas-satélites ao longo de décadas. Sempre com o sorrisinho ignorante da interlocutora. Estamos conversados.

[Convinha, por exemplo, que Soares fizesse a comparação entre o modo como o governo israelita de Ben Gurion cortou com as actividades discutíveis do Irgun e a complacência e efectiva cumplicidade da Autoridade Palestiniana do rais Arafat para com os bandos do Hamas e dos Mártires de al-Aqsa.]

Deprimente também, depois, ver os dois, cá fora, diante de uma estátua de Maimónides, tentando, por entre as maiores banalidades, pronunciar o nome do pobre filósofo judeu...

Este não é um filme de Natal...


O cinema brasileiro não deixa de surpreender. Depois da Cidade de Deus, surge agora Tropa de Elite, novamente à volta das favelas das grandes cidades brasileiras. Bons actores, melhor banda sonora, violento q.b., mas suficientemente realista para ser suportável, e um narrador "intimista" que nos prende a uma história baseada em factos reais. Desta vez, para além da polícia e dos favelados, há uma crítica social à burguesia universitária brasileira, cheia de preocupações sociais, voluntária nas ONG’s, mas cúmplice do sistema ao consumir a droga que alimenta o tráfico nas favelas. Revelador sobre os efeitos da corrupção nas polícias e em toda a estrutura social, permeável ao jeitinho brasileiro. O filme está em exibição no Brasil. Aguarda-se que atravesse o Atlântico. Até lá, só mesmo cópias piratas de amigos brasileiros experimentados no sistema.

Natal em Portugal

Confesso: gosto muito do Natal e detesto o chamado "espírito natalício".
Recordo com saudade muitas noites de Natal e celebro com alegria o nascimento daquela que é para mim a Personagem Histórica por excelência.
Por outro lado, horrorizo-me com a fúria consumista e a solidariedade de ocasião que, por estes tempos, tudo invade.
Vai daí, dei de caras por estes dias com duas dicas de relevo: a primeira diz-me que (1) o Cachimbo de Magritte é conhecido por ser o blog dos católicos, daqueles que levam com facilidade os assuntos do mundo para os lado de Deus e (2) que o Natal este ano seria diferente.
Acerca da diferença deste Natal (2), é-me dito que o comércio anda às aranhas. A malta compra menos. Até já há lugar para estacionar o carro nas redondezas das grandes superfícies comerciais. O espírito natalício sucumbe à economia.
Diz-se, por outro lado, que o Natal por cá será diferente este ano mercê da nossa ASAE e da nossa Justiça.
Aqui sim, entram os temas gratos à rapaziada católica (2). A partir de agora estou em casa, portanto. Assim sendo, explico:
Boata-se por aí que os presépios foram proibidos. Tudo porque a ASAE, sempre atenta, decidiu encerrar a gruta, por ter descoberto durante uma inspecção que o local não reunia condições suficientes de salubridade. O local foi encerrado preventivamente e o burro e a vaca foram mandados abater como medida de precaução.
Por outro lado, foi mandado retirar o menino do presépio. Tudo porque o Tribunal da Relação entendeu que este não devia estar à guarda de um homem que não é o seu pai biológico...
Cá está: tínhamos que levar o assunto para a esfera do religioso. Gente sem emenda, é o que é.
(Adenda: falo por mim, obviamente. O Cachimbo não é, nem nunca foi, um "blog de católicos")

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Mais um Livro Branco…


Depois do Livro Verde das Relações Laborais, um diagnóstico exaustivo (443 pgs) sobre a "doença" laboral portuguesa, estão neste momento (18h) a ser apresentadas no LNEC as conclusões da Comissão do Livro Branco das Relações Laborais, cujo mandato terminou no final de Novembro.

Depois dos relatórios de sábios, que abundam em Portugal -os relatórios não os sábios, claro!-, vamos conhecer a coragem política do Ministro Vieira da Silva e do Governo para enfrentar de frente o problema da rigidez laboral. Estou curioso por ver a Proposta de Lei que o Governo vai apresentar na AR. Mantenho o que disse aqui e aqui sobre esta questão e os números do desemprego.

Um brinde à linha azul?

O nosso venerável Primeiro-Ministro esteve ontem presente na inauguração da nova estação de metro do Terreiro do Paço (voltou à terra, portanto).
Percebe-se. Esta inauguração não é coisa para menos: anunciada a obra em 1992 e com termo previsto para 1997, a coisa acabou finalmente. Com uma tremenda e prolongada dor de cabeça para os automobilistas, uma ou outra derrocada e alguns milhões de euros a mais do que o inicialmente previsto, mas acabou.
Perante tão complicado e dispendioso projecto, havia já algum desânimo no ar, diga-se. O povo foi vendo passar o seu tempo, o seu dinheiro e a sua paciência. Por ali, só os carros não passavam.
Hoje será tempo de festa mas, já agora, também de reflexão.
Isto porque, bem vistas as coisas, bem que podíamos parar por um momento, lembrar todas as vicissitudes por que passou esta estação e perguntarmos a nós próprios como foi possível a cabala, digo, acabá-la.

Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Ai se isto se sabe em Viena

No Blasfémias expõe-se um gráfico/modelo a explicar o ponto de equilíbrio. No Insurgente dispara-se artilharia pesada de Chicago.

Esquecendo por um momento o aumento de €23/mês português

O que os economistas americanos que subscreveram o manifesto para aumento do salário mínimo nos EUA nos dizem, é que partilham a visão empírica segundo a qual pequenas alterações no salário mínimo têm como consequência pequeno ou nenhum efeito no desemprego. Já percebemos que o mercado de trabalho não é, ou não tem sido, incrivelmente sensível ao preço desde que as mexidas sejam muito pequenas, ou melhor, modestas, para utilizar a expressão dos economistas citados. Nada de especialmente novo, e não se percebe muito bem o barulho que isto tem causado cá, sobretudo quando nos EUA o valor não era actualizado desde 1997 e, em termos reais, era inferior ao de 1951.

Mas no meio de toda esta discussão há 3 questões bastante importantes, a primeira se salário mínimo é salário mensal ou valor hora em contratos flexíveis? A segunda e terceira qual a queda salarial e de desemprego que existiria se o salário mínimo não existisse?

Como a esmagadora maioria das pessoas ganha mais do que o salário mínimo (o que deveria fazer seriamente pensar muita esquerda que parece não querer mudar de século), o acto de o baixar ou anular teria muito pouco impacto no rendimento e no emprego da população geral, mas teria algum impacto nalgumas pequenas franjas da população, nas quais se poderia constituir um incentivo algo perigoso para aderirem ou se manterem num qualquer programa de welfare ao invés de irem trabalhar.

Se se acredita na necessidade ou vontade de uma sociedade ser solidária ao ponto de defender a existência de um rede mínima de segurança, faz algum sentido criar um valor também mínimo de remuneração de trabalho que incentive as pessoas a sairem das redes de apoio social e a tornarem-se independentes, sem com isso sobrecarregar os empregadores. Claro que não há uma fórmula maravilha para esta visão, mas a ideia é que o valor mínimo de remuneração de trabalho seja efectivamente baixo e não muito distante do seu valor "natural" médio em caso de inexistência de obrigação legal, de modo a por um lado prevenir alguns abusos pontuais e por outro a não afectar o nível de emprego ao ponto da tentativa de retirar pessoas do welfare sair pela culatra.

A questão da forma salarial (mensal ou hora) é também estruturante nesta equação, e são dois paradigmas bastante distintos. Uma maior flexibilidade contratual facilita a entrada das pessoas de baixos rendimentos via uma maior adaptabilidade às necessidades concretas do empregador. Pode induzir uma maior rotatividade ou acumulação de empregos, mas aumenta o rendimento destas pessoas. Uma maior flexibilização laboral seria então uma óptima medida em conjunto com um salário mínimo aplicado em valor hora. Mínimo. Mínimo e baixo. Para enriquecer a sério as regras são outras.

(Pode-se acompanhar esta discussão no Blasfémias, Insurgente e no blogue da Lista E)

"Blade Runner": Ser ou não ser, eis a questão…


Não há dúvida de que Shakespeare sabia que perguntas vale a pena fazer; sabia quais não é possível não fazer.
Só assim se pode explicar que, depois de vinte e cinco anos e várias versões de Blade Runner, tantos esperassem esta “Director’s final cut” do filme de Ridley Scott, já referido no Cachimbo (e que já se encontra à venda em Portugal).
De facto, parece que a questão é saber se Deckard é mesmo um Replicante. Mas só é esta a questão se isso fôr o mesmo que procurar saber o que é ou não é humano; ou, também, saber se o medo é ou não condição da existência; se os factos que acontecem no tempo (no tempo de uma vida, no tempo da História) são apenas lágrimas na chuva…
Ao passar para o ecrã o livro de Philip Dick Do Androids dream of electric sheep?, Scott consegue uma dupla e rara proeza – a de ultrapassar o valor da obra literária, sem, no entanto, a atraiçoar. A riqueza e complexidade barrocas de Blade Runner – um filme que se “lê” por camadas, como acontece à fotografia que Deckard examina – tem o seu centro nevrálgico na visão (“the eye/I question”), ou não fosse o olhar que revela o eu.
Na era da chamada Pós-Modernidade – um tempo que nega o significado do Tempo – vale a pena rever esta fabulosa obra cinematográfica, que subverte a profecia distópica que ela própria faz, ganhando, para o seu protagonista, a tão desejada eternidade. E tudo isso se pode, ultimamente, resumir a um gesto, um gesto ilógico, disfuncional, não programado: o gesto gratuito, e, por isso, belo, de um Replicante que livremente poupa a vida do seu perseguidor.
Ver esta beleza: eis a questão. Eis a alternativa à miopia aguda dos génios Tyrell, falsos senhores deste nosso universo “high tech” e utilitarista que arrastou a noção de human being para a de human doing, a de conhecimento para a de competência, a de mestre ou professor para a de mediador.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Porque alguns insistem no assunto...

Independentemente do que os nossos tempos mostram, é preciso recordar que o legalismo nas relações internacionais, o multilateralismo, a concepção de "segurança colectiva", a diplomacia aberta e pública, a rejeição do equilíbrio do poder, da acção directa dos Estados, em suma, tudo aquilo a que estamos habituados a atribuir ao horizonte diplomático dos países europeus, são ideias americanas. Mais: são ideias americanas que foram introduzidas na Europa como contraponto das ideias especificamente europeias a este respeito, que foram impostas como forma de substituir, de uma vez por todas, a teoria e prática europeias das relações internacionais.

É verdade que não foram americanos, mas europeus do século XVIII, quem originariamente concebeu as ditas ideias. Mas os seus esforços isolados puramente intelectuais não encontraram grande recepção aqui no Velho Continente. Coube a alguns americanos do século XX reformulá-los e apresentar essas reformulações como propostas de reforma, como uma teoria geral que conduz imediatamente a prática.

Seria interessante perceber por que é que, entretanto, os europeus substituíram os americanos no patrocínio dessas ideias. Mas essa é outra conversa.

Menino Guerreiro

«É verdade, sou um provinciano, fiz-me sem pedir nada a ninguém. Não tenho aliados entre os grandes pensadores portugueses e a aristocracia de esquerda.»
José Sócrates ao Libération, 17.12.2007 (via Público on-line).

Lápis cor-de-rosa

Aqui já esgotou, mas se puder dê o seu contributo a uma das causas meritórias deste Natal: a "Make It Number One" Campaign, que tem como objectivo imediato levar o clássico dos Pogues Fairytale of New York ao 1º lugar do top de vendas. O objectivo último é mostrar aos caniches histéricos da BBC onde é que podem e devem enfiar o lápis cor-de-rosa da nova censura:
The BBC has censored a popular Christmas song amid fears the lyrics will upset homosexuals.

Fairytale of New York, by The Pogues featuring Kirsty MacColl, has been re-released for the festive period and is a contender for the coveted Christmas number one slot.

It tells the story of two lovers who trade insults on Christmas Eve and one verse ends with the memorable line: "You scumbag, you maggot you cheap lousy faggot, Happy Christmas your arse I pray God It's our last."

Radio 1 bosses have bleeped out the word faggot(*) from the song, for fear it will offend homosexuals.
A BBC já fez coisas muito piores e muito mais graves. Mas a tacanhez deste acto mostra claramente que a nova censura não tem vergonha nem limites.

(*) faggot –maricas, bicha. Não porque a 'tradução' seja necessária, mas por causa do lápis cor-de-rosa.

Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

"I've done questionable things..."


A propósito disto: Durante as filmagens dessa cena específica, Riddley Scott pediu expressamente a Rutger Hauer que pronunciasse a sua deixa de forma a que se não percebesse a distinção entre "father" e "fucker". I want more life,...

Arrogância e ilusões

A propósito do comentário de Condoleezza Rice reproduzido no blogue da Atlântico, recordei-me de uma curta conversa, há umas semanas em Bruxelas. No decurso de uma comunicação, um alto responsável pela política de imigração no Reino Unido apresentou as seguintes percentagens: da emigração africana dirigida ao conjunto formado pelos EUA e pela UE, 80% da mão-de-obra especializada escolhe os EUA como país de destino; 60% da mão-de-obra não qualificada escolhe a UE como destino.

Do ponto de vista económico, a decisão de emigração é uma forma ‘radical’ de voto: um emigrante rejeita as condições e perspectivas de vida que tem numa determinada comunidade política em favor de outras, proporcionadas pela comunidade política de destino. As suas preferências relativas são reveladas através da sua deslocação efectiva –‘vota com os pés’. Note-se que, no caso de um emigrante africano, a deslocação para os EUA é muito mais difícil e onerosa do que para a UE, o que exige que a diferença entre as perspectivas de vida num e noutro lado seja ainda mais favorável para o emigrante no caso americano, de modo a motivar a deslocação. Ainda assim, uns esmagadores 80% dos trabalhadores especializados africanos preferem os EUA à Europa. No final da comunicação coloquei-lhe uma questão simples: como explica as percentagens da emigração africana?

A maior mobilidade ‘vertical’ da sociedade americana é um factor explicativo. Para um trabalhador com capacidades valorizadas no mercado, as possibilidades de acumulação de riqueza e de progressão social são comparativamente maiores nos EUA do que na UE (deixo a quem quiser tentar a explicação da inversão das proporções relativas nos destinos de emigração para o caso dos trabalhadores sem qualificações). Mas a resposta do responsável britânico surpreendeu-me porque enfatizou um aspecto inesperado. Disse, em alto e bom som: os trabalhadores africanos especializados preferem os EUA porque preferem viver integrados numa sociedade menos racista do que as sociedades europeias.

Em parte será o argumento da upward mobility por outras palavras. Mas não é só isso, pois não? E também não é certamente uma alusão aos infelizes programas de ‘affirmative action’. É uma atitude prevalecente na sociedade americana, uma forma natural de aceitação que favorece a integração e que permite que cada um encontre a ‘sua’ América na América de todos. É uma mentalidade de tolerância geralmente distorcida pela comunicação social, porque não proporciona bons filmes nem boas notícias (a fronteira entre ambos é cada vez mais difusa). É, acima de tudo, um modus vivendi, que dispensa –mais, que exige– um Estado não intrusivo nem condicionador, tentando por meios coercivos criar aquilo que efectivamente destrói.

Bem pode a UE organizar cimeiras intercontinentais, bem podem os demagogos proclamar em tom altissonante a superioridade do ‘modelo social europeu’, bem podem os anti-ocidentalistas vomitar imprecações contra a civilização americana, decretar o ‘horror’ do capitalismo americano, regurgitar pela enésima vez as patranhas da ‘inclusão’ e da ‘solidariedade’, para disfarçar a sede de controlo político e de garantir que os estados continuam a dedicar-se às actividades mais lucrativas para as oligarquias socialistas. Os rios de dinheiro e de propaganda não enganam os emigrantes africanos em busca de uma vida melhor. Nem enganam os eleitores europeus: se votam repetidamente em ilusões é porque, ao contrário dos africanos, vivem demasiadamente bem para desejarem viver melhor. Não será assim para sempre? Não importa: a indiferença da Pompadour pelo futuro democratizou-se.

Reforma escolar e os professores

Excelente texto de opinião do João Miranda no DN: Autogestão Escolar.
«Os professores encontram-se numa posição duplamente privilegiada. São pagos para executar um serviço pelos contribuintes, mas em vez de serem os contribuintes a dizer como é que o serviço deve ser prestado, são os professores que através dos sindicatos conseguem influenciar as políticas do ministério e que através das eleições internas decidem quem deve mandar nas escolas.
O ensino público encontra-se em autogestão. É necessário reformar o sistema de gestão escolar. É o que o Governo pretende fazer. Mas pretende fazê-lo mantendo algumas das perversões do actual sistema. O primeiro-ministro apressou-se a anunciar desde já que o director da escola terá de ser obrigatoriamente um professor. Não faz muito sentido. O director da escola não será contratado para dar aulas mas para dirigir a escola. As qualidades necessárias para dirigir uma escola não são exclusivas da corporação dos professores

Domingo, 16 de Dezembro de 2007

A Lenda Continua


O resto, como se sabe, é treta.

Sábado, 15 de Dezembro de 2007

O cepticismo de Aron?

Como há já mais de dois dias que não se falava no Aron, lembrei-me disto:

[...] A fricção entre as ideias da especulação e a rotina existente do mundo concreto não desaparece apenas por um acto de vontade. Assim, parece haver um dualismo insuperável entre aquilo a que poderemos chamar de “ponto de vista do estadista” e o “ponto de vista do filósofo”. Mas até este último ponto de vista não está isento de restrições. Na verdade – e Aron chamou muitas vezes a atenção para este aspecto –, o “ponto de vista do filósofo” está sujeito à mais inabalável das restrições: aquela que é imposta pelo limite do conhecimento.

Pensar sobre a política torna-se inevitavelmente também uma reflexão sobre os limites da política. No famoso livro "O Ópio dos Intelectuais", Aron considerava a possibilidade de o “intelectual” “perder interesse pela política no dia em que descubra os seus limites”. Esperar da política a redenção final dos homens conduziu invariavelmente ao horror da desumanização do homem. “Se a tolerância nasce da dúvida, ensinemos a dúvida quanto aos modelos e às utopias, aprendamos a desafiar os profetas da salvação e os profetas da desgraça. Roguemos pela chegada dos cépticos para que eles possam extinguir o fanatismo”.

Por estas passagens poderíamos pensar que a resposta céptica é a única adequada aos tempos do fervor ideológico e das paixões políticas radicais. Porém, essa hipótese é de certo modo equívoca. No final da sua vida, Aron revia o problema. A sua formulação é notável e merece reprodução: “O marxista-leninista assegura, ou melhor, decreta uma verdade universal, recusando distinguir o conhecimento do desejo; o pensador liberal ou crítico, consciente das armadilhas postas pelas suas paixões, consciente da ambiguidade da própria realidade, coloca constantemente em questão as suas hipóteses e os seus juízos. Cepticismo? De modo algum. O liberal procura constantemente a verdade, e ele nunca abandonará as suas convicções supremas, isto é, as suas máximas que são tão morais como intelectuais”.

Perante a possível ambiguidade da realidade que uma dada situação histórica particulariza, o existencialista preconiza o compromisso radicalmente livre, anterior a qualquer deliberação. Esse é o seu modo de negar o presente, sem conhecer o futuro que se criará. Mas, em termos políticos, corrigia Aron, é enganador dizer que a acção não decorre de uma deliberação prévia. A doutrina do “compromisso” não pode recusar o imperativo do conhecimento do mundo, sem o qual não pode haver deliberação razoável. Comentando o muito admirado Max Weber, Aron reconheceu que o “saber objectivo” talvez não fosse “indispensável”, mas era certamente “favorável” à “acção razoável”. Este é o “caminho mais longo”, o percurso moral e intelectual de quem reconhece o presente e se responsabiliza pela acção, consciente de que a acção se projecta no futuro e que os seus efeitos não são rigorosamente previsíveis. A confissão de ignorância quanto aos efeitos das acções humanas não deve conduzir ao desespero, nem à sedução pela aventura; apenas recomenda, como repetia Aron, “experiência, conhecimento e modéstia”. [...]


[Eu, numa edição da Nova Cidadania de 2005]

Prémio Pessoa 2007

Conheço muito razoavelmente o trabalho de Irene Pimentel e a dedicação, a seriedade e a competência que coloca em tudo aquilo que faz. No entanto, devo confessar que fiquei surpreendido com o facto de ter sido "agraciada" com o prémio Pessoa. Apesar de ter publicado vários livros sobre a história do século XX português, nunca a vi como uma historiadora com uma visão particularmente original da nossa história naquele século ou de “fatias” ou “temáticas” desse mesmo século. Aliás, duvido que alguém, incluindo a própria, nos possa dizer qual é a sua leitura, a sua interpretação genérica, a sua visão sobre o século XX português ou até, mais prosaicamente, sobre a história do Estado Novo ou do Salazarismo. Por isso, e embora a felicite sinceramente pelo prémio conquistado e pelo reconhecimento do seu trabalho que este acarreta, devo dizer que me lembrei imediatamente do nome de, pelo menos, uns dez historiadores portugueses que mereceriam bem mais ter recebido o prémio Pessoa pela singela razão de terem aquilo que penso faltar, ainda, ao trabalho e à obra de Irene Pimentel. E isto, por mais irrelevante e pouco convencional que seja no nosso pequeno meio, penso que deve ser dito. Descontando os nomes de historiadores mais mediáticos, que não vou sequer nomear, seguem os de alguns outros menos conhecidos, ou totalmente desconhecidos do grande público, mas cuja obra, mesmo que menos prolixa, é marcante e “incontornável” na historiografia recente sobre os séculos XIX e XX cá do burgo. São eles: Valentim Alexandre (ICS), Fernando Catroga (Universidade de Coimbra), Maria de Fátima Bonifácio (ICS), António Telo (Academia Militar), Nuno Valério (ISEG-UTL), Fátima Patriarca (ICS), José Augusto França (FCSH-UNL) e Jaime Reis (ICS).
Daí que, e devo confessá-lo, fico sem perceber muito bem quais terão sido os critérios da escolha. É que a Irene Pimentel não é (ainda?) o Manuel Damásio ou o José Mattoso da historiografia do século XX português. Mesmo que não tenha de sê-lo ou que não queira vir a sê-lo.

Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Intimissimi

Modelo Europeu Contratado:



Modelo Português com Tratado:


On the Waterfront, With style


Mesmo sem tratado reformador e pasteis de Belém, Lisboa foi destacada num artigo do New York Times: The 53 Places to Go in 2008 (via Lisboa na Ponta dos Dedos).

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

As maravilhas da Europa

O Presidente da República ofereceu pasteis de Belém aos signatários do Tratado. Em Lisboa, os portugueses (como eu) foram agraciados com a gratuidade no metro. Nos corredores do metro de Lisboa julgo ter ouvido aquele desrespeitoso sistema audiovisual dizer que até o sindicato dos trabalhadores destas linhas de transporte partilhava do júbilo nacional (ou europeu, já não sei bem). Talvez para o ano se comemore o dia como se exige, com um feriado europeu. A menos que o tratado, por ser pouco importante, não mereça tanta atenção.
Esta Europa põe-nos bem dispostos logo pela manhã. Se for assim todos os dias, estou disposto a esquecer a maçada do referendo.

Da série «O Governo até sabe fazer coisas boas»

O Primeiro-Ministro anunciou no debate mensal três objectivos para a reforma da gestão das escolas:

- Reforçar a participação das famílias e comunidades na direcção estratégica;
- Liderança mais forte: criação de um
director executivo;
- Reforçar a autonomia das escolas.

Sabe-se ainda muito pouco sobre as reais intenções do Governo. Aliás, o mais certo é que estas boas intenções morram nas mãos dos burocratas centralistas da 5 de Outubro. O diploma terá ainda de ir para discussão pública e depois a Conselho de Ministros. A Fenprof ficou preocupada, o que é um bom sinal. Mas saúda-se o anúncio destes objectivos.

Sucessão Dinástica na Europa


Morreu o Tratado Europeu.

Viva o Tratado de Lisboa!

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Abaixo o fascismo alimentar da ASAE

Pelas bolas de berlim e pelos bolos da Mexicana e do Califa. Abaixo os donuts empacotados com prazo de validade. Viva a ginginha com elas e sem elas. Viva a bica a escaldar em chávenas sujas e suspeitas. Abaixo os copos de plástico. Vivam os enchidos e as castanhas assadas enroladas em listas telefónicas. Diga não aos novos burocratas dos alimentos e da higiene pública.
Assine esta Petição.

2009















E os impostos, caríssimos?
É justo que baixem? É justo que se mantenham?
E o Isaltino? Deve demitir-se?
E as soluções para a educação? São, finalmente, estas?
E os debates mensais na AR? Falam de nós? Falam de si?
Quer mais maternidades? Escolas? Nos centros urbanos ou no interior?
Portagens? Sim ou não?
Despesa pública. Mais, menos ou igual?
Orçamento: há mais vida para além?
Futuro da Europa (Referendo): Com os cidadãos ou jogando pelo seguro?
Justiça: (há que manter a esperança...) Fundamental reformar?
Deficientes: Uma política?
Fisco: Os fins justificam os meios?
Mortes nas estradas: Fiscalização? Curvas perigosas? Conservação das estradas?
Segurança (nocturna e - já agora - diurna): Mais polícia? Câmaras de filmar? Penas agravadas?
O seu futuro resolve-se com um xis, em 2009, sendo certo que, olhando em redor, você perceberá hoje melhor que nunca o que quiz dizer Winston Churcill: vá à bola aos fins de semana e, quando chegar a altura, deixe lá estar o dever cívico.
Quando muito, pratique um acto de fé.

(Já percebeu, caro leitor, ou quer uma Nova Oportunidade?)

Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Os Loucos Anos 80 (27)

Não sei porquê, mas quando ouço debates sobre a questão europeia, lembro-me sempre de uma música - "What she said" - dos imortais The Smiths, que a certa altura canta assim:
...
What she read
all heady books
she'd sit and prophesise
it took a tattooed boy from Birkenhead
to really, really open her eyes...

[O género feminino de "she" pode e deve ser mudado para o masculino. Alarga o universo.]

E o que fez o Governo em quase três anos?

Esta disfuncionalidade a que fiz referência no meu texto abaixo foi reconhecida pelo Governo que inscreveu no seu Programa o belo chavão da «transformação modernizadora da legislação laboral». Mas o que foi feito até agora?

Primeiro, o Governo lançou um Livro Verde das Relações Laborais, um diagnóstico exaustivo (443 pgs) e realista da “doença laboral” portuguesa. Depois, constitui uma Comissão do Livro Branco das Relações Laborais que até apresentou boas ideias: maior flexibilidade na organização interna das empresas (mobilidade, polivalência, horários flexíveis, conciliar vida familiar e profissional) simplificar procedimentos, sobretudo nas micro empresas e PME, alargar o conceito de «inadaptação» do trabalhador, etc. Entretanto terminou o mandato desta Comissão (Novembro 2007) e não se conhecem as conclusões finais. Tal como não se sabe o que vai fazer o Governo, apesar das frases enigmáticas do Ministro Vieira da Silva.

Este caso é sintomático do estilo socialista de governar. Faz mesmo lembrar os tempos de Guterres: criar comissões de sábios, publicar livros verdes, seguido de livros brancos. A inovação “Sócrates” são mesmo os power-point, o resto é semelhante. Quanto a mudar uma lei politicamente sensível, o Governo prefere adiar, ficando refém de uma ideologia de esquerda serôdia.

Entretanto a economia move-se. A taxa de desemprego permanece no nível mais elevado dos últimos vinte anos, as empresas em vez de contratarem novos trabalhadores recorrem, cada vez mais, a contratos a termo ou ao trabalho falsamente “independente” (prestação de serviços ou outsourcing fictícios), numa precarização crescente das relações laborais.

Reparem que não estou para aqui a defender um mercado de trabalho desregulado. Escusam de encher a caixa de comentários do Cachimbo a acusar-me de falta de sensibilidade social. Proponho um quadro jurídico ajustado à realidade, que possa enquadrar as novas situações laborais e proteger mais o trabalhador. Mais flexibilidade, mas também uma maior protecção social dos trabalhadores, a cargo de um verdadeiro Estado garantia ("safety net").

Uma inovação concreta seria permitir que no contrato de trabalho fossem definidas as situações objectivas de cessação antecipada com a correspondente indemnização. Não seria um despedimento “sem justa causa” (proibido pelo artigo 53.º da Constituição), mas sim prever no contrato causas razoáveis e passíveis de verificação objectiva. Esta medida seria um incentivo concreto à criação de emprego, dando oportunidade aos excluídos pelo sistema actual.

O desemprego tem sido o grande falhanço deste Governo. Torna-se urgente a revisão do Código de Trabalho, ultrapassando os preconceitos ideológicos.
Este será o grande teste à capacidade reformista de Sócrates.

[Versão completa na edição de hoje do Diário Económico.]

E o desemprego Sr. Primeiro-Ministro?

Os últimos números do Eurostat mostram que o desemprego em Portugal continua muito elevado: 8.3%, em Novembro (463 mil desempregados), chegando aos 19,3% no desemprego jovem. Há mais de vinte anos que a taxa não atingia níveis tão elevados no nosso país, sendo já uma das piores da UE27.

Claro que se pode dizer que o Governo pouco pode fazer. Que são as empresas e não o Estado que criam empregos. Que está em curso uma reestruturação da economia. Tudo isto tem sido repetido pelo Governo para se justificar. Mas se o baixo crescimento económico (1,9%) não é apenas culpa do Executivo, no único ponto da sua responsabilidade – criar uma lei favorável à criação de emprego – o Governo tem pecado por omissão.

Isto apesar da OCDE e do Banco Mundial qualificarem a nossa lei laboral como excessivamente rígida (a mais restritiva da UE15: OCDE, Perspectives de l’emploi, 2005), sendo essa uma das razões da nossa baixa produtividade (Relatório Going For Growth 2007).

Mas qual é afinal o problema da rigidez laboral? Não é difícil perceber. Tal como congelar as “rendas” tem um efeito semelhante a bombardear uma cidade, o excesso de proteccionismo laboral provoca a estagnação do mercado de trabalho e ao aumento do desemprego, por levar as empresas a contratar menos trabalhadores por tempo indeterminado. Uma maior flexibilidade, por contraste, permite às empresas ajustarem-se melhor às necessidades e a substituir os trabalhadores menos preparados, aumentando assim a produtividade. A lógica do emprego “vitalício” é contrária a uma cultura de mérito nas empresas e um dos factores que explicam a nossa baixa produtividade.
(continua)

Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

O tipo humano

Porque será que o Secretário de Estado João Cravinho fala exactamente com a mesma entoação do seu chefe, José Sócrates? Ai, o tipo humano, ai, o tipo humano...

Trick or treat? (2)

Importa perceber o que realmente motivou o teor das estimativas da recente NIE sobre o programa iraniano de armas nucleares. Do ponto de vista da segurança internacional será difícil encontrar uma matéria mais importante e a questão permanece: risco calculado ou armadilha política?

De acordo com a primeira hipótese, a declaração da suspensão em 2003 do programa iraniano de armamento nuclear seria um risco calculado, que serviria para facilitar um acordo político entre os EUA e o Irão. O objectivo imediato seria a estabilização do Iraque: o Irão comprometer-se-ia a desactivar a guerrilha xiita, os EUA garantiriam condições políticas e militares que impedissem os sunitas de voltarem a constituir uma ameaça à segurança do Irão. Neste cenário, declarar a suspensão das tentativas iranianas de obtenção de armas nucleares tornar-se-ia uma profecia auto-realizada. Permitiria ao Irão desistir do programa nuclear sem comprometer a credibilidade do regime e desse modo resolveria o problema potencial de proliferação nuclear no Golfo Pérsico, diminuindo os incentivos para países como a Arábia Saudita ou o Egipto lançarem programas de armamento nuclear.

A segunda hipótese é mais simples: as agências de ‘intelligence’, especialmente a CIA teriam confrontado a administração norte-americana com as estimativas agora divulgadas, defendendo-as como as melhores conjecturas em função da informação disponível. A administração ficou perante um dilema sem escolha agradável: ou divulgava as estimativas, sabendo que as repercussões políticas limitariam drasticamente a sua margem estratégica face a Teerão (sob esta hipótese de forma não calculada), ou contrariava as conclusões dos ‘peritos’ e expunha-se à acusação de manipulação política da ‘intelligence’.

Ao longo dos últimos dias a opinião informada convergiu para a segunda hipótese. Alguma dessa opinião, não escondendo os aspectos de subversão burocrática na condução de um processo político e diplomático, defende ainda assim a atitude dos serviços de informação americanos, associando as estimativas apresentadas à ‘verdade’ dos factos e à precaução que deve orientar a conduta de burocratas que operam em áreas tão importantes como a informação secreta.

Sucede que a conduta dos responsáveis pela NIE não foi nem uma coisa nem outra. Comece-se pela questão da ‘verdade’ factual: com a excepção dos directamente envolvidos, praticamente ninguém corrobora ou aceita sem restrições as conjecturas da NIE. Diversos peritos rejeitam totalmente as conclusões. Outros sugerem que a avaliação recente é consistente com o longo historial de asneiras colossais da responsabilidade da CIA. Até a IAEA declarou que não se atrevia a ser tão ‘generosa’ –foi o termo utilizado– como a CIA e restantes agências envolvidas na NIE.

A verdade factual não teria grande importância se a primeira hipótese fosse a correcta. Seria ‘cheap talk’, uma forma de coordenar o processo negocial subsequente entre EUA e Irão. Mas sob a segunda hipótese é crucial. Aliás, a única defesa possível dos responsáveis pela NIE é a sua absoluta convicção de que estão a reportar a melhor estimativa do verdadeiro estado do programa nuclear iraniano. De outro modo, a ‘generosidade’ é um acto de sabotagem política ao mais alto nível. Repito: se um dia destes se vier a descobrir que afinal as fontes não eram fiáveis, ou que entre os responsáveis pela NIE havia quem não concordasse com a actual política externa americana face ao Irão e deixou que os seus juízos pessoais influenciassem matéria tão importante, então estaremos perante um acto bem mais grave do que outro fiasco de ‘intelligence’.

Quanto à questão da precaução na conduta dos responsáveis pela NIE: li em diversos artigos e notícias que o DNI (Director of National Intelligence) estaria ‘escaldado’ com o fiasco Curveball e que isso explicava a sua conduta ‘conservadora’, evitando declarar a existência de um programa de armas nucleares activo sem dispor de evidência inquestionável. Percebe-se a ideia mas não é correcta. Em matéria de juízos probabilísticos, ser ‘conservador’ significa respeitar o status quo, até que nova evidência o permita rejeitar/rever com uma elevada margem de confiança. Ora neste caso o status quo corresponde à existência de um programa activo de armamento nuclear no Irão. É isso que consta claramente da anterior NIE, de 2005; é essa a opinião da generalidade dos serviços de informação ocidentais; é provavelmente essa a convicção dos peritos da agência da ONU para questões de energia nuclear, a IAEA. A estimativa mais recente da ‘intelligence’ americana não tem nada de conservadora: é uma revisão radical do consenso de especialistas nesta matéria. Embora não se trate de um ensaio de hipóteses na verdadeira acepção estatística, só se compreende a inversão de julgamento se a CIA & afins dispuserem de informação nova e extremamente fiável. De outro modo, a ‘generosidade’ dos burocratas adquire um sabor desagradavelmente próximo da subversão política: num regime constitucional bem ordenado, nem a administração pública nem as forças armadas fazem política.

Um último aspecto importante é a questão das consequências para a interacção política entre os EUA e o Irão. Robert Kagan afirma que mesmo tratando-se de ‘intelligence’ questionável, a melhor resposta da presidência americana é abrir conversações com os dirigentes iranianos. Isto pode sugerir que, afinal, as duas hipóteses não são assim tão diferentes do ponto de vista das consequências. Não é verdade. Uma negociação política com o Irão por iniciativa política presidencial é muito diferente de uma negociação política determinada pelas circunstâncias: o poder negocial de Washington é drasticamente menor sob a segunda hipótese –e o de Teerão bem maior. O ‘golpe’ não foi inocente e não será inconsequente para os interesses políticos americanos e ocidentais.

Aqueles cuja bússola política aponta sempre na direcção ‘anti-Bush’ poderão interpretar este texto como uma tentativa de isentar o presidente americano de responsabilidades políticas nesta matéria. Não é: sabendo-se o que está em causa, o que dizer do estado político de um presidente que deixa indivíduos por si nomeados para cargos tão sensíveis pendurarem-lhe uma coisa destas no nariz?