
Meu caro
FranciscoComecemos por lembrar que somos ambos de direita e do PSD, mas com diferenças.
Há alguns meses, eu comemorava o 25 de Abril e tu escandalizavas-te. Agora, tu apoias um candidato do PS e escandalizo-me eu.
O que é que isto significa?
Três coisas.
1. Primeiro, que eu mudo mais dificilmente ou dou mais importância à história. Digamos que sou mais conservador... Voto laranjinha desde que me lembro. Votei sempre, aliás, mesmo quando o PSD era o circo do Santana Lopes. Nunca votaria no PS porque, apesar do seu papel na defesa da liberdade em 75, é ao PSD que se devem todas as lutas pelo aprofundamento da democracia portuguesa desde então, do fim do Conselho da Revolução com Sá Carneiro, em 82, à eleição de Cavaco Silva, o primeiro Presidente não oriundo da esquerda, em 2006.
Tenho poucos heróis, de resto conhecidos. Não é grande virtude, é só falta de paciência para messianismos. Um Costa qualquer não chega para converter-me.
2. Segunda coisa: o voto em Costa não é solução, nem para a cidade, nem para a direita. Dizes que se trata de um político de peso e que vai pôr as contas em ordem. Estimo muito, mas nunca percebi esse entusiasmo da direita indígena por homens providenciais.
Ou talvez perceba. Há aqui a memória quase inconsciente do professor de Finanças de Santa Comba. Quando a nossa direita deixar de sonhar com salvadores da pátria de botas altas e lápis de merceeiro, talvez o famoso liberalismo seja possível por cá.
Nota que não estou a recusar, por princípio, líderes fortes e orçamentos disciplinados. Simplesmente, o perfil salazarista que te atrai em Costa não me atrai nada.
Pelo contrário.
O senhor ex-número 2 está ligado, queira ou não, a algumas das maiores tentativas de condicionamento da opinião em Portugal nos últimos tempos: a campanha presidencial de Soares e os seus ataques a Cavaco, o surrealista dossier da licenciatura de Sócrates, o caso Charrua, o referendo do aborto e sobretudo o pós-referendo.
Espanta-me que nada disto te faça duvidar das qualidades de tão glorioso candidato, entre as quais avulta, já se sabe, a de ter caído do céu.
3. Em terceiro lugar, esta rendição da direita ao poder de turno não chega a ser uma fuga - é um suicídio. As consequências estão bem à vista. Sem candidatos fortes, porque de antemão vencidos e convencidos, o PSD vai a votos com Negrão. Negro fado. Até um aprendiz de feiticeiro prevê os resultados da farsa, que está a correr pior do que a pior previsão.
Entretanto, os barões do partido esperam no remanso público ou privado por melhores tempos. Algo me segreda ao ouvido que vão ter de esperar muito.
Costuma dizer-se que o PSD se dá mal na oposição. Antes fosse. O PSD dá-se à inexistência na oposição.
O PS agradece.
O país não.
(Uma última notinha. Pedes-me que indique o melhor candidato. Esqueces que a política é a arte de escolher o mal menor.)
Um abraço e vota em consciência.