Domingo, 30 de Setembro de 2007

girl pride

Sinais de vida na Arábia Saudita.

Uma brigada da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício (a polícia "religiosa" saudita) foi "atacada" por duas raparigas sauditas depois de as ter interpelado, para, "educadamente" [sic], as aconselhar [sic] e orientar [sic] a respeito da sua roupa imprópria. A história do acto terrorista está aqui.

90 Anos de Outubro (1)


O PCP comemora com a CGTP - uma federação (?!) sindical, para os mais distraídos - os 90 anos da fundação da pátria dos trabalhadores de todo o mundo. Foi nessa nova Jerusalém que, em pleno espírito proletário, aos trabalhadores foi negado o direito à greve por se tratar de uma modalidade "burguesa" de "sabotagem". Foi também no paraíso da foice e do martelo que o absentismo e a falta de pontualidade valiam uma estadia no cárcere. E os "revolucionários profissionais", que são hoje recordados como os maiores benfeitores da humanidade, não se importaram de converter verbalmente tudo isto em grandes "conquistas sociais".

Mostra o mundo sinais de se acabar

Os tempos estão estranhos... Ainda não chove o sangue, mas já vão nascendo alguns monstros. Primeiro, o Pacheco Pereira concorda com o ex-menino-guerreiro-que-vai-andando-por-aí-e-que-agora-vai-deixar-de-andar. Depois, aqui o camarada Picoito concorda com o nosso vizinho Daniel Oliveira. Este, por sua vez, foi convidado a frequentar, por uma fatídica noite, os salões da Armada - provocando convulsões quase cismáticas que o pudor nos deve impedir de linkar (caramba, senhores! foi apenas um gesto cavalheiresco de Deus, que, como se sabe, é infinitamente bom e misericordioso). Aconteceu também... aquela coisa na passagem de Sexta para Sábado.
E, agora, tenho eu de concordar com o dr. Mário Soares, irra! Isto é uma violência. Eu já me tinha desabituado de concordar com ele. Isto faz-se?! Uma pessoa é apanhada assim desprevenida... pasmada, ignorante, de cor perdida...

É que o dr. Soares disse: 'O que aconteceu ao PSD foi uma desgraça.'

A oportunidade perdida que nunca chegou a ser

Paulo Portas há muito que esperava por um momento como este que se vive hoje no PSD. Afinal, muitos dos que abominam Menezes rejeitam igualmente votar em Sócrates, para não falar da esquerda dos extremos. O problema de Portas é que talvez nunca tenha contado com os seus próprios apuros. Portanto, não chega a ser uma oportunidade perdida.

A sinceridade de Ahmadinejad

O Presidente do Irão, provavelmente, disse a verdade. Homossexuais é coisa, é "fenómeno" que não há no seu país. Que não há no seu país. Como se pode ver aqui.

[Pareceu-me preferível não expor o video neste post - trata-se de uma dupla execução por lapidação, no meio do entusiasmo bárbaro da multidão...]

A gente sabe que isto bateu no fundo quando...

... Santana Lopes ganha o estatuto de reserva moral da nação e Menezes o de candidato a Primeiro-Ministro. Na mesma semana.

Sábado, 29 de Setembro de 2007

Eterno Retorno

Houve quem falasse de uma "grande mudança" a propósito da eleição de Menezes. Mas parece que tudo se encaminha para, daqui por alguns anos, termos como grandes protagonistas do "centro-direita" português os repetidos Durão Barroso e... Santana Lopes.

PRD 2?

Com o que aconteceu na noite de 6ª feira, há agora muita gente no PSD para quem a ideia do "partido de Belém" deixou de ser uma gracinha de politólogos. O desespero tem destas consequências.

Vítimas da noite

Logo no discurso de vitória de Menezes, a segunda vítima da noite foi a língua portuguesa.
A primeira já tinha sido o PSD.

O mau ganhar

A elegância com que a claque (sim, a claque) de Menezes reagiu à comunicação final de Marques Mendes será sintomática da deriva lumpen que está a afectar o PSD.
Não admira. O exemplo vem de cima.

Os Congressos é que eram emotivos e tal

A confirmarem-se os números da mobilização de votos nestas eleições directas do PPD-PSD, não deixa de ser tentador e paradoxal compará-los com as certidões de óbito e os atestados ao moribundo que abundaram em jornais e blogues. Como é possível que algumas pessoas continuem passados tantos anos a não perceber a dinâmica deste partido? Sobretudo das suas coisas mais simples e sólidas: as bases. A penetração que o partido tem na sociedade é extraordinária, assim como o é a sua capacidade de mobilização para uma votação alegadamente pouco empolgante destinada a eleger, a acreditar nos oráculos do regime, o derrotado de 2009.

Sem ser extraordinariamente surpreendente, não deixa de impressionar a forte derrota que um certo establishment do partido sofreu. Alternando maioritariamente entre a ausência e um apoio meramente institucional, nunca entrou verdadeiramente na disputa e conquista dos votos, apostando timidamente na eleição de um regente que garantisse serviços mínimos, mas com o qual não se poderiam confundir em demasia. Já se percebeu que as contas sairam mal.

Regista-se então a continuidade da força eleitoral do PPD-PSD, e lança-se um aviso forte às "elites" do partido sempre que estas rejeitem a participação "de facto" em disputas eleitorais. Ambos são factores positivos e, assim de repente, não me lembro de mais nada positivo que resulte destas eleições.

E não se pode...

...emigrar para ali?...

Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Da série "A concorrência faz melhor"

"Choque educacional", do André Azevedo Alves.

O dia dos prodígios

O arrufo do menino guerreiro por causa do bimbo guerreiro distraiu o país de um episódio não menos edificante: a vandalização de várias campas do cemitério judaico de Lisboa por dois skin-heads. Um era menor, o outro já tinha cadastro. Ninguém ficou em prisão preventiva.
Se Pacheco Pereira se viu obrigado a concordar ontem com Santana Lopes, hoje vejo-me eu obrigado a concordar com o Daniel Oliveira. (É, parece o dia dos prodígios.) O neonazismo doméstico ultrapassou há muito a fase folclórica, embora inestética, das marchas contra os gays e os chineses. Aliás, já tinha ultrapassado quando um bando de tão extremosos patriotas matou Alcino Monteiro. Sim, a politização da justiça é perigosa. Tão perigosa como ter à solta gente que não gosta de judeus mortos e de pretos vivos.

A Bem da Nação

Luís Filipe Menezes comparou ontem Marques Mendes ao "Doutor Salazar" e disse, sem se rir, mais ou menos isto: as derrotas em eleições fraudulentas preparam as grandes vitórias da democracia.
Para não restaurarmos o crime de atentado ao pudor, alguém que lhe explique, por caridade, quem era o "Doutor Salazar".
Podem ir à Wikipedia.

Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

King Newt's days are numbered


«Mr Johnson was confirmed as the party's candidate this morning after a Londonwide postal ballot in which around 19,000 Tories and 1,000 non-members voted.

He received 15,661 votes, compared with 1,869 for Kensington and Chelsea councillor Victoria Borwick, 1,674 for Hackney activist Andrew Boff and 609 for Warwick Lightfoot, another Kensington and Chelsea councillor. There were 206 spoiled votes

(Daqui)

Garbage In , Garbage Out

«is an aphorism in the field of computer science. It refers to the fact that computers, unlike humans, will unquestioningly process the most nonsensical of input data and produce nonsensical output»

(Wikipedia)


Maringá, Paraná:

Amazónia:

Parece que são 4,000 km de distância. E onde alegadamente existiriam 200 militantes com capacidade para votar existem apenas 22, inseridos numa comunidade que tem, só nesse estado, 50,000 portugueses.

Total do número de militantes residentes fora de Portugal com capacidade para votar: 1,350.

Não obstante basearem-se em ficção, há graçolas sobre os índios militantes com muita qualidade por essa blogosfera fora.

Da série "Ele há coisas"


Estrela


Há equipas que, por força das coisas, são a priori potenciais derrotadas. Que nunca são "favoritas".
Há equipas que ao serem afastadas de competições, deixam no ar uma sensação de injustiça.
Há momentos em que apetece deixar os parabéns, apesar da derrota.
Há, no futebol, golos tão vibrantes quanto um ensaio da selecção portuguesa no Mundial de rugby.
A minha homenagem.

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

A pedido de várias famílias

Reforma Penal em julgamento (II)

Perante isto justifica-se tanta polémica?
Estaremos ameaçados na nossa segurança colectiva?

Acalmem-se os espíritos mais inquietos. Não corremos perigo apesar da libertação de mais de uma centena de presos preventivos. Mas esta reforma penal é uma desilusão por passar ao lado do principal problema: a lentidão do sistema judicial. Se o diabo está nos detalhes, no caso da Justiça está na morosidade do sistema, que continua sem resposta do poder político.


Nota-se nesta reforma uma desconfiança perante o Ministério Público -cada um interprete como quiser- e perante as polícias. Vai haver ainda mais complexidade, para não dizer burocracia, nas investigações e no processo penal, o que gera mais morosidade. São de prever dificuldades sobretudo nos mega-processos. Uma justiça lenta nunca pode ser justa, nem para as vítimas, nem para os arguidos, mesmo que se presumam inocentes e por mais garantias processuais que se ponham na lei. Seria necessário aplicar um “simplex” aos tribunais portugueses.

Mais do que alterar os códigos -a atracção fatal de qualquer ministro é ficar com o nome associado a um grande reforma legislativa- a organização judiciária, incluindo o mapa judiciário, e o reforço dos meios de investigação criminal deviam ser a prioridade do Governo. É inadmissível, por exemplo, que continue a não existir partilha de informações, nem integração de sistemas informáticos, entre o Ministério Público, os órgãos de polícia criminal e os Tribunais. Esta situação conduziu ao problema de não se saber quantos presos existiam em prisão preventiva.

No meio disto tudo não temos Ministro da Justiça. Não se percebe a pressa da entrada em vigor da reforma -15 dias-, mas sobretudo Alberto Costa revelou-se totalmente incapaz de transmitir segurança: a ideia de que a Justiça, apesar de tudo, funciona, ou será que mesmo ele não acredita nisso?

Crónicas do Planeta Oval (8)

"Um pouco mais de sol e eu era brasa/ um pouco mais de azul e eu era além": lembrei-me destes conhecidos versos do Mário de Sá Carneiro assim que terminou, há um par de horas, o nosso último jogo no Mundial de rugby.
Estivemos tão perto...
Perder por 14-10 com a Roménia foi bem mais amargo do que levar 100 da Nova Zelândia. À conta de um ensaio na primeira parte, muito semelhante ao que marcámos aos all blacks, ganhávamos por 7-0 até vinte minutos do fim. Os nossos três-quartos, com Aguilar e Frederico Sousa em grande plano, chegaram a fazer gato-sapato dos romenos, de longe os piores que vi até agora no torneio. Ficou-me na retina uma excelente arrancada de Pedro Leal, correndo 60 metros depois de fugir ao adversário directo.
Mas a ponta final dos seus avançados foi demasiado forte, tal como se temia. O pack amarelo parecia um verdadeiro rolo compressor e levou a equipa às costas - vejam-se os dois ensaios fatais. Dominaram nos alinhamentos e até nas formações sentimos enormes dificuldades, sobretudo quando começaram a faltar as forças. Apesar do nome de cantor romântico italiano, o número 8 Ovidiu Tonita esteve particularmente intratável. Que o digam os médios José Pinto e Duarte Cardoso Pinto: não tiveram um palmo livre e a sua habitual precisão ressentiu-se disso. Vasco Uva fez mesmo falta.
Ainda assim, Portugal praticou o melhor rugby esta noite (o jogo romeno, muito por causa das dolorosas limitações das linhas atrasadas, voltou a ser tão feio, hermético e compacto como um marxista da Universidade de Bucareste no tempo do Ceausescu) .
Não foi uma vitória moral - foi uma derrota física. Mas os Lobos mereciam mais, pelo que fizeram hoje e pelo que fizeram até hoje.
Digam-me quando é que estes homens chegam, que eu quero ir esperá-los ao aeroporto.
Até canto o hino...

Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

República, Monarquia e Ignocância



Vasco Pulido Valente disse anteontem, no Público, o que havia a dizer sobre o caso que tem agitado este blogue: "a Maçonaria conseguiu levar Aquilino Ribeiro para o Panteão". Se não foi a Maçonaria, foi a ala jacobina do regime - o que é quase o mesmo. Para o efeito, o debate dos méritos literários não tem particular transcendência. A questão é política. Aliás, o panteísmo aquiliniano não passa de um tiro de partida, se me permitem a metáfora, para as comemorações do centenário da República.
Basta ler o que se tem escrito por aí. Os monárquicos não querem Aquilino em Santa Engrácia por causa da sua eventual participação no regicídio, os órfãos do Dr. Afonso Costa querem-no em Santa Engrácia precisamente por isso.
Em certos momentos, o debate chega a atingir as alturas da mitologia. Vejam o que diz sobre o tema a Fernanda Câncio, blogosférica antena de todas as causas. Confessa que só leu um ou dois livros de Aquilino (eu li mais) e não voltará a lê-los (eu também não), mas esta vaga intimidade é-lhe suficiente para decretar que tal autor não deve ser excluído da eterna companhia de Amália e Carmona só por querer matar o rei e andar a fazer umas bombas. Há "condicionantes contextuais".
Que quer dizer com esta aliteração?
Que, enfim, "parece-me que o regime monárquico em vigor no princípio do século XX podia ser visto como uma tirania - democracia é que decerto não era".
Reparem, por favor, na subtileza do raciocínio. Parece-lhe, embora não tenha a certeza, que a monarquia podia ser vista, embora também pudesse não ser, como uma tirania. Logo, não era uma democracia. Como poderia a monarquia ser uma democracia se à Fernanda Câncio parece que não era? Como poderia Portugal em 1908 ser um Estado de direito se a Fernanda Câncio não o vê assim? Que diabo, estamos a falar da jornalista que denunciou ao mundo as imposturas da Irmã Lúcia e da Madre Teresa de Calcutá. É certo que, no primeiro acaso, lhe apareceu Nossa Senhora de Fátima e, no segundo, o Christopher Hitchens, mas tais revelações divinas não embaciam o brilho do seu parecer. Pelo contrário, colocam-no bem alto.
Doravante, haverá na historiografia portuguesa uma era a.C. e outra d.C. (antes de Câncio e depois de Câncio). Os livros de história serão escritos de acordo com o novo paradigma. "Não sei bem, mas julgo que D. Afonso Henriques era afinal um agente secreto ao serviço de Leão e Castela", dirá um medievalista mais afoito sem que ninguém ouse contrariá-lo. As teses de Doutoramento passarão a ser arguidas e defendidas segundo as mais rigorosas exigências do método opiniático. "-Cá para mim, o candidato leva demasiado longe a fezada de que o aumento do preço dos caramelos em Badajoz precipitou a revolta de 1640. -Queira desculpar, Senhor Professor, mas é que me diz o coração." E assim sucessivamente.
Nada será como dantes.
E como é que era dantes?
Bom, dantes a monarquia em 1908 era um regime constitucional. Tinha uma Constituição, a velhinha Carta de mais de oitenta anos, um Parlamento com duas câmaras, eleições nacionais para a câmara baixa, deputados republicanos desde 1878, eleições municipais que foram ganhas pelo Partido Republicano no Porto em 1906 e em Lisboa em 1908 e, regra geral, a salvaguarda dos direitos, liberdades e garantias reconhecidos na maioria das monarquias constitucionais contemporâneas, como por exemplo a Inglaterra. Havia censura, que era usada sem grande êxito para impedir ataques ao regime monárquico e ao catolicismo oficial, e durante alguns meses João Franco governou sem o Parlamento, "ditadura" a que um apavorado D. Manuel II pôs termo assim que cingiu a coroa. O chefe de Estado não era obviamente eleito, como não é hoje no Reino Unido, na Holanda, na Bélgica, na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, em Espanha, no Canadá e na Austrália, essas tiranias onde os gays e o aborto são reprimidos.
Estranhamente, a I República não alterou muito isto. O chefe de Estado era agora eleito, mas pelos deputados. Nada de sufrágio directo para a Presidência. Era o que faltava, entregar à malta a eleição do mais alto magistrado da nação... O direito de voto, que na monarquia chegou a abranger um universo de 950 mil eleitores, mesmo com a restrição censitária, foi reduzido em 1911 a 400 mil eleitores, os chefes de família que fossem civis e soubessem ler e escrever. Por outras palavras, foi negado aos militares, aos analfabetos e às mulheres. Aos militares por medo da sua politização, deliciosa ironia num regime que tinha nascido de uma revolução armada, e às mulheres e aos analfabetos por medo da influência da Igreja sobre os espíritos simples. Na prática, o eleitorado da I República estava concentrado nas grandes cidades, onde, como vimos, o Partido Republicano já ganhava eleições durante a monarquia.
De resto, o amor dos republicanos pela liberdade de opinião é bem conhecido. À falta de monárquicos convictos, que rapidamente se volatilizaram, a I República elegeu como inimigo programático os católicos e, muito em particular, o clero. Logo no próprio 5 de Outubro, elementos da Carbonária tomaram de assalto as casas dos jesuítas em Arroios e Campolide e mataram a tiro meia dúzia de padres, um deles o confessor da Rainha. Outros conventos de freiras e frades foram invadidos, sem estragos de maior a não ser a famosa medição de cabeças clericais para provar as semelhanças fisionómicas entre a padralhada e os criminosos de delito comum. Poucos meses depois, as ordens religiosas eram extintas, com as consequências que se adivinham na asssistência e no ensino, e todos os bens da Igreja nacionalizados, façanha a que Chávez ainda não se atreveu na Venezuela. Para gerir missas, funerais, procissões, etc., os republicanos puseram à frente de cada paróquia uma "comissão de culto" com gente sua, que mandava no pároco. A isto chamaram "lei da separação entre a Igreja e o Estado", o que soa contraditório e é, mas lhes dava também a possibilidade legal de tratar os padres e os bispos como funcionários públicos. Não contentes, restauraram o beneplácito régio medieval, impondo o exame prévio a todos os documentos públicos dos bispos ou da Santa Sé. Como se recusassem a acatar esta e outras ingerências, em meados de 1912 todos os bispos de Portugal continental (Braga, Porto, Bragança, Lamego, Viseu, Coimbra, Guarda, Portalegre, Lisboa, Évora, Beja e Faro) tinham sido depostos ou expulsos das suas dioceses, em certos casos pela violência. A mesma violência com que a Carbonária de Santarém destruiu, à bomba, a primeira Capelinha das Aparições na Cova da Iria, assim que o obscurantista fenómeno teve o sucesso popular que se sabe.
Nada que se compare, porém, à selvajaria que os próprios republicanos empregavam fervorosamente uns contra os outros. Ao melhor estilo revolucionário, a I República viveu mergulhada em dissidências, lutas entre facções e crises políticas que se resolviam à pistola e à bengalada. Numa das purgas, a célebre "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921, foi assasinado Machado dos Santos, o líder dos revoltosos do 5 de Outubro na Rotunda, por um grupo de magalas que percorriam Lisboa liquidando os seus adversários, acção higiénica a que não escapou o próprio chefe do Governo em exercício, António Granjo.
As coisas tomavam um aspecto por vezes burlesco. Em 1915, caindo outra vez o executivo, o chefe de fila João Chagas, então no Porto, foi chamado a Lisboa para negociar com Afonso Costa a formação de um governo de unidade nacional. As conversações demoraram várias semanas a iniciar-se devido a duas circunstâncias singelas. Chagas sofrera um atentado no comboio, pela mão de um deputado rival que lhe dera um tiro num olho e seria depois morto à pancada no Entroncamento, e Afonso Costa tinha fracturado o crânio ao saltar de um eléctrico em andamento quando se julgou alvo de outro atentado. Naturalmente, o ministério só pôde constituir-se depois de ambos recuperarem das respectivas mazelas.
Não sei se podemos chamar a tudo isto uma democracia, sobretudo se compararamos tudo isto com a monarquia liberal. A Fernanda Câncio acha que sim. Eu acho que a Fernanda Câncio tem todo o direito, liberdade e garantia de gostar ou não gostar de Aquilino. Tem até a democrática opção de não saber nada de história e dizer disparates. Mas convenhamos que não se trata de uma questão de gosto. Trata-se de pura e simples ignorância. Ou ignocância.
P.S. Aviso já, para descanso das almas sensíveis, que não sou monárquico. Apenas começo a ficar preocupado com o caminho que o centenário da República está a tomar. Se a festa se vai resumir à glória dos aventalinhos, não contem comigo.

Da série "Melões de Cá"

Max Beckmann, Os Jogadores de Rugby (1929)

Uma espécie de coerência

Ahmadinejad foi a Columbia. Espantaram-se uns, indignaram-se outros. Não foi o caso de John Coatsworth, Dean da universidade. Coatsworth assegurou que teria convidado Hitler para ‘debater as suas ideias com os estudantes’. Como se verá, há uma espécie de coerência metodológica nas acções e desejos de Coatsworth.

Quando Ahmadinejad garantiu que não havia homossexuais no Irão, a plateia local riu-se. No entanto, quando Ahmadinejad assegura que o programa nuclear iraniano não se destina a fins militares, a plateia global leva-o a sério. É possível –até provável– que entre os presentes no auditório predominasse um sentido de humor macabro. Alguns poderão até ter sido movidos pela mesma curiosidade que atraía multidões aos freak shows vitorianos, agora para ver o ‘monstro de Teerão’.

O presidente de Columbia manifestamente não achou graça nenhuma e disse a Ahmadinejad: ‘when you come to a place like this, this makes you quite simply ridiculous. You are bracingly provocative and astonishingly uneducated." Eu também não percebo a piada; menos ainda compreendo que nenhum daqueles estudantes tenha pedido a Ahmadinejad para explicar por que razão não existem homossexuais no Irão –ou opositores à teocracia islâmica. Como este género de questão parece ser difícil para os estudantes de Columbia, dou uma ajuda: as cerca de 250 execuções políticas no Irão –só desde Janeiro deste ano– registadas pela Boroumand Foundation e recordadas hoje por Anne Applebaum mostram que a teocracia iraniana adoptou uma bem conhecida solução para o problema colocado pelos indesejáveis políticos e sociais.

Afinal, a presença de Ahmadinejad em Columbia não é descabida e permite compreender melhor as acções e desejos de Coatsworth: Ahmadinejad foi o convidado possível de uma série de conferências que gostaria de ter realizado, começando com Hitler e continuando eventualmente com Stalin, Ho Chi Minh e outros criminosos políticos. Por isso, perguntar se Ahmadinejad devia ou não ter estado em Columbia é um problema de segunda ordem. O problema primordial é que indivíduos como Coatsworth não são hoje chamados pelos nomes que teriam –colaboracionistas, hipócritas– se há meio século atrás se lembrassem de convidar Hitler para fazer propaganda em anfiteatros académicos ocidentais, nem têm o 'prémio' que merecem pela proeza.

Este perigoso equívoco taxinómico e político vai alimentando as ilusões de indivíduos possuídos por visões de cataclismos purificadores, que eliminem de uma vez homossexuais, judeus e todos os que não terão lugar no paraíso na Terra. Alguém devia ter explicado aos estudantes de Columbia que também eles constam da lista de indesejáveis de Ahmadinejad. Quanto a explicar a Coatsworth o que é que aconteceria aos seus pares em Teerão caso tivessem a peregrina ideia de convidar o presidente americano para um debate académico, não creio que valha a pena: o problema dele não é falta de informação; é falta de carácter.

Pensamento do dia

Quando vejo a energia com que o PSD discute as quotas ou lá que é, quase acredito que, se quisesse, podia derrotar o PS nas próximas eleições.

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Ouvi-lo

Crónicas do Planeta Oval (7)

Os jogos com a Nova Zelândia e a Itália fizeram mossa: Vasco Uva partiu o polegar e não vai jogar mais no Mundial.
É uma péssima notícia. O capitão tem estado em excelente forma a comandar as tropas e foi eleito man of the match contra a Escócia, placando tudo o que mexia. Seria o jogador ideal para defrontar a Roménia, que tem um bloco de avançados fortíssimo e pouco mais. Um número 8 como ele daria outra tranquilidade aos médios para pensar o jogo e atacar à mão. Paciência.
Em compensação, se assim posso dizer, Diogo Mateus está apto a jogar. É um dos nossos melhores centros e foi decisivo no apuramento para o Mundial, com um ensaio ao Uruguai. Se temos alguma vantagem sobre os romenos, está nas linhas atrasadas. Mateus representa para os três-quartos o mesmo que Uva para os avançados: experiência, uma voz de comando, solidez a atacar e a defender. Bem precisamos - porque o embate com os amarelos é para vencer.
Adenda, 25/9/07, às 10h30: Afinal, as notícias da recuperação de Diogo Mateus eram exageradas. Entra para o seu lugar Miguel Portela, que é mais rápido, mas mais leve. O resto mantém-se: o jogo de hoje é para ganhar.

Processo Penal em julgamento

Com o processo Casa Pia e agora com o caso “Maddie” o processo penal virou moda. Escutas telefónicas, interrogatórios, prazos de inquérito, prisão preventiva, deixaram de ser temas exclusivos de especialistas para entrar na discussão pública, ocupando horas televisivas e páginas de jornais. Não é de estranhar, pois, o enorme interesse gerado pelas alterações recentes aos códigos penal e processual penal.
Convém recordar o largo consenso parlamentar da reforma e que algumas alterações já vinham do anterior governo PSD/CDS e estão previstas no Pacto de Justiça. Como explicar então a polémica que se gerou?

O sentido da reforma é o aumento das garantias de defesa: maior controlo judicial sobre as escutas telefónicas, redução dos interrogatórios para um máximo de quatro horas seguidas, direito de o arguido ser informado sobre os factos que lhe imputados, prisão preventiva ainda mais excepcional, com a redução de prazos e a aplicação exclusiva a crimes dolosos puníveis com prisão superior a 5 anos.
É impossível dissociar certas mudanças cirúrgicas do processo Casa Pia ou da polémica “teoria do arguido”, sobre a qual já escrevi aqui. Sobre este ponto, a nova lei vem agora exigir que a constituição de arguido, dada a estigmatização social que implica, seja confirmada por um magistrado, o que é positivo.
O segredo de justiça é limitado: de acordo com o princípio de que o processo penal é público (artigo 86.º CPP), permite-se o pleno acesso aos “autos” pelo arguido e outros sujeitos processuais. A excepção passa a ser o segredo de justiça, aplicável apenas quando haja prejuízo para a investigação ou para direitos fundamentais. Espera-se que esta maior transparência conduza a uma melhor informação, com menos especulações, fontes “próximas” ou anónimas.

Mas se são positivas estas mudanças “garantísticas”, o legislador foi, por vezes, longe de mais, aumentando a burocracia e prejudicando a eficácia da investigação. Um exemplo: o novo artigo 89.º CPP dá ao arguido o direito à “confiança do processo”, ou seja, a levar o processo para casa para consulta. É óbvio que existe o risco de certos documentos ou todo o processo (de que muitas vezes não há cópia) possa desaparecer, prejudicando a acusação. Não fosse a presunção de inocência, era caso para dizer que se está a “dar o ouro ao bandido”.
(continua)

Dia Sem Carros

"Todos querem voltar à Natureza, mas ninguém quer ir a pé".

(Petra Kelly)

Domingo, 23 de Setembro de 2007

Marcel Marceau

...

As Dúvidas da História


Na passada Quarta-feira, Rui Ramos assinou um artigo no Público sobre o Iraque e as lições da história. É o que o título anuncia, mas, na sua opinião, é muito difícil tirar lições da história, nomeadamente do exemplo do Vietname. Talvez devido a essa dificuldade prefira remeter-se para um balanço imparcial entre a avaliação dos "críticos" e a dos "crentes" na guerra. Não vale a pena insistir que o modo como esta comparação é colocada revela, desde logo, a opinião da relativa superioridade dos "crentes" sobre os "críticos". De outra maneira não poderia haver empate entre uns e outros, como Rui Ramos sugere. A razão por que os Americanos não podem retirar já as suas tropas é simples: a guerra e o pós-guerra não correram como os "crentes" esperavam.
.
Mas ainda sobre as lições decerto que se poderia dizer mais alguma coisa. Nada de muito sofisticado, é verdade. Mas alguma coisa. Como, por exemplo, que em intervenções deste tipo - Iraque, Vietname, Somália, e, se quisermos fazer algumas adaptações, Filipinas na viragem do século XIX para o século XX - há uma linha muitíssimo ténue entre libertação e ocupação, entre vencer o inimigo no terreno e governá-lo, entre os aplausos dos beneficiários indígenas da intervenção e as balas dos insurrectos. E resta ainda outro pormenor: por um qualquer mistério da natureza humana, há povos que preferem sofrer males indescritíveis a suportar a voz de estrangeiros que mandam. Ora a represália não precisa da colaboração dos indígenas para nada, mas a conversão do inimigo em aliado tem outras necessidades.
.
Há cem anos, Kipling avisou os Americanos de que não contassem com os agradecimentos dos nativos. Poucos meses depois a gratidão (ou a ingratidão) era a última coisa em que se pensava tanto em Washington como nas florestas à volta de Manila.

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Absum

«It is rather reminiscent of the scene in Gladiator when Maximus, the Russell Crowe character, having ruthlessly dispatched two lesser combatants, turns to a jeering crowd and asks: “Are you not entertained?” Well, no, seems to have been Abramovich’s answer.
(...)
When Proximo, the manager of the group of gladiators of which Maximus is a part, encourages him to take more time, to show more artistry in his fighting, Maximus points out that he has killed, and that is all he is required to do. “That’s enough for the provinces,” Proximo replies, “but not enough for Rome.”

Nor, it seems, for Roman.»

(No FT)

Crónicas do Planeta Oval (6)

Não vi a nossa batalha contra a Itália, que perdemos. Mas uma simples consulta às estatísticas é animadora: marcámos um ensaio (e já lá vão três sempre a facturar, óptimo sinal), aguentámos as fases estáticas e conseguimos manter o jogo muito equilibrado (19-5) até aos 71 minutos. Só nos dez minutos finais, aqueles dez minutos finais que nos jogos muito equilibrados decidem tudo, nos fomos abaixo. Dois ensaios foi o preço da falta de pernas. A vitória contra a Roménia, contudo, pode estar mais perto do que sonhamos.

Entretanto, numa dos primeiros recontros realmente decisivos do torneio, a Irlanda perdeu hoje com a França por 25-3. Depois da derrota com a Argentina, os gauleses tinham que vencer, ou seriam os únicos anfitriões na história do Mundial a não passar à fase seguinte. Uma vergonha maior pour la Republique do que os discursos de Madame Segolène. A claque celta, que no Cachimbo inclui o Fernando, este vosso criado e todas as outras pessoas bonitas e inteligentes que por aqui passam, tem razões para estar pesarosa. Tratemos de afogar as mágoas em Pogues e Guiness, por ora, que o jogo com os pumas até vai ferver.

Ceci n’est pas un état

Enquanto os dirigentes políticos europeus e americanos se entretêm a pressionar os sérvios para aceitarem a secessão do Kosovo como modesto preço a pagar para a sua integração na UE, há algo de podre no reino da Bélgica. Na verdade é o reino de Alberto II que está podre e o cheiro a sarilho político começa a ser difícil de disfarçar.

Vai ser curioso observar de que forma os políticos europeus explicarão aos albaneses da Sérvia que sim senhor, a sua pretensão de secessão tem toda a legitimidade, ao mesmo tempo que explicam aos flamengos da Flandres que não senhor, a sua pretensão de secessão não tem nenhuma legitimidade. Isto, note-se, apesar da Flandres ter uma identidade histórica e cultural perfeitamente identificável ao longo da história europeia, enquanto que o Kosovo albanês só tem sentido na lógica da 'Grande Albânia', um produto ideológico típico dos nacionalismos anti-imperiais do séc. XIX.

Ainda mais interessante será assistir a esta explicação dada por Javier Solana, um espanhol —aliás, um castelhano— que certamente não ignora as implicações de uma secessão flamenga para a unidade nacional da Espanha. Bem pode Zapatero despachar Solana para Bruxelas, para tentar acalmar a rebelião flamenga: nem Zapatero é Filipe II, nem Solana dispõe dos ‘recursos estratégicos’ do Duque d’Alba. Os britânicos também estão numa situação curiosa, com um primeiro ministro escocês a assistir ao crescimento do movimento separatista na Escócia, já para não falar da pouco consolidada pacificação do Ulster. Os estados bálticos e os países da periferia da UE, em particular a Ucrânia e a Geórgia, com importantes comunidades russas residentes, também vão seguir a ‘questão belga’ com toda a atenção.

Os jornalistas perguntaram a Frank Vanhecke, um dos principais políticos pró-independência flamenga, o que aconteceria se a Bélgica deixasse de existir. A resposta foi: ‘who cares?’ Para além de valões, flamengos, (outros) holandeses, franceses, sérvios, albaneses, bascos, catalães, galegos, portugueses, irlandeses, ingleses, escoceses, georgianos, ucranianos, estonianos, lituanos, letões, finlandeses, restantes europeus em geral e, claro, americanos, a resposta é: assim de repente, ninguém.

Ingenuidades


Agora que já não se cheira a pólvora na esquina do Terreiro do Paço com a Rua do Arsenal, talvez já se possa falar em algum sossego. Toda a "polémica" Aquilino-no-Panteão-ou-não foi manifestamente exagerada (para não dizer ridícula) - de resto, passou ao lado dos Portugueses, mais preocupados com o soco de Scolari e a demissão de Mourinho.
Por um lado, as vozes, mais ou menos esganiçadas, que se levantaram contra a trasladação acabaram por dar importância a uma coisa que talvez não a mereça: não me refiro a Aquilino, refiro-me ao Panteão. Basta ver quem já lá está para se concluir que o critério para a admissão dos residentes é meramente "ideológico" e, portanto, efémero (depende do capricho do momento, precisamente aquilo que um Panteão não deveria ser). Assim, tem-se Carmona e Delgado, Arriaga e Sidónio. E escritores? Que pensar dum Panteão Nacional que inclui João de

Deus e Guerra Junqueiro (sem ironia, apreciáveis), mas onde não se encontram Carlos de Oliveira, Jorge de Sena ou Nemésio? E Eça, Camilo, Almada Negreiros, Rodrigues Miguéis?
Por outro lado, Rui Ramos e Vasco Pulido Valente parecem ter posto no seu lugar as denúncias escandalizadas da participação de Aquilino no atentado de 1908 (ainda que alguns prometam revelações estrondosas sobre a coisa - aguardamos ansiosos). Mas suponhamos que teria realmente havido uma participação "logística" ou mesmo "prática" do nosso jacobino de 22 anos no regicídio. Apetece, então, perguntar: e daí?
Alguém consegue vislumbrar alguma relação entre o episódio e o mérito ou demérito literário do homem? Não seria o primeiro autor a praticar ou a simpatizar com barbaridades. Mas será que ainda é preciso lembrar isto? (Dispenso-me de fornecer exemplos.)
Do lado dos apoiantes da trasladação, houve quem se carpisse, quase rasgando as vestes, por o "mestre Aquilino" não fazer já parte do elenco de autores obrigatórios do Ensino Secundário - queixaram-se olhando de esguelha para aqueles que, no Ministério da Educação, decidem sobre estas matérias. Ingenuidade. Seria o mesmo que alguém lamentar um vegetariano por não apreciar um bife à Marrare. Por mim, penso que não viria mal nenhum ao mundo (pelo
contrário) que O Malhadinhas ou O Romance da Raposa fossem estudados no Secundário. A leitura de passagens do Aldeia, Terra, Gente e Bichos ajudaria a que, entre outras coisas, nos conhecessemos melhor.
Mas é inútil apelar-se aos tais decisores. Já se percebeu, pelas malfeitorias passadas, que é gente desprovida de sensibilidade literária. É gente que prefere, com genuíno entusiasmo, "formar" gerações embrutecidas. Gerações que devem ser providas das competências linguísticas suficientes para decifrar horários de caminhos de ferro ou instruções de máquinas de lavar roupa, mas que não precisam para nada de ler o Padre António Vieira, Fernão Mendes Pinto, Garrett ou Eça de Queirós. Não precisam de percorrer os caminhos variados de uma língua, de educar o gosto, de treinar a sensibilidade. Gerações assassinadas. Pedicídio.

Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Era uma vez

No espaço Um candidato que prometia um apocalipse: Retirava os EUA da NATO, fechava as suas bases fora do país, saía das Nações Unidas, prometia uma pura doutrina não intervencionista. Acabava com a Reserva Federal, cadeado à porta, e o sistema financeiro voltaria ao velho padrão ouro, fazendo uma criança perguntar, já que se falava de dinossauros, se o tal senhor traria também à vida um velociráptor? Parece que não, mas desde logo avisou que se por acaso viessem e pairassem sobre Israel, não iria fazer nada.

Preferia então ocupar-se a fechar instituições federais atrás de instituições federais, desde as de protecção ao terrorismo (HS) até às responsáveis pelas respostas a desastres e catástrofes (FEMA). A CIA e o FBI fechavam, a FAA, também. Nem a ajuda médica aos pobres escapava, e o Medicaid, afinal, finava.

Mas na longa lista do extermínio Ron Pauliano, há uma instituição citada que me despertou curiosidade: a NASA. O extermínio da NASA segue a lógica e não surpreende, mas eu cá desconfio que há alí mais qualquer coisa. Que saberão eles sobre Ron Paul?

Premier League

Hoje, chegou ao fim o reinado de Mourinho no Chelsea. O acontecimento será ainda muito comentado, em particular pelos adeptos do clube, que percebem que há pessoas difíceis de substituir. O que se passou em Inglaterra recordou-me um facto notável, de resto já várias vezes mencionado - o próprio Mourinho certa vez fez questão de assinalar o facto numa singela conferência de imprensa. Até há poucas horas, o berço do futebol tinha ao comando dos seus quatro grandes clubes homens de nacionalidades curiosas. Mandavam no futebol dois representantes de países que historicamente os ingleses sempre consideraram inferiores e trataram como colónias (Portugal - Mourinho; Escócia - Ferguson) e dois enviados dos inimigos ancestrais (Espanha - Benitez; França - Wenger). Presumo que haja muita gente que não se conforma com estas coincidências.

Aquela Cena Bué Grande de Bué Longe

No meu último post, um anónimo insurge-se contra a "cegueira" que demonstro ao menosprezar a obra de Aquilino Ribeiro. Pois se até Salazar gostava dele...
Não deixa de ser irónico fornecer como carta de recomendação o gosto de Salazar, que era tudo menos inocente. Salazar gostava dos romances de Aquilino por idealizarem o Portugal campónio e provinciano, pobrete mas alegrete, do qual ambos provinham, em certo sentido o modelo de sociedade que sempre teve na cabeça. Tal como Aquilino. Os extremos tocam-se, lá diz o povo. (E cá está o povo...)
Esse Portugal morreu, e não serei eu quem o lamente. Hoje, três quartos dos nossos compatriotas vivem no litoral urbano e metade à volta de Lisboa e Porto. Se lessem Aquilino, coisa que sensatamente não fazem, teriam de usar um dicionário. Experimentem ir a uma escola da Brandoa ou do Fogueteiro e perguntem o que é um "almocreve".
Mais irónico ainda, muitos dos que agora carpem mágoas por não verem os livros do "maior romancista português do século XX" à venda (porque será?) tentaram, em tempos recentes, expulsar Camões e Gil Vicente dos programas de ensino.
E agora querem que a malta leia o sr. Ribeiro...
Tenham juízo, pá.

Uma palavrinha, por favor...

Nunca gostei muito de falar do meu dinheiro. Mas hoje vou fazê-lo.
Há uns anos atrás, em pleno Guterrismo, a Nação foi brindada com um Despacho da Ministra do Ambiente - o Despacho 42/MA/96, de 28 de Maio - que deu luz verde à constituição daquela que viria a ser a "Comissão do Código do Consumidor".
A ideia, como é fácil de adivinhar, tinha subjacente a vontade de criar, no nosso país, um Código que tutelasse as relações de consumo. A iniciativa mereceu, então, quer na qualidade de Secretário de Estado, quer na de Ministro, o alto patrocínio do Engenheiro José Sócrates.
Até aqui, tudo bem. O meu dinheiro descansava em paz relativa.
Foi então criada a referida Comissão, composta por vários Professores de Direito (dois deles Catedráticos), um Alto Funcionário da C.E., Juízes, Assessores...

Sei que José Luís Arnaut, enquanto Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro (já em pleno Barrosismo, portanto), pediu celeridade nos trabalhos e sei que foi dado um impulso valente aos mesmos.
Estávamos em 2002, 6 anos depois da publicação do Despacho da Senhora Ministra.
Os cidadãos consumidores (e contribuintes...), esses, é que do Código do Consumidor pouco ou nada foram sabendo. Até que um dia, precisamente em 15 de Maio de 2006, a Secretaria de Estado do Comércio, Indústria e Defesa do Consumidor anunciou uma Consulta Pública ao Anteprojecto de Código do Consumidor.
Note-se: estamos já em pleno "consulado Sócrates" e o Despacho comemorando dez longos anos de vida...
Até Julho daquele ano, foi uma azáfama: departamentos jurídicos, escritórios de Advogados, empresas, associações, confederações, um "mundo" mobilizado para dar o seu parecer ao Anteprojecto (sem esquecer os serviços do Ministério da Justiça, da Economia......).

E pronto. A partir daqui não tenho mais história para contar.
Estamos em Setembro de 2007. Entre o pó de algum arquivo, o Despacho comemorará, por ora, os seus onze anos e quatro meses sem ver despachada a sua razão de ser.
Acredito que não seja possível quantificar o montante dos recursos aplicados até agora nesta ideia. Acredito, aliás, que ela não passe disso mesmo.
Mas, por respeito ao meu dinheiro, podiam ter a amabilidade de me dizer qualquer coisa...

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

O debate das directas

Faltou chama ontem no debate na SIC-Notícias. O debate foi pobre, desde os cenários, ao dia – Benfica e Porto com jogos importantes – até à entrevistadora: Ana Lourenço tem futuro mas falta peso e densidade.

Mendes atacou mais, tentando demonstrar as contradições políticas do adversário, mas é previsível e pouco expressivo a comunicar. A sua ideia principal foi: se não houve melhor oposição foi porque as vozes discordantes – sobretudo Menezes – não deixaram. Com mais unidade e estabilidade na liderança as coisas serão diferentes até 2009.


Houve poucas novidades nos temas discutidos. Mendes falou de baixar os impostos e de reduzir o peso do Estado, defendeu que certas funções podem passar para a iniciativa social e privada, de apoio às PME e de rupturas na Educação. Quanto a Menezes, continuo a não descortinar o que propõe, limitando-se a contrariar as ideias do actual líder. As únicas excepções talvez sejam os círculos uninominais, de que falou ontem, e a ideia (perigosa!) de que os deputados devem ser escolhidos pelas bases do partido.

Menezes esteve mais à defesa e por vezes algo nervoso. Pareceu mal preparado em certos temas. Fiquei com a impressão – também subjectiva, reconheço – de um certo narcisismo, a fazer lembrar Santana Lopes: parecia que os temas eram sempre vistos de um ângulo pessoal.

Nenhum dos candidatos conseguiu surpreender. Mas Menezes perdeu uma oportunidade porque precisava mais deste debate. Mendes ganhou – embora sem entusiasmar – e está melhor colocado para ganhar as directas. A dúvida é se vai ter uma vitória clara. E se consegue ganhar no continente, ou seja, mesmo sem os votos das ilhas.

Pleonasmo de Santa Engrácia

Os elogios beatos a Aquilino são quase tão intragáveis como a obra de Aquilino.

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Crónicas do Planeta Oval (5)

Quando comecei a jogar rugby com a crédula idade de doze anos, os veteranos diziam-nos, muito sérios, para só festejarmos os ensaios dos pilares. Era um modo de exibir a diferença tribal e vitoriana que nos separava da malta do futebol - e dos seus apalpões celebratórios. Números 1 e 3 nas costas, quase sempre os mais lentos e pesados da equipa, os pilares passam metade do tempo dobrados e a outra metade a arrastar-se, invisíveis especialistas na arte ingrata de mergulhar de cabeça nas mêlées, levantar em braços as bestas dos saltadores e ganhar bolas à dentada para os três-quartos se divertirem. As suas hipóteses de brilhar são raras e as de marcar são raríssimas. Por isso os mais velhos nos diziam, perante um ou outro excesso de júbilo futebolístico, que só os ensaios dos patinhos feios valiam realmente a perda de compostura.
Pois bem, o ensaio de Portugal contra a Nova Zelândia no Sábado merece ser duplamente festejado.
Porque foi marcado por um pilar.
E porque... enfim... foi contra a Nova Zelândia.
E não foi um ensaio qualquer: bela carga dos avançados, que conquistaram terreno palmo a palmo para os 15 milímetros de glória de Rui Cordeiro, o homem certo no lugar certo.
Ao menos uma vez.
Só quem já jogou rugby sabe o que isto significa. O All Blacks são um mito. Todos os profissionais do mundo sonham marcar-lhes um ensaio e são bem poucos os que podem gabar-se de ter sido o homem certo no lugar certo. Que o tenha sido um amador careca e pançudo, com muita imperial no bojo e canudo de doutor, é para mim um motivo de orgulho. Para mim e para todos os portugueses que gostam de ver patinhos feios a voar alto.
Ao menos uma vez.

Coisas simples

Em assuntos internacionais, há um princípio simples: o poder militar não serve de nada se não houver a intenção de o utilizar. Por outras palavras: sem a disponibilidade credível para utilizar um instrumento de poder, ele deixa, em sentido próprio, de se constituir como componente de poder. Se a intenção de recurso à força militar necessita de ser efectivada; se o deve ser de forma preventiva ou apenas como ultima ratio, não anula o princípio –qualifica-o. Porque a necessidade, o momento e o modo de utilização do poder militar é uma questão estratégica, o princípio simples tem um corolário: em assuntos internacionais, juízos morais e estratégia têm uma interdependência complexa e não são separáveis. Sem essa complexidade, a geopolítica seria apenas uma lógica mecanicista.

Bernard Kouchner é um homem inteligente, suficientemente inteligente para compreender isto e para desconfiar da inteligência de outros. Vai daí, declarou que a França não tenciona entrar no ringue com as mãos atadas atrás das costas e que, se for necessário, baterá com força para obter o resultado que pretende. O alvoroço galináceo que a declaração está a causar é irrelevante: a mensagem de Kouchner dirige-se àqueles que têm interesses estratégicos opostos —sobretudo aos russos e, em parte, aos alemães. Kouchner informou-os que postais presidenciais como o reproduzido acima pertencem ao passado e que não estão nas 'cartas persas'.

É uma declaração extremamente importante, do ponto de vista geopolítico. Agora é necessário, antes de mais, conferir credibilidade à declaração, para facilitar a resolução do problema iraniano sem ter de recorrer ao poder militar. Para isso é preciso que o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês leve a sério as declarações do cidadão Kouchner. On verra.

Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Reconhecer a Diferença (3)

Ora bem, a força cultural exercida pelo ideal da autenticidade implica a afirmação da diferença, um ser-se verdadeiro para com a minha originalidade, algo que só eu posso articular, descobrir e expressar. Mas esta “descoberta de si” como componente incontornável da realização humana comporta necessariamente uma auto-compreensão que se estrutura através de uma linguagem mantida numa comunidade linguística, a descoberta de si implica uma abertura aos outros dentro daquele horizonte dialógico que permite a cada um compreender-se naquilo que é, que valoriza ou que deprecia.
Mais, a liberdade de auto-deteminação e auto-criação, sob a forma de uma originalidade inaudita, não pode realizar-se sem uma abertura a horizontes de significado pré-existentes e independentes dos desejos, inclinações e escolhas do agente. Sem estes horizontes as escolhas originais perderiam os seus significados, a afirmação da diferença tornar-se-ia insignificante.
Reparemos. Onde poderá residir a diferença entre um homossexual que afirma a sua particular orientação sexual, de um emigrante que afirma o seu específico legado cultural, ou de um homem que se afirma como a única pessoa no mundo com um milhão de cabelos? Supomos que os dois primeiros casos poderão tentar justificar o valor daquilo que afirmam, e que o último nunca o conseguirá fazer. Ou seja, que o último caso está condenado a afirmar a diferença somente pela diferença sem nunca conseguir justificar o valor da sua originalidade, singularidade, especificidade.
Pelo contrário, o homossexual e o emigrante poderão fazê-lo, mas isso implica abertura a horizontes de significado e auto-definição em diálogo. Ora, é precisamente aqui que muitas vezes o activismo de minorias é apanhado em falso. Porque os horizontes de significado da sociedade em que habitam não lhes permitem valorizar a sua diferença, fecham-se à comunidade linguística envolvente. Ou seja, adoptam um ideal de realização humana que se traduz numa pura expressão singular de si em oposição às regras da sociedade e àquilo que é reconhecido como moralidade vigente. O problema é que em seguida pedem que a sociedade os reconheça naquilo que ela não é capaz de reconhecer. Ao menos, Nietzsche foi suficientemente inteligente para perceber que a sua «transvaloração» só poderia ser percebida por um homem que havia de vir. Resta-lhes gritar bem alto. Mas questão permanece, ninguém é capaz de os ouvir. Ou seja, assiste-se apenas ao desfile sazonal de um circo.

Pathos, logos, ethos

O artigo de Pacheco Pereira sobre o "caso McCann" é das coisas mais interessantes que li até agora. Mas há algo de muito errado quando o adjectivo interessante aparece aqui. JPP compara o drama público dos McCann a uma tragédia grega, o que faz sentido: a mediatização tornou-se fatalmente uma encenação. Esclareço desde já, pois caminhamos à beira do abismo, que não estou a afirmar ou sequer a insinuar que alguém está a mentir - e quem está a mentir. Os pais, por boas razões, usaram ao máximo os media para procurar a criança e a PJ, por péssimas razões, usou e abusou das costumeiras fugas de informação para fazer o seu trabalho.
Perante a tragédia, há duas atitudes possíveis, diz JJP: ou o pathos ou o logos. Ou somos espectadores que tomam partido pelos bons, vociferando contra os maus e o predestinado clímax da peça. Ou somos críticos distantes que vêem apenas, citando Oscar Wilde, mais um exemplo em que a vida imita a arte.
JPP escolhe a segunda.
JPP esquece, porém, que esta é uma tragédia real. Como Stockhausen quando chamou ao 11 de setembro, para justo horror de todos, uma obra de arte. Quem escolhe ser crítico é também espectador.
Há uma terceira atitude diante do mal, um pudor da inteligência, o ethos que JPP diz estar ausente de tudo isto, que nos torna humanos. Porque se os pais forem inocentes, nenhum tribunal poderá fazer justiça ao seu sofrimento. Mas se os pais forem culpados, então Deus tenha piedade de nós.
É essa a verdadeira tragédia - que JPP não vê.

O único post possível

...sobre isso.

Ser Callas

No que respeita a escolhas cinematográficas, por norma evito o género biográfico. Creio que começou com Amadeus, onde Milos Forman reduziu Mozart a uma criança pateta com uma gargalhada profundamente irritante. Passei o filme todo à espera que Salieri resolvesse o assunto. Mas com Man on the Moon descobri que o talento de Forman não se limitava a reduzir génios a idiotas: também era capaz de fazer idiotas como Andy Kaufman passarem por génios.

Por isso, quando soube que tinha estreado ‘Os Fantasmas de Goya’ realizado por Forman, hesitei mas acabei por decidir ver. Para quem se interessa por pintura, há normalmente ‘um quadro de Goya que...’. O meu é um retrato da Duquesa d’Alba: coberta por uma mantilla negra, lenço vermelho à cintura, olhar altivo e dominador aponta para o chão em frente com um dedo fino e longo. No chão, uma inscrição: Solo Goya. Quem vir o quadro e não perceber a sugestão sensual contida neste retrato de uma mulher feia, paciência.

A genialidade de Goya, prometia o pior e Forman cumpriu: desta vez consegue reduzir um pintor enorme e complexo a um trambolho inexpressivo, que assiste passivamente à tragicomédia humana. Para além de uma espécie de videoclip sobre a impressão de gravuras anticlericais, da vida de Goya e da relação entre a sua obra e o período em que viveu, nada –as guerras peninsulares servem apenas como cenário da tragicomédia, aqui e ali com pormenores burlescos. E no entanto, algumas das obras fulcrais de Goya têm uma relação directa e fundamental com os acontecimentos geopolíticos da época. Por exemplo, as mais violentas naturezas mortas pintadas por Goya, que tiveram enorme influência sobre Picasso, são do período de 1808-12. Quem tomar aquele pateta andante inventado por Forman pelo verdadeiro Goya, jamais desconfiará que este tinha um fascínio obsessivo pelo horror enquanto inspirador de medo e pela sua relação com o sublime (um tema na filosofia de Burke), que o levou em diversas ocasiões a pintar cenas de canibalismo, mitológicas e históricas. Solo Forman.

Ainda mal refeito do tratamento dado a Goya, na imprensa do fim de semana anuncia-se que ‘Penélope será Callas’. Será? Aparentemente a actriz espanhola prepara-se para representar o papel de Maria Callas, na adaptação cinematográfica de (mais uma) biografia. Mas o que é que a menina Penélope nos pode dar ‘sendo Callas’? A resposta não é imediatamente óbvia.

Callas, a soprano que a história guarda como La Divina nunca foi Maria. Foi a Tosca, perseguida e cobiçada por Scarpia; foi a Norma, desprezada por Pollione e literalmente consumida pelas chamas, foi a Lucia di Lammermuir, uma Julieta das Highlands destruída numa luta entre clãs; foi Oscar que ‘lo sa, ma nol dirà’ em Un Ballo in Maschera. Foi isto e muito mais: foi a Callas. Aos registos históricos existentes –áudio e televisivos– os inexistentes talentos vocais da menina Penélope não acrescentarão seja o que for. Na manifesta impossibilidade de Penélope ‘ser Callas’, será Maria. Ao ecrã chegarão as discussões de Maria com a mãezinha, a sua insatisfatória vida amorosa, o declínio vocal, a reclusão e o desfecho final. Em suma, tudo aquilo que destruiu a vida de Maria e que não interessa para a eternidade da Callas.

O interesse cinematográfico pela história de Maria servirá para acentuar a tendência para a devassa da intimidade como normalidade social. Há muito que a reclusão deixou de ser um exercício legítimo do direito à privacidade, para passar a ser um sintoma de algo ‘errado’, ‘anómalo’. A privacidade oculta a infelicidade; logo, a privacidade é uma barreira indesejável. Graças a esta ideia simples, a família deixou de ser encarada como a unidade ‘natural’ da sociedade e passou a ser, como garantia Foucault, um espaço de perpetuação de relações de poder e de opressão. Percebendo isto, percebe-se melhor o interesse estratégico do ‘caso McCann’.

A história de Maria servirá também para reforçar o processo de ‘dianização’ social em curso, substituindo o fundamento ético do discurso político por um discurso emocional, através do qual se impõe um novo ideal utópico de radicalismo democrático: a igual ‘felicidade’. Afinal, Maria não foi La Divina, uma aristocrata que se distinguiu pela excelência no canto lírico. Foi uma mulher infeliz –uma mulher do ‘povo’– vítima de uma sociedade incapaz de assegurar o direito à igual felicidade. Tal como Diana, morreu por nós, pobres infelizes, para que seja nosso o reino da Terra. As democracias republicanas sempre necessitaram de uma mulher bonita a mostrar o caminho para o futuro. Ora a Callas, tal como a duquesa d’Alba, era uma mulher atraente, mas feia: é para isso que existem las meninas Penélopes.

Domingo, 16 de Setembro de 2007

Da série "Melões de cá"

Robert Delaunay, A equipa de Cardiff (1913)

Sábado, 15 de Setembro de 2007

Dia de acção global porDarfur

Já falei aqui sobre Darfur, uma causa bem mais importante do que o milho transgénico.
É agora tempo de acção.
Amanhã, domingo, 18 horas, Concentração em Lisboa, no Largo do Camões, para chamar a atenção dos governantes para o que está a acontecer no Darfur e pedir à presidência portuguesa da União Europeia que o tema seja incluído na agenda da Cimeira U.E. /África. Levar um lenço preto ou uma venda nos olhos.

Et in Arcadia ego

Marcámos um ensaio à Nova Zelândia.
Quero lá saber do resto...

Portugal atento

Portugal continua a aprender ou, pelo menos, a não deixar esquecer o que é realmente importante nos momentos realmente importantes.
Durante os próximos tempos, ninguém esquecerá que há sempre um indício de qualquer secreta emoção escondido no acto de coçar uma orelha, de olhar para cima, de enrugar a testa, de franzir o sobrolho...
É por isso que qualquer português médio, mínimamente atento à transmissão do jogo de 4ª feira, já havia percebido, a partir do minuto 50, que Scolari estava a ficar com vontade de bater em alguém...

Crónicas do Planeta Oval (4)

Faltam menos de doze horas para o maior jogo de sempre do rugby português. Tomás Morais fez várias alterações na equipa que defrontou a Escócia. Quer mais músculo. O caso não é para menos: a Nova Zelândia é uma máquina de ataque.
Mas nem sempre a técnica fica a ganhar com a troca. No lugar de médio de abertura, a substituição de Cardoso Pinto, melhor chutador e mais frio, por Gonçalo Malheiro, melhor placador e mais físico, é um bom exemplo do dilema. Malheiro defende melhor, Cardoso Pinto marca mais pontos.
A escolha de Morais revela o seu maior terror: a mobilidade da terceira linha all black. Mesmo sem Richie Mc Caw, que não joga contra nós como muitos dos habituais titulares, eis um dos pontos fortes (ou deverei dizer fortíssimos?) dos maoris.
Isto, claro, é a conversa oficial.
Aqui para nós, eu acho que o McCaw e os outros tiveram foi medo de jogar.
The bigger they are, the harder they fall...

Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Crónicas do Planeta Oval (3)




Enquanto a pátria discute os méritos pugilísticos do Sr. Scolari, continuemos a nossa viagem pelo Mundial de Rugby. Como se previa, a África do Sul impôs à Inglaterra uma pesada derrota, a mais pesada dos ainda detentores do título na história do torneio: 36-0. O que mais impressiona é aquele redondinho zero, também ele pioneiro, mas o resto era igualmente previsível. O bloco de avanços foi frágil (permitiu aos springboks sete turnovers, ou recuperações de bola, e apenas conseguiu um) e, entre os três-quartos, só o veterano Jason Robinson teve pedalada para os sul-africanas, pelo menos até estoirar por completo. A idade não perdoa. Amanhã, no outro grande jogo da jornada, a Austrália vai aviar o País de Gales com uma dose semelhante.

Cá para mim, isto está no papo do hemisfério sul. Os All Blacks são favoritos porque são os All Blacks, mas atenção aos australianos. Fizeram um jogo imaculado contra o Japão: um único pontapé de penalidade concedido, de que resultaram aliás os três pontos nipónicos, uma placagem falhada em 41 tentadas (só para se ter uma ideia, os japoneses tentaram 131 e concretizaram 93, o que mostra como passaram o tempo a defender) e, sobretudo, treze ensaios marcados. Ao contrário da Nova Zelândia, que entrou muito cedo a ganhar folgadamente e acabou por levar dois ensaios da Itália, um deles fruto de uma imperdoável intercepção a meio campo, os wallabies atacaram e defenderam durante o jogo todo. Ora, nos choques de civilizações que têm sido os encontros com os rivais, a história ensina que só o último quarto de hora desfaz o equilíbrio. Ganha quem marca um ensaio ou um drop na recta final. Foi assim que a Inglaterra venceu em 2003 (pontapé de ressalto de Wilkinson no último minuto) e a África do Sul em 95 (pontapé de ressalto de Stransky no último minuto). Para isso, é preciso estar perto da área de 22 do adversário e, para isso, é preciso manter a pressão até ao fim. A Nova Zelândia facilitou e a Austrália não facilitou. Faites vos jeux, messieurs.

Mas o que eu gostaria mesmo é que fosse a África do Sul a triunfar. Não lhe faltam créditos. Esmagou hoje o campeão em título e o seu jogo contra Samoa foi brilhante. Poucos se podem gabar de meter oito ensaios aos duríssimos jogadores do Pacífico, e que ensaios. Todos dos três-quartos, quatro do ponta Bryan Habana (o senhor lá de cima), que promete vir a ser a coqueluche do torneio. Sou fã dos springboks desde que ganharam o Mundial de 95, depois de terem estado afastados das competições internacionais por causa do apartheid. O rugby sul-africano sempre foi um símbolo do poder afrikaner, um desporto de brancos. As coisas estão a mudar depressa, mas dos trinta convocados para França apenas seis são negros, uma proporção inversa à do resto da população. Quando o apartheid caiu, o país uniu-se em torno da organização do Mundial de 95, não sem antes assistir a uma azeda batalha pela troca do emblema do odioso passado - o springbok -, por uma flor do deserto do Kalahari, bela metáfora do novo regime democrático. A gazela e a flor acabaram por ficar lado a lado, até hoje, e a África do Sul sagrou-se campeã mundial na sua primeira participação, um feito que encheu de orgulho os sul-africanos de todas as cores. Mas o mais orgulhoso era o Presidente Mandela, que na final vestiu uma pouco protocolar camisola e entregou o troféu, nos preparos que vêem aí em cima, ao capitão Pienaar, o descendente dos boers que alguns dias antes visitara com toda a equipa a prisão de Mandela, o único emblema que ninguém queria na lapela.
O jubiloso aperto de mão entre os dois homens de pele diferente e camisola igual fez tanto pela África do Sul como a Comissão Verdade e Reconciliação. O rugby também vale por momentos assim e seria simpático repeti-lo. Agora sem Mandela e sem Pienaar, mas com Bryan Habana, a jovem estrela negra do velho jogo dos brancos.

Da série "Há muito que não escrevia um destes"

-Pai!
-Diz, filho.
-Como é que se chama esta senhora que está a cantar?
-June Tabor.
-Djiune Teibare? Que nome tão esquisito! Porque é que ela se chama assim?
-Ó filho, sei lá! Porque os pais dela escolheram assim. Tu também te chamas Pedro porque a mãe e eu escolhemos assim.
-Ah.
(Breve pausa.)
-Pai...
-Diz, filho...
-Os pais dela devem ser muito esquisitos...

Mais uma vez, o Totalitarismo

Caros amigos, sei que estou em débito com o Reconhecimento, mas preciso desabafar.
Tenho mais uma vez a oportunidade e o privilégio de estar a traduzir (juntamente com um dos vossos servos aqui do Cachimbo), para as Edições 70, um livro que cobre um dos períodos mais negros da nossa história. Trata-se da Biografia de Lenine por Dmitri Volkogonov. E aquilo que não posso deixar de questionar é o modo como o totalitarismo foi comummente descrito como uma espécie de governo dos sábios. Será pela confiança que os seus dirigentes tinham no modelo que desejavam aplicar? Só se for isso, mas ainda assim essa descrição deixa muito a desejar. Porque aquilo que mais uma vez sobressai é a completa irracionalidade, o esforço constante de ocultamento da verdade, a arbitrariedade grotesca da utilização da expressão «excepção revolucionária» que permitia ajuizar de modos distintos casos iguais, a negligência, o puro zelo pelo interesse pessoal, o exercício sem critério e coerência do poder. Bem podem vir cá com o Platão e com o Hegel. Ficará sempre por explicar como é que a confiança no conhecimento, do que se considera ser a verdade, se pôde traduzir na completa irrazoabilidade dos comportamentos e decisões.
Dir-me-ão: a vontade de aplicar um modelo tão abstracto e racional, conduz à violação de todas as regras, inclusive as do próprio modelo. Bom, mas isso é o triunfo de uma vontade arbitrária e não o triunfo da virtude da sabedoria ou da razão sobre os apetites e sobre a vontade.
Penso que alguém se apressou no diagnóstico.

Boris


Iain Dale: What's the first thing you'll do if you get elected as Mayor of London?

Boris: I will ... rejoice...

(Entrevista aqui)

Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Civilizado, culto e inteligente

O caso McCann atingiu hoje um novo patamar de surrealismo.
Um tal de Rui Marques escreveu um artigo inteiro no Público para dizer que "não se sente menos civilizado, culto e inteligente do que um inglês".
Cada um tem o affaire Dreyfus que merece.
Adenda, a 14/9/07: Ao contrário do que disse ontem, o artigo em causa não foi escrito pelo homónimo Alto Comissário Para a Imigração e Minorias Étnicas. Fui induzido em erro pela fotografia que o acompanhava. As minhas desculpa ao visado e os meus agradecimentos ao comentador que me alertou para a rectificação. É um pequeno alívio ver que, afinal, ainda não está tudo maluco.

Ditosa Pátria

Scolari, vai-te embora!

Esse lugar é do Moita Flores!

Parque de Diversões

«As pessoas comem aquilo que lhes dão»
José Hermano Saraiva

Imagine:
Imagine um cenário em que alguém diz a um grupo de pessoas que, a partir de certo momento, é esse grupo quem mais ordena. A coisa soa bem. E o grupo mobiliza-se para ordenar.
Imagine também que esse grupo tem convicções:
- que acredita que a sua vontade é soberana e deve ser respeitada;
- que quer viver num Estado de Direito, com uma Justiça pronta e acessível e respeito pela Lei;
- que espera que lhe sejam criadas condições que o tornem apto a formar uma opinião objectiva - susceptível de bem ordenar.
Imagine agora:
- que um Governo eleito pelo grupo não cumpre as expectativas criadas durante a campanha eleitoral (lembra-se de algum caso?);
- que a Justiça é sinónimo de lentidão para muitos e privilégio de poucos. E que o respeito pela Lei é um conceito relativo (imagine: "respeito do Segredo de Justiça");
- que para o grupo o que hoje é verdade, amanhã é desconfiança ("o que eu sei sobre o caso Maddie Mc Cann"; ou "o que eu sei sobre o déficit orçamental" ou "o que eu sei sobre o aeroporto na Ota");
Um último exercício de imaginação:
Imagine que o grupo, que um dia se sentiu explorado, amordaçado, atrasado e isolado, acorda um dia e se sente ludibriado e instrumentalizado. Que se sente gozado.
Será que o grupo vai comer para sempre "aquilo que lhe dão"?

É possível. Caso contrário, restará então, aos divertidos, a esperança de que não seja possível matar-lhe a paciência.

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Crónicas do Planeta Oval (2)

Por esta altura, já vimos os cinco favoritos à vitória no Mundial de Rugby em acção. São eles, de cima para baixo e da esquerda para a direita, a Inglaterra, a França, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Todos venceram o primeiro jogo, excepto os franceses.
A jogar em casa, e depois de ter ganho o Seis Nações este ano, a sua (justa) derrota com a Argentina é um pequeno escândalo nacional. O grande escândalo é não terem marcado um único ensaio para amostra. O rugby gaulês tem fama e proveito de ser o mais aberto do mundo e isso costuma dar ensaios. Muitos e bons. Só que, desta vez, rien de rien. Como dizia aquela personagem do Eça, c`est excessivement grave... A França está no "grupo da morte" e corre o risco de não passar sequer à fase seguinte, à conta dos pumas (dois jogos, duas vitórias) e de uma Irlanda que só não venceu o Seis Nações em Maio por uma unha negra.
Embora eu tenha um fraquinho pela Irlanda e um triunfo dos verdes fosse politicamente muito interessante (não há outro desporto em que o Eire e o Ulster integrem a mesma equipa nacional), entre os britânicos só a Inglaterra pode alimentar ilusões. E remotas. Tiveram grandes dificuldades contra os EUA (28-10) e estão em baixo: muita gente nova, muitas lesões, sobretudo a do abertura-estrela Johnny Wilkinson, derrotas recentes contra a França e a África do Sul e, para complicar as coisas, a suspensão do inexperiente capitão Phil Vickery por ter pontapeado um americano. Sirva-lhe de desculpa ter suposto, como todos nós, que o acto não fosse punível em solo francês.
De qualquer modo, o Francisco José Viegas tem boas razões para perguntar como é que estes "cavalheiros esbranquiçados" foram campeões em 2003. À cabeça de um dossier de cinco textos (o de Rod Liddle, delicioso, insurge-se contra o "sport for gay middle-class cavemen"...), a respeitável Spectator pergunta o mesmo: "Can we do it again?" E quase conclui que não. (Enfim, não se lhes pode pedir mais, são súbditos da Sua Majestade britânica.)
Mas o que separa 2003 de 2007 explica-se facilmente. Há muito que o jogo inglês assenta em duas coisas: um bloco de avançados com motor Rolls Royce e um médio de abertura com a precisão da hora de Greenwich. Nos anos 90 e seguintes, foi essa a chave do êxito: primeira linha de betão, a melhor segunda linha do mundo (Dooley e companhia, depois Martin Johnson e companhia), uma terceira linha capaz de recuperar a Aquitânia se a rainha pedisse - e a bota bigbénica de Rob Andrew/Grayson/Wilkinson/riscar o que não interessa. De vez em quando lá apareciam uns Underwoods e uns Guscotts, que pareciam ter-se enganado de país, mas a common law estava bem estabelecida. Mesmo em 2003, a final só foi ganha com um pontapé de ressalto do inevitável Wilkinson no último minuto.
Acontece que o inevitável Wilkinson está no estaleiro e os avançados de 2003 entregaram-se ao merecido descanso. O resultado é o contrário do costume: um pack jovem e pouco talentoso (à excepção do carismático Dallaglio, que regressa depois de longa ausência), um 10 que muda ao sabor das lesões e uma linha de veteraníssimos três-quartos. Chega para os cóbóis, não vai chegar para os grandes do hemisfério sul. Hão-de apanhar tantas dos boers, maoris e cangurus que desejarão nunca ter tido um império.

Da série "Melões de cá"

Henri Rousseau, Os jogadores de rugby (1908)

Tinha de ser filmado

Caríssimos,
Não resisto. Mudam-se os tempos mudam-se as inquietações. Lembram-se do diálogo da «comprativa» em Torre Bela. Esqueçam. O mundo está diferente. Agora as verdadeiras discussões acontecem nos cafés dos subúrbios, nos transportes, na rua, em todo o lado. Numa controvérsia sobre cães e donos e «coitadinho do bicho» e «coitado mas é de mim», alguém aventa algo de semelhante à frase do Gandhi: “a grandeza de um país mede-se pela forma como trata os seus animais.”
Resposta de génio: «Isso quer dizer que um país onde as vacas são sagradas e a malta morre à fome é do melhor que há, não? Esse Gandhi era mas era um grande espertalhão.» E porque numa discussão de café ninguém fica calado: «não é isso pá, tu aí tens é de tratar os homens como animais.»
Quem disse que éramos só um povo de poetas? Argumentação finíssima, finíssima...

PSD (II)

Aproximam-se as directas no PSD. Mais do que “episódios” é essencial discutir política como escrevi aqui. Lembram-se das directas no PS? Os debates Sócrates-Alegre foram a melhor rampa de lançamento do actual PM.
Menezes defende que o líder deve estar à porta das fábricas, deve “ouvir a rua”. Agregar os descontentes com as reformas socialistas. É o caminho mais imediato, mas também o mais perigoso num partido que se assume como reformista e quer voltar ao poder.
A alternativa é mais difícil e com resultados apenas a longo prazo. É o caminho da credibilidade e da consistência. Implica um trabalho político interno sério, apostar nas pessoas certas, estudar e ouvir especialistas para definir políticas sectoriais consistentes. Ganhar primeiro o argumento, para depois conquistar o poder e saber o que fazer com ele.
C
onsidero Marques Mendes como o candidato com mais condições para vencer a batalha da credibilidade. O actual líder do PSD deu alguns sinais de que quer fazer este caminho: lançou a revisão do programa e afastou certos autarcas com problemas judiciais, mesmo com o risco de perder certas câmaras.
Mas o mais difícil está ainda por fazer.
É preciso cortar com certos interesses, afastar os barões e baronetes, para combater a cartelização do partido. Ter a coragem de renovar as estruturas e os rostos do partido, fazendo um corte com o “cavaquismo”, tal como os Tories tiveram de fazer com o “thatcherismo”.
Os resultados eleitorais mostram o envelhecimento e a “ruralização” da base eleitoral do PSD. É preciso enfrentar esta tendência falando dos problemas que enfrentam as jovens famílias e as classes médias urbanas. Abrir o partido à sociedade civil, atraindo os jovens quadros profissionais para a política partidária.
Marques Mendes tem pela frente a difícil tarefa de unir os vários partidos dentro do PSD. Desde o partido "autárquico”, de que fala Pacheco Pereira, às correntes liberais ou conservadoras. Mais do que ideologia, o líder deve falar de ideias concretas: é isso que os eleitores querem ouvir. Para isso é necessário o "registo" certo e ser credível, o que demora o tempo.
Os partidos não são eternos. Apesar do seu passado, se o PSD não ultrapassar esta crise corre o risco de se tornar um partido decadente, sem capacidade para liderar o seu espaço político. Em política não existe vácuo: se o PSD não ocupar esse espaço outros o farão.
(texto mais desenvolvido no Diário Económico)

Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

O milagre da multiplicação dos museus (2)

Afinal, a extensão lisboeta do Museu Hermitage, que foi objecto da minha inquietude há uns tempos, é para avançar - diz o Público. Um pequeno núcleo primeiro, na Galeria D. Luís do Palácio da Ajuda, e o resto depois. Com a estratégia faseada, o Instituto dos Museus quer testar, ao que parece, a reacção do público português.
Vão desculpar-me, mas continua a haver qualquer coisa que não bate certo na fúria museológica do Ministério da Cultura.
Testar o Hermitage? O que é que isto significa?
Que, se tiver poucos visitantes, volta tudo para Sampetersburgo?
Que o Palácio da Ajuda, pequenino e longe de tudo, é a melhor opção para ter visitantes?
Que, se tiver muitos visitantes, o resto vai para lá?
Que ainda ninguém pensou como vai acabar este romance russo?
Decididamente, a política cultural do PS é a olho: misturam-se uns ingredientes coloridos, leva-se a lume brando e depois logo se vê.
Ou não se vê.