Terça-feira, 31 de Julho de 2007

A Repartição do Iraque

Algumas vozes apresentam Joseph Biden como provável Secretário de Estado de uma possível administração Democrata, a partir das eleições de Novembro de 2008. Biden é um dos autores do plano de repartição do Iraque em três regiões "semi-autónomas", o que leva a crer que, se for ele o próximo Secretário de Estado, o Iraque deixará de existir.
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Claro que a frustração causada pela situação actual teria inevitavelmente como efeito a recuperação de uma ideia avançada durante a Primeira Guerra do Golfo, sendo nessa altura rejeitada por quem governava. De resto, uma das razões mais fortes para a manutenção de Saddam Hussein após a primeira invasão do país pelos americanos era precisamente que só o tirano poderia manter o Iraque unido, ou, por outras palavras, que o derrube do tirano teria como consequência a sua implosão.
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Fala-se que se trata de seguir o exemplo da Bósnia pós-1995. Usa-se palavras como "descentralização" e "federalismo", como se estivessem a discutir os planos de regionalização em Portugal ou na Inglaterra, ou até a reviver Filadélfia 1787. De facto, o mesmo já se dissera, em 1995, a propósito da Bósnia. Bem, a Bósnia enquanto Estado deixou de existir. Hoje há duas, se não três, Bósnias, que coexistem à distância sob a vigilância de europeus e americanos. E o exemplo da Bósnia ilustra outra coisa desagradável. A repartição do território nestes termos é uma recompensa, talvez a maior recompensa, para as acções criminosas de limpeza étnica entretanto levadas a cabo. Como se não bastasse, a perspectiva futura da repartição do território não só legitima, como incentiva e obriga a mais limpeza étnica, de modo a garantir que as novas unidades territoriais sejam "homogéneas" e "coerentes", coisa que nunca são.
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Repartir o Iraque, para além de ter consequências geopolíticas profundas, constitui nova sentença de sofrimento para as gentes que já tanto penam. O drama destas iniciativas como a invasão do Iraque é sempre a estratégia de saída. Mas a grandeza de um povo não se mede apenas pelo modo como entrou; a saída também conta.

Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

O Bisavô do Movimento Anti-Globalização

Os "Ludditas", como eram conhecidos no início do século XIX aqueles que abominavam as máquinas, a produção em série, a destruição das corporações de artesãos, a concorrência externa, também cantavam "palavras de ordem", ou melhor, uma canção de guerra. Intitulava-se "General Ludd's Triumph" e cantava-se assim:

The guilty may fear, but no vengeance he aims

At the honest man's life or Estate

His wrath is entirely confined to wide frames

And to those that old prices abate.

Enquanto houver capitalismo, haverá dizeres destes. As causas são variadas, mas não se deve esquecer que o capitalismo é, como sempre disse Schumpeter, um tumulto permanente. Há pessoas que não gostam de viver em tempos de revolução. E a tal ponto desejam a estabilidade que estão dispostas a cobrir-se de ilusões. Mesmo que essas ilusões escondam o propósito ultra-revolucionário de, como rezava a Internacional, abalar o mundo até aos alicerces.

E o PM estará de novo ausente?

Ao fim de dois dias de calor, os incêndios voltaram. Veremos como se comportarão as grandes mudanças vertidas na aquisição de equipamento e na organização da resposta a dar, preparadas durante o ano pelo Governo e por António Costa.
A avaliação, em todo o caso, não poderá conduzir a qualquer tipo de responsabilização. Se a avaliação for boa, os louros serão repartidos. Se a avaliação for má, a culpa morrerá solteira. Solteira, mas não descomprometida. É o tempo da união de facto entrar também nas instituições. E como se verá, não será seguramente para reforçar a estabilidade da já débil Câmara de Lisboa.

Domingo, 29 de Julho de 2007

Conflito de (in)competências

Renato Sampaio, Presidente da Federação Distrital do PS-Porto, não irá demitir a sua DREN. Resta saber por quanto tempo manterá a confiança em Maria de Lurdes Rodrigues.

Da série "Cachimbos de Lá"

Norman Rockwell, capa da Saturday Evening Post, 27/8/60.

Atlântico nas bancas

Mais uma Atlântico fresquinha, desta vez com uma novidade: uma recensão do nosso Miguel Morgado. Pois, o mesmo que assina o penúltimo post.
Sou bastante suspeito de amiguismo, tanto do escriba como da revista, mas posso dizer que gostei (com um pequeno senão).
Espero que seja a primeira de muitas colaborações. Agora sim, esses malandros da esquerda vão ver o que é meter-se com a malta de Setúbal...

Tristes de nós

A Helena Ayala Botto decidiu finar os (não tão) Tristes Tópicos.
É um tópico triste para quem, como eu, passava muito por lá e se divertia com o seu humor inteligente.
Que nos vai fazer falta, agora que a blogosfera está cada vez mais entregue a profissionais do insulto e a amadores a treinar para profissionais.
Desejo-lhe as maiores felicidades. E a quem está por perto.

Sábado, 28 de Julho de 2007

A Liberalização do PS e as "Clarificações Ideológicas"

João Cardoso Rosas quer converter o PS num partido liberal. Eu até gosto da ideia, mas duvido que a grande maioria dos socialistas me acompanhe. O apelo de João Cardoso Rosas talvez fosse mais bem acolhido no partido que está ao lado, no PSD. Pensando melhor, o seu apelo é duplo: que o PS se torne num partido liberal (apelo explícito) e o PSD num partido conservador (apelo implícito). É que, num sistema dominado por dois partidos, a "clarificação ideológica" de um partido tem menos custos se o rival também estiver disposto a "clarificar" o que representa. Trata-se de um desejo salutar, mas não para o triste Portugal de 2007. Talvez para mais tarde.

Não deixa de ser curiosa a insistência, à esquerda e à direita, na necessidade de "clarificação ideológica" dos dois maiores partidos portugueses. Também seria preciso ponderar se a salvífica "clarificação ideológica" serviria esses dois partidos tão bem quanto a balbúrdia verbal que os tem caracterizado nos últimos 20 anos.
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Desde que Mário Soares seguiu o seu camarada Mitterrand no guardar o pobre socialismo na gaveta, e Cavaco Silva meteu na cabeça a ideia de "aproximar Portugal da Europa", que PS e PSD se foram governando (e a nós, cidadãos da República) sem grande paciência para a "clarificação ideológica". O chamado guterrismo ameaçou o País com "ideias novas" e já ninguém consegue recordar-se do episódio sem soltar uma gargalhada. O parêntesis Barroso/Santana não foi mais do que isso. E nunca se desenvolvem grandes teses entre parêntesis.
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A exortação à "clarificação ideológica" do PS e do PSD pode representar um impulso mais simples e fundamental. Muitos eleitores portugueses que não desistem de votar sempre que para isso são chamados estão cansados de não ter partidos em que votar com convicção. Ao fim de uns quantos exercícios, a frustação invade compreensivelmente as desgraçadas criaturas. Talvez os partidos atendam a essa frustação. Talvez. Ou talvez a frustação se transforme numa forma mais ou menos empenhada de retaliação. Talvez.

Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

"A TV Contest Sets Off a Furor Over Portugal’s Ex-Dictator" in The New York Times













In The New York Times

By DAN BILEFSKY
Published: July 25, 2007

( Fotografia de Carlos Ribeiro)

SANTA COMBA DÃO, Portugal — When Portuguese television viewers recently voted the former dictator António de Oliveira Salazar “the greatest Portuguese who ever lived” — passing over the most celebrated kings, poets and explorers in the nation’s thousand-year history — the broadcaster RTP braced itself for a strong reaction. But what ensued resembled a national identity crisis.

Artigo completo

La mala educación (2)

O meu post sobre a educação para a cidadania em Espanha levantou algumas questões interessantes na caixa de comentários. Vou tentar responder-lhes, agrupando-as em três grupos.
Um grupo é o dos comentários (o do primeiro anónimo e o do João Miranda) que lembram, ao contrário do que eu digo, que a coisa já existe em Portugal. Têm razão, mas não é bem como em Espanha. O contexto do programa Novas Oportunidades não é escolar, ou pelo menos não diz respeito a crianças e jovens em idade escolar, e a disciplina de Formação Cívica no ensino português não tem um programa definido, não tem docentes específicos e não conta para a nota, sendo da responsabilidade do professor da turma no 1º ciclo, do director de turma no 2º e 3º ciclos (5º-9º ano) e de todos os professores, nas respectivas disciplinas, no ensino secundário (10º-12º ano). O seu impacto é mais reduzido e mais diluído do que será em Espanha. Em todo o caso, e confirmando a minha previsão, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues e a sua equipa criaram no ano passado um Forum de Educação Para a Cidadania, destinado a "introduzir as mudanças necessárias nesta área" (RTP1, 18/5/06). E que mudanças são essas? "Novas orientações curriculares", ou seja, um modelo mais rígido e semelhante ao espanhol.
Um segundo grupo de comentários/comentadores recorda, por sua vez, que a disciplina já existe lá fora, por exemplo em Inglaterra, sem os resultados jacobinos que eu temerosamente prevejo por cá. O nosso regular customer Julião afiança, com graça, que nem por isso a monarquia inglesa caiu e o João Vasco procura tranquilizar-me com um documento do Governo de Sua Majestade em que, à pergunta "Will citizenship allow the Government to force its view on schools?", se responde expressamente "where political or controversial issues are brought to pupils attention, they are offered a balanced presentation of opposing views". Soa bem, mas tenho as maiores dúvidas de que esta neutralidade se respeite na prática. O que é "a balanced presentation"? Todos sabemos que, em questões de princípios e valores, o que é balanced para uns não é para outros. O erro básico de uma perspectiva como esta é, repito, supor que o Estado, ou a escola do Estado, têm uma visão neutra ou equilibrada (balanced) dos princípios e valores. Isso só aconteceria se as pessoas que ocupam o Estado, mesmo que temporariamente como nas democracias, não tivessem princípios e valores. Mas têm, felizmente. Chama-se-lhes geralmente políticas. No caso dos socialistas, com a sua fé no Estado e na escola, nota-se mais.
O terceiro grupo diz que o princípio da educação para a cidadania não é mau, é até muito bom, embora a sua bondade esteja sujeita às pessoas que leccionam a disciplina. Esta é, quanto a mim, a objecção mais interessante e está relacionada com a anterior. É também a que exige mais tempo. Como estou atrasado para ir salvar as minhas filhas das garras do infantário onde esta tarde, de certeza, lhes ensinaram que o pai é um mau cidadão porque come bolas-de-berlim sem luvas de plástico, não vou poder responder. Fica para hoje à noite ou para segunda-feira. Se eu entretanto sobreviver à intoxicação alimentar com que o Rui Tavares, nas páginas do Público, tem andado a a ameaçar os hereges.

Da série "Cachimbos de lá"


Peter August Böckstiegel, Auto-retrato, 1921

Never trust a commie

Com duas ou três palavras e já se sabia ao que vinha, on connaît la chanson, o sindicalista Alfredo Maia. Aqui estava mais uma tentativa de demonstrar que capitalismo e liberdade são conceitos em choque, desta vez na arena dos media. É sempre intrigante saber a que se refere um comunista quando fala de liberdade, mas não vamos complicar a equação.

A escala alegadamente nociva que o sindicalista refere tem, curiosamente, o efeito exactamente contrário. Dentro do conceito de liberdade de informação numa sociedade existe certamente a questão do "acesso" à informação. A possibilidade de desdobramento de conteúdos possibilita a criação de mais e mais plataformas, que possibilitam mais e mais "acesso" e, nos conteúdos pagos, possibilita a baixa dos preços suportados pelo consumidor.

Mas mesmo no mundo hipotético do empresário que, com varinha de condão, tem sempre lucro, mercado e grandes margens, e em que todas as plataformas são viáveis mesmo com multiplicação de estruturas, a escala alegadamente maléfica continua a ter precisamente o efeito contrário do sugerido pelo sindicalista. Um player com grandes margens num mercado significa, genericamente, uma de duas coisas: ou é um monopólio ou está aberta a passadeira de veludo para a entrada de concorrentes. E é precisamente nesta última hipótese que esses países malandros da coisa do capitalismo se baseiam para o mercado dos media e da informação. Mais players significa maior quantidade e diversidade de informação. É este pluralismo, e não um Pravda gigante em várias plataformas com milhares de jornalistas, que garante maior e melhor oferta informativa, e que garante maior facilidade de "acesso" ao consumidor quer por criação de mais plataformas quer pelo custo do "acesso" a elas.

E mesmo nas continhas do emprego, as coisas não funcionam, para variar, da forma que o sindicalista as coloca. Genericamente, produtividade e emprego crescem no mesmo sentido. Curiosamente, uma das razões possíveis é a questão do custo do "acesso": o aumento da produtividade possibilita a baixa de preços, que por sua vez permite aumentar o mercado potencial e o lucro final, não existindo perda, antes pelo contrário, de postos de trabalho.

Há um trabalho muito bom no sector industrial, em que o Nordhaus (o tal que escreveu o livro com o Samuelson) "shows that more rapid productivity growth leads to higher rather than lower employment". Existem muitíssimos trabalhos medindo a totalidadade da economia, e não apenas sectores, e embora com algumas nuances e pistas a desenvolver, a tendência é a mesma: maior produtividade, maior e melhor emprego. Se alguém vir o sindicalista, por favor lance-lhe um destes à tola.

Águia Vitória transfere-se para o Arsenal

O desfecho há muito pressentido tornou-se realidade: a águia Vitória deixará de actuar para o Benfica e irá representar o Arsenal durante as próximas cinco épocas. Os dirigentes do histórico clube londrino já haviam manifestado o desejo de ver a águia Vitória a actuar no Emirates Stadium em diversas ocasiões. O acordo foi finalmente obtido durante a madrugada, numa estalagem nos arredores de Lisboa.
Na próxima época, em vez do voo a que habituou os adeptos benfiquistas, a águia Vitória será disparada de um canhão dourado semelhante ao do símbolo do Arsenal. O canhão será colocado no exterior do estádio. Após o lançamento, a águia Vitória ganhará altura e descerá em voo picado para o centro do relvado, onde receberá a sua recompensa. O contrato representa uma melhoria substancial relativamente às condições actuais: embora os valores exactos não tenham sido divulgados, os responsáveis londrinos já admitiram que Vitória passará a receber qualquer coisa próxima dos 40kg de rosbife por semana, mais bife menos bife. No Benfica, recorde-se, Vitória recebia menos de 20kg de fêveras de porco por semana.
Luís Filipe Vieira não quis comentar a saída do símbolo encarnado, mas adiantou que ‘o mais importante foi não ter faltado com a palavra dada ao bicho’. Acrescentou ainda estar de consciência tranquila e garantiu que ‘há um animal que neste momento viaja para Lisboa, para substituir a águia’. Recusou-se no entanto a revelar a espécie ou raça: ‘terminada a quarentena, apresentaremos o animal’. Corre o rumor que o clube da Luz terá contratado uma jovem lama peruana, que cospe com precisão e insolência a considerável distância. ‘Um bicho desses poderia ser usado num espectáculo inovador antes dos jogos, utilizando os símbolos dos clubes adversários como alvos’, adiantou um outro dirigente benfiquista, sem no entanto confirmar a contratação.
Simão Sabrosa já desejou boa sorte à águia Vitória: ‘somos todos profissionais e queremos melhorar as nossas vidas. Eu fui para Madrid para comer mais churros ao pequeno-almoço; compreendo perfeitamente o desejo de Vitória em experimentar o excelente e competitivo rosbife inglês’.

Estatuto do Jornalista: o que está em causa (III)

3. Direitos de Autor. O tema é fácil de explicar: O Sindicato dos Jornalistas, e em especial o seu presidente, o temível Alfredo Maia (na foto), tem lutado incansavelmente para que os jornalistas recebam, para além do seu salário, direitos de autor, quando as suas peças são usadas noutros suportes que não aqueles para os quais foram contratados. Por exemplo, um jornalista escreve no jornal DN. Se a peça for para o site do DN têm que ser pagos direitos de autor. Se passar na TSF idem.
Esta posição é totalmente contrária à estratégia multiplataforma (papel, online, televisão, mobile TV etc.) dos grupos de media. A tendência é naturalmente aproveitar os conteúdos produzidos no grupo e fazer uma gestão inteligente dos mesmos que permita rentabilizar ao máximo a operação. Os grupos em Portugal sofrem com a escassez do mercado publicitário e precisam de procurar alternativas, nomeadamente outras plataformas (a maior parte delas ainda não rentáveis).
Há quem diga que esta é uma luta de vida ou morte para o Presidente do Sindicato: com os níveis de sindicalização a diminuirem para valores irrelevantes, a gestão de direitos poderia ser uma forma de voltar a ganhar protagonismo entre os jornalistas, especialmente os mais jovens, que não se identificam com o discurso - nem com o estilo - deste sindicato.
Apesar de considerar totalmente ultrapassada a posição do Presidente Maia, achei interessante um dos argumentos por ele utilizado: quanto mais longe for esta estratégia de rentabilização dos grupos menos jornalistas existirão; menos jornalistas significa menos pluralismo e diversidade de opiniões, tornando um dos pilares da democracia - o da liberdade de informar - mais frágil.

Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

La mala educación


Em Espanha, onde passei os últimos dias, a guerra cultural está ao rubro. O Governo socialista fez aprovar no Parlamento uma Lei Orgânica do Ensino, a polémica LOE, que torna obrigatória uma disciplina de Educação Para a Cidadania no secundário. Há-de chegar cá, como já chegou a Itália (curiosamente, também quando lá estive: começo a ter medo de sair de casa).
De acordo com o nome, a coisa serve para ensinar as criancinhas e os adolescentes a ser, pois claro, bons cidadãos. Deus e os nossos leitores sabem que não tenho grande paciência para esta coisa da cidania. Além de tresandar a ética republicana, a tal que ninguém define e portanto ninguém pratica, a ideia é que a identidade das pessoas se determina antes de mais pela sua pertença a um Estado, o qual ainda por cima nos diz o que devemos ou não fazer, jacobinismos suficientes para me dar a volta ao estômago conservador-liberal.
Mas não julguem que estamos no domínio das abstracções. O pior é que o programa da redentora matéria - obrigatória, recordemos - não passa de um cavalo de Tróia para meter o admirável mundo novo do politicamente correcto na cabeça dos filhos dos outros. Com o pacote todo, incluindo a famosa ideologia de género, a diversidade de modelos familiares e os modos de vida alternativos (sim, é mesmo isso que estão a pensar).
Previsivelmente, a Igreja e o Governo destaram "à puerrada", como diria o Futre nos tempos do Atlético de Madrid. Os bispos sugeriram aos católicos a objecção de consciência e até a greve às aulas, entre outras acções musculadas a que esquerda gosta de chamar desobediência civil. Zapatero respondeu, num comício com a JS lá do sítio, que "nenhuma fé está acima da lei".
O que seria uma verdade simpática, se a questão fosse de fé. Não é, lembrou entretanto o porta-voz de uma das maiores associações de pais espanholas, Benigno Blanco, com óbvio equilíbrio apesar do nome algo maniqueísta, recomendando ao Governo que não faça de uma luta pela liberdade de educação a próxima guerra Igreja-Estado.
Tem toda a razão e só mesmo por má fé os socialistas podem ter comprado essa guerra. E se a má fé também não está acima da lei, o que temos aqui é o paradoxo do costume: quanto mais os jacobinos proclamam a neutralidade ideológica do Estado, mais procuram usar o Estado para impor a sua ideologia aos "cidadãos".
Estou curioso para ver o que se segue. Até ao começo das aulas ainda se mete tudo a banhos, mas algo me diz que a temperatura não vai descer.
Há-de chegar cá, acreditem.

Estatuto do Jornalista: o que está em causa (II)

2. Sanções para os jornalistas: aqui o tema pia mais fino. O novo Estatuto contempla um conjunto de normas, baseados no já existente código deontológico dos jornalistas (que não tem sanções previstas). São atribuídos poderes à "Comissão da Carteira" (constituída por jornalistas) para fiscalizar a profissão. No limite, um jornalista pode ser suspenso (pensou-se em multas, imaginem o que seria).
Gritaria. Choro e ranger de dentes. Crónicas incendiárias do José Manuel Fernandes (considerado o inimigo número 1 do Estatuto). Os jornalistas argumentam que a sua profissão já é suficientemente escrutinada e limitada: pela opinião pública, pelos provedores de leitores, pelo Conselho Deontológico do Sindicato, pela Entidade Reguladora da CS, pelos estatutos editoriais e códigos de cada órgão de comunicação social e, claro, pelos tribunais.
O problema é que nem os tribunais funcionam (ou demoram 10 anos a decidir), nem os códigos são muito respeitados. O histórico de 30 anos em "liberdade" é profícuo na destruição de bom nome de pessoas, empresas, ministros, governos etc.
Evitando uma vez mais cair na tentação reaccionária de considerar todos os jornalistas uns irresponsáveis e delinquentes, não deixa de ser necessário "incentivar" a classe a ter mais respeito por alguns direitos e liberdades dos cidadãos.
Pessoalmente sou defensor da auto-regulação (definição de regras sem a intervenção do Estado) mas até agora esta modalidade tem-se revelado ineficaz e, de facto, enquanto a performance dos tribunais não melhorar é necessário algo mais.

SMS Pedro Picoito

O próximo é o post 1,000.

Presunções

Há dias, um reporter comentava, durante um telejornal, a "interrupção" de um dos mais mediáticos casos judiciais a que assistimos nos últimos anos. A razão: férias judiciais. Isto não sem antes dar conta de que o processo se encontrava recheado de incidentes, de inúmeros recursos e a abarrotar de testemunhas.
Mais: faltariam ser ouvidas ainda, segundo o repórter, centenas de testemunhas, sendo certo que do vastíssimo número das que já foram ouvidas muitas dificilmente saberiam explicar - sequer - porque é que ali estavam.

À luz da lei, até decisão em contrário, todos são considerados inocentes.

À luz de outros olhares, há comportamentos que, até prova em contrário, devem ser considerados altíssimamente suspeitos. No mínimo!

Crónicas do Planeta Oval (13)


Depois do susto (20-20 com as Fiji a um quarto de hora do fim), a África do Sul ganhou jogando como melhor sabe: chutando para fora e confiando nos avançados. Deu resultado - mais dois ensaios. Os springboks têm um pack muito sólido, como se viu na vitória de 36-0 sobre a Inglaterra. A sua terceira linha (Russow, Burger, Smith) é a melhor do torneio. Mas também têm falhas: falta-lhes um chutador de topo - e todos vimos, no caso australiano, como isso pode ser fatal - e mostraram enorme dificuldade em lidar com um adversário versátil e criativo.
Ora, a Argentina e França têm justamente essas características...

Eduardo Prado Coelho (1944-2007)

Morreu Eduardo Prado Coelho.
Nos últimos trinta anos, ninguém como ele encarnou em Portugal a figura do intelectual politicamente empenhado - e quase por definição "de esquerda" .
Foi comunista em 75, esteve perto do Bloco, integrou as listas do PS para a Câmara Municipal de Lisboa com Carrilho.
Divulgador incansável de estruturalismos e pós-modernismos entre nós, a sua intensa actividade académica e mediática era também parte, e não a menos importante, de um compromisso político.
Fica a memória de um homem que viveu o seu tempo tão de perto que nem sempre soube julgá-lo com serenidade.

Da série "Posta Restante"

"Since he became leader in December 2005, Mr. Cameron has been set on a progamme of detaching himself from reality. He finds the traditional beliefs, and the traditional believers, of his party utterly detestable. (...)What should concern all conservatives is that the rhetoric being used now, and used ever since Mr. Cameron chose to declare his unwinnable war on his party, makes a repositioning of himself and the Tories almost impossible."
Simon Heffer, "Cameron used to lead a party, but now he just leads a faction", in The Daily Telegraph, 25/7/2007.

Estatuto do Jornalista: o que está em causa

Anda para aí uma suposta celeuma que envolve jornalistas e empresas de media por causa do novo "Estatuto do Jornalista" (já aprovado em AR, aguardando promulgação do Presidente). Não sendo este o melhor tema para quem está ou vai de férias, pode ser interessante deixar uma perspectiva sobre o que está em causa.
Antes de mais, o "Estatuto do Jornalista" é a Lei que regulamenta a actividade dos jornalistas. Esta versão é de 99 e, como é habitual entre nós, assim que entrou em vigor logo surgiram vozes a exigir a sua revisão. Pelo medo que a matéria causa aos políticos, ministros e deputados arrastam o processo o mais que podem há anos. Até 2005.
O actual Governo propôs alterações profundas no Estatuto, e depois de muita discussão entre os interesses envolvidos, chegámos a três pontos críticos que apresentarei ao longo do dia (em 3 posts).
1. Sigilo Profissional: um dos pilares do jornalismo são as suas fontes e o direito (e obrigação) dos jornalistas as protegerem e assegurarem o seu anonimato, se for necessário. A proposta que foi aprovada propõe clarificar as excepções em que se pode quebrar o sigilo profissional: existência de informações para investigação de crimes graves contra pessoas ou segurança do Estado, caso não se consiga obter as mesmas de outra forma.
Este ponto é talvez aquele que apresente maior unanimidade entre jornalistas e o Sindicato dos Jornalistas (que são hoje em dia coisas diferentes). Ambos têm bradado aos céus, referindo os riscos de condicionar para sempre a sua actividade (sobretudo o "jornalismo de investigação").
De facto, muita gente entusiasma-se com a visão de uma qualquer autoridade a apertar o gasganete a um jornalista portador de um dado considerado relevante (desembucha estafermo!). É a tentação do caminho mais curto. É preciso, porém, vislumbrar as consequências no longo prazo: basta isto acontecer em um ou dois casos mediáticos para que no futuro as pessoas tenham receio de falar com jornalistas, sobre os mais variados assuntos. E quantos "casos" relevantes, em Portugal e no mundo, não vieram à baila a partir do trabalho de investigação baseado em fontes anónimas?
Nota: credibilidade das fontes e elaboração de notícias a partir das mesmas tem a ver com qualidade do jornalismo, o que é outra conversa.
(continua)

Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

O embaraço da escolha

E ainda sobre a notícia supra, gostava de saber qual de tais "gestos de desobediência civil" não terá a simpatia de Miguel Portas.
Invasão da Zara? É uma multinacional, no problem.
Cocktails molotov para cima do Cervantes? Outra multinacional ao serviço da globalização: porrada neles.
Confusão à porta das embaixadas de Espanha e Israel? São Estados imperialistas, portanto...
Partir a sede da PIDE? Ça va sans dire.
Ai, são todas causas tão belas...

O saloio epistemológico

Esse [encerramento de "unidades de saúde"] é um exemplo de como a percepção nem sempre corresponde à realidade. Você, José Gomes Ferreira, que lê livros e estuda, sabe que há uma diferença entre a aparência e a realidade.
José Sócrates, há pouco, entrevistado na Sic por Ricardo Costa e José Gomes Ferreira.

A grande bebedeira

Desde as primeiras notícias sobre as cheias em Inglaterra que estava à espera disto. Só estranhei a lentidão dos ascetas em encherem a praça pública com os berros de que o Armagedão ecológico está próximo. A espera compensou: na edição de hoje do Público a jornalista Ana Gerschenfeld assina uma pérola do irracionalismo ambientalista. Começa assim:
A pergunta surge instintivamente. Serão as cheias catastróficas na Inglaterra consequência das alterações climáticas provocadas pelo nosso consumo despreocupado de combustíveis fósseis? Estarão os gases de estufa directamente implicados no fenómeno?

Os especialistas são unânimes: é impossível imputar directamente às actividades humanas um evento extremo, mas isolado, como este. Pode tratar-se de um "soluço" desse sistema complexo que é o clima, já de si sensível a inúmeras variáveis naturais. Mas, a julgar pelas conclusões de um estudo que vai ser publicado amanhã na revista Nature, uma coisa é certa: somos os grandes culpados pela tendência generalizada para o aumento dos eventos extremos deste tipo.
Atente-se nas palavras. A pergunta, confessa, é “instintiva”. Pelo contrário, a resposta dos especialistas em climatologia é baseada em conhecimento técnico. Infelizmente é também unânime: é impossível estabelecer qualquer relação entre as cheias inglesas e as "alterações climáticas". Uma declaração unânime de impossibilidade não desarma nem desmotiva uma crente do ecologismo global (nota #1: unânime significa que ninguém com conhecimento científico específico nesta matéria defende outra teoria; nota #2: impossível significa que a probabilidade das cheias britânicas serem o resultado das ditas alterações climáticas é zero).

O “mas” é a chave do texto e denuncia a teimosia de um bêbado. Não adianta contrariá-lo educadamente: insistirá sempre. Sem um mínimo de racionalidade é incapaz de compreender e aceitar as convenções fundamentais –por exemplo a convenção que estabelece o significado de palavras como “unânime”, ou “impossível”. Uma impossibilidade unanimemente declarada não tem o menor efeito sobre a crença ecologista: elucidativamente, para a jornalista a única coisa que é “certa” é que somos “grandes culpados” e os resultados de simulações são declarados como "provas" da nossa grande culpa.

A histeria ambiental em que vivemos é uma bebedeira de irracionalismo, assente numa visão radicalmente hostil ao homem e à civilização, que toma a sociedade humana como uma construção intrinsecamente perversa e, acima de tudo, decadente. A visão de um mundo corrompido pelo homem e o desejo implícito de retrocesso até um estado prístino de pureza é uma perigosa utopia e tem raízes filosóficas que me dispenso de mencionar (não adianta procurar entre os “inimigos da liberdade”: as origens desta crença utópica são bem mais antigas).

Esta visão ideológica é partilhada por um número significativo de pessoas envolvidas no “ensino” público, fazendo dos alunos alvos e instrumentos de propaganda. As crianças saem das escolas portuguesas demonstrando uma incompetência extrema no raciocínio abstracto, na resolução de problemas e no domínio e uso da língua. Em contrapartida, debitam precocemente e com grande vigor um chorrilho de asneiras sobre o desenvolvimento “sustentável” e as “desigualdades da globalização”, embora revelem uma estranha tendência para as confundirem com pobreza. Serão as escolas públicas uma espécie de madrasahs do fundamentalismo ecológico? A pergunta surgiu-me instintivamente.

Terça-feira, 24 de Julho de 2007

Laranjas sem sumo

O que mais impressiona na candidatura de Luís F. Menezes à liderança do PSD é a falta de ideia políticas. Assisti ontem à sua declaração, tentando encontrar uma divergência de fundo com o actual líder, uma critica substancial à estratégia política do partido. Em vão. Menezes diz apenas que é “candidato para dar uma nova esperança aos militantes” e que “quer ganhar o partido para ganhar, depois, o país dos desempregados e dos funcionários públicos perseguidos". Não diz nada. Ou talvez diga tudo. O blog pessoal de Menezes é pobre, demasiado pobre. Apenas por lá encontrei um texto Social, não socialismo que indicia uma estratégia de oposição à esquerda do governo PS.

Mas o problema não está só em Menezes, é generalizado. O último Conselho Nacional do PSD em vez de analisar politicamente a hecatombe eleitoral em Lisboa, entreteve-se a discutir questões secundárias, como alterações aos estatutos ou os prazos para pagar quotas. Sempre as questões formais quando faltam as ideias. Táctica, muita táctica, pouca substância. Mais parecia uma RGA ou uma reunião de "jotas" a discutir lugares.
Para conquistar o poder é preciso primeiro ganhar o argumento, o que demora tempo. Mas estas laranjas dão pouco sumo. E falta pouco para 2009.

Menina e Troça

Entro numa loja e peço: "Tem sapatilhas para ténis?".
Olho para a menina e vejo que não percebeu. "Digo, uns ténis .... para ténis!", hesito agora a rir.
De nada me vale. Já acha que me estou "a fazer ao bife".
Ao fim de tantos anos, continua a ser difícil viver em Lisboa.

Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

20 de Julho democrático?


A propósito deste post, agora que Hollywood vai (rosadamente) falar, convém que não embandeiremos em arco a respeito das virtudes democráticas da oposição militar ao Nacional-Socialismo (e não é esse o caso do camarada cachimbador Morgado). Não se tratava de puros combatentes da liberdade. Muitas destas pessoas não eram propriamente democratas de cepa. Certamente que, hoje, não incluiríamos muitos deles entre os nossos amigos. Havia nobres monárquicos de vários matizes, bastantes genuínos reaccionários que, como tais (sim, como tais), execravam aquela gente do NSDAP. Foram, sim, pessoas duma coragem excepcional que merecem todo o nosso respeito – opuseram-se a um regime inacreditavelmente brutal.
E se o atentado e o golpe de estado de 20 de Julho tivessem sido bem sucedidos, ter-se-iam talvez poupado milhões de vidas.

Grande parte do oficialato das Forças Armadas nunca nutriu grande entusiasmo pelo Partido e pelo regime: muitos oficiais respondiam sempre à saudação “nazi” (na verdade, romana), ostensivamente, com um simples sinal de continência.
Mas muitas destas pessoas só acordaram para o horror daquilo quando a maré da guerra começou a virar. Uns apercebiam-se ou receavam que aquele regime apenas conduziria à destruição da Alemanha (de resto, tinham já sido esses os lamentos de Ludendorff no fim da vida). Outros sentiam autêntica repugnância pelo desvario assassino daquele Poder, dentro e fora do país, antes e durante a guerra. Mas não devemos ver em todos esses opositores democratas que recusavam aspectos do regime para nós insuportáveis. Muitos deles ficavam horrorizados com os crimes cometidos contra Franceses, Holandeses, Nórdicos ou Bálticos, mas já olhavam, no mínimo, com condescendência e “compreensão” para as barbaridades feitas a Polacos ou Russos. Para não falar de quando eram feitas a Comunistas. Às vezes esquecemo-nos que o Nacional-Socialismo não caíu repentinamente do céu e não se desenvolveu num sítio qualquer com gente qualquer. Aquelas práticas não deixaram de encontrar terreno propício em muitos que não eram propriamente nazis.

Muitos não deixavam de sentir uma certa admiração pelo Führer, porque ele, no fim de contas, era a melhor garantia de que a Alemanha (dos Junker, dos industriais e da classe média) não iria soçobrar numa maré bolchevique. Lembremo-nos que a Revolução Russa e a atroz guerra civil entre Brancos e Vermelhos tinha acontecido não há muitos anos. E que a Rússia vermelha estava ali, imensa, já a seguir à Polónia. E que, em 1919, se tinha tentado uma Revolução bolchevista na própria Alemanha. E que, uma coisa que nunca se diz, também os Comunistas, tal como os Castanhos, tinham uma força de choque, a Rote Front (Frente Vermelha), que não era de todo mais meiga do que a SA...

Por outro lado, muitos dos militares que a partir de 42 conspiravam contra o regime, tinham antes sentido o orgulho prussiano satisfeito pelas sucessivas vitórias alemãs: desforras de 1918. E orgulhavam-se também com a civilizadora expansão da Kultur alemã para leste, à maneira predilecta prussiana: com a bota e a coronha da Mauser. Mesmo que, na mochila, se levassem hinos de Hölderlin e se suspirasse pelas tílias nos intervalos entre o massacre de uma aldeia russa e o abate em massa de Judeus.

No entanto, o preconceito da nobreza militar manteve-se sempre. Não admira. Quem eram os “quadros”, o núcleo duro, os “velhos camaradas” do Partido Nacional-Socialista? Desenraízados, rufias, brigões, homossexuais, tipos sem eira nem beira, filhos naturais, vadios. (Não foi o próprio Hitler um exaltado vadio das ruas de Viena?) Eram, numa palavra, marginais. E havia também alguns “idealistas”, é verdade - talvez por isso mesmo, mais perigosos do que os outros. Nunca me esqueci duma sequência do Triunfo da Vontade em que se sucedem grandes planos dos dirigentes do Partido: fica-se espantado com os facies de gangster daquela gente (excepção do Rosenberg, o “filósofo” da ideologia). Era, realmente, um partido lumpen.

Curiosamente, havia também um preconceito “social” dentro do próprio “movimento”: os belos “rapazes” da SS mostravam quase desde o começo um perfilado desprezo pelos “barrigudos” da SA. Levaram a cabo com eficência (e alívio) a limpeza (aspas são escusadas) da Noite das Facas Longas. O que, precisamente, serviu para que Hitler se livrasse de elementos “radicais” incómodos e, assim, se aproximasse do exército. Mas o próprio Führer desprezava os “cavalheiros” (como ele dizia com desdém) e os oficiais de carreira. A partir do 20 de Julho, o verniz estalou completamente.

O dia em que tudo quase aconteceu

Em Valkyrie, Tom Cruise é Claus Philipp Maria Schenk, Conde von Stauffenberg, o homem da conspiração de 20 de Julho de 1944 que tinha como objectivo matar Hitler. O dia em que tudo quase aconteceu.

A Vertigem do Crude


Domingo, 22 de Julho de 2007

Os Liberais e as Políticas de Incentivo à Natalidade

Já percebi que, em geral, os liberais não gostam das chamadas "políticas de incentivo à natalidade". Uns torcem o nariz porque as ditas políticas traduzem-se em desperdício do dinheiro dos contribuintes; outros porque as mesmas representam uma desistência da neutralidade do Estado num domínio em que é ilegítima a preferência pública (por mais indirecta que possa ser) por certas escolhas individuais (?) em detrimento de outras.
Pela minha parte, resigno-me a estas opiniões. Os liberais lá devem saber do que falam. Afinal, a sua cartilha por vezes soa a história da carochinha.

Sábado, 21 de Julho de 2007

A Crise (dos comentadores) da Direita

"A direita que convém à esquerda chama-se Marques Mendes e Paulo Portas."
"Certos elementos encavacam o PSD. Incluindo Manuela Ferreira Leite, um D. Sebastião de saias que tolhe a criatividade do PPD profundo."
.

Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

4.º acto – Sem soluções, mas apontando um caminho

Durante os últimos dois dias, tenho recebido algumas mensagens: soluções?

O Partido não tem futuro sob a liderança de Paulo Portas, todos o sabemos. Mas a sua saída não tem que ser já. Pode ser no espaço de seis meses ou um ano. Nós não temos a responsabilidade e, portanto, a pressa do maior Partido da Oposição.

A saída de quem viveu e deu vida no Partido durante tantos anos, tem de ser difícil e não pode acontecer sem crise.
Faça-se, porém, deste momento de crise uma oportunidade. Não se apresse a carruagem.

O facto de não termos pressa, de podermos pensar a um ano permite-nos olhar para este tempo, como um tempo de convocação. Chamar todos, o maior número possível.
Penso, por exemplo, numa espécie de Convenção alargada, não encomendada, nem com a rigidez habitual dos Congressos. Que seja preparada com tempo e que chame muitos: os que já estiveram, os que estão e aqueles que estão à porta. Sem medos. Sem saber aonde nos levará e sem resultados antecipados.

Este seria um desígnio que falta cumprir a Paulo Portas e que creio que deseja sinceramente – o da tentativa de regeneração efectiva do Partido, da Direita e do País. Poderia tornar-se num legado importante se fosse feito de modo empenhado, desinteressado e abrangente. Onde seria convocador – e eventualmente árbitro - e não actor e muitos menos único. Adriano Moreira, Ribeiro e Castro e outros deveriam ter um papel importante também.

Sei que não é claro. Mas é um caminho. E se não for agora não será. Por isso, o digo: Esta é a Hora!

Verloc 2.0

Adolf Verloc é o famoso personagem da novela “O Agente Secreto” de Joseph Conrad, publicada em 1907. Pornógrafo e agent provocateur ao serviço dos russos, Verloc recebe a incumbência de fazer explodir o Observatório de Greenwich. A novela baseia-se numa tentativa real ocorrida em 1894, que resultou na morte acidental do autor, Martial Bourdin, e do seu cunhado anarquista. A intenção de explodir um relógio não é absurda: os relógios são um símbolo histórico de ordem e de poder. Durante as guerras religiosas do séc. XVI, Carlos V ordenava a retirada da torre do relógio às cidades rebeldes, como forma de punição. Em França, as disputas pelo controlo do relógio opunham protestantes e católicos. Desde 1884 que Greenwich era o ponto de referência para a medição do tempo: dinamitar o relógio visava provocar o caos. Três décadas mais tarde, na adaptação cinematográfica da novela de Conrad, Hitchcock revela um misto de presciência e sentido utilitarista: a bomba explode num autocarro londrino.

Um século depois, a sabotagem bombista regressou à ordem do dia. É uma lógica comportamental facilmente reproduzível por jihadistas, guerrilheiros revolucionários, traficantes de droga, ou facções de regimes neo-tribais. Os novos alvos de sabotagem já não são meros símbolos de poder: são infra-estruturas económicas vitais, designadamente para o transporte de energia. É Verloc 2.0, em versão real e perigosa.

Verloc 2.0 é um sabotador eficiente na destruição que causa: no México, um grupo de guerrilheiros de esquerda efectuou uma série de ataques no dia 10 de Julho a um pipeline de gás natural da Pemex, o monopólio estatal de petróleo e gás, que assegura 40% das receitas fiscais mexicanas. O abastecimento de gás esteve cortado por quatro dias, obrigando grandes empresas a suspenderem a produção: os prejuízos económicos da sabotagem foram estimados em 6,4 milhões de dólares.

Mao Tsé Tung comparava os guerrilheiros a peixes que nadavam no mar da população; sem o mar morreriam. Verloc 2.0, pelo contrário, é indiferente ao apoio da população: no Iraque a sabotagem de infra-estruturas de transporte de energia é parte da guerra civil, causando cortes nos abastecimentos de electricidade e de combustível e tornando a vida dos iraquianos ainda mais difícil. Os cortes são frequentes e prolongados: algumas zonas de Bagdad chegam a estar sem electricidade por períodos de vinte dias e o abastecimento médio de energia na capital iraquiana caiu para 5,6 horas/dia no mês de Maio.

No delta do rio Níger os trabalhadores das empresas petrolíferas que aí operam são conhecidos como “ouro branco”, pelas receitas dos resgates pagos. Só neste ano já foram raptados mais de 150 trabalhadores. Em consequência dos ataques e dos raptos, a produção petrolífera da Nigéria –o maior produtor petrolífero africano e o 8º maior mundial– sofreu uma quebra de 20%, cerca de 500000 barris de petróleo a menos, por dia. Verloc 2.0 causa instabilidade geopolítica ao nível global: o prémio de risco incorporado no preço do barril de petróleo situar-se-á entre os 10 e os 20 dólares e é um factor importante na persistência de preços acima dos 70 dólares.

Verloc 2.0 não afecta apenas as infra-estruturas já existentes: ameaça mesmo as que ainda não existem. Um exemplo é o pipeline IPI (Irão-Paquistão-Índia) que deveria estar operacional em 2011 e que tornaria a importação de gás natural iraniano quatro vezes mais barata para a Índia do que qualquer alternativa de transporte. Apesar das divergências negociais entre iranianos e indianos sobre o “preço político” do gás e da oposição norte-americana ao projecto, a principal razão para o atraso na construção do pipeline é o elevado risco de sabotagem: quase 30% da extensão total do pipeline atravessará o sul do Paquistão, através do Baloquistão, uma província com um longo historial de guerrilha político-religiosa. A tomada da mesquita de Lal Masjid pelo exército de Musharraf foi necessária, mas a reacção da aliança entre jihadistas e líderes tribais não se limitará às províncias do noroeste e pode lançar o Paquistão num caos violento, tornando proibitivo o elevado risco geopolítico.

Em “O Agente Secreto” Conrad não pretendeu caricaturar o anarquismo, mas criticar a complacência do progressismo liberal para com o terrorismo. Conrad sabia que para derrotar a violência de grupos organizados era necessário um esforço de persuasão intelectual para lhes retirar a legitimidade política. Eis algo que é necessário reaprender para lidar de forma efectiva com este problema: Verloc 2.0 é uma ideia e não se dispara contra ideias.

(Versão integral do artigo publicado na edição de ontem do Diário Económico)

A propósito de nada: Democracia e Tecnologia

Na nossa era democrática talvez valha a pena recordar que o mais famoso crítico da Idade da técnica, Martin Heidegger, e um dos seus mais vigorosos profetas, Francis Bacon, concordam (por razões muito diferentes, é certo) que a democracia não se lhe adequa.
Ou estes dois homens excepcionais estavam redondamente enganados, ou então isto ainda vai acabar mal.

Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

O aborto dos partidos


Pergunta o João Noronha, nos comentários a este post do camarada Anacoreta: "e se um dos partidos do arco parlamentar fizesse o favor de representar os 1,5 milhões e meio de eleitores que votaram Não no último referendo?"
Eis uma boa pergunta, e eu próprio a tenho feito aos meus botões (que são muitos porque nós, os conservadores, andamos sempre com fatos de três peças, excepto na caça à raposa).
A resposta, porém, só pode ser um rotundo "é melhor não".
Seria um erro que os votos do Não se concentrassem num único partido. E por duas razões.
Em primeiro lugar, porque a unidade de voto na questão do aborto poderia não corresponder à unidade de voto em questões menos mobilizadoras (não apenas, mas também, as fracturantes). Nenhum partido pode segurar o seu eleitorado à base de um single issue, por decisivo que este seja, nem isso é democraticamente saudável. Um dos grandes males do PP de Monteiro e Portas foi justamente deixar de falar para para todos os eleitores, abandonando qualquer visão nacional que não fosse retórica e qualquer projecto político que não desse votos, em troca de uma colecção de causas avulsas - a "lavoura", a "segurança", a "imigração", os "reformados", os "eurocépticos", os "espoliados do Ultramar".
Os resultados estão à vista.
Para que os votantes do Não sejam representados, basta que as direcções do PSD e do CDS estejam atentas ao seu eleitorado natural - a chamada direita sociológica - e não se metam em ziguezagues ideológicos com o dúbio fim de ganhar o centrão, que está de pedra e cal com o PS.
Em segundo lugar, a ligação a um único partido enfraqueceria o Não porque uma das virtudes deste tipo de voto é a sua (relativa) transversalidade partidária e a sua (absoluta) independência dos aparelhos. Se pensarmos que o tal milhão e meio de votos do Não foi alcançado graças ao esforço da sociedade civil, entendendo por esta palavra os milhares de activistas amadores que fizeram campanha fora dos partidos e até contra os partidos de esquerda (um deles o do Governo), veremos que a partidarização, que não é o mesmo que politização ou profissionalização, talvez não traga grandes vantagens.
No entanto, seria também um erro que os partidos ignorassem ou não respondessem a estes votos. As questões fracturantes vieram para ficar. É mesmo provável que, nos tempos que se avizinham, com a Europa e a economia a obrigarem os governos a uma ideologia cada vez mais soft e simbólica, sejam as batalhas culturais a marcar a agenda. (Aliás, se repararem bem, não se tem discutido outra coisa na blogosfera lusa desde há uns meses valentes...)
E se o Não perdeu o último referendo, nada nos garante - nem garante aos partidos - que uma derrota venha a repetir-se quando alguém voltar à carga com uma nova e ainda mais ampla proposta de liberalização do aborto. É uma questão de tempo. Ou de oportunidade. Basta estar atento, repito. No exacto dia em que escrevo estas linhas, que a posteridade há-de recordar como proféticas, a grande dúvida sobre a lei que entrou há uma semana em vigor é saber se o aborto praticado dentro do prazo legal mas fora de estabelecimento autorizado deve ou não ser "crime". Wake up, little Susie...
Boa pergunta, a do João. Muito boa mesmo.
A solução da famosa crise da direita também passa pela resposta que lhe dermos.

Da série "Cachimbos de Lá"

Da série "Posta restante"

Muito boa, a crónica de Helena Matos hoje, no Público.
Para quem gosta de ler as letras pequenas dos contratos. As nunca despeciendas letras pequenas.

3.º acto – Do Pântano e do Depois

Compreendo aqueles que dizem que Paulo Portas “voltou, agora tem de ficar”.
Mas, no presente caso, a sua permanência no Partido serviria efectivamente e apenas para a sua tortura e para o desaparecimento acentuado do CDS/PP. Cada vez mais o País se distanciará dele. Definhará e acabará isolado, acabando por ver os que no passado o adularam e hoje o servem, insurgirem-se contra ele. Não seria a primeira vez.

Em face do inevitável afastamento de Paulo Portas (que só depende dele próprio, uma vez que os seus “amigos” continuam a não ser capazes de ver a realidade), o CDS/PP tem duas evidentes alternativas: ou desaparece ou continua.

Se continuar como está, com os mesmos da derrocada, o CDS vai provavelmente desaparecer. Não será o fim do mundo. Alguns, como eu, terão pena. Pouco mais. O Partido como está hoje não faz falta a muita gente. E com as alterações para breve do sistema político, o veredicto já estará escrito.

Por isso, se quiser continuar, o Partido tem que ser qualquer coisa de diferente. Creio que um Partido diferente com a raiz do CDS faz falta a Portugal. Há espaço vazio, à espera de ser ocupado.

É este o apelo que retiro dos “sinais” que nos chegam (mobilização cívica diversa em matérias culturais, económicas, e sociais, abstenção e desgaste dos velhos protagonistas dos Partidos, cansaço do modelo social e do papel do Estado, ventos que nos chegam da Europa, etc, etc).. Todos vemos afirmada a necessidade de caminhar com mais confiança numa sociedade mais livre, menos protegida, mais destemida, mas também mais enraizada na sua cultura, na sua memória, no seu património.
O CDS identifica-se e está particularmente vocacionado para responder a estes apelos. Foi para isso que surgiu e pessoas como Adelino Amaro da Costa chamariam a “isto” um figo. Um desafio estimulante.
(Continua, mas não se preocupem. Não me vou candidatar à presidência do Partido)

Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

2.º acto: Até à evidência

Em face do resultado de Domingo, muitos perguntam: o que falhou? O que errou na estratégia? As respostas são evidentes para o cidadão comum e apenas difíceis de aceitar para quem se empenhou numa opção errada.

A liderança de Paulo Portas (PP) esgotou o seu tempo.

Uns defendem-no, outros atacam-no, mas já só quem é do Partido é que nele se detém. As restantes pessoas olham para o CDS de PP com indiferença ou, na melhor das hipóteses, com fastio. Poderá ser justo ou injusto, merecido ou imerecido. É uma conversa que, neste momento, não interessa.

O "Pórtismo" cai também porque não se emancipou. Demonstrou que vive de PP como um espelho vive do que tem diante de si. Telmo Correia, Nobre Guedes, Pires de Lima, António Carlos Monteiro e Teresa Caeiro estão entre os principais responsáveis pelo regresso de PP. Todos personificavam a sua aposta também num Partido "aberto" e disponível para causas que não são tradicionalmente as suas e que, nalguns casos pontuais, agridem o seu eleitorado tradicional.
Todos foram a votos. Todos foram derrotados.
Neste sentido, Lisboa foi um excelente ensaio. Se o contexto urbano da capital, que era a grande aposta do experimentalismo que se ensaiava, chumbou o projecto, o que pensará o resto do País?
O que os eleitores descontentes do PSD disseram de uma forma muito clara foi que preferem não votar, votar em branco ou num Independente Carmona do que votar neste CDS-PP. Muitos eleitores do CDS disseram o mesmo.
O ciclo acabou. De vez.

Ratatouille (Chinese version)

Na versão chinesa, Remy está prestes a encontrar o seu lugar.

1.º acto: A andorinha

Ao contrário do que alguns disseram, estas eleições em Lisboa vieram na melhor altura para o CDS/PP.

Paulo Portas acabara de se legitimar com cerca de 80% dos votos em eleições directas. Comentadores davam conta do receio e da agitação no PSD por causa do regresso de Paulo Portas. Era o início de uma “Primavera”.

O PSD, de facto, nunca estivera tão dividido e perto da implosão.
Desde o 25 de Abril que o CDS crescia sempre que o PSD estava fraco. Nestas eleições de Lisboa em particular, o CDS estava, pois, posicionado como nunca para crescer: segurar o seu eleitorado (não havia o fantasma do “voto útil”) e conquistar insatisfeitos ao PSD. Era difícil imaginar melhor.
Paulo Portas geriu primorosamente a divulgação mediática da sua escolha autárquica. Alimentou o suspense, teve direito a especulação nos semanários e prime time nas Televisões. A escolha incidiu não sobre um candidato, mas sobre uma equipa: a melhor que tinha para oferecer à cidade: líder parlamentar, vice-presidentes do Partido, ex-governadora civil, presidentes da distrital e concelhia, Etc. Etc.
Os “pórtistas” estavam felizes: tinham ansiado por mediatismo e eis que ele estava de volta! Agora é que ia ser. Sócrates não teria descanso.

E ao terceiro dia...

... o meu contributo para o “processo de reflexão em curso” em 4 actos. Sobre o actual momento do CDS-PP, na sequência das eleições autárquicas.
Divido os textos para não afastar «a caça». Saem, pois, a conta-gotas. Para quem tiver paciência e interesse. Até já.

Fêmeas e feminismo

É Verão. À medida que o calor aperta a rapaziada gosta de tirar a roupa. A propósito disto li um excelente artigo no Financial Times da semana passada chamado Naked Ambition. Numa nova linguagem feminista, partindo do exemplo de Itália, o texto mostra como a utilização sistemática do corpo da mulher em televisão e publicidade tem contribuido para a discriminação social da mulher. Agora apetecia-me ilustrar este texto com uma fotografia da Scarlett Johansson mas não posso. Paciência.

Não é o 1000, mas é o maior...

Parabéns Camarada, Pai e Professor Morgado.

"Bem disse alguém, em relação a um amigo seu, que ele era a metade da sua alma..." (Conf. IV, 6,11)

Achtung!

Rapaziada, não sei se repararam, mas o próximo post

é o número 1000!

Quem é que se chega à frente para um balanço celebratório?

Parabéns, Blog

Diz o Wall Street Journal que este ano (mais ou menos) os blogs celebram a sua primeira década de existência. Parabéns à espécie.

Ceci n'est pas une

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Terça-feira, 17 de Julho de 2007

Escolhas

Depois de Marques Mendes anunciar a convocação de eleições internas no PSD, e adivinhando-se as candidaturas de Menezes e de Aguiar Branco, é preciso dizer (ou exortar) que chegou o momento de Manuela Ferreira Leite. Claro que Ferreira Leite não se candidatará contra Marques Mendes, mas, na sua ausência, a escolha é entre ficar tudo na mesma ou mudar para pior.
A experiência de Durão Barroso criou um precedente perigoso: agora, todos os que ambicionam chegar à chefia do governo preferem esperar que o poder lhes caia no colo, sem ter de fazer muito por isso. Como aconteceu com Barroso, após a saída de Guterres.
Um Sócrates que teima em resistir é mau adversário para quem não quer aturar certas coisas. Admito que esperar pelo esgotamento do adversário nem sempre é má estratégia. Mas, no caso do PSD, pode ser a receita para o suicídio.
Neste contexto de expectativas diminuídas, presumo que para muita gente no PSD o desastre de Portas em Lisboa veio mesmo a calhar. Pelo menos, do flanco direito não há ameaça. Por enquanto.

Os Loucos Anos 80 (18)

No mesmo ano que o Live Aid de Bob Geldof, Lionel Richie e Michael Jackson juntaram os americanos da moda e compuseram o single "We Are The World". O objectivo deste grupo simpático - auto intitulado "USA For Africa" - foi tentar minimizar a desgraça na Etiópia, onde milhões passavam fome. Foi comovente: todos comprámos o disco, que se manteve teimosamente nos Tops durante meses. Os resultados é que não deslumbraram: nos vinte anos que seguiram a guerra, a fome, as deslocações em massa, a corrupção, os regimes cleptocratas, enfim a miséria, mantiveram-se naquele continente. Excepções recentes para África do Sul, Angola, Moçambique e pouco mais.

Política à parte, jamais esqueceremos a luvinha de brilhantes do Michael Jackson, os gritos da Cindy Lauper e o final de Ray.


But what else Butt?

O Benfica, sim o clube das camisolas cor-de-rosa, contratou um novo guarda-redes. Hans-Jörg Butt, de 33 anos, é conhecido por ser especialista em marcar livres directos e grandes penalidades. Estou impressionado, promete.

Apelo público

Alguém nos ajuda a tirar este "Ler mais..." aqui de baixo? É que não há mais nada para ler.
E isto não é o cachimbo de magritte.

O árbitro

A Entidade Reguladora já chegou à blogosfera. Cuidado com o que escrevem porque ele é mesmo mau e até mostra cartões.

Os Loucos Anos 80 (17)

Indiana Jones: uma paródia aos filmes de acção da época, repletos de Rambos e Exterminadores inexpressivos, que misturava cenários National Geographic, humor 007 e uma pitadinha de american dream (um gajo desenrascado chega sempre lá).
Depois de Star Wars, onde até tinha um papel a modos que desenxabido, Harrison Ford confirmava o estatuto de herói cool da década - o tipo porreiro que não se leva muito a sério, mas que é capaz de enfrentar sozinho todos os inimigos da civilização.
As miúdas tinham qualquer coisa: arqueólogas ou cantoras de cabaret na China, não se mostravam nada disponíveis para fazer de bomshell dos anos 70 e muito menos de chorosas donzelas à espera que o amado voltasse a casa.
Os maus, está-se mesmo a ver, eram os nazis e umas seitas vagamente orientais. Muito antes do 11 de Setembro, o imaginário da América ainda vivia da II Guerra Mundial e do Vietname. Assim como assim, a verdade é que nunca mais olhámos para um chicote com os mesmos olhos. Nem para a arqueologia...

(Ob) sessões duplas

A Fernanda Câncio resolveu usar a sua coluna no DN para ajustar contas com a já célebre Patrícia Lança e postou o resultado no Cinco Dias. Parece-me uma baixeza e disse-o nos comentários, o que gerou entretanto uma polémica paralela.
O Tiago Mendes é que não gostou. Paciência: para mim não há ninguém acima da crítica.

Da série "A concorrência faz melhor"

"Gosto das vitórias das esquerdas: o povo deixa de ser uma turba boçal, ignorante e alvo fácil da chantagem populista. Gosto mesmo."

Filipe Nunes Vicente (who else?), no Mar Salgado.

Votos voláteis

Para além das inevitáveis crises internas nos partidos de centro-direita, estas eleições em Lisboa demonstram sobretudo que os partidos políticos já não são donos dos votos do seu eleitorado tradicional. A abstenção e o sucesso dos "independentes" - com Carmona e Roseta a pescarem votos, tal como Alegre tinha feito nas Presidenciais - são sinais sérios para os partidos do regime. Incluindo o PS cujo resultado em Lisboa ficou aquém das expectativas.
Acabaram as fidelidades eleitorais para toda a vida. Os votos são voláteis, perdem-se e ganham-se em cada eleição. É preciso seduzir constantemente o eleitorado com as melhores ideias e os melhores candidatos.

Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Piromania Política

Em Portugal, a legitimidade eleitoral ou a arquitectura do sistema político vale o que vale. Os canais de ligação entre as instituições ou os orgãos servem não para se suster uns aos outros e, em teoria, ao "sistema" e também a nós, mas antes para ajudar a melhor espalhar a instabilidade. Há algumas semanas atrás vi a Doutora Maria de Belém na SIC-Notícias dizer, como quem toma um chá fresco na Primavera, que o PPD-PSD deveria fazer cair a Assembleia Municipal em Lisboa para "refrescar" a legitimidade eleitoral. Com napalm, suponho. Todo um retrato.

Free Advice

Segundo o José Medeiros Ferreira, o plano de carreira pessoal e político de Paula Teixeira da Cruz deve fazer parte da equação que dita não só a estratégia eleitoral do PPD-PSD, como também da avaliação que se realiza da sustentabilidade ou não de um orgão como a Assembleia Municipal de Lisboa. Medeiros Ferreira chama-lhe estratégia, mas o nome do que sugere é mesmo manipulação.

Sem desculpas

Não há uma única razão suficientemente válida que justifique a derrota estrondosa do PPD-PSD ontem, e que não tenha origem ou responsabilidade no próprio partido e nos seus decisores. Conseguiram uma coisa fantástica, uma trapalhada ao nível das várias que tanto criticaram na presidência de Carmona Rodrigues. É uma derrota tão forte quanto merecida, e infelizmente não é líquido que daqui saia reforçada a ideia de que os mandatos são para cumprir, a incompetência se julga nas urnas e a corrupção nos tribunais. É uma pena que o partido não faça destas três regras uma espécie de santíssima trindade da democracia e da sua prática política. E não é válido o argumento que Luís Marques Mendes ontem utilizou ao, de certo modo, comparar Lisboa a Oeiras ou Gondomar. O partido será sempre livre de apoiar ou não um candidato, mas entra numa área nebulosa quando lhe retira, a meio de um mandato e substituindo-se de forma algo leviana aos eleitores, a confiança política, interrompendo aquele que deve ser o normal funcionamento das instituições que os cidadãos, alegadamente, necessitam.

Momento Goldwater

Não há muito mais a dizer sobre as eleições de Lisboa. Portas e Mendes já foram convenientemente zurzidos e merecem-no. É revelador de total desnorte (ou, no caso, de total dessul) que PSD e CDS tenham tido estes resultados - apenas uma semana depois de Sócrates ter sido vaiado pela multidão no Estádio da Luz. Péssima a estratégia de Mendes, que tomou a decisão certa sem ter um candidato credível. E péssima a estratégia de Portas, que anunciou um "grande partido de centro-direita" e acaba a disputar votos com o PND e o PNR.
Pior era difícil.
Há, no entanto, um aspecto essencial a que não se tem dado a devida atenção (peço desculpa pela solenidade, mas os comentadores falam assim). Todos os partidos estavam cheios de projectos, propostas, receitas e soluções para a cidade, e os que não estavam foram criticados por isso. Como em urbanismo não há milagres e nem todos os candidatos a hodiernos Pombais têm a benesse de um terramoto, os ditos projectos revelaram-se, afinal, mais ou menos parecidos.
O que fez com que estas eleições não tenham sido um combate de ideias, mas uma luta de figuras.
A esquerda venceu porque tinha melhores figuras.
Em 2009, corremos o risco de a coisa se repetir.
E se a direita começasse já a preocupar-se mais com ideias de direita, em vez de refugiar-se nas banalidades do centrão?
Sarkozy mostrou que é possível ganhar eleições com uma mensagem polarizadora. Cameron, pelo contrário, está a ter enormes dificuldades em afirmar os tories como alternativa ao Labour precisamente porque está a construir um partido à imagem da terceira via: moderno, urbano, ecologista, fracturante, politicamente correcto. E atrás de Brown nas sondagens.
Isto já parece um provérbio alentejano à moda de Lisboa: querem ser de direita e ganhar eleições ou parecer-se com a esquerda e perdê-las?
Vá lá, não reflictam muito...

Publicidade Institucional (em causa própria)

Apesar do que têm dito as más línguas, os cursos de Verão da FCSH da Universidade Nova de Lisboa não se limitam às matérias sociológico-antropológicas relacionadas com o Bairro Alto e afins.

Não senhor. Por exemplo, o Departamento de História vai organizar, entre 3 e 12 de Setembro, um conjunto de conferências sobre "Grandes Temas da História de Portugal", aberto a todos, em que se pretende apresentar o estado da questão das novidades académicas relativas a oito temas do passado nacional.

Ei-los, com os respectivos conferencistas já designados:

1- A fundação da nacionalidade (Pedro Picoito - sim, sou mesmo eu);
2- A crise de 1383/85 (Leonor Silva Santos);
3- Génese e sentidos dos Descobrimentos;
4- O Império ultramarino;
5- D. Sebastião e Alcácer Quibir;
6- A Restauração (Pedro Cardim);
7- A implantação da República (Daniel Alves);
8- O Salazarismo/Estado Novo (Pedro Oliveira - sim, é mesmo o do Barnabé).

Como vêem, sou suspeito porque tenho a responsabilidade de conferenciar sobre o momento genético da pátria. (Uma responsabilidade tanto maior quanto não sei se podemos apontar um "momento genético", mas isso já é outra história.)

Apareçam, que os outros são melhores do que eu.

P.S. Aviso já que as inscrições são limitadas e a pagar, e nem sequer estou certo de que descontem para o IRS...

O Povo Sábio

Com a fina retórica que se lhe reconhece, Carmona Rodrigues lá repetiu a senha obrigatória de que o povo eleitor exibe sempre a sua sabedoria. Mas, desta vez, o povo eleitor desertou em massa. Seria esse o sintoma da sabedoria a que se referia Carmona?

Domingo, 15 de Julho de 2007

Crash Dam'it! A versão Lisboa


O homem está a reflectir.
Para ver a versão nacional, clicar aqui.

Direita de Lisboa a Pique

O que mais se pode dizer quando 2/3 dos votos (que também não foram muitos, é verdade) caíram no colo da esquerda institucional, da esquerda alternativa, da esquerda revolucionária e da extrema-esquerda?

A Campanha de Calvino

"De duas maneiras se chega a Despina: de navio ou de camelo. A cidade apresenta-se diferente a quem vem por terra e a quem vem por mar.

O condutor de camelos que vê aparecer no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, esvoaçar nos aeroportos as mangas de vento brancas e vermelhas, deitar fumo as chaminés; pensa num navio, sabe que é uma cidade mas pensa-a como uma nau que o leva para fora do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento já a inchar-lhes as velas que esteja para zarpar, com o vento já a inchar-lhe as velas ainda não desfraldadas, ou um vapor com a caldeira a vibrar na querena de ferro, e pensa em todos os portos, nas mercadorias do ultramar que os guindastes descarregam nos cais, nas tabernas onde tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas nas cabeças uns dos outros, nas janelas iluminadas dos rés-do-chão das casas, cada uma com uma mulher a pentear-se."
...
"Todas as cidades recebem a sua forma do deserto a que se opõem; e é assim que o condutor de camelos e o marinheiro vêem Despina, cidade de fronteira entre dois desertos."

-- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Lisbon Revisited


Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

(Lisbon Revisited, Álvaro de Campos, 1926)

Sábado, 14 de Julho de 2007

I Just Can't Get Enough

Extremist fundamentalist religion may well have a greater hold in the U.S. on the public than say in Iran, though I’ve never seen a poll in Iran. But I doubt 50 percent of the population thinks the world was created 6,000 years ago exactly the way it is now.
...

Is the West the United States — one of the most fundamentalist countries in the world and a strong supporter of extreme Islamic fundamentalism?

—Noam Chomsky, "NOAM CHOMSKY ON RELIGION AND POLITICS".

Tutoria

Fazendo agora um pouco mais de justiça ao pensamento de Agostinho, caçando o isco do Pedro e numa outra homenagem a outros amigos, aqui vai.

O pensamento pedagógico de Agostinho é um dos seus temas mais encantadores. Nas Confissões encontram-se múltiplas vias de condução e um leque vastíssimo de personagens que tipificam vários modelos, incluindo o modelo da tutoria.

Segundo esta perspectiva, a principal característica do modelo pedagógico do tutor é o silêncio. Atente-se à forma como a severidade e os castigos dos professores de Agostinho são apresentados: “é que ninguém, quando contrariado faz bem, embora seja bom aquilo que faz. E aqueles que me forçavam não faziam bem” (Conf. I, 12). Compare-se isto com a forma como Deus se comporta perante os erros de Agostinho: “afastava-me para longe de ti e tu deixavas. Arrojava-me, derramava-me, despedaçava-me, fervi-a nas minhas devassidões e tu, calado” (Conf., II, 2). A forma como este «Tu» conduz Agostinho dá-se através de uma presença distanciada, mas atenta.

Uma antiga professora minha realizou uma apreciável recolha de citações dispersas pelas Confissões e que se conjugam na apresentação de um extraordinário modelo pedagógico. Assim o mestre-tutor: vigia; à distância; permite o erro; insinua-se; desperta; apela e volta a apelar; fomenta o desejo de contemplação gozosa; permite aprender com as situações e com os erros; corrige sem ira ou com ira benevolente; com respeito; corrige perdoando sem ressentimento.
É isto. O mestre-tutor ensina, amando à distância. A presença excessiva traduz-se em autoridade controladora e determinante. A presença orientadora, nas palavras daquela professora, é uma presença “distanciada mas atenta e disponível (…) onde a consciência da ausência não é vivida como abandono ou indiferença. Uma presença que está aberta à rebeldia, ao erro, intervém na hora certa, ajudando a reconhecer o erro, a recuperar, em atitude generosa, graciosa.”

“Estavas comigo, e eu não estava contigo” (Conf., X, 27). Eis, o maior elogio que um tutor pode vir a receber dos seus tutorandos.

Até sempre.

Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Declaração de Voto

O PPD-PSD é um partido institucionalista. O Presidente Carmona demonstrou incompetência no exercício das funções, a um nível que surpreendeu a todos, sobretudo aqueles que o apoiram e até fizeram campanha com ele (penitência, penitência). A vereação PPD-PSD foi melhor que o Presidente Carmona, mas não o suficiente. Ainda assim, a incompetência é julgada nas eleições nos seus tempos próprios de mandato. Existiram, e existem, dúvidas quanto à legalidade e até honestidade na Presidência e na Vereação. São assuntos de tribunal, e é lá que devem ser julgados. A pressão da imprensa e da oposição é, nestes momentos, para aguentar. Não o ter feito tem as consequências que estamos (partido) neste momento a viver.

Um partido institucionalista não pede a candidatos que renunciem aos seus mandatos para concorrerem a outros, sobretudo no mesmo âmbito, o autárquico, desde logo por princípio, mas também porque neste âmbito é tão importante a ligação entre o local e o candidato.

Com a antecipação em avalanche do calendário eleitoral, desapareceu qualquer tentativa séria de construção de um programa minimamente estudado e com equipas minimamente trabalhadas. Vai tudo a eleições com os estudos dos outros, as ideias de sempre e as novidades por palpites do momento.

Onde é que um institucionalista e pragmático-consequencialista vota? Não no António Costa, socialista, que quebrou vários mandatos eleitorais e que transformará Lisboa no prolongamento do Governo. Não no ex-Presidente Carmona, cujo grau de incapacidade e incompetência tanto surpreendeu, e que traz consigo alguma da pior vereação (urbanismo, por acaso). Não em qualquer dos pequenos candidatos, cuja eleição (a acontecer) será simbólica e apenas do cabeça de lista (talvez com a excepção de Roseta a eleger mais de 1). Vota, zangado, no António Negrão e no seu partido de sempre, o PPD-PSD. Muito zangado até, porque nem o partido nem o candidato o merecem, e o que apetece mesmo é bronzear ao sol e refrescar no atlântico.

Parte da Culpa

Há uma incapacidade crónica na Câmara Municipal de Lisboa que não é muito distinta da que se pode observar na quase totalidade de instituições públicas portuguesas. Se lhes serve de consolo, deleitem-se, o virus não é local. Mas locais são algumas dos problemas e também algumas das soluções.

Na questão do urbanismo, são tremendas as queixas sobre o estado calamitoso de algumas zonas da cidade e sobre a insuficiência da oferta de habitação. O quadro de incentivos que está montado explica uma boa parte do problema, com destaque para a pesada herança da lei das rendas, mas não explica tudo. Existem terrenos vazios ou prédios emparedados em ruas centralíssimas da cidade, e se é verdade que em alguns destes casos é a lentidão do sistema judicial a não ajudar, nomeadamente na execucção de dívidas ou na resolução de litígios sobre a propriedade (heranças, divórcios, etc.), há um outro agente crónico de empobrecimento, e ele é nem mais nem menos do que o alegado salvador: a CML e em particular o seu departamento de urbanismo.

Qualquer cidadão que já tenha tentado construir a sua casa em Lisboa sai deste departamento com menos anos de vida e com utilização mais corrente de verbo não constante do dicionário. Os arquitectos da câmara, directores municipais e, no topo, a vereação que os tutela, são os agentes locais mais nocivos ao problema que todas as pessoas querem resolver: a degradação e insuficiência da habitação.

Todos nos recordamos de um célebre anedotário trazido ao grande público pelo Nicolau Santos, no Expresso, acerca das obras numa qualquer janela num edifício banal na capital. Tentem construir uma casa e é tudo igual, mas ajustem na escala. A lei, e todas as regras obscuras e notas internas camarárias são utilizadas pelos seus funcionários não como facilitadores mas como obstáculos. E cada técnico, e são muitos, vê os seus. O resultado é uma maratona, com arquitectos da área, historiadores e mais arquitectos da estrutura consultiva (sic), directores de zona, de departamento, municipais e vereação. Até ao topo todo o burocrata gosta de indiferir e criar impasses distintos dos impasses anteriores. É um teste de fogo com armas apenas para um dos lados. Às vezes é uma equação impossível, e com opiniões distintas, nenhum dos projectos validados por qualquer das estruturas poderia ser validado na sua totalidade por todas: cada um indeferiria o do outro.

Resultado: O de acrescentar ainda mais força à espiral que se pretende destruir. Bloqueia a reabilitação e/ou a construção. Acontece que este sistema de bloqueio funciona, sem surpresa, para o cidadão comum, não funciona para o mercado profissional, com os seus canais de acesso directos que conseguem despachar de cima para baixo. O que sucede é que o pequeno prédio, a pequena vivenda, onde poderiam ser os próprios donos ou qualquer cidadão com mais algumas patacas a investir, praticamente desaparece da equação da reabilitação e construção. Um pequeno prédio, esqueçam, uma grande intervenção na Av. Infante Santo, isso é outro campeonato. Isto explica que apareçam elefantes onde não se espera e que se encontrem pequenos espaços por preencher e apodrecer por várias zonas nobres da cidade.

Qualquer pessoa que trate de perto com a decisão camarária perde-lhe rapidamente dois níveis de respeito, primeiro o intelectual, depois o pessoal. Qual é a dificuldade de estabelecer uma pequena ferramenta de trabalho que divida Lisboa em várias áreas, nas quais se realize um levantamento de prédios abandonados (ou quase), de terrenos sem construção ou de licenciamentos bloqueados há vários anos ou décadas na Câmara? E qual é a dificuldade na criação de equipas que trabalhem estes projectos e que utilizem as regras e lei para catalisador de soluções em vez da negligência presente? E porque é que esta filosofia não é transportada para a totalidade do departamento de urbanismo, de modo a que todos os novos projectos sejam submetidos a esta filosofia (de acção) e impeçam a acumulação que este tipo de ferramentas ajuda a desanuviar?

A filosofia é simples, caro proprietário o status quo não é aceitável, vamos trabalhar uma solução. Você quer construir e nós queremos que você construa. Somos parceiros, existe uma lei que temos de respeitar, e dentro desta vamos trabalhar uma solução. Não faz sentido não serem licenciados projectos absolutamente legais no cumprimento de todas as normas objectivas, mas depois são chumbados porque um arquitecto opina subjectivamente sobre algo. E ficaríamos noite fora a escrever sobre situações destas. Porque alguém não gosta de uma janela, é preferível todo um prédio emparedado. É isto a que se resume o departamento de urbanismo.

Não puxem pelo contribuinte. A Câmara tem responsabilidades graves no urbanismo, por negligência e por incompetência. Façam o seu trabalho de casa e apontem o dedo a seguir, ao que falta. Com o que existe, poderíamos estar muitíssimo melhor.

Os Loucos Anos 80 (16)

Na década em que O Nome da Rosa parecia eclipsar todos os livros do género, é publicado (em 1984) aquele que, sem provocar revolta, poderia ser considerado o maior "romance histórico" da segunda metade do século XX. Lincoln de Gore Vidal é uma obra imortal. Como o título indica, tem como protagonista o Presidente que liderou os EUA no seu mais grave momento de crise. Na história da república americana, nenhum período anterior ou posterior foi tão delicado como a crise da secessão, que começara a ganhar fúria nos finais da década de 40, e que só se silenciaria pelo ferro e pelo fogo.

Apesar da ira que muitas personalidades (passadas e presentes) da política americana despertam no autor, o iconoclasta Gore Vidal deixa-nos, no entanto, um retrato de Lincoln em que até as fraquezas do homem abrem espaço para a admiração. Se, para Vidal, Washington é um medíocre, Jefferson um hipócrita, FDR um candidato a ditador, T. Roosevelt um vaidoso imperialista, Wilson um refém das suas ilusões, o Lincoln de Vidal aparece como magnânimo e até heróico. Lincoln é daquelas personagens que, mesmo nos momentos de derrota, dominam irresistivelmente todos os seus contemporâneos. Apesar de, ao longo da sua vida, insistir em manter a religião a uma respeitável distância, Lincoln parece ser um enviado especial ao mundo que só poderia ter vivido naquela época e cuja vida é plenamente justificada pela acção que tem o mundo inteiro como palco. Lincoln viveu e morreu para que a União sobrevivesse.

A novela de Gore Vidal permanece, e permanecerá, como um dos grandes momentos da literatura americana. Dos anos 80 e de todos os tempos.

Falta gente

Após uma campanha longa e maçadora, são já este domingo as eleições em Lisboa. Mais do que falar dos candidatos, quero recordar o maior problema da cidade, a falta de gente.

Os números são assustadores: uma metrópole com três milhões de pessoas, que se estende por uma vasta área, tem uma cabeça desertificada (560 mil habitantes, Censo 2001), deprimida e envelhecida (130 mil com mais de 65 anos). Nas últimas décadas, a cidade perdeu em média 10 mil habitantes por ano, tornando-se mesmo a cidade mais envelhecida das 27 capitais da UE.

Torna-se real o slogan anarquista: tanta casa sem gente, tanta gente sem casa. Mas para enfrentar o problema não basta apenas reabilitar: estudos recentes mostram cerca de dois terços das casas vazias estão em boas condições, o que torna a situação ainda mais injusta. A reforma do arrendamento não está a resultar, pelo que a solução passa por aumentar os impostos sobre as casas devolutas. Nesse ponto a nova lei das Finanças Locais devia ter ido muito mais longe. São também urgentes políticas concretas de apoio às famílias que se queiram fixar na cidade.