Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Noutro formato

Quem tiver saudades dos comentários do Paulo Gorjão, pode agora acompanhá-lo na TVNET, às segundas-feiras, pelas 21h15, no programa "Blog Spot".

Um ano depois

Regresso à revista Atlântico um ano depois do primeiro texto. Por coincidência, a edição n.º 32 sai no mesmo dia em que o Cachimbo de Magritte completa um ano de existência.

O texto para a Atlântico foi escrito no início de Setembro e teve como causa próxima a inauguração de uma estátua de Nelson Mandela junto ao parlamento britânico. Depois veio a vitória da selecção sul-africana no mundial de rugby. Sob o ruído dos festejos multirraciais ouviram-se críticas políticas ao predomínio branco entre os atletas: tal como nos coros de uma ópera de Gluck, a alegria exteriorizada era enganadora, a harmonia aparente e as palavras um prenúncio de violência e tragédia.

Os líderes do ANC intensificam a retórica da ‘discriminação’ e da ‘injustiça histórica’, um discurso hostil à população branca e que pretende legitimar um programa extenso de medidas legislativas de controlo sobre todos os elementos relevantes da vida social. Esta hostilidade coexiste com conflitos internos entre facções tribais. Conjugadas representam uma ameaça ao crescimento económico e impossibilitam a existência de uma democracia liberal, culturalmente cosmopolita, uma visão da África do Sul pós-apartheid incorrectamente considerada como o ideal político de Nelson Mandela. Foi sobre essa impossibilidade e sobre a natureza do regime político Afrikaner que escrevi para a Atlântico.

Por fim, um ano de Cachimbo. À partida pretendia escrever com maior regularidade, mas primeiro a pouca disponibilidade de tempo e depois alguma saturação acabaram por resultar numa participação mais ocasional. Em todo o caso, foi um prazer e um privilégio partilhar esta página com os restantes membros do Cachimbo. Agora vem aí o Outono, há livros e discos à espera e a minha necessidade de consolo satisfaz-se com uma simplicidade burguesa.

O Princípio de São Peter

Não deixa de ser delicioso que o Daniel Oliveira dê conselhos à Igreja católica sobre quem deve ou não aceder à santidade...

Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

O seu quintal

É impossível não se ficar boquiaberto com o mal disfarçado azedume (e agressividade) com que a Ministra da Educação, hoje, comentou a preocupação do Procurador Geral da República com as agressões que ocorrem nas escolas. Foi por alturas de (mais um) animado comício governamental – desta vez, proclamando os “progressos” na Educação – que teve lugar algures em Lisboa, acho eu.

Disse ela que há assuntos mais graves para o Procurador se preocupar [sic] – esta inacreditável arrogância (a roçar a má educação) só pode partir de uma pessoa que vê as escolas como o seu quintal. Como se as escolas fossem bolhas de realidade alheias à saudável aplicação da Lei. São os quintais privados da senhora. Mesmo que o fossem...

Alguém lhe devia recordar que ela, afinal, não passa de uma Ministra. Não, não é ironia. Repito: não passa de uma Ministra. Não é proprietária daquilo que governa. Prolongando a metáfora, ela não passa de uma caseira encarregada de cuidar do nosso quintal.
E má caseira. Deixa crescer as ervas daninhas em terra própria para boas culturas ao mesmo tempo que se encarniça cegamente, ajudada pelos seus dois sub-caseiros, a espalhar herbicida onde não deve: desta maneira, vai, com afã criminoso, queimando as melhores plantas do quintal, desde as maiores, que já davam bom produto e boa sombra, até às mais tenras, promessa de frutos mimosos. É uma caseira que vai deixar a nossa propriedade literalmente inculta.

Só mais uma coisa. A Ministra, no ataque ao Procurador, referiu-se, note-se, à violência sobre as crianças [sic]. Pinto Monteiro tinha sublinhado a violência sobre os professores. Há aqui uma escolha deliberada da Ministra. Ela pretende, assim, esbater o problema mais sério. É de longe bem mais grave, mais perigosa, a violência exercida sobre os professores por parte de pais e alunos do que a que acontece entre estes últimos. Só uma cegueira verdadeiramente criminosa permite ignorar uma evidência destas. Há aqui qualquer coisa de tremendamente errado.

Vergonha? Are you talking to me?

Era inevitável. A propósito da recente beatificação de 498 mártires da Guerra Civil espanhola por Bento XVI, a esquerda blogosférica clama que é um escândalo fazer a coisa na semana em que o governo de Zapatero leva a votos a Lei da Memória, destinada justamente (esperemos...) a reabilitar as vítimas do franquismo.

O Nuno Ramos de Almeida, na sua candura (restos dos amanhãs que cantam?) estranha a "coincidência" e que não sejam também beatificados os muitos padres bascos mortos pelos nacionais por se manterem "leais aos direitos do povo basco", o que indiciaria estarmos diante de uma "beatificação política e não religiosa". Eu não sei em que mundo é que o Nuno Ramos de Almeida vive, e também não sei se ele sabe (talvez num mundo onde as beatificações nunca são susceptíveis de leituras políticas), mas aconselho-o a informar-se bem sobre estes padres "leais aos direitos do povo basco". É capaz de descobrir alguns carlistas, que é como quem diz os miguelistas lá do sítio, gente que detestava os espanhóis por serem mestiços de mouros e terem acabado com os foros feudais do "povo basco". Gente, portanto, mais reaccionária que o próprio Franco. Na volta, até foi por isso que os franquistas os assassinaram. Não sei é se será um grande motivo para beatificações: alguém podia ver no caso uma manobra política para santificar o carlismo. E nós não queremos beatificações políticas, pois não?

Já o Daniel Oliveira, sempre pronto a envergar a toga de moralista, acusa a Igreja de "falta de vergonha" porque, às suas "simpatias pela ditadura franquista", junta agora o "esquecimento" das vítimas do outro lado. Convém, no entanto, que ele se lembre do que foi o o outro lado. Em Espanha, tal como em Portugal, em França e no México, a República de então foi violentamente anticatólica. Não quero maçar-vos com pormenores para não me tornar o grande educador dos intelectuais fracturantes, mas lembremos factos. Estima-se que, durante a Guerra Civil, entre oito mil a dez mil padres, religiosos, freiras e leigos tenham sido mortos, por vezes depois de torturados, pelo simples facto de pertencerem à Igreja. Os números não são conhecidos com todo o rigor porque as valas comuns também se tornaram uma prática corrente dos rojos. Além disso, estes assassínios aconteciam ao sabor da fúria dos célebres comités revolucionários. Não havia qualquer tipo de processo ou julgamento, o que dificulta um pouco a contagem. Muito desorganizados, estes latinos. Os alemães é que sabiam.

Na verdade, a perseguição começou ainda antes da Guerra propriamente dita. Entre Fevereiro de 1936, data da vitória da esquerda nas eleições, e Julho, início da sublevação militar da direita, foram mortos 17 padres e saqueados vários conventos em Madrid, Barcelona e Valência. No das carmelitas da capital catalã, os túmulos das freiras foram profanados e os cadáveres expostos, como se pode ver pela imagem que, com a "falta de vergonha" típica da minha malta, submeto à sensibilidade de vexas.

A partir de Julho, o ritmo de execuções tornou-se frenético. Cito Andrea Riccardi, que me fornece estes dados: "De 18 de Julho até ao final do mês, as vítimas do clero foram 861; em Agosto 2077, a uma média de 70 por dia. Durante o Outono, os assassínios continuaram, se bem que em número inferior, e desde o princípio de 1937 caíram sensivelmente" (O Século do Martírio, Lisboa, Quetzal, 2002, p. 316).

Não tão sensivelmente, porém, que José Diaz, secretário-geral da secção espanhola da III Internacional, não pudesse afirmar com orgulho em Março de 1937: "nas províncias em que temos o poder, a Igreja já não existe. A Espanha superou em muito a obra dos soviéticos." Para certas dioceses, o massacre foi realmente metódico. Em Barbastro, por exemplo, dos cerca de 120 padres que havia antes da guerra, sobravam 12 quando esta terminou. É possível que algum tenha morrido de morte natural.

A falta de memória dos nosso lefties, contudo, vai mais longe. Acompanhando esta imagem aqui ao lado, o Nuno Ramos de Almeida tem uma frase que vale a pena citar. "Setenta anos depois dos nazis da Legião Condor terem arrasado a vila basca de Gernika, o alemão Ratzinger vem dar uma ajudinha a um lado do conflito da memória." Até um troglodita de direita como eu percebe que o Nuno Ramos de Almeida está a acusar o Papa de ser nazi. E, por extensão, os incautos bispos que estão a fazer a saudação romana sem saber onde se meteriam setenta anos depois. Por mim, acho que ele está a confundir o Ratzinger com o Gunther Grass.

Mas a confusão maior não é essa. É que, nos anos 30 e 40, a saudação romana estava bastante difundida nas manifestações públicas de vários regimes europeus que podem considerar-se autoritários, mas dificilmente podem considerar-se genocidas. Pensem no salazarismo, para não ir mais longe. O amorável rebento da Mocidade Portuguesa que se observa aqui ao lado tem certamente a mesma queda para a estética que os verdeufémios do camarada Gualter, mas não me parece que seja nazi. Ou que seja capaz de arrasar Gernika, mesmo estando pouco consciente dos "direitos do povo basco". Só que a confusão, vinda de quem se mostrou tão susceptível à proximidade entre Hitler e o camarada Che por via de um bigode, já não se deve atribuir apenas à candura. Deve atribuir-se, com mais ou menos beatificações, à pura e simples hipocrisia.

Diarreia legislativa

O Ministro da Justiça anunciou ontem uma nova revisão, em 2009, dos códigos penal e processual penal. Recordo que as últimas alterações entraram em vigor há pouco mais de um mês (15 de Setembro) e o que aqui disse sobre isso.
Sofremos mais de excesso de leis, e respectivas alterações, do que de falta delas. É um erro básico do burocrata iluminista pensar que os problemas se resolvem com mais leis ou alterando as leis. O caminho deve ser menos leis, melhores leis. «Corruptissima republica plurimae leges» dizia Tácito.

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Jesus de Nazaré pelo Papa Bento

Foi finalmente publicado em português de Portugal -os brasileiros levaram meses de avanço- o novo livro de Bento XVI, Jesus de Nazaré. É o primeiro livro escrito pelo novo Papa desde a sua eleição. Vestindo a capa de teólogo, Ratzinger procura demonstrar a coincidência entre a dimensão religiosa e a dimensão história de Cristo. Num cunho mais pessoal, Bento revela o resultado da sua busca pessoal pelo “rosto do Senhor”.
Há hoje uma conferência de Jacinto de Farias, teólogo e tradutor do livro para português (directamente do alemão) sobre o livro, no Palácio da Independência (Rossio) em Lisboa, às 21.30h. Recomenda-se.

E vai ser o fim do mundo

«O desastre vai ser brutal, as dificuldades imensas, o próximo presidente vai ter uma administração hipotecada»
Hoje o Insurgente deixa-nos um certo travo a armageddon, alegadamente vertido pela mão económica do grande satã Bush.

Para além de um certo défice de criatividade no apontar do(s) suspeito(s), tenho alguma dificuldade em perceber exactamente onde é que está o crime. No post citado aponta-se o défice, o que até não é um mau ponto de partida do ponto de vista do réu Bush, na medida em que normalmente o argumento que lhe é atirado é-o no plural: défices gémeos.

O défice da conta corrente é um tema que deixará a maior parte dos leitores a dormir, mas gostava apenas de lembrar que este défice já existia e era apontado como alarmante quando os números se situavam em USD $1Bi/day (4,4%/GDP)na passagem de testemunho de Clinton. Estará hoje em 7%/GDP e as opiniões continuam a variar, desde os que continuam (com as cordas vocais algo cansadas) a gritar "lobo!" até quase o extremo oposto, colocando-o como uma consequência de sucesso que será ajustada se e quando o mercado financeiro o ditar sem qualquer tipo de "dor".

Mas voltando ao défice orçamental, a política aplicada não é assim tão distinta da aplicada por Reagan, mas estranho os argumentos sobretudo no Insurgente. Seria razoavelmente simples (no papel) fazer recuar um pouco mais os valores do défice, bastando para tal fazer o roll-back dos cortes nos impostos e acabar com presença militar externa, nomeadamente os custos (directos e indirectos) da guerra no Iraque e no Afeganistão. Mas parece que é precisamente a questão orçamental da administração Bush que está a caminhar num óptimo sentido, com as últimas notícias oficiais a fixar o valor do défice como o mais baixo dos últimos 5 anos: 1,2%/GDP. A descida do défice deve-se não só a um controlado crescimento de despesas mas sobretudo a um crescimento de receitas fiscais benigno, na medida em que advém não de um aumento das taxas mas antes de uma resposta positiva da actividade económica. A administração Bush puxa os louros para si, alegando mérito nos famosos tax cuts que estimularam a economia e pagaram-se a eles próprios. A verdade é que, mesmo descontando alguma propaganda, há obviamente mérito na política fiscal, e as previsões de valores de défice (e de anulação) para os próximos anos são crescentemente optimistas. Atenção porque o "budget year" vai de (1) Outubro a (1) Outubro seguinte (exc.), pelo que as contas já foram apresentadas neste mês.

Temos então, com cortes de impostos e em guerra, 1,2%GDP (and counting) de défice. É isto que seriamente deve ser comparado à tal saída da NATO?

Domingo, 28 de Outubro de 2007

Tugendhat

Ontem, fui ouvir duas palestras de Ernst Tugendhat na Sociedade Portuguesa de Filosofia. É verdade, o mestre alemão das "Lições sobre Ética" esteve entre nós graças aos esforços de José Sousa Brito e de João Lopes Alves, dois nobres exemplos de generosidade.

As sessões foram extraordinárias em todos os aspectos, a começar pela figura de Tugendhat: já velhote e com grandes dificuldades auditivas, apresentou as duas palestras, disponíveis em versão escrita, em português do Brasil com o inevitável sotaque germânico. Fiquei impressionado com o facto de ter redigido a segunda palestra há pouco mais de duas semanas e propositadamente para os poucos portugueses que se deslocaram até à Avenida da República. Nos períodos de debate, revelou uma comovente modéstia intelectual e o desejo sincero de partilhar as suas hesitações e insuficiências com todos os que o queriam ouvir.

Confesso que não sou grande entusiasta da orientação dos esforços intelectuais de Tugendhat, nem da sua proximidade com um contratualismo igualitário, mas ninguém pode duvidar de que nele se pode encontrar um confronto honesto e necessário com a grande questão que atravessa toda a sua reflexão: a justificação moral, de preferência Metaphysik frei. Na minha opinião, a ideia de uma moral "não autoritária" que se fundamenta exclusivamente pela universalidade, reciprocidade e simetria, não pode fazer justiça às diversas experiências morais. Mas a proposta de Tugendhat e especialmente as críticas de que ela resulta não deixam de merecer a mais genuína das atenções e a mais ponderada das respostas. A sabedoria amadurecida não tem direito a menos.

Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Três coisas que não se esquecem


(Ontem, fui ouvir George Steiner na Gulbenkian.)

O Professor Steiner chegou à pequena tribuna com os seus papéis sobraçados. Descobriu lá uma caneta esquecida por Rui Vilar, que tinha falado antes. Pegou na caneta. Não sem uma certa dificuldade, atravessou todo o palco e foi entregá-la a Vilar.

Contou-nos como, uma vez, inscrevendo e explicando uma série numérica num quadro, tinha conseguido fazer acordar (awake) a noção do infinito num grupo de crianças desfavorecidas. A noção do infinito.

Ao chegar à saída do Auditório, ainda me voltei. Vi o Professor de costas, desaparecendo já para trás do palco.

Carta para comprar um banco

Se alguém precisar de uma minuta de carta a propor a compra de um banco -nunca se sabe o futuro- aqui fica esta. Leitura interessante para o fim-de-semana, com várias mensagens subliminares. Uma lição em sete páginas sobre como comprar um banco sem gastar de dinheiro.

Comentário assassino para Santana

«Com Santana Lopes, Sócrates vai ter um interlocutor no Parlamento do seu nível político e intelectual»
Campos e Cunha, ex-Ministro das Finanças de Sócrates, hoje no Público

Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Scoring

De uma conversa antiga, citando de memória e traduzindo:

«A razão pela qual vocês portugueses têm menos menos sexo é porque não conseguem fazer o que eu faço. Sabendo que tenho uma taxa de sucesso com as mulheres de aproximadamente 10%, quando entro num bar selecciono 10 ou 15 mulheres com quem acho que posso ter sucesso. Vou à primeira e ela diz não. Vou à segunda e ela diz não. Vou à terceira e assim sucessivamente. Sei que, tendencialmente, uma vai dizer que sim. É tudo uma questão de resistência psicológica. Vocês portugueses entram num bar, escolhem a mulher que preferem, têm de beber 5 cervejas para ir falar com ela, e se ela diz não vão chorar para casa.»

(Nota técnica: declara-se para os devidos efeitos que os "portugueses" era uma generalização. No Cachimbo só se aceitam bloggers com altos índices de rendimento)

Ainda a Deselitização

Uma sociedade moderna, rica e ágil gera fenómenos como Michael Bloomberg, possibilitando a alguém que cresceu nos subúrbios do Boston (Mystic River) tenha acesso a formação superior, a um mercado de trabalho bem remunerado enquadrado numa estrutura de mercado global ágil e numa cultura de risco, trabalho e mérito. Em que se pode criar um império que se expande e demonstra a sua valia a nível global, bem longe dos arranjos e proteccionismos locais (neste caso inexistentes). E em que se faz isto tudo bem antes de soprar as 60 velas, porque quando se está a chegar perto dos 60 talvez seja a altura para se participar na vida política e ser-se eleito Mayor de Nova Iorque, para continuar gostar do que se faz, ser-se reeleito e ainda estar a tempo de ponderar uma candidatura à Presidência do país.

Um mercado rígido, burocratizado e relativamente pobre será não só mais lento como não conseguirá gerar consistentemente fenómenos como Bloomberg ou outros. É também a natureza do nosso mercado que explica a deselitização que o PPD-PSD vive. Comparativamente a outros e melhores mercados há menos pessoas, há menos dinheiro, há menos tempo.

E isso não se admite (aos outros)

Uma das críticas comuns às últimas eleições directas no PPD-PSD relaciona-se com a ausência de alternativas no boletim de voto. Alegadamente existiria um conjunto de pessoas que estaria em condições (o que quer que isso queira dizer) de gerar candidaturas e alargar o portfolio da escolha. Estas pessoas terão pensado, telefonado, reunido e decidido pela não candidatura, surgindo o tal pecado capital. Na blogosfera, nos jornais, nas televisões e nos cafés surgiram todo o tipo de adjectivos, em quantidade e em força, como aliás é tradição, sobretudo a seguir aos acontecimentos e sobre os vencidos. Nessas alturas os observadores são todos muito bons e não têm receio de ser peremptórios. Mas há algo de doentio nesta pequena crueldade, neste prazer sádico que esta "opinião" retira da miséria alheia. Qualquer coisa mal resolvida. As críticas substantivas são livres e bem-vindas, mas o tom de quem se coloca num pequeno Olimpo opinativo requere aquilo que os anglo-saxónicos designam de "moral high ground". E quais são então as credenciais da turba linchadora? Um batalhão de jornalistas, académicos, profissionais diversos que trabalham para organizações propriedade do estado ou de outros privados. Pessoas cujos rendimentos ou são retirados do bolso do contribuinte para o seu ou derivam de troca de valor de capital humano com organizações idealizadas maioritariamente por outros, que então os incorporam mas em que a componente risco assumida é profundamente desequilibrada para o lado do accionista, para não dizer mesmo na sua totalidade. A turba linchadora olha para o mercado em que se situa e tem uma de duas hipóteses, arriscar e inovar liderando o seu projecto, ou observar com cuidado os players e tentar integrar-se num deles. Qual a percentagem da turba que opta pela primeira?

Diz-se que política e negócios são mundos distintos, mas por acaso as pessoas são as mesmas, e o seu padrão de decisão é transversal (excepto para quem tenha personalidades múltiplas). Infelizmente, como se viu, o partido reflectiu o país também naquilo que são os seus defeitos: a fuga ao risco, ao confronto, à exposição, a dificuldade em distinguir derrotas de Derrota e encarar as primeiras como passo incontornável na vida. O resultado desta matriz no partido é o que sê. No país também, e o que a turba esquece ou pretende dissimular é que a crítica que faz é a ela própria. Como diria o Doutor Soares, não é bonito. As pessoas devem ser condescendentes com os seus semelhantes.

Da Série "Grandes Dúvidas"

O que faz António Vitorino na RTP1 (às segundas-feiras)? Agora que o governo de Santana Lopes já caíu, e que já ninguém se lembra daquela treta da "ausência de contraditório", não se poderá regressar a alguma sobriedade?

Bastonário dos Médicos arrasa Ministro da Saúde

A propósito da tentativa do Ministério da Saúde impor à Ordem dos Médicos a alteração dos seus padrões éticos -Código Deontológico- relativamente à defesa da vida humana, oiçam isto na TSF que vale a pena.

Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Os pobres

Gonçalo, tens razão: a pobreza, que entrou "lá em casa" pela mão do Prós e Contras de anteontem, não deveria ser-nos indiferente. Curiosamente, dá-se uma volta pela blogosfera, sempre tão atenta e opinativa, e nada se diz sobre isto*. O silêncio, porém, não se deve apenas à superficialidade do meio, mas à maior invisibilidade do tema. Ou, melhor, a uma mudança na sua aparência. O pobre que morre de fome, o pobre bíblico, o Lázaro da parábola já quase não existe na sociedade portuguesa - felizmente. Lembro-me de ouvir contar que os meus bisavós, proprietários de uma casa agrícola que podia considerra-se rica no Sotavento algarvio, abriam todos os sábados de manhã o celeiro da quinta aos pobres das redondezas, sobretudo os pescadores de Montegordo, os mais miseráveis dos miseráveis. Essa pobreza está hoje à beira da extinção, graças a Deus, ao turismo e à assistência social (e essa riqueza também, diga-se de passagem). Ainda existem bolsas de pobreza nos bairros de lata de Lisboa, nas "ilhas" do Porto, nas comunidades de pescadores (sempre os pescadores...) da Madeira e dos Açores - como Rabo de Peixe, estatisticamente a freguesia mais carenciada do país - mas o perfil do pobre, perdoe-se-me o sociologismo, mudou.
Hoje, os indigentes nos países desenvolvidos, entre os quais Portugal se conta, não são na maioria pessoas que tenham nascido na pobreza, mas pessoas que caíram na pobreza: toxicodependentes, mães solteiras, famílias monoparentais, desempregados de longa duração, incluindo os imigrantes, velhos e deficientes abandonados. São o fruto amargo da broken society, uma sociedade que aumentou o nível de vida para todos, mas criou também novos excluídos pela erosão dos laços sociais.
Dei-me conta disso, há muitos anos, quando comecei a fazer voluntariado na Musgueira, um bairro da capital entretanto demolido. As condições eram as típicas de qualquer aglomerado de barracas: caixas de chapa, todos clandestinas, minúsculas, apertadas, quase sem divisões, sem privacidade (dentro e fora), sem electricidade, a não ser através de uma ligação directa aos postes da EDP, e sem água canalizada, o que provocava o cheiro que se imagina, ou talvez não, porque nunca se imagina antes de lá entar. Eram raras, raríssimas, as que tinham casa-de-banho. Eram ainda mais raras as que não tinham uma antena parabólica. Aquelas pessoas, que viviam pior do que muitos animais, tinham falta de tudo, mas não de uma televisão. Preferiam a MTV à água canalizada. Não as critico. Foi uma grande lição para mim, aos 15 ou 16 anos, ver que a pobreza não estava tanto na falta de bens, mas na falta de consciência da própria dignidade.
O que significa que a pobreza já não é um problema assistencial, mas um problema cultural e social no sentido mais amplo. O combate à pobreza não passa só pela acção distributiva do Estado, das Misericórdias ou de instituções de solidariedade privada como o muito louvável Banco Alimentar. Isso é ainda necessário nos casos mais graves, sem dúvida. Mas a urgência principal talvez esteja em políticas que reforcem a liberdade e a responsabilidade dos pais, das familias, das escolas, das associações voluntárias, das comunidades intermédias em que Burke e Tocqueville viam palpitar uma sociedade de homens capazes de tomar o próprio destino nas mãos.
Combater a pobreza é lutar pela liberdade e pela qualidade de ensino. Aquilo de que precisa uma criança da Musgueira não é de ir obrigatoriamente para a escola mais próxima, onde todos os colegas têm as mesmas expectativas, ou seja nenhumas, e professores muito progressistas valorizam os seus "saberes" alternativos, sem lhe ensinarem o Português e a Matemática indispensáveis no mercado de trabalho. Português e Matemática que os filhos da classe média aprendem em melhores escolas, públicas ou privadas, porque os pais fazem um enorme esforço financeiro ou sabem preencher papéis com a morada certa.
Combater a pobreza é não facilitar a ruptura familiar através de leis bem intencionadas, mas perigosas, como o "divórcio na hora". Para além de todas as consequências que o divórcio tem na vida de cada um, e que nunca são agradáveis, o fim do casamento é uma das causas mais seguras de pobreza para a mulher, que fica geralmente com os filhos a cargo sem ter o mesmo apoio económico do marido.
Combater a pobreza é passar claramente a mensagem de que a droga é um mal porque destrói um de nós, e não apenas uma questão sanitária que só diz respeito ao "direito ao corpo" do próprio. Podemos diminuir a incidência da SIDA distribuindo seringas nas prisões, mas não será isso, bem pelo contrário, o que vai diminuir o consumo nas ruas.
Combater a pobreza é incentivar as famílias com parentes mais velhos a cuidar deles em casa, deduzindo nos impostos o que gastariam com eles num asilo ou nos muitos cuidados de saúde que teriam de garantir se eles vivessem sós.
Os exemplos poderiam multiplicar-se e tu conheces por certo muitos outros. A pobreza tem muitos rostos, mas, quando a olhamos de frente, é sempre um reflexo do que somos e do que queremos ser.
*Adenda: Informam-me, entretanto, que o Blasfémias tem dois posts sobre o assunto. Fui ver e tem mesmo, mas são um bocadinho ao lado. A excepção confirma a regra.

Da série "Melões de cá"

Lewis John Rhead, Rugby Football as Played at Rugby School (s.d.)

Uma nova constituição para Portugal? (II)

Como interpretar a “nova constituição” de que fala Menezes?
Vou dar o benefício da dúvida ao novo líder do PSD. Talvez ele quisesse apenas provocar um “abanão” constitucional para iniciar o debate sobre a revisão “ordinária” de 2009.
Em qualquer caso, aqui ficam as minhas propostas de revisão constitucional.
A principal alteração seria introduzir a subsidariedade. O Estado só poderia intervir no plano económico, social e cultural quando fosse mais eficaz do que as entidades intermédias: autarquias locais, empresas, etc. A introdução deste critério constitucional, que já existe a nível europeu, levaria o Estado a concentrar-se nas funções de soberania, dando espaço à iniciativa privada e à sociedade civil. Teríamos, tendencialmente, um Estado mais pequeno, descentralizado e eficiente.
Na constituição económica, defendo a eliminação de certas disposições anacrónicas como a proibição dos latifúndios, as organizações de moradores, a economia planificada (políticas agrícola, comercial e industrial) e as referências à “gratuitidade” dos serviços públicos, que têm impedido reformas na área da saúde e da educação.
No plano político, deveria desaparecer a regionalização, recusada no referendo de 1998, e acabar o monopólio dos partidos políticos nas candidaturas à Assembleia da República. Sobre o Tribunal Constitucional parecem excessivas as críticas de Menezes. Seria um erro a integração no Supremo Tribunal de Justiça.
Na área social, eliminar a obrigação do Estado promover o “pleno emprego” (art. 58.º) e a garantia de “segurança no emprego” (art. 53.º) que têm conduzido, na prática, à generalização dos contratos a prazo e a um elevado desemprego em Portugal.
Mas quero aqui afirmar com toda a clareza: Portugal não tem um problema constitucional, nem sofre de ingovernabilidade. É um erro considerar que o atraso nacional se deve ao sistema político. Ou que a solução dos nossos problemas está em mudar a constituição. Como diria Menezes, os portugueses não comem constituições. Esse seria o caminho mais fácil mas errado. Espero que o PSD não vá por aí.

Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Da série "Melões de cá"

George Barbier, "Rugby", in La Gazette du Bon Ton (1914 )

Uma nova constituição para Portugal?

Menezes lançou o mote no final do Congresso do PSD: Portugal precisa de uma “nova constituição”. Quando ouvi esta ideia veio-me logo à cabeça uma frase bem ao estilo do novo líder do PSD: os portugueses não comem constituições. O que é verdade. Mas ultrapassado o sound-byte, o tema torna-se sério e merece reflexão.
Mudar de constituição implica uma ruptura com o sistema vigente. Rever a constituição, pelo contrário, consiste em alterar parcialmente mas sem alterar o regime fundamental. O que será que quer Menezes? Aderiu às teses de Jardim sobre o fim da III República logo agora que a coisa vai fazer um século? Pretende um sistema presidencialista quando fala de mais poderes para o chefe de Estado?

A Constituição de 1976 é muito portuguesa nas suas virtudes e defeitos. É pós-revolucionária por resultar da tensões pós-Abril, o que explica os compromissos que tem dentro de si. Não é socialista, mas também não é liberal, com uma extensa lista de direitos económicos, sociais e culturais. Não é presidencialista, sem ser totalmente parlamentar, concentrando largos poderes no primeiro-ministro. Combina a unidade do Estado com autonomia local e regionalização. É justo reconhecer, apesar de tudo, que o sistema tem funcionado, existindo um certo equilíbrio entre os poderes constituídos.

Depois de sete revisões constitucionais, a última em 2005 para permitir um referendo europeu -que tudo indica já não se vai realizar- o texto actual é muito diferente do original. Desapareceu grande parte da ganga ideológica, com excepção do Preâmbulo que fala ainda do “caminho para a sociedade socialista” e de certas partes da constituição económica.

Momentos houve em que o programa de um determinado governo se mostrou incompatível com a lei fundamental. Aconteceu com o primeiro governo maioritário de Cavaco Silva (1987), o que levou à profunda revisão constitucional de 1989, sobretudo na área económica e privatizações. Podemos hoje afirmar que existe um certo consenso constitucional entre os maiores partidos. Como interpretar então a “nova Constituição” de que fala Menezes?
(continua)

A sorridência


Sou isto mesmo: um novato no universo dos blogs.
Não obstante, tenho passado - desde há meses para cá - alguns largos momentos a navegar pela escrita imensa, vocacionada para todos os gostos, feitios e tendências, que imensamente é descarregada, todos os dias, neste multifacetado universo.
Faço-o, visitando os blogs identificados quer à direita, quer à esquerda do nosso espectro político, sem deixar de lado aqueles que se dedicam à poesia e visitando até aqueles que se assumem mais vocacionados para frivolidades e banalidades avulsas. Tenho passeado por muitos dos que são mais referenciados nesta "nossa" comunidade.
Julgo ter, por isso, uma ideia - pelo menos inicial - do que é, para que vive, o que serve e a que se destina este mundo.
Acabo de ver os momentos finais do programa "Prós e Contras", dedicado ao tema da pobreza.
Só por impossibilidade absoluta não o vi na íntegra. Espero conseguir vê-lo em breve.
De qualquer modo, ainda fui a tempo de assistir à discussão acerca da luta contra a fome e da luta contra a pobreza. Do primeiro caso, ainda ouvi falar do Banco Alimentar. Iniciativa louvável, para a qual tenho dado o meu modesto contributo. Do segundo, ouvi dizer que estamos "no bom caminho".
Mantenho a pergunta: qual caminho?
Porque é que no nosso país, concentrado no défice, na inovação, na competitividade, no Scolari, nas escutas, nos Mc Cann, nos Congressos, nas Aparições, nas bancadas parlamentares e no centenário da república, não há um conjunto de almas que exijam que a questão da pobreza em Portugal seja tirada a limpo?
Mantenho a pergunta que já fiz: isto é coisa de líricos?
Será que, viajando pela comunidade de estridentes posts e de agradecidos coments, é suposto continuar a assistir a uma esquerda bloguística entretida à cata de deslises da Mª José Nogueira Pinto, de L F Menezes, de PS Lopes ou da Igreja Católica e à bloguística direita ocupada a bater no José Miguel Júdice, no diploma do PM, nos impostos que não baixam, nos impostos que não devem baixar (aqui varia...), no Referendo que não vai haver ou na responsabilização dos pais pelas faltas escolares dos filhos?
Tudo isto será relevante, com a relevância que lhe dará cada qual.
Acontece que voltei a dar de caras com a problemática da pobreza no meu país, agora na RTP, em prime-time.
Revisitando os mil sorrisos interiores, divididos entre quem posta e quem comenta, viajarei pelo universo imenso dos blogs nacionais, amanhã, por esta hora.
E então verei, de uma vez por todas, onde vim parar.

Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Da série "Posta restante"

"Em Portugal nunca se referendou o projecto europeu. Enquanto europeísta, lamento o facto, que dá argumentso aos eurocépticos. Pior: o receio da opinião dos cidadãos por parte dos políticos europeus leva ao presente processo de dissimulação e engano. Ou seja, os políticos ainda não perceberam o maior problema actual da construção europeia: o crescente afastamento das opiniões públicas face à integração."

Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 22/10/07

Crónicas do planeta oval (16)

E quando todos esperavam que Wilkinson voltasse a ser o D. Sebastião britânico no nevoeiro da final, foi o jovem Mathew Tait, com duas trocas de pés de se lhe tirar o chapéu de coco, quem abriu uma auto-estrada na defesa sul-africana, mais impenetrável que o Kalahari às três da tarde, e ofereceu o ensaio a Mark Cueto. Ensaio mal anulado, atrevo-me a dizer.

Foi o momento do jogo. Já li que foi um roubo e a história teria sido diferente se etc e tal, mas não exageremos. O ensaio foi mesmo à pontinha, nada nos garante que Wilkinson o convertesse (era o pior lado para o seu pé canhoto) e convém lembrar que, logo a seguir, o mesmo Wilkinson marcou uma penalidade. Ou seja, em vez de cinco pontos, os ingleses conseguiram três. Não altera muito o resultado de 15-6.

A verdade verdadinha, e sem história virtual, é que os springboks dominaram do princípio ao fim. Como aconteceu durante todo o torneio. Podem não ter deslumbrado, mas cometeram poucos erros (a arrancada de Tait foi quase o seu único lapso defensivo) e aproveitaram muito bem os erros dos outros. E sejamos sinceros - ninguém acreditava realmente na vitória dos bifes, pois não?

Vejam-se os três duelos particulares que decidiram o jogo, como aliás se previa.

O confronto dos avançados foi terrível, mas os sul-africanos foram superiores. Ganharam sete alinhamentos dos adversários (sete!), foram impiedosos no contacto (o número de baixas inglesas não é um acaso) e conseguiram-no fazendo menos faltas.

O que nos leva ao segundo duelo. Wilkinson teve duas oportunidades para usar o pontapé colocado e não as desperdiçou. Já os chutadores austrais tiveram seis: Montgomery marcou quatro, Steyn uma e ainda deu para falharem outra. Ou seja, o número 10 da rosa esteve melhor, mas o seu pack fez o triplo das faltas.
Não se pode dizer o mesmo do terceiro duelo, o que se travou entre ele e os asas springboks. Posso confessar agora, sem me acusarem de incitamento à violência, o receio de que Burger ou Smith aplicassem ao abertura-maravilha uma receita bem conhecida: a carga fora de tempo. Também o treinador inglês deve ter tido semelhante pesadelo porque poupou Wilkinson em várias jogadas, fazendo-o recuar para o lugar de Mike Catt. Coincidência ou não, Catt saiu lesionado na segunda parte... E das duas vezes que o mago Wilko, no seu lugar regimental, tentou o drop - falhou. É possível que algures, na sua cabeça de estratega, o fantasma do trio verde tenha tido algum efeito nocivo. Seja como for, o herói de há quatro anos não repetiu o feito. Também por aqui se pode ver como os sul-africanos são bons.
Muito bons, mesmo. Atacam cada bola, fazem cada placagem, conquistam cada palmo de terreno como se disso dependesse a salvação do povo boer (e talvez dependa). Ao mesmo tempo, são de uma frieza nórdica, de uma ausência de estados de alma, de uma constância no esforço que devem ter herdado de huguenotes e orangistas. Há equipas que jogam com a mesma paixão: a Nova Zelândia, a Argentina, a França, as Fiji, Gales, a Irlanda. Outras, não muitas, aproximam-se na inteligência: a Inglaterra e a Austrália. Mas nenhuma soube, durante o passado mês e meio, conciliar como eles o apocalipse e o organigrama. Se eu quisesse dar uma de Max Weber de sofá, diria que é esta mistura de intensidade africana e disciplina calvinista que faz o imperial domínio de um conjunto sem vedetas. Têm Habana, é certo, mas podem dar-se ao supremo luxo de não precisarem de Habana para vencer, ao contrário da Inglaterra wikinsondependente.
E o ábitro era irlandês. Estavam à espera de quê?

O Bush não conta

O meu amigo Duarte chamou-me a atenção para o tratamento dos jornais portugueses à recepção de Bush ao Dalai Lama na Casa Branca: grandes aplausos para o líder tibetano –com direito a setinha para cima no Público– mas ninguém se lembrou de louvar a coragem do presidente americano ao enfrentar a fúria chinesa. Bush esteve também no Capitólio para participar na cerimónia de atribuição da medalha de ouro do Congresso norte-americano ao líder tibetano. Recordo aqui, em contraste, a cobardia realpolitik do governo português. Mas o Bush não conta, claro, é dos maus.

Domingo, 21 de Outubro de 2007

O Império Europeu (2)

Anónimo (b), é interessante o que dizes acerca de Berlim, cidade que conheço mal. Mas não vejo que contrarie o segundo ponto. O Império romano teve durante muito tempo duas "capitais". Se, como sugeres, Londres e Berlim são as duas capitais "explícitas" da Europa, seria interessante aprofundar o paralelo: duas capitais, uma "ocidental", a outra "oriental" (na Mitteleuropa).
Londres e Berlim são como dizes "instrumentos de fuga", mas não só pela língua ou pela história. A dinâmica de atracção das duas cidades obedece a imperativos mais recentes. Basta ver o caso da comunidade emigrante francesa em Londres. O ponto é que a Europa pode ter duas (ou mais) capitais sem que isso contrarie o seu "espírito" imperial. Pelo contrário, reforça-o.
O centro político-burocrático da Europa é Bruxelas. Mas só imperativos logísticos (e financeiros) desaconselham a União a relocalizar a sua capital política. Contudo, é curioso verificar que Bruxelas situa-se numa "nação" que praticamente deixou de existir enquanto unidade política e (talvez) histórica. Por assim dizer, segundo a lógica imperial não há melhor lugar onde situar a capital política do que na desenraizada Bélgica, e, no interior da Bélgica, na cidade que não pode reivindicar grandes méritos turísticos. Os milhares de funcionários europeus que trabalham e vivem em Bruxelas também sentem essa fuga à nação. É algo que também os atrai.

O Império Europeu

Se for aceite a definição de império que salienta as seguintes características:
- um Estado sem limites ou fronteiras definidas a priori segundo os critérios de etnia, geografia ou unidade histórico-cultural;
- um Estado sem uma capital pré-estabelecida, nem um centro determinado pelos critérios acima enunciados, que sejam lugares de privilégio político;
- uma unidade que se pensa e justifica a si mesma nos seus próprios termos, e não segundo uma anterioridade histórica, cultural ou política;
.
então, não há melhor candidato a ser império do que a União Europeia.
Haverá algum artigo sobre isto no novo documento constitucional?

Sábado, 20 de Outubro de 2007

Uma curiosidade antropológica

Escher, Cisnes


Quando certas pessoas dizem disparates como estes aqui, não podemos deixar de ver isso como uma... curiosidade antropológica. Como sermos surpreendidos por uma variação estranha, porventura cómica, duma espécie.
Sentimos escândalo, porque partimos sempre do princípio que certas pessoas não podem nunca dizer certas coisas. Sentimos por elas algo como uma simpatia “teórica” ou mesmo “pessoal”, ou ainda um “respeito intelectual”. E esse sentimento (não passa de um sentimento) bloqueia desde logo a possibilidade sequer de elas pensarem coisas que tomamos como impensáveis, proibidas.
Umas vezes, essas expectativas negativas (ele nunca dirá isto) não são adequadas, não fazem sentido. Por exemplo, qual é o estudante de Heidegger que não experimenta, no mínimo, um desconforto ao vir a saber da militância política do filósofo nos anos trinta? Ou quando sabemos da atitude... pouco edificante de Newton para com Hooke? Tudo se passa como se um pensador, um “génio”, não pudesse de modo nenhum ser uma criatura pessoalmente pouco recomendável ou um adepto de ideologias criminosas. Mas pode. Porque não haveria de poder?

Não é esse o caso com James Watson. Acontece que ninguém pode dizer seriamente que “os negros são menos inteligentes do que os brancos”. É o tipo de parvoíces que, apesar de tudo, se podem ouvir, apiedadamente, de algumas pessoas. Mas não de outras.
Para lá dos problemas que levantam as expressões “mais” e “menos” aplicadas à qualidade “inteligente” (não é de todo o mesmo que dizer “este pau tem mais 10 cms de comprimento do que aquele”...), há ainda a questão de, com o artigo definido “os”, se reunir (confusamente) no mesmo saco um “grupo” de seres humanos, fazendo tábua rasa de toda a incrível e inabarcável complexidade de um único humano. “Os” negros, “os” brancos.

Que sentido tem, realmente, dizer-se: “os negros são menos inteligentes do que os brancos”? Mediu-se a inteligência de todos os Negros e comparou-se com a medida da inteligência de todos os Brancos? E amostras – há-as? Pode haver? Deve haver? Uma pesquisa que procure aferir se certos humanos preferem gelado de baunilha em contraste com outro grupo de humanos que prefere gelado de morango tem a mesma qualidade ética (trata-se de decência, aqui) que uma pesquisa que procurasse determinar se os Brancos são mais ou menos inteligentes do que os Negros?

Os brancos (muito brancos) louros suecos são mais ou menos inteligentes do que os morenos italianos? Um Lapão é mais inteligente do que um Cretense? Um Minhoto é menos inteligente do que um Algarvio? E, relativamente a “os” negros e a “os” brancos, que lugar ocupam no podium “os” amarelos? E que amarelos? Os Mongóis? Os Japoneses? E onde ficam os Australóides?
Os Árabes (que Árabes?) são mais cruéis do que os “outros”? Os Judeus (que Judeus?) são mais gananciosos do que os Gentios? Os Católicos são mais risonhos do que os Baptistas?
E que dizer da força científica da prova apresentada por Watson? – quem tem um empregado negro sabe que etc.

É possível que o descobridor da estrutura do ADN padeça duma espécie de confinamento do olhar. Não é o primeiro. Não será o último. Um olhar incrivelmente atento, perspicaz, a um determinado ponto. Mas que deixa literalmente de fora outras realidades. Outras verdades.

É também surpreendente que, no nosso blog vizinho, o 31 da Armada, Rodrigo Moita de Deus tenha comentado o episódio desta maneira. Equiparar (sim, é o que ele, na verdade, faz) uma mera opinião disparatada de um cientista com o trabalho científico de Copérnico é estranho, to say the least. Não quero ser injusto, mas parece haver aí uma espécie de fúria “liberal” que à mínima crítica a uma opinião “politicamente incorrecta” de alguém, dispara de imediato com a denúncia do obscurantismo que quer sufocar as verdades incómodas, etc, etc. Será um sintoma da autêntica doença infantil do liberalismo que grassa por muitos blogs.

Acontece que, muitas vezes, uma opinião “politicamente incorrecta” é, também, incorrecta tout court.

Crónicas do planeta oval (15)




A Argentina venceu ontem a França por 37-10 e ficou em terceiro lugar no Mundial de rugby. Nada a dizer. Os pumas foram superiores em toda a linha e provaram que a vitória da primeira fase não tinha sido um acaso. Bernard Laporte, o mister francês (os franceses também dizem mister?) insiste no tipo de jogo que tem dado vitórias aos outros - muito de avançados e pouco de três-quartos - , esquecendo o pormenor de que os seus avançados são piores do que os ingleses e os argentinos. E que só ganhou à Nova Zelândia porque os seus três-quartos marcaram um ensaio magnifique. Os naturais do hexágono têm esta qualidade histórico-depressiva de não aprender nada com as derrotas, mas ainda menos com as vitórias.

Ora o rugby gaulês precisa do que Sarkozy deu à direita: saber o que quer. O seu espírito está na finesse da nouvelle cuisine e não em pastelões contrários à cultura da tribo. Já ouço esta crítica desde que Jacques Fouroux, nos idos de 80, deu cabo de uma das mais notáveis linhas de três-quartos da história, pondo ao lado do fantástico Sella, e em lugar do discreto mas decisivo Charvet, um armário monotemático chamado Andrieu, célebre por tentar revolucionar o rugby jogando a primeiro centro como se fosse um pilar. Não deu resultado, claro.

Em 2007, o erro repete-se. É um sinal dos tempos que o maior símbolo da França não seja hoje um Blanco, ou mesmo um Rives, mas um troglodita de limitados recursos como Chabal. Ou que Dominici, um dos melhores pontas do mundo e um dos heróis de 99, tenha andado à deriva durante todo o torneio. Une drôle defaite, dizia-se em 1940.


E, com isto, chegámos ao big game: a final de logo à noite. Se os ingleses forem supersticiosos, começam mal. O jogo é exactamente no mesmo estádio onde, há meia dúzia de semanas, a África do Sul os humilhou por 36-0. Mas a história não vai necessariamente repetir-se porque agora têm Wilkinson.
É, aliás, à volta do "perfect number 10" que vão travar-se três dos duelos que vão decidir o duelo maior.
Um é o embate dos blocos de avançados, ambos fortíssimos. Será ganho pelo pack que cometer menos faltas, não dando ao chutador inimigo munições fatais.
Outro é a contabilidade entre os chutadores de um lado e de outro. Embora longe do seu melhor, Wilkinson parece mesmo assim melhor do que Montgomery - e pode sempre recorrer à ultima ratio regis: o seu drop vitorioso.
O último duelo, o menos visível e o mais interessante, trava-se entre Wilkinson e a terceira linha springbok, que irá carregar durante todo o jogo sobre o abertura inglês. Wilkinson vem de uma lesão e Shalk Burger e companhia não são propriamente placadores macios, como se pode ver na imagem supra (datada do tal encontro dos 36-0; a propósito, o pobre bife saiu a seguir). Mas se conseguir iludir a vigilância do temível trio, obrigando a África do Sul a sacrificar a mobilidade de que tem dado tão brilhante conta, a Inglaterra tem algumas hipóteses.
Remotas, muito remotas, mas tem.

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Vomitivo

Neste momento, contemplo, na RTP1, Esteves Martins entrevistando o primeiro-ministro.
Interroga-o numa voz quase doce, tom quase intimista...
E as perguntas parecem encomendadas, combinadas...
...

Estou mal disposto. Tenho que ir ali - já volto.

A parábola dos cegos

A cegueira continental dos burocratas que governam a Europa está resumida na frase que o Público atribui hoje a Jean-Claude Juncker, Primeiro-Ministro do Luxemburgo: "Haverá um acordo [sobre o novo tratado europeu] em Lisboa porque tem de haver um acordo em Lisboa".
Alguém me explica porque é que tem de haver um acordo?

Deborah Kerr (1921-2007)

Morreu Deborah Kerr e todos se lembram do seu beijo "From Here to Eternity", em parceria com Burt Lancaster .
A Deborah Kerr de que me recordo é outra: é a superiora do improvável convento perdido nos Himalaias de "Black Narcissus", lutando pela conversão dos bárbaros enquanto o mundo à sua volta se desmorona.
O melhor retrato de um conservador, talvez.

A mulher de César e tal

A propósito deste post, um comentador critica a "leviandade" com que acuso alguém de dívidas fiscais.

Vamos lá a ver. Sendo certo que todos temos direito à presunção de inocência, também é certo que não acusei ninguém de nada: limitei-me a repetir que houve uma penhora, aliás confirmada pelo próprio, alegadamente por dívidas fiscais.

Mas a questão não é essa - é a imagem do PSD. Parece-me falta de bom senso atribuir o cargo de vice-presidente da bancada parlamentar a uma pessoa que está sob esta suspeita concreta. Que autoridade terá o PSD para dizer que não se devem baixar os impostos, se ninguém acreditar que os seus deputados os pagam?

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Os Despojos da Aliança

Assim se chama o livro que o Pedro Aires Oliveira escreveu sobre a Inglaterra e a questão colonial portuguesa, e a Tinta da China teve o bom gosto de publicar. Será apresentado por Medeiros Ferreira amanhã, às 18 horas, na Casa Fernando Pessoa.
Segundo creio, trata-se da Tese de Doutoramento que este antigo barnabé defendeu recentemente. Sou amigo do Pedro há quase vinte anos (como o tempo passa...) e, portanto, suspeito. Mas garanto-vos que vale a pena espreitar.

Da série "A concorrência faz melhor"

Por distracção, quase me esquecia de assinalar este post-artigo de Rui Ramos sobre o 5 de Outubro.
Está lá tudo, é só ler.

Memória de Adriano

Já sei que o camarada Van Zeller e os direitistas de passagem me vão bater, mas paciência: gosto muito do Adriano Correia de Oliveira. E houve um tempo em que ainda gostava mais, o tempo em que toda a gente ouvia Pink Floyd, Dire Straits e - nos casos perdidos - Mike Oldfield, enquanto eu dedicava tardes inteiras ao Adriano, ao Zeca e ao Vitorino. Uma adolecência rebelde, como vêem.
Quando, no Natal e no Verão, se reuniam as metades conservadora e revolucionária da família, falávamos de música. Uma das minhas tias tinha sido do GAC e amiga do Zé Mário Branco. Um outro tio fundara a UDP em Portalegre e guardava com desvelo os discos do Giacometti, verdadeiros mitos em sacos de serapilheira. A minha avó pertencera à Acção Católica e colaborara com o Almirante Tenreiro na assistência aos pescadores algarvios. O meu pai, depois de trabalhar com Menéres Pimentel no Ministério da Justiça, chegara à Direcção da PJ a tempo de engavetar os FPs.
À mesa de família, a política era um tema tabu.
Falar de música era um acto de duplo amor: à arte e aos outros.
Além de que, um quarto de século depois, nenhum de nós tem de se envergonhar de pretéritos afectos ao Oldfield e companhia.

Orfeu ao pequeno-almoço


Para os meus filhos, o iogurte líquido é "iogurte lírico".
Mistérios.
(De certeza que o Chesterton explica.)

As deselites (2)

Hoje, na mesma página, o Público traz duas notícias que mostram o estado a que chegou o PSD.
Cá em cima, ficamos a saber que um dos candidatos a vice-presidente da bancada parlamentar viu penhorado o seu salário de deputado por dívidas fiscais. Um terço do seu salário, mais propriamente, o máximo permitido por lei.
Mais abaixo, diz-se da briosa iniciativa de um militante de Braga que apresentou queixa contra Pacheco Pereira no Conselho de Jurisdição Nacional. Motivo? O símbolo do PSD, que apareceu de pernas para o ar no Abrupto.
Preparem-se.
Isto é só o princípio...

Marca Portugal

Caríssimos estou de volta!
Neste primeiro post da minha rentrée faço uma pequena "sinergia" com o meu blog sobre livros, onde coloquei uma vídeo entrevista com Henrique Agostinho, autor que acaba de lançar "Vende-se Portugal". Um livro polémico que fala sobre um tema de enorme importância para o nosso País: A Marca Portugal.Concordando ou não com a visão crítica do autor vale a pena pensar no assunto... (ainda para mais tendo em conta as válidas iniciativas do Governo, que têm sido noticiadas nas últimas semanas)
Ora veja.

Reforma institucional do corte e costura


Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Regresso ao passado


Tudo aponta para que mais de 90% da bancada do PSD vote em Pedro Santana Lopes para líder parlamentar. Já sei que estes deputados foram escolhidos por Santana e que, em princípio, não vão existir outros candidatos. Mas isto não deixa de ser um erro colossal, apesar dos dotes oratórios e mediáticos do menino guerreiro.
Santana Lopes andava por aí, embora o julgássemos morto e enterrado. Esta será a sua grande oportunidade para se reabilitar politicamente. Talvez seja mesmo o primeiro passo para uma nova caminhada para a liderança. Em qualquer caso, é um regresso ao passado do qual discordo profundamente.
Só vejo uma vantagem: vamos perceber rapidamente que as semelhanças entre Luís Filipe Menezes Lopes -não é gralha- e Pedro Santana Lopes não estão apenas no nome.

Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

Leopardos

O Pedro Mexia e o Pedro Lomba voltam ao comentário político em blogue. E já lá têm um post sobre a nova Constituição do Dr. Menezes...

As deselites

Manel, concordo no essencial com a tua análise da "deselitização" do PSD. A ausência dos notáveis em parte incerta, ou demasiado certa, não será mais do que fruto da vitória dos ideais pelos quais o partido lutou durante anos. Temos a liberdade, temos a democracia, temos a Europa: a urgência da política não é hoje tão grande como no tempo da real ameaça do socialismo real.
Mas isso não significa que o PSD tenha chegado ao "fim da história". Tal como Fukuyama não previu a ameaça islâmica, o PSD está hoje perante uma ameaça imprevista: a perda de identidade.
Esta ameaça nasce de dois mitos. O primeiro é o de que o PSD não tem ideologia. O segundo é o de que foram as "bases" que elegeram Menezes. Os dois estão relacionados.
O PSD teve, desde o início, uma identidade ideológica clara. Reformista sem ser fracturante, institucional sem ser reaccionário, interclassista sem ser igualitário, foi na prática o verdadeiro partido conservador que Portugal nunca teve. Foi o lugar natural da direita democrática, a trincheira das liberdades individuais contra o socialismo revolucionário, da sociedade civil contra o Estado, do direito de propriedade contra as nacionalizações, da iniciativa privada contra os monopólios, do regime parlamentar contra a tutela das Forças Armadas.
Daí o seu perfil sociológico. Enquanto o PS era um partido urbano, o PCP um partido regional e o CDS um partido de quadros, o PSD tinha uma natureza transversal à sociedade portuguesa. Era as "elites" de Lisboa e Porto, das quais tanto se fala agora, mas também os notáveis da província herdados da União Nacional. Era a "ala liberal", mas também os cada vez mais numerosos empresários gerados pelo crescimento económico do marcelismo. Era os católicos que queriam uma mudança, mas também os republicanos que não queriam outra ditadura. Era todas as formas e feitios da classe média, a verdadeira coluna vertebral das democracias. As suas "bases" eram o melhor de Portugal nos anos 70 e 80.
Não foram essas "bases" que elegeram Menezes. Por uma razão muito simples: como tu dizes, essas "bases" foram-se embora. O sucesso do cavaquismo dispensou-as da política. As "bases" que elegeram Menezes são os que ficaram porque não tinham para onde ir. Não tinham e não têm existência social, profissional e (quase me atrevo a dizer) pessoal fora da carreira partidária. O seu mundo é o partido - ou aquilo que fazem do partido: quotas, listas, lugares, dinheiros, golpes, bastidores, denúncias, intrigas e a ânsia incontrolável de voltar ao poder a todo o custo. Não têm memória, não têm ideias e não têm uma visão do país porque estão demasiado ocupados a vigiar-se uns aos outros.
São as deselites.
A campanha das directas mostrou-as em todo o seu esplendor. Até voltar ao poder - a todo o custo, repito -, o PSD será uma permanente noite das facas longas. Mas se Menezes chegar um dia a S. Bento, por um qualquer castigo divino que a Providência tenha por bem enviar-nos, então será pior ainda. Será como no santanismo, mas um degrau abaixo.
Não sei se o PSD sobreviverá. Tal como o conhecemos, quero dizer.

Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Mechanism Design Theory for Dummies

No Portfolio.com:

«This Nobel prize is exactly the sort of thing that journalists have nightmares about. They wake up early, and read a citation from the Royal Swedish Academy of Sciences giving the Economics prize to three economists they've never heard of, for helping to develop an entire discipline – mechanism design theory – that they've also never heard of. And so if I were you I'd leave the MSM alone and head straight over to Marginal Revolution»

No MR uma tentativa de resumo: Mechanism Design for Grandma

Lá e cá

Da Venezuela continuam a chegar notícias curiosas. Segundo o Público de hoje, Hugo Chávez quer rever a Constituição para impedir a "acumulação de riqueza" e construir "o socialismo do século XXI". O projecto implica, disse ele há uma semana, "a socialização dos meios de produção, da propriedade pessoal, da propriedade familiar, da pequena propriedade privada, da pequena empresa, da média empresa, em função do socialismo e dos interesses sociais". Boas intenções, já se sabe.
Para os portugueses, a canhestra retórica é facilmente reconhecível. Desde o PREC.
Já agora, talvez se possa perguntar ao Daniel Oliveira, que inclui Chávez entre os grandes democratas da América Latina, se é esta a democracia que defende.
Lá e cá.

No aniversário de Agustina

"A condessa fez um trejeito duro, logo desvanecido de autoridade. Depois riu-se. Ela não sabia já qual a sua própria idade; voluntariamente fora perdendo a memória dela, e acontecia-lhe gozar uma espécie de tranquilidade momentânea, o retardar duma lei amarga, tendo a impressão algo desesperada de que retinha em si o tempo e que o iludia."

Agustina Bessa Luís, A Sibila (1953)

Crónicas do Planeta Oval (14)

Nem chegou a haver suspense. A África do Sul venceu a Argentina sem apelo nem agravo por 37-13. Os springboks devoraram os pumas. A savana ganhou à pampa. O canto zulu soou mais alto do que o tango. Calvino fulminou Gardel. Tolkien foi melhor que Borges. (Não, esta não... Nota-se muito que estou entusiasmado?)

Depois do susto com as Fiji, os sul-africanos vinham com a lição bem aprendida: marcar cedo e controlar o jogo. E nem sequer tiveram de se aplicar muito. Os argentinos fizeram o favor de cometer erros sobre erros, oferecendo duas perdas de bola em zona proibida e duas intercepções de palmatória de que resultaram os quatro ensaios das gazelas austrais. Brian Habana marcou dois, o primeiro um clássico de belo efeito, e tornou-se o jogador com mais ensaios no torneio (oito). Dá-me particular alegria ver que um negro se prepara para ser o herói nacional do rugby afrikaner. Nem o dia sim do loiro Montgomery, que converteu quase tudo o que havia a converter e é agora o melhor marcador, lhe fará sombra.
Tal como se previa, a África do Sul não fez um jogo brilhante, mas foi brilhante a aproveitar os erros do adversário. É certo que fechou muito o jogo, que se esqueceu de fazer circular a bola até aos pontas, que os centros procuraram sistematicamente o contacto para criar um novo ponto de fixação quando a bola não era jogada ao pé - em suma, que não jogou bonito.
Tudo somado, porém, os springboks marcaram sempre quatro ou cinco ensaios e mais de 35 pontos contra as grandes equipas (já nem falo das outras). O que lhes falta em técnica, sobra-lhes em maturidade táctica e condição física. Não têm quebras durante os oitenta minutos, sabem impor o seu ritmo e ainda aceleram quando é preciso. Não foi por acaso que engoliram com tão aparente facilidade ossos bem duros de roer como a Inglaterra, as Fiji e a Argentina. Quer-me parecer que, no Domingo, vão levar a taça William Webb Ellis para casa.
A final vai ser um jogo feio, táctico e ferozmente repartido entre os avançados e os chutadores. Os africanos apresentam-se como favoritos, até porque já deram uma valente coça à Inglaterra na primeira fase. Será outra vez uma espécie de vingança da Guerra dos Boers, mas sem nenhum jovem Churchill para escrever a história a favor dos britânicos. A menos que Wilkinson revele, de novo, que os semideuses têm um destino à parte...

Nortistas, basistas e socialistas

Graças ao célebre "acordo institucional" entre Menezes e Santana, tudo indica que o menino-guerreiro será o próximo líder parlamentar do PSD.
O Governo agradece.
Agora, de cada vez que o maior partido da oposição criticar as políticas de Sócrates, qualquer subsecretário de Estado poderá brilhar lembrando os tempos da incubadora.

Rafting, paintball e bungee jumping

Na Sexta, Menezes disse que queria atirar a Constituição borda fora.
No Sábado, convidou em público Manuela Ferreira Leite para um cargo de confiança política.
No Domingo, atou a bancada parlamentar a Santana Lopes.
Não sei se o PSD está preparado para tanto desporto radical.

Trio de Ataque III

Quando vi os nomes sobre quem recaiu o "Nobel" da Economia pensei exactamente este excerto que o Tyler Cowen escreveu: "Good luck reporters!". De facto, "these guys are smart, smart, smart," e "none of them are easy to explain to your grandmother". Não sei se a blogosfera "económica" se vai envolver na discussão, este é um osso algo duro de roer, mas também por isso ela poderia acrescentar algo ao relativamente desinterressante comentário tradicional nos media portugueses. Vamos ver o que é que se pode arranjar, pelo sim pelo não na RTable há já muito por onde começar.

Trio de Ataque II

Roger B. Myerson (Chicago), Eric S. Maskin (Princeton) e Leonid Hurwicz (Minnesota).

The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2007:

«The design of economic institutions

Adam Smith's classical metaphor of the invisible hand refers to how the market, under ideal conditions, ensures an efficient allocation of scarce resources. But in practice conditions are usually not ideal; for example, competition is not completely free, consumers are not perfectly informed and privately desirable production and consumption may generate social costs and benefits. Furthermore, many transactions do not take place in open markets but within firms, in bargaining between individuals or interest groups and under a host of other institutional arrangements. How well do different such institutions, or allocation mechanisms, perform? What is the optimal mechanism to reach a certain goal, such as social welfare or private profit? Is government regulation called for, and if so, how is it best designed?

These questions are difficult, particularly since information about individual preferences and available production technologies is usually dispersed among many actors who may use their private information to further their own interests. Mechanism design theory, initiated by Leonid Hurwicz and further developed by Eric Maskin and Roger Myerson, has greatly enhanced our understanding of the properties of optimal allocation mechanisms in such situations, accounting for individuals' incentives and private information. The theory allows us to distinguish situations in which markets work well from those in which they do not. It has helped economists identify efficient trading mechanisms, regulation schemes and voting procedures. Today, mechanism design theory plays a central role in many areas of economics and parts of political science

Mais, aqui.

Domingo, 14 de Outubro de 2007

Crónicas do Planeta Oval (13)

Há uma Inglaterra sem Wilkinson e outra com ele. A primeira é a que se arrastou pela fase de grupos, chegando a perder por 36 secos com a África do Sul, e a segunda é a que eliminou sucessivamente as favoritas Austrália e França para chegar à final. Wilkinson rules. Ontem, a pátria do rugby voltou vencer a Guerra dos Cem Anos graças ao seu pezinho mágico. O resultado de 14-9 sugere que a diferença se deve ao ensaio de Lewsey aos dois minutos, mas todos os outros pontos ingleses são do número 10. Ainda sob a sombra da lesão e longe da eficácia económica que levou Max Weber a ver na ilha o berço do capitalismo, Wilkinson tem, no entanto, uma arma secreta decisiva: o pontapé de ressalto. Foi com um que selou a derrota dos anfitriões ontem, foi com um que ganhou a final de 2003 no último minuto.
O mais provável é que a Inglaterra encontre agora a mesma África do Sul que a humilhou há escassas semanas, embora esta tenha que vencer antes a Argentina. Não vai ser fácil, como não foi fácil ultrapassar as Fiji - e pelas mesmas razões. Os springboks têm um dos melhores blocos de avançados do torneio, em particular na terceira linha (os omnipresentes Russow, Burger e Smith), têm três-quartos muito combativos e têm dois pontas extraordinários (Pietersen e Habana). Mas têm também duas fraquezas que podem vir a revelar-se fatais: um ataque pouco criativo (quando tiveram mesmo que vencer as Fiji, limitaram-se a colocar a bola atrás do adversário e a confiar no rolo compressor do pack) e a falta de chutadores de topo (Montgomery é um excelente arriére, mas um totobola a chutar aos postes). A este nível, são falhas que se pagam caro, como a Austrália pode explicar. Ora a Argentina é uma equipa com imaginação e está muito bem servida no resto. E pode contar com aquele fáustico Juan Manuel Hernandez para algum drop.
A ver vamos, como diria o Borges.

"Bob Denard", o Mercenário, ou viver perigosamente nos trópicos

Morreu aquele que foi o príncipe clandestino de várias repúblicas das bananas. Coleccionador de golpes de Estado e aventureiro incorrigível, era um dos últimos sobreviventes de uma França em vias de extinção.

A renovação que se impõe

É preciso recrutar novos valores para o Partido – estão sempre a dizê-lo.
Valores.
Repararam naquelas moças que iam, esplendidamente, fornecendo os copos de água aos oradores no Congresso?
Já são militantes?

Então? De que é que estão à espera para as recrutar?...

[...Para Secções de Lisboa, por exemplo...]

Trio de Ataque

Filipe,

No que toca à "presença mais relevante", não te esqueças da Amália e do Eusébio.

Da "deselitização" do PSD

É um hábito algo romântico e nostálgico, utilizado em arremesso final quando se pretende demonstrar a falta de qualidade das listas ou dos orgãos do partido: a comparação com listas das décadas de 70 e 80, a qualidade dos quadros, o brilhantismo académico, profissional, a eloquência, a independência, o mérito e outras qualidades tradicionais das ditas "elites" que constituem um bem crescentemente escasso nas actuais listas partidárias. O partido estaria perdido e o país está-lo-ia a seguir.

Percebo a ideia mas discordo do grau. Em bom rigor, o abandono da participação partidária pelas "elites" é uma consequência marginal do sucesso da sua militância. A politica mobiliza em maior ou em menor grau as "elites" de um país segundo a importância e urgência das causas que a cada momento se defendem. A realidade não é estática nem fechada, e os desafios são novos e constantes, no entanto não têm sempre a mesma intensidade. Não é necessário defender com a mesma intensidade a liberdade de expressão, a propriedade privada ou a integração europeia em 1974 ou em 2007.

O sucesso relativo do país estabilizou-o, enriqueceu-o, desenvolveu-o, diversificou-o. Os desafios políticos reinventam-se, mas são colocados na mesma linha de outros desafios profissionais, cívicos ou familiares, e só mediante uma ameaça forte de restrição dos primeiros sobre os segundos se pode esperar uma forte mobilização ao nível da que se viveu nos anos 70 e 80. O país está longe de se encontrar num patamar exemplar, mas está ainda mais longe da vertigem dessas duas décadas, pelo que só numa visão muito romântica da política e dos partidos se podem exigir níveis idênticos de participação.

Mas se a tendência para uma certa "deselitização" é compreensível, já não o é o grau em que aconteceu e ainda menos a inércia de parte do modelo de organização do partido, a sua não adaptação a uma realidade em que a participação política sofre "concorrência". O partido precisa de alterar, sobretudo alargar, os seus instrumentos de participação e isso será uma conversa interessante a continuar aqui no Cachimbo.

Sábado, 13 de Outubro de 2007

Um discurso, finalmente

Neste momento, Aguiar Branco fala ao Congresso.

Diz, para quem o quiser ouvir, que a distinção entre "bases" e "elites" não passa de demagogia.
E diz, para quem o quiser ouvir, que convém que o PSD tenha cuidado com a imagem que mostra para o exterior.
Diz ainda, para quem o quiser ouvir, que o Partido deve estar atento à sua credibilidade e que as pessoas não devem escolher o PSD apenas por ser um mal menor.

Alguém o terá ouvido?

Pondo os pontos nos is

A respeito disto, Vasco Graça Moura põe, e muito bem, os pontos nos is. Aqui.

Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

90 anos

Admirei ontem em Fátima a nova Igreja de Tombazis, a maior obra que o Estado viu ser construida em Portugal nos últimos 100 anos.
Quem a vê creio que ficará sobretudo impressionado não tanto pela sua dimensão, mas mais pela sua beleza, equilíbrio e serenidade que transmite.
90 anos depois das aparições de Nossa Senhora na Cova de Iria - nos 90 anos também da Revolução da Rússia -, aí está mais um pequeno sinal de que, ao contrário do que estava planeado, depois de 3 e 4 gerações, a celebração do divino continua, afinal, a ser motivo de luz, de equilíbrio e de força.
Entretanto, o plano de extermínio da religião da 1ª República já não tem memória; Salazar teve que gramar Paulo VI e o Império caiu de uma cadeira; no mundo, o comunismo tentou, para azar de muitos, a sua sorte, mas os seus muros também não se aguentaram.
Fátima testemunha a história de um povo fiel. Um povo que foi também vítima de um século que quis, por momentos, matar Deus.
Nunca fui fã de Fátima e para ser franco cheguei mesmo a abominar: as representações do divino, a mensagem dorida, a religiosidade ritual, a fealdade comercial circundante...
Mas há coisas que não se podem negar. E Fátima é provavelmente a presença mais relevante que Portugal tem na história mundial do século passado.
E se quis o acaso que estes 90 anos se completassem durante a Presidência Portuguesa da UE, talvez pudesse ser um sinal também para os líderes europeus aprenderem que nada de autêntico se pode construir sem a grandeza dos simples. E sem o enraizamento no nosso património que também é espiritual e que leva a que entendamos tão bem o que um grego concebeu.

Crónicas do planeta oval (12)

Depois dos prodígios de Sábado, coube à África do Sul e à Argentina trazer um pouco de ordem ao caos no planeta oval.

Os pumas eliminaram a Escócia, tal como haviam feito à Irlanda. Já lhes chamam "o flagelo dos celtas". Alguém disse, e acertou, que os argentinos são italianos que falam espanhol e se julgam ingleses...

Quanto aos springboks, ganharam às Fiji por 37-20 e são os meus favoritos a vencer a França na final. Mas o resultado não faz jus às enormes dificuldades que sentiram no jogo de Domingo passado, o melhor que vi até agora muito por culpa dos pouco ortodoxos fijinos (é assim que se diz?). Imprudentes a defender e desordenados a atacar, como sempre, os homens do Pacífico jogam à mão de todo o lado e quase sem posições fixas. As fases estáticas não passam, para eles, de um mal necessário. Se o conceito de rugby total existe, deve ser mais ou menos isto: bola sempre viva, glorioso desprezo pela defesa o pé, avançados no lugar dos três-quartos e um médio de formação endiabrado, Moses Rauluni, que pôs a as duas equipas a corrrer atrás dele.
O melhor em campo, liderou as Fiji na sua finest hour. Aos 50 minutos, a África do Sul passou a ganhar por 28-6, com um ensaio convertido que se juntava aos dois da primeira parte. Quase ao mesmo tempo, o poderoso centro Rubeni foi temporariamente expulso devido a uma placagem alta (outra, e menos simpática, imagem de marca dos ilhéus). Todos pensámos que seria o fim das Fiji. Qual quê! Pouco depois, marcavam e convertiam dois ensaios, um deles numa jogada espantosa que começa bem cá atrás e em que Rauluni foge trinta metros ao formação e ao asa contrários. 20-20.
Senhores, o gigante africano tremeu...

A/C Pedro Picoito

Caríssimo, consciente do clássico problema com o teu telemóvel, o qual consegue a proeza de entrar em sintonia com uma antena da TMN com a mesma frequência com que tu consegues escrever um link que funcione, utilizo este blogue, pedindo desculpas a leitores e cachimbadores residentes, para te rogar entres em contacto comigo ou com o Francisco.


Um abraço,

Ex-futuro presidente do EUA é o Nobel da Paz

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Discriminação fiscal

O artigo 56.º do Código de IRS prevê que possam ser abatidos ao rendimento líquido total os encargos dos pais com pensões de alimentos dos filhos. Esta situação, aplicável sobretudo em situações de divórcio, configura uma escandalosa discriminação uma vez que não existe norma semelhante para deduções com despesas com os filhos de pais casados ou víuvos. Ou seja, em vez de apoiar positivamente a estabilidade familiar, situação objectivamente mais vantajosa, em regra, para os filhos menores e para a sociedade em geral, o Estado discrimina aqui as pessoas casadas. Reparem que não estou aqui a fazer nenhum juízo ético sobre a opção casamento/união facto/divórcio, mas apenas a ser coerente com as conclusões de vários estudos sociológicos sobre a importância social do casamento, designadamente, estudos recentes sobre famílias monoparentais nos EUA e Reino Unido.

Para combater este absurdo, que já se arrasta há demasiado tempo, está a decorrer aqui uma petição pedindo que se aproveite o Orçamento de Estado para 2008 para acabar com esta discriminação fiscal. É sugerido que esta dedução possa vir a ser feita até a um máximo de 3.250 € por filho para todos os pais, independentemente do seu estado civil.

Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Tratado da Constituição

Não sei se alguém já reparou, mas a proposta de alteração do preâmbulo do tratado europeu introduz a referência ao "património cultural, religioso e humanista da Europa". E, se é verdade que deste património só interessa aquela parte de onde "emanaram os valores universais que são os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana...", não é menos verdade que a Constituição europeia será já um bocadinho menos laica do que a sua congénere americana. Eu ainda ia acrescentar que, nesta proposta de (alteração de) preâmbulo, a religião ocupa o lugar central nas determinações do património histórico europeu de que a constituição se reclama. Mas ouço a voz do bom-senso a gritar contra mim...

Excesso de zelo literário.

Vê-se, nisto, que Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos, leram o Modest Proposal do Swift. Provavelmente em tradução e não em estrangeiro. Temos de lhes reconhecer capacidade intelectual, porque só assim se explica que tenham conseguido interpretar 'Ireland' como Portugal e 'children' como professores. E este reconhecimento intelectual não é de todo desmerecido, porque só os animais humanos são capazes de estabelecer estas relações de sentido, estas analogias.
Contudo, alguém lhes devia chamar à atenção que... aquele texto do Swift é irónico.

(Por mim, que também gosto de Swift, quando observo o comportamento das três personagens em apreço, lembro-me dumas figuras das Viagens de Gulliver: os Yahoos.)

Crónicas do Planeta Oval (11)

Mais do que o Inglaterra-Austrália, o verdadeiro milagre do fim-de-semana rugbístico foi a vitória da França sobre a favoritíssima Nova Zelândia. Marx dizia que a história se repete: da primeira vez é uma tragédia e da segunda uma farsa. Marx nem sempre acerta. Com menos brilho do que em 99, a final antecipada de Sábado confirmou a tradição de serem os bleus a bête noire dos all blacks no Mundial (o trocadilho era fácil, mas não resisti).
Tal como em 99, os gauleses pareciam ter tudo contra si. Vinham de uma qualificação pouco convincente, tinham perdido o último jogo contra o adversário por uns claros 42-11, em Junho, não jogavam em casa (era um dos poucos jogos a disputar-se fora do Hexágono - em Cardiff, não me perguntem porquê) e ao intervalo também estavam derrotados.
E, tal como em 99, deram a volta ao jogo aproveitando com imperial inteligência um momento de fraqueza dos maoris. A doze minutos do fim, durante a expulsão temporária de MacAllister, o centro neozelandês que marcara o primeiro ensaio do jogo e seria eleito man of the match, uma cavalgada dos três-quartos franceses abriu uma brecha na muralha negra por onde entrou Michalak, que serviu a estocada fatal a Jauzion em bandeja de prata. Podem ver o momento aí em cima. Um brilhante exemplo do estilo a que os britânicos chamam com mal disfarçada inveja french flair, a tradicional mistura de leveza e imaginação do jogo à mão, vivo, envolvente e aberto que os bleus sabem praticar como ninguém. Há quem lhe chame rugby champagne, e percebe-se porquê. (Aqui para nós, o último passe é um avant, um passe para a frente. Uma falta, portanto. Toda a gente viu, mas como toda a gente estava a torcer secretamente pela derrota da Nova Zelândia, ninguém disse nada. Excepto os quatro milhões de neozelandeses, claro).
Com o resultado em 20-18 e dez minutos para jogar, os momentos finais foram eléctricos. O pack neozelandês empurrou literalmente a França para a sua área de 22, em sucessivos e demolidores mauls que por duas vezes estiveram a escassos centímetros da linha de ensaio. Nada a fazer, porém. O destino não era negro. E Marx nem sempre acerta. A história repetiu-se, mas não foi uma farsa. Para os all blacks, foi a reedição de um pesadelo. E para os franceses... Bem, os franceses já pensam todos outra vez que são Napoleão e que vão ganhar o Mundial.
Talvez tenham razão. Com esta vitória, voltaram ipso facto ao estatuto de candidatos naturais ao trono. A Inglaterra ainda tem uma palavra a dizer, mas uma final entre os anfitriões e a África do Sul seria interessante. Dois estilos, dois hemisférios e quase duas gerações em confronto. Quem diria, quando na primeira jornada o sol da Argentina brilhou mais que a tricolor?