Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Bagão, homem de esquerda

Bagão entoando a Internacional

Era inevitável. Mais tarde ou mais cedo haviam de descobrir. Bagão Félix, o pai do monstruoso Código de Trabalho, lembram-se?, é, afinal, um esquerdista encapotado. É claro que uma descoberta destas não está ao alcance de qualquer um. Só os espíritos mais penetrantes são capazes da proeza.

A prova material da coisa, por assim dizer, é esta entrevista de Bagão ao Correio da Manhã. Na entrevista, o ex-ministro comenta as propostas para a revisão do Código de Trabalho avançadas no Relatório do Livro Branco das Relações Laborais. Para as classificar, usa expressões dignas de um Carvalho da Silva, como ‘dádiva ao patronato’, por exemplo. É de facto chocante.

Noutro passo (sobre os tempos de trabalho), chega mesmo a dizer barbaridades mais próprias de um enodoado sindicalista metalúrgico: ‘Tem de ser com o mínimo de respeito pelo tempo de lazer, de família e de descanso das pessoas. Reduzir a pausa para meia hora, como se consegue almoçar?’ Esta descarada referência ao tempo de almoço mostra bem, para quem ainda não tivesse percebido, todo o atavismo marxista de Bagão. Para não falar da alusão à família, por si só sintoma de um pensamento retrógrado típico da Esquerda. Mais um pouco e o homem ainda se punha a falar da protecção às trabalhadoras grávidas ou mães!

É natural que o social-democratizado Daniel Oliveira tenha citado Bagão, o compagnon Bagão, no seu blog. A citação traíu a verdadeira natureza ideológica da personagem.


Mas talvez as dúvidas de Bagão tenham origem noutras filiações. Filiações incompreensíveis para certas pessoas... Bagão é católico, coitado. E com essa gente nunca se sabe. Têm umas exigências incompreensíveis.

Também nós

(Via Arrastão.)

Da série "A concorrência faz melhor"

" O quintal da festa".

Não sou Conservador (2-primeira ilustração)

Não disse que o conservador era avesso à mudança no domínio humano. Afirmo, sim, que a concebe de um modo peculiar. Como tal, ele até pode brindar a emergência de alterações, câmbios e novidades. O que permanece sempre imóvel é a sua forma de pensar, o seu quadro mental. O mundo e a realidade pulam e avançam, mas a sua perspectiva permanece sempre inalterada. Agarra-se a “verdades auto-evidentes” e acredita que estas possuem suficiente elasticidade para o manter em sintonia com a realidade. Engana-se. Pior ainda. Erra sem poder inverter as condições que propiciam a emergência do erro.

Não encontro melhor expressão irónica para ilustração do meu conservador do que as palavras iniciais que abrem Orgulho e Preconceito de Jane Austen (assumo que as vossas esposas ou noivas já vos tenham obrigado a ver a série ou o filme):
“It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.
However little known the feelings or views of such a man may be on his first entering a neighbourhood, this truth is so well fixed in the minds of the surrounding families, that he is considered as the rightful property of some one or other of their daughters.”

Repare-se. Neste romance, existe um número apreciável de personagens que se encontram estabilizadas em rotinas de família e sociabilidade. Lady Catherine de Bourgh (imobilismo aristocrático), Charllote Lucas (pragmatismo e falta de ambição) Mr. Collins (vacuidade das convenções sociais). Mas a frase de abertura aplica-se genialmente a Mrs Bennet. E esta personagem interessa-me por um motivo especial: ela incorpora em si um suposto conhecimento gerado num modo de vida que não foi imposto por nenhum intelectual moderno ou político iluminado. Trata-se de uma sabedoria comum de uma sociedade que espontaneamente se desenvolve a partir das suas estruturas nucleares. Não são necessários os “perigosos” racionalistas, os “abjectos” filósofos franceses ou os “maçudos” alemães, para nos depararmos com a fixação de uma verdade universal e imutável sobre o domínio das relações humanas e com a obtenção de conclusões práticas derivadas de forma dedutiva. O que falta dizer sobre a mentalidade de Mrs Bennet e da sua sociedade? «O bem da mulher, obtém-se através de um casamento apropriado à sua condição»

E aí temos Mrs. Bennet completamente obcecada com o casamento das suas filhas, brindando a novidade da chegada de dois cavalheiros. Mas o ponto é este: haverá alguma personagem tão firme, ardente e nervosamente constante no seu propósito ao longo de todo o romance? Mrs. Bennet não muda. Os seus juízos revelam-se despropositados, avalia mal os outros, é ultrapassada pelos acontecimentos (Lydia foge com Wickham, desonrando a família e pondo em perigo o casamento das outras filhas de Mrs Bennet), e a sua perspectiva permanece inalterada. Ela é a ilustração de um sedentarismo conservador a nível da leitura da realidade, com consequências ao nível prático. Fixação da consciência numa “verdade universalmente reconhecida”, num primeiro princípio auto-evidente que serve de regra e medida para todos os actos e relações humanas.

Tal perspectiva pode ser gerada e cultivada por alguns intelectuais. Mas o homem comum, a comunidade familiar, a sociedade, as tradições podem alimentá-la espontaneamente e com consequências desastrosas.

Atlântico nas Bancas

Mais um número da Atlântico, que está cada vez melhor (bela capa). Saiu ontem, mas só hoje o folheei. Excelentes o artigo do Rui Ramos sobre o Tintin como modelo do conservador liberal e a crónica do Paulo Tunhas, a que certamente voltarei.
Para já.

Gulbenkian revisited

A sempre benemérita Fundação Gulbenkian repôs no bar do Museu os sete quadros encomendados para esse espaço entre 1967 e 1970, em restauro desde os anos 90. Trata-se, no fundo, de uma exposição, já que os quadros voltarão para o limbo do estaleiro no próximo 9 de Setembro.
Os autores, então na casa dos 30-40 anos, representavam "a renovação da arte portuguesa nos anos 50": Joaquim Rodrigo, Menez, Sá Nogueira, João Hogan (os quatro já falecidos), Fernando Lanhas, Júlio Pomar e Júlio Resende. A ideia explícita de Daciano Costa, o responsável pela decoração do bar, era recriar na Avenida de Berna o ambiente artístico que rodeara as tertúlias da Brasileira, no Chiado, no princípio do século. Uma ideia que nunca chegou a concretizar-se inteiramente, talvez devido à concorrência do Vavá, do Galeto ou da Mexicana, talvez porque o lugar se tenha revelado menos central do que parecia na altura.
Seja como for, ficaram-nos os quadros - e não é pouca coisa.
De todos, gosto em particular de dois: "Lisboa-Algeciras", de Joaquim Rodrigo, uma velha paixão pelo modo como sugere uma narrativa apenas com cores fortes e figuras quase abstractas, e o de João Hogan, "Sem título", um dos melhores e mais subavaliados paisagistas do burgo na segunda metade do século passado.
Infelizmente, não consegui arrancar ao google nenhuma das sete obras. Custos da clandestinidade. O que aí está em cima é outra paisagem do Hogan, mas de 1958 (também "Sem título").
Não se distraiam com as férias, meus amigos, e aproveitem a oportunidade, que vale bem a pena.

Imagens que toda a gente percebe

Pirâmide demográfica portuguesa, em 2050, de acordo com as previsões referentes à população residente no território nacional no ano 2050. Fonte: Caderno 16 - "Demografia: Passado e Presente. Que futuro?" da APFN.

Referências eruditas que já ninguém percebe

"A especulação imobiliária é o nó górdio de Lisboa. O nó górdio corta-se. E corta-se com a espada."
ANTÓNIO GARCIA PEREIRA, candidato do PCTP/MRPP à Câmara de Lisboa, em entrevista à RTP.

Pergunta

De que está o Ministro da Saúde à espera para exonerar aquele Correia de Campos que, com os seus comentários jocosos(*), indícios de falta de lealdade, prejudica gravemente a imagem do Ministro?

(*) Dizer a um jornal que nunca poria os pés num SAP, propor a distribuição "pelos pobres" de medicamentos fora de prazo, gabar-se, há minutos, na RTP, de ter "imeeensa tolerância" [sic] para com Manuel Alegre (coitado, muito necessitado de tolerância), etc...

Uma questão de perspectiva ou uma questão de tempo

Igreja Católica perde exclusivo de casamentos religiosos com efeitos civis ou casamentos religiosos com efeitos civis perdem exclusivo da Igreja Católica?

O Populismo mora ao lado

Passei pelo Marquês de Pombal e vi o outdoor de um candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Dizia assim: "Houvesse mais Zés - havia menos negociatas". Ocorreu-me de imediato: "Populismo rasca..." Mas depois lembrei-me que o populismo mora ao lado, nos outdoors dos outros. Recordei-me que tal como no mundo não há terrorismo de esquerda, em Portugal só pode haver populismo de direita. Erro meu pelo qual me penitencio.

Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Another one bites the dust

O ambiente que se vai instalando na Administração Pública. Irrespirável.

Talvez não fosse má ideia criarem-se, nas dependências do Estado, espaços para não-delatores. Estes, assim, não teriam de respirar os miasmas dos delatores.

Os pobres

Ainda a respeito disto.
Estes "socialistas" só me lembram aqueles tipos que, de convicção empinada, se dizem não-racistas e afirmam, batem o pé, protestam a sua militância, mas que, quando se entusiasmam, desatam, arreganhados, a desfiar piadas sobre "os pretos" ou "os monhés".

Note-se bem aquela referência a 'os pobres'...
É muito engraçado quando aquela gente se descuida e lhes estala o verniz do linguajar do "politicamente correcto"... Descobre-se logo a "consciência social" que sopra por aquelas cabeças.
O "humor" boçal que vem de cima.
Pode-se sempre, desinfectadamente, fazer rir os "amigos" usando-se para isso 'os pobres' que se arrastam lá em baixo. Sem medicamentos.

Mas ele não disse 'pobrezinhos'. Isso sim, seria verdadeiramente insuportável. Claro.

Anúncios de Verão

Na Açociação Recriativa 'Os Amigos da Caraculeta' venha rir esta noite com o Lino.
Não se arrependerá. Venha rir a bom rir.
É só deixálo falar 5 minutos!
Emtrada livre.
(Sócios têm direito a imprial)

Ou então:

Na noite do próximo Sábado, não fique em casa! Prometêmos-lhe um espectáculo inesquesível! Uma noite especial!
Stand-up comedi! Venha ouvir C. de Campos!
Saiba o que é o humôr negro!

Será do ar?...

Parece que sempre que um ministro deste Governo vai a um encontro da Ordem dos Economistas, acaba a dizer disparates. Há semanas foi Mário Lino, com o "deserto da margem Sul" e aquela inacreditável comparação jocosa (!) com um doente canceroso. Hoje (na verdade, ontem, que já é Quinta) foi lá Correia de Campos.
O que terá sido desta vez, meu Deus?... Ouvi há pouco na tsf... Gracejando, o ministro da Saúde propôs, gracejando, repito, que os medicamentos já fora de prazo fossem distribuídos pelos pobres [sic!].
Um brincalhão.
Mas o que lhes farão naqueles encontros? Porque será que saem sempre barbaridades ali? Será da comida? Dos vapores do álcool? Fumos ilícitos? Será do ar?...

Lá vamos nós outra vez

Depois do seu soldado... desculpem, do seu camarada de partido Sérgio Sousa Pinto dar-nos umas lições sobre democracia representativa, foi a vez do Primeiro-Ministro de Portugal, no debate de ontem na Assembleia da República, tocar o trompete para a união dos defensores da democracia parlamentar.
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Quando escrevi isto, devia ter tornado explícito que nos aguarda um longo desfile de brados indignados contra os que atacam a bela da democracia representativa. Volto a insistir no mesmo ponto. Publicidade e discussão acerca de uma reforma constitucional fundamental é o que está verdadeiramente em causa. E eu até aturo a retórica do Primeiro-Ministro quando tem de justificar por que é que não está a violar promessas eleitorais (ex: a reforma do código de trabalho que aí vem) ou quando nos tenta convencer que não está em curso uma perigosa concentração de poderes na sua pessoa. Mas a conversa tonta sobre a democracia representativa e os seus inimigos excede o limite da minha boa-vontade.
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Vale a pena repetir? Entre esta retórica mal amanhada do PS e a "demagogia" dos referendos, escolho a "demagogia". Por vezes, é preciso salvar a democracia representativa dos seus guardiões. Com muita "demagogia", claro.

Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

M'engana que eu gosto

Uma das marcas mais decadentes da nossa democracia portuguesa é a instrumentalização do mandato popular ao serviço da ambição carreirista dos políticos.
Dos últimos 4 Presidentes de Câmara de Lisboa, todos escondiam ambições por qualquer coisa "mais". Apenas um – João Soares - não interrompeu o mandato para ir para outro lado "melhor".

António Costa suspendeu o seu mandato de deputado na Assembleia da República para ir para o Parlamento Europeu, mandato que interrompeu para ser ministro, cargo que abandona para assumir ser candidato à Câmara de Lisboa. E, no entanto, todos sabemos que não se fica por aqui: a sua candidatura esconde a ambição de outros voos.

O exercício de cargos públicos tornou-se um modo democrático e legal de usar e abusar dos portugueses para a sua afirmação pessoal.
Bom candidato?
Bem, se os lisboetas gostam...

Da série "Posta Restante"

"Nunca se falou tanto, nomeadamente nos meios de comunicação social, sobre o fenómeno religioso, mas nunca como hoje ele foi tão ignorado, tão pervertido e instrumentalizado. Ouvimos obsessivamente as palavras fundamentalismo, extremismo reliogioso, guerra santa, fanatismo, conflito religioso. O discurso público está saturado de informação dita religiosa, mas sabemos cada vez menos, não apenas o significado dessas palavras, mas também, de uma forma geral, de que se fala quando se fala de religião."
Esther Mucznick, "A religião nos manuais escolares: uma visão laicista", in Atlântico, Junho de 2007

Pois


Hoje, no Público, Eduardo Prado Coelho diz que a expressão "terrorismo de esquerda" não faz sentido.


Eu também acho.

É uma verdadeira contradição nos termos.

É como juntar dois apelidos que provavelmente nem existem, por exemplo Baader e Meinhoff.

Ou três letras sem qualquer coerência, tipo um E, um T e um A.

Ou um substantivo - sei lá, sendero - e um adjectivo - luminoso , vá - ao calhas.

Ou uma sigla totalmente aleatória (FP, imaginem) e um número (ao acaso: 25).

Pois.

Provincianismo anti-planetário

Estão a ver? O senhor primeiro-ministro (que é o primeiro-ministro de Portugal, não esqueçam) acaba de discursar no parlamento. Esteve o homem ali, coitado, a sublinhar o alcance, "a importância planetária" [Alberto Martins] dos últimos avanços europeus e lá veio o líder do PSD referir aquela coisa "provinciana" [Alberto Martins, once again] do referendo. Aposto que o Jerónimo de Sousa e o Louçã também tocarão, provincianamente, no assunto.

Que chatos! Será que não percebem o ingente esforço planetário do senhor primeiro-ministro? Porque estão naquela "algazarra referendária" [tocante expressão de Manuel Maria Carrilho, por antonomásia, o Filósofo] ? Porque não se portam bem, como o sr. dr. Paulo Portas, que acaba de falar sem dizer nadinha de relevante?

Pois, neste instante, o homem, coitado (o senhor primeiro-ministro) já está a responder. E levemente irritado. Agastado, mesmo. Pudera. Tem que aturar aqueles provincianos. Nem todos são capazes do cosmopolitismo de Portas e Carrilho.

Ah, mas o primeiro-ministro de Portugal quer discutir a questão da ratificação do Tratado. Ele até quer explicar o óbvio a Marques Mendes. Marques Mendes é burro, portanto. Como o serão também Louçã e Jerónimo.

Lá vem ele com "o sentido de Estado"... Em matérias europeias, "apela a um consenso". Claro, senhor primeiro-ministro, trata-se de coisas sérias. Não é para andar aqui provincianamente a discutir e a debater tudo e mais alguma coisa. Vamos ser sérios.

Sarkozy e a Globalização

Aprende-se sempre com o Bruno Maçães. Nem sempre concordo com o que ele diz, mas isso é muito pouco relevante. No artigo que o Bruno escreveu ontem, Sarkozy figura como protagonista. As suas declarações e negociações parecem anunciar uma menor resignação perante o relativo consenso dos últimos anos em matéria de política monetária, comércio internacional e concorrência ao nível europeu. Julgo, no entanto, que ainda teremos de esperar para ver o que Sarkozy vai efectivamente fazer.
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Mas ainda assim discordo com a visão do Bruno que contempla um Sarkozy suspeitoso do mercado ou, pelo menos, discordo das razões invocadas que alegadamente autorizam a conclusão de que Sarkozy olha para o mercado de sobrolho franzido. Diz ele que "Sarkozy acha que o mercado livre e a concorrência perfeita, ou o princípio da vantagem comparativa, são ideias ingénuas, assentes numa opinião demasiado favorável dos seres humanos e da possibilidade de benefício mútuo". Não sei se será esse o fundamento. Não sei se a questão reside em perspectivas antropológicas ou na "possibilidade de benefício mútuo". Parece-me antes que Sarkozy se recusa a aceitar que a regularidade nomológica dessas ideias seja infalível, e que é preciso pensar política e economicamente as excepções. E, sobretudo, parece-me que Sarkozy pretende reerguer o político enquanto domínio primeiro. Em termos que talvez sejam mais esclarecedores: Sarkozy pretende converter a "globalização" em matéria mais disposta à escolha, e menos à necessidade. Por vezes, em momentos mais incertos tendo a acolher a bondade do propósito.
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Talvez eu esteja a ser demasiado benevolente com Sarkozy. Sinceramente, posso estar enganado. Mas em breve saberemos.

As direitas à porrada (ou Há direitas, há porrada)

Meu caro Francisco
Comecemos por lembrar que somos ambos de direita e do PSD, mas com diferenças.
Há alguns meses, eu comemorava o 25 de Abril e tu escandalizavas-te. Agora, tu apoias um candidato do PS e escandalizo-me eu.
O que é que isto significa?
Três coisas.
1. Primeiro, que eu mudo mais dificilmente ou dou mais importância à história. Digamos que sou mais conservador... Voto laranjinha desde que me lembro. Votei sempre, aliás, mesmo quando o PSD era o circo do Santana Lopes. Nunca votaria no PS porque, apesar do seu papel na defesa da liberdade em 75, é ao PSD que se devem todas as lutas pelo aprofundamento da democracia portuguesa desde então, do fim do Conselho da Revolução com Sá Carneiro, em 82, à eleição de Cavaco Silva, o primeiro Presidente não oriundo da esquerda, em 2006.
Tenho poucos heróis, de resto conhecidos. Não é grande virtude, é só falta de paciência para messianismos. Um Costa qualquer não chega para converter-me.
2. Segunda coisa: o voto em Costa não é solução, nem para a cidade, nem para a direita. Dizes que se trata de um político de peso e que vai pôr as contas em ordem. Estimo muito, mas nunca percebi esse entusiasmo da direita indígena por homens providenciais.
Ou talvez perceba. Há aqui a memória quase inconsciente do professor de Finanças de Santa Comba. Quando a nossa direita deixar de sonhar com salvadores da pátria de botas altas e lápis de merceeiro, talvez o famoso liberalismo seja possível por cá.
Nota que não estou a recusar, por princípio, líderes fortes e orçamentos disciplinados. Simplesmente, o perfil salazarista que te atrai em Costa não me atrai nada.
Pelo contrário.
O senhor ex-número 2 está ligado, queira ou não, a algumas das maiores tentativas de condicionamento da opinião em Portugal nos últimos tempos: a campanha presidencial de Soares e os seus ataques a Cavaco, o surrealista dossier da licenciatura de Sócrates, o caso Charrua, o referendo do aborto e sobretudo o pós-referendo.
Espanta-me que nada disto te faça duvidar das qualidades de tão glorioso candidato, entre as quais avulta, já se sabe, a de ter caído do céu.
3. Em terceiro lugar, esta rendição da direita ao poder de turno não chega a ser uma fuga - é um suicídio. As consequências estão bem à vista. Sem candidatos fortes, porque de antemão vencidos e convencidos, o PSD vai a votos com Negrão. Negro fado. Até um aprendiz de feiticeiro prevê os resultados da farsa, que está a correr pior do que a pior previsão.
Entretanto, os barões do partido esperam no remanso público ou privado por melhores tempos. Algo me segreda ao ouvido que vão ter de esperar muito.
Costuma dizer-se que o PSD se dá mal na oposição. Antes fosse. O PSD dá-se à inexistência na oposição.
O PS agradece.
O país não.
(Uma última notinha. Pedes-me que indique o melhor candidato. Esqueces que a política é a arte de escolher o mal menor.)
Um abraço e vota em consciência.

Da série "Cachimbos de Lá"

Balthus, A montanha, 1937

Terça-feira, 26 de Junho de 2007

Não sou conservador (1)

Misturo aqui um método de conhecimento e uma compreensão do homem. Não me refiro propriamente ao problema da verdade enquanto tal, mas ao modo como a ela podemos aceder. Nada disto é original. De forma resumida, diz-se assim.
Numa perspectiva (que designo de conservadora) o acesso à verdade dá-se independentemente da sua posse por alguém. Ela existe separada da história, pode ser formulada em proposições que são verbalmente imutáveis. Ao procurar compreender o homem, esta perspectiva opera segundo abstracções, elimina todos os aspectos que diferenciam os homens uns dos outros e obtém um resíduo final que denomina de natureza humana, um resíduo universal, fixo e imutável. Ao procurar compreender o homem concreto, parte desse resíduo e vê-se implicada na aplicação (casuística) de um conjunto de universais à singularidade concreta.
Noutra perspectiva, o acesso imediato à verdade objectiva não é uma prioridade. O compromisso desta perspectiva está empenhado na compreensão das afirmações humanas sobre a verdade, “com o entendimento contido nessas afirmações, com as condições do entendimento e da afirmação, e portanto com a historicidade da verdade e com o progresso na compreensão e penetração daquilo que é verdadeiro.” Aqui, o homem é entendido como um ser que experimenta, imagina, deseja, teme, espanta-se, compreende, concebe, delibera, decide, age. Ele é um centro produtor de actos intencionais impregnados de sentido. Ele existe como “subjectividade, como centro de consciência e liberdade, cuja história, única e não comparável com nenhuma outra, expressa a sua irredutibilidade a toda e qualquer tentativa de constrangê-lo dentro de esquemas de pensamento ou sistemas de poder…” O seu contexto, a sua apreensão da verdade, as relações com o mundo, com os outros e o Outro, tudo isto é mudança, porque o homem é subjectividade criativa.
Como facilmente se pode apreender, a primeira perspectiva dificilmente gera qualquer imperativo de verdadeira mudança nas formas e estruturas sociais, económicas e políticas. Todavia, aquém da substância existem os acidentes. Estes podem sofrer alterações. Mas estas são apenas uma readaptação do mesmo universal a situações diversas, uma aplicação da abstracção imutável ao caso concreto. O mesmo universal aplicado de forma elástica no particular concreto. Ou seja, não há mudança, ou esta é apenas acidental.
Mas se a subjectividade, a intencionalidade e o sentido forem (como acredito que são) constitutivos inegáveis da pessoa humana, então a exigência de mudança nas formas e estruturas é um dado inegável. É um facto e um imperativo. Por isso, não sou conservador.

Schalit, Gilad


Um ano depois.

Lisboa no Cachimbo I

O Pedro do Cachimbo e o Henrique do 31 discordam de forma militante do facto de António Costa ser o melhor candidato para Lisboa.

O Pedro está preocupado com o programa de Costa (que diria dos outros programas...). Há muito que os programas eleitorais - e respectivas campanhas - têm pouca ou nenhuma ligação à realidade. O exemplo destas eleições em Lisboa é paradigmático: nada rende menos votos do que discorrer sobre a maçadoria do saneamento das contas (que significa menos investimento e mais receitas a serem pagas por alguém), a reorganização da máquina administrativa, a política de habitação (inexistente, enquanto não for alterada a lei das rendas) ou dos transportes (dizer aos lisboetas para usarem menos o carro é perder eleições). Por isso os candidatos - sim, incluindo o Costa - tentam entreter os media com coisas ao lado tipo os casamentos gay, ciclovias, os estafados "pulmões verdes" e "espaços ribeirinhos" etc. É um mau sistema, mas é a verdade. Daí eu não me focar no programa de Costa (que nem conheço bem), mas sim na sua pessoa, no seu "peso" político, e - pois é - na sua inevitável ligação ao Governo que é essencial nestas eleições para resolver os problemas que tenho referido. Pedro já experimentaste imaginar uma coligação em que um dos candidatos não seja o Costa? As combinações são do caraças: Negrão-Carmona; Negrão-Roseta; Carmona-Roseta; Negrão-Zé Faz Falta; Carmona-Zé Faz Falta etc. É um exercício esclarecedor.
Eu estou de acordo contigo: há muitas matérias que poderiam abordadas. Mas também escusas de exagerar: O Parque Mayer é um esconso decadente inventado pelo Santana Lopes. E as colectividades devem ficar no seu lugar e ganhar a sua autonomia em vez de chularem subsídios e fazerem política (deverás saber que a federação das colectividades está totalmente nas mãos do PC).
Ah, é verdade, e esqueceste-te de dizer qual é afinal o melhor candidato.

P.S. Henrique, lá chegarei ao teu post.

Coisas Menores: o Referendo, a Constituição e a Europa

"A minha posição pessoal é contrária, por princípio, ao instituto do referendo. Não lhe reconheço nenhum ganho político e só é sintoma da crise do sistema parlamentar. A verdade é que os parlamentos são indispensáveis ao funcionamento da democracia e os referendos não. É o Parlamento que define a democracia, não é o referendo. O referendo só é um instrumento legítimo e adequado para as questões menores."

"A realização de uma consulta popular tem de ser posta em linha com outros valores. Neste caso, o valor da importância da viabilização de um novo tratado europeu. Dou um exemplo concreto: num cenário em que todos os países se comprometessem a sacrificar o referendo à urgência da entrada em vigor de um novo tratado, então deveria ser evidente que Portugal deveria entrar nesse compromisso. Além do mais, um referendo é incompatível com a discussão de questões complexas. Os debates nos referendos rapidamente se tornam demagógicos. É também para essas questões complexas que existem os parlamentos."
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Devemos, portanto, recorrer ao referendo para questões menores como, digamos, o aborto, a regionalização ou o novo aeroporto de Lisboa, mas não quando pode estar em causa (ainda não se sabe) a constituição da República. Dizia o outro que o poder tende a corromper, e o poder absoluto tende a corromper absolutamente. Ser eurodeputado tende a criar uma certa aversão à democracia quando esta significa que só o povo pode ratificar constituições.
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Não basta dizer que em democracia o povo pode ratificar constituições através dos seus representantes. Ratificações constitucionais através de representantes são democraticamente viáveis quando estes foram eleitos expressamente para o efeito. Seria interessante uma solução deste tipo para Portugal. Quem tanto se escandaliza com os gritos demagógicos propiciados pelos referendos, poderia propor uma convenção de representantes do povo português com a única e exclusiva missão de se pronunciar sobre o tratado constitucional. A menos que "outros valores" se ponham "em linha".
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Não deixa de ser divertido ver os nossos eurodeputados abrir o peito contra os inimigos do governo representativo e parlamentar, sempre que lhes falam em referendos. É um tique contagioso e tem o condão de sanar divergências meramente partidárias. Tem piada porque o governo representativo é essencialmente o governo da publicidade e da discussão. E não há nada que os senhores de Bruxelas e de Estrasburgo gostem menos do que de publicidade e discussão. Mas a paciência tem limites, e o meu sentido de humor não é elástico. Ao nosso querido eurodeputado Sérgio Sousa Pinto só peço que me poupe à sua defesa sentida e desinteressada do "sistema parlamentar". Prefiro a demagogia dos referendos.

Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Tocqueville em Alfragide

Se Tocqueville hoje visitasse Portugal, escrevia um livro sobre a IKEA. Poucos coisas terão feito mais pela mistura de classes e pela democratização do gosto cá na aldeia do que o triunfo da marca sueca.
Sempre que lá vou, arrastado pela fúria mobilizadora de uma certa donzela, observo as pessoas enquanto digo a todas as compras que sim. O que significa geralmente o fim das minhas economias e o princípio da minha sociologia.
Por aqueles corredores, às cotoveladas, é a sociedade portuguesa que abre caminho: gerações de suburbanos em passeio semanal, betas na véspera de dar o nó com a mãezinha, solitários de gosto alternativo, donas-de-casa em peregrinação desopilante, casais provincianos com aspirações cosmopolitas, imigrantes brasileiros e eslavos e paquistaneses, namorados cheios de projectos com ar de namorados cheios de projectos, jovens profissionais de sucesso a mudar de casa (ou de carreira, ou de amor, ou de vida), famílias da classe média com orçamentos abaixo da média (o nosso caso, claro).
Esqueçam a cidadania, a Europa e a globalização. O futuro da democracia portuguesa está no contraplacado de bétula.

Da série "A concorrência faz melhor"

Inevitavelmente de acordo com tudo o que o Paulo Gorjão diz hoje sobre a "Constituição" europeia, o necessário referendo e as inacreditáveis declarações de Sérgio Sousa Pinto.

Da série "Posta Restante"

"É o próprio Berardo que afirma que conseguiu o que sempre quis. Conseguiu fazer um museu permanente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, transformando aquilo que era um espaço aberto numa exposição permanente durante quase dez anos. Conseguiu que, na pior das hipóteses, o Estado se obrigasse a comprar-lhe a colecção em 2016 por 316 milhões de euros. E conseguiu ficar a mandar mais do que o Estado na na fundação que vai gerir o museu e que é, aparentemente, paritária.
(...)
De um lado, um investidor que confessa nunca se apaixonar pelos investimentos e que não entrou neste negócio com um espírito altruísta ou de benemérito.
(...)
Do outro, um Estado que é geralmente medíocre a acautelar os seus interesses que, na generalidade dos casos, são interesses públicos.
(...)
Não é difícil identificar quem é o elo mais fraco."

Paulo Ferreira, "O elo mais fraco do Museu Berardo", editorial do Público, 25/6/07

Domingo, 24 de Junho de 2007

Interesses

Não sei se já viram, mas apareceram uns cartazes a dizer que o "Zé" só tem um interesse: Lisboa.
Eu vou mais longe: o "Zé" não tem mesmo nenhum interesse.

Orgulho quê?

Ou eu ando muito distraído, ou a coisa não apareceu nos jornais, mas só agora me dei conta de que a edição 2007 do Arraial Pride foi ontem no Terreiro do Paço.
Entre as diversas estratégias do activismo gay para obter o reconhecimento social, esta sempre me pareceu a mais contraditória. Porque não tenta combater nenhuma discriminação, real ou suposta, mas sublinhar a diferença. Para quem tanto exige a igualdade de "direitos", há algo aqui que me escapa.
O orgulho gay evoca o espírito de gueto do qual os homossexuais dizem querer libertar-se (ou proteger-se). É exactamente simétrico do marialvismo que se gaba da mais primária homofobia para exibir uma heterossexualidade folclórica. Nenhum heterossexual, excepto um adolescente inseguro ou um émulo do Capitão Roby, proclama com "orgulho" a pertença ao clube. É um dado da intimidade.
Imaginem que eu me virava para a senhora cuja companhia tem sido indispensável à minha modesta heterossexualidade e lhe dizia "Ó Maria, vamos pró Terreiro do Paço dar umas beijocas a fim de mostrar ao mundo, ou pelo menos à pátria, o nosso orgulho straight". Todos, a começar por ela, achariam que isto do blogue me está a dar volta ao miolo.
É como aquela parvoíce do "orgulho branco". Só gente com uma identidade problemática pode orgulhar-se de uma natureza que em nada depende de si. Mas se, ainda por cima, a Câmara de Lisboa apoiasse um arraial do panache caucasiano (nada de trocadilhos, por favor), o mais certo era a brigada do politicamente correcto tocar de imediato as trombetas contra o regresso do "faxismo".
A não ser, claro, que os gays entendam que a homossexualidade afinal não é questão de natureza, mas de opção. Uma opção melhor do que a dos outros. Daí o "orgulho".
Se for isso, não contem comigo para um arraial da vergonha hetero.
Adenda: Entretanto, o Daniel Oliveira teve a rápida gentileza de esclarecer que o orgulho gay "não é para que" eu "goste". Pelo contrário, é "para que incomode" e seja "intolerável".
Já tinha desconfiado. A tolerância nunca foi exactamente um motivo de orgulho para o Daniel.

It's medical care, stupids!


Trata-se de uma resposta (porventura ingénua, mas verdadeira) a esta coisa do dr. Derek Summerfield e comparsas.

Concordo, sim senhor.

E depois de ler o Cachimbo, o Director Geral da Ferrari declarou à Reuters que: “a menos que o divertimento se tenha tornado um pecado, eu não acredito (que seja errado).” Em relação ao polémico 5º Mandamento, Amedeo Felisa escuda-se dizendo que “a maioria das pessoas compra Ferraris por amor à condução.”


Ora, é só para dizer que concordo plenamente com o meu caro amigo. E já agora. Parabéns pelo 60º aniversário.

O Futuro de uma Ilusão

Ler Darkness at Noon de Arthur Koestler ajuda a ilustrar as semelhanças entre o discurso marxista-estalinista e alguns – só alguns – discursos que se ouvem recorrentemente a propósito da globalização. Com as devidas distâncias, como se compreende, mas a estrutura análoga é facilmente reconhecível.

No primeiro diálogo entre Ivanov (o antigo companheiro da Revolução e agora agente fiel da vontade do nº 1) e Rubashov (o protagonista e figura maior da transformação revolucionária do mundo, agora caído em desgraça) surge um problema fundamental no espírito do último, dominado ainda e sempre pelo materialismo histórico na sua versão mais apressada. Rubashov hesita na condenação dos seus carrascos. Há um raciocínio material que ele não consegue sacudir e que o impede de dizer que aqueles homens estão errados e são imorais. Todos os actos humanos estão sob a eterna jurisdição da História. É a História que diz a verdade e que pronuncia os julgamentos. Certezas e juízos subjectivos não passam de outras tantas ilusões perante o carácter irresistível e definitivo da lei do crédito histórico.
.
Mas as acções do presente só serão julgadas no futuro; por isso, as decisões, por definição presentes, são tomadas na consciência de que estarão objectivamente certas ou erradas, sem grande lugar para intermediações. Contudo, não existe nenhum meio de nos assegurarmos que estamos a fazer escolhas certas, invalidada a consciência e destruídas as certezas subjectivas – destruídas pela sua própria pequenez quando comparadas com o grande drama que se vai desenrolando. Bem, na verdade existe um meio: a antecipação da História, o que implica deter a interpretação correcta da História. A dificuldade é que só a História poderá confirmar se a interpretação ortodoxa, que legitima todos os crimes e todos os horrores, é realmente a interpretação correcta. O que a História sanciona é “bom” e digno de elogio; o que a História repudia ou vai deixando cair é “mau” e objecto óbvio de eliminação. O drama de Rubashov, na fase inicial do seu calvário, é que ele "já não acredita na sua própria infalibilidade” enquanto intérprete da História. É por essa razão que vagueia cego e mudo por entre as paredes da prisão. Ele olha, mas não enxerga; ele fala, mas nada diz. Perdeu o seu farol e o seu megafone.

Ora alguns dos comentários sobre a globalização que pretendem também ser guias práticos de acção para os povos do presente certificam as suas exortações com a certeza objectiva que é conferida pela História, ou pela trajectória histórica que os gurus-profetas dizem adivinhar da globalização. É tudo novo, mudam os paradigmas, proclama-se a sucessão do inédito. As decisões erradas são implacavelmente punidas pela globalização, pelo menos nos seus estádios futuros. E as revoluções que se pedem no presente só serão compreendidas no futuro. Mas esse futuro já não coincide com o futuro deste ou daquele povo, desta ou daquela comunidade; trabalha-se hoje para garantir a absolvição histórica futura, a cargo de um juiz que não distingue povos nem comunidades, nem na realidade indivíduos. Trata-se de um julgamento de réus sem rosto. As nossas decisões colectivas são tomadas em nome de uma interpretação da História que nos diz a verdade. E ninguém quer tomar decisões contra a verdade pronunciada com tanta autoridade. Mas quem afiança a verdade da interpretação?

Felizmente, fora das fronteiras do mundo estalinista, mesmo quando já não acreditarmos na nossa própria infalibilidade, não estaremos perdidos. Há mais mundo para além da História.

Tratado de Lisboa

O fumo branco em Bruxelas trouxe boas notícias para os que acreditam no aprofundamento da União europeia sem passos federalistas precipitados.
Para os portugueses - Sócrates é definitivamente um homem com sorte - trouxe para Lisboa a aprovação e assinatura de um dos tratados mais importantes da história da Europa, talvez ao nível do Tratado de Roma de 1957.
Segundo a tradição diplomática europeia, as cidades onde são aprovados os acordos dão o nome aos tratados. Tudo indica que assim será em Lisboa, entre 18 e 19 de Outubro, seguindo-se a assinatura formal em Dezembro na capital portuguesa.
A carga simbólica é forte mas substância não fica atrás. Não será uma constituição - nem poderia ser porque os líderes europeus não terão poder constituinte - mas o novo Tratado da União Europeia receberá a maioria das disposições do anterior projecto de constituição europeia, inclusive na parte institucional (Presidente do Conselho Europeu eleito para mandatos de dois anos e meio e Alto Representante da UE para a política externa e de segurança).
A redacção jurídica do texto não será uma tarefa fácil. Em vez de substituir todos os anteriores Tratados - como se propunha a constituição europeia - o novo acordo irá alterar os textos daquelas fontes de direito, aumentando a complexidade jurídica do acervo comunitário.
Confesso que fiquei preocupado com eliminação, a pedido de Sarkozy, da referência ao objectivo comum da "concorrência livre e não falseada". Espero que tal não signifique mais protecionismo nacional, o que seria um retrocesso numa das políticas comuns melhor sucedidas: a livre concorrência no Mercado Comum. Mas voltaremos a este tema mais tarde.

Sábado, 23 de Junho de 2007

Sexy Party

O CDS (PP ou não PP?), - o partido que se quer sexy, lembram-se? – terá enviado alguma delegação à Feira Porno... perdão, à Feira Erótica de Lisboa deste fim-de-semana? Ou terá por lá alguma banquinha?...

Não seria de admirar, com todo o demo-fracturo-erotismo que aquele tão excitável partido tem mostrado ultimamente...
E com aquelas setas no logotipo... Hum...

Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Da série "Nunca mais é Sábado"

Subitamente numa rua de Lisboa:

O político ginjas


Ontem, ao ouvir Manuel Monteiro na televisão, num momento de sossego da histriónica campanha do PND para Lisboa, ocorreu-me uma enorme, se bem que nada metódica, dúvida: como é que este demagogo de feira chegou a ter 10% de votos dos portugueses?

Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Tu quoque, Francisco?

Não, Francisco, António Costa não é o melhor candidato para Lisboa. Não vou apedrejar-te, o que seria um pouco primitivo, nem vou rasgar as vestes, o que seria muito inestético. Costa apenas brilha porque os outros candidatos não existem, a começar por Negrão e Telmo Correia. É tudo. Concordo que Lisboa precisa de alguém que faça política e Costa faz política. Mas é a política errada.
Vejamos. Que eu tenha reparado, o programa costista resumiu-se até agora meia dúzia de vacuidades: a mui singular proposta de minorar o défice municipal com dinheiro do Governo; o Simplis, imitação do Simplex, esse programa cujos efeitos redentores sobre a burocracia pública têm a notável característica de não se fazerem notar; a redução do número de avençados da Câmara, promessa que, todos sabemos, não irá cumprir; a conversão de Lisboa na "capital do diálogo intercultural", uma boa intenção que não significa rigorosamente nada; a celebração de casamentos gay nos Paços do Concelho, uma prioridade decisiva para a vida dos lisboetas, como se sabe; e mais algumas ideias avulsas.
Chega para ti? Para mim não.
E o resto?
E a Baixa? E o Parque Mayer? E o trânsito? E a habitação? E as colectividades? E o papel do município na educação? E a articulação com a área metropolitana?
Népias.
O homem não diz nada, não aprofunda nada, não se compromete com nada. E um homem que não se compromete com nada não leva o meu voto.
Além de que é socialista, já reparaste?

O Melhor Candidato

Agora que já nos vacinámos contra o candidato independente-dos-partidos-maus-muita-puro-tão-puro-que-até-anda-de-mota (que nos sirva de emenda porra), é tempo de olhar em frente e decidir o melhor para a capital.

Precisamos de um político hardcore. Com lastro e peso próprio. Os temas mais urgentes da próxima governação decidem-se politicamente, ao contrário do que muitos pensam. Basta de tecnocratas: reestruturar e renegociar o passivo é um problema político; acabar com a bandalheira dos gabinetes e dos departamentos da câmara é uma questão política; idem para os transportes (autoridade metropolitana) e habitação (Epul, Gebalis).
Precisamos de um presidente que tenha boas relações com o Governo, por onde passarão inevitavelmente todas estas questões (ou acham que não?) e, já agora, também o dossier Aeroporto.
Precisamos de um Presidente que, tendo que governar em coligação, seja o líder incontestado da mesma.
Precisamos de um Presidente que tenha a pressão de governar bem, para no futuro poder dar saltos maiores.
Dos 13(?) candidatos, António Costa cumpre razoavelmente bem estes critérios.
Rasgai as vestes e apedrejai-me irmãos da direita, mas sabeis bem que tenho razão.
Desperdiçámos duas boas oportunidades (2002 e 2006) de fazer boa figura em Lisboa. O resultado foi mau: A câmara está falida e desorganizada. No fundo, a mesma merda que aconteceu com o Governo. E agora os candidatos do PSD e do PP, para além de terem muito pouca legitimidade, são fracos. Se vos causa alergia votar na esquerda (como a mim) podem sempre ficar em casa.

Será que a Tradição invalida a Lei Moral?

Está bem lembrado pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes:
“O quinto mandamento proíbe fazer seja o que for com a intenção de provocar indirectamente a morte de uma pessoa. A lei moral proíbe expor alguém, sem razão grave, a um perigo mortal…”
…mas, e quando é que se condenam explicitamente este género de brincadeiras nas estradas espanholas?
Na festa do Corpo de Cristo em Castrillo de Murcia

ou em honra de São Firmino em Pamplona?

Estou de regresso depois de umas semaninhas em silêncio.
Nesta minha rentreé no Cachimbo não resisto a deixar-vos este artigo hoje publicado no semanário Sol.

"Poucas portuguesas optam por 'part-time' para cuidar dos filhos".

Entre as conclusões desta notícia:
  • "Apenas uma em seis portuguesas trabalha a tempo parcial para cuidar dos filhos, enquanto a média europeia é de uma em cada três, segundo uma publicação da comissão para a igualdade"
  • "Portugal destaca-se, no contexto europeu, como um país onde a taxa de actividade feminina é excepcionalmente elevada e onde as mulheres com filhos pequenos tendem a trabalhar a tempo inteiro, em proporções muito superiores às de qualquer outro país da Europa a 15."

Onde estão as medias Portuguesas no que toca a esta componente estrutural da sociedade, da economia e do país?

Procurador Geral PS

A Procuradoria faz um comunicado a dizer que não foram recolhidos quaisquer indícios de crime praticado por “membros do Governo PS”.
Para além do mais, não haveria outra maneira, digamos, mais institucional de dizer a coisa - «membros que compõem o actual Governo» ou «membros do XVII Governo Constitucional»?! Vindo de um jornalista não seria grave, mas da Procuradoria...
Só falta dizer que não há arguidos do PS, que o PS é o máximo, votem no PS, já nas próximas eleições.
Isto já começa a ser demais!

Ironias

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Ode aos Conservadores a Sério (Com Uma Pequena Ajuda do Camarada Ruy Cinatti)


Vós, conservadores, que numa noite de Inverno
Descestes do paraíso a esta dimensão,
Sabeis, com o Sartre, que os outros são o inferno
E o que fazer contra eles, mas piadas não!

Vós, conservadores, que em chegando a Primavera
Lançais vossas flechas direito ao coração
Da JAD, da Câncio, do Daniel Oliveira
E até do Vital, só piadas não!

Vós, conservadores, que o céu puríssimo
Contemplais, extáticos, em dias do Verão,
Podeis ceder à bebida, às mulheres, ao vício
Do jogo e à ira, mas a piadas não!

Vós, conservadores, que aqui vêdes um lobo
De cordeiro vestido p`ra trair a Nação,
Graves, sombrios e secos quais folhas de Outono,
Quereis minha desgraça - mas a graça não!

Aeroporto e democracia representativa

Em democracia o poder pertence aos cidadãos que, na impossibilidade prática de o exercerem directamente (lamento camaradas mas não resulta mesmo), elegem os seus representantes a quem atribuem um mandato popular. A construção de um novo aeroporto internacional é um exemplo de uma decisão que, pela complexidade técnica, não pode ser tomada directamente pelo Povo.

Venha pois o debate público. Venham os partidos políticos e a sociedade civil. Venham os comentadores e até o Miguel Sousa Tavares com as suas muitas certezas. Venham estudos técnicos, quantos mais melhor, discutidos à exaustão. Mas chegará um momento em que a decisão final terá de ser tomada. Uma decisão política embora com uma forte componente técnica.

Esse momento será um teste decisivo à credibilidade deste Governo. Das duas uma. Ou confiamos no Primeiro-Ministro – e MOP mesmo que se chame Mário Lino – para tudo visto e ponderado decidir segundo o interesse nacional. Ou não confiamos. E se não confiamos mais vale trocar de governo porque este já não lá está a fazer nada.

Denunciar com indignação todas as formas de homofobia, até as mais escondidas, que a mim não me enganam

A Fernanda Câncio não gosta do casamento.
A Fernanda Câncio quer que os gays se casem.
Há gente muito homofóbica.

Igreja sobre Rodas

Ainda estou à procura do documento que ontem foi apresentado às Conferências Episcopais de todo o Mundo: “Guia para a Pastoral dos Cuidados na Estrada.” Parece que vamos encontrar dez mandamentos para uma condução automobilística de expressão moral e cristã.
Não matarás; auxiliarás as vítimas dos acidentes; na estrada, protege a parte mais vulnerável; apoia a família das vítimas, são alguns exemplos. O quinto mandamento é delicioso: “as viaturas não devem ser para ti uma expressão de poder, de domínio e de ocasião de pecado.” Estou curioso. Espero para ler. Suspeito que vai dar que falar. Acho que já não vou poder comprar um Ferrari.

Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Eleições e Coligações em Lisboa

Primeiríssimas impressões do debate na SIC Notícias entre os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa:
- Sá Fernandes deseja fazer uma coligação com António Costa (o sentimento é recíproco);
- Telmo Correia deseja fazer uma coligação com Fernando Negrão (o sentimento é recíproco);
- Carmona Rodrigues deseja fazer uma coligação com Ruben Carvalho (gostava de dizer que o sentimento é recíproco para que o post ficasse redondinho, mas é esticar um pouco a corda);
- Helena Roseta deseja fazer uma coligação com todos (incluindo os candidatos ausentes do debate).
.
Ah, por pouco esquecia-me de assinalar o ponto de consenso entre todos os candidatos: não há um único exemplo de incompetência nem de pouco profissionalismo entre os milhares de funcionários da CML. Deve ser caso único no mundo mediterrânico. Mas eu acredito. Por vezes, não percebo de que se queixam os lisboetas. Com uma Câmara Municipal destas, cada protesto, por mais reservado que fosse, devia ser repreendido como se repreendem as birras de um menino mimado.

Compromisso Liberal

Amanhã, às 12h, na FNAC do Chiado, o Compromisso Portugal - o Think Tank mais sexy do mercado - vai lançar um livro com algumas das propostas da última Convenção do Beato. O livro é editado pela Booknomics e terá textos de Vasco Pulido Valente e Rui Ramos sobre as ideias liberais em Portugal.
Polémica não vai faltar.

Da série "Cachimbos de lá"

Pablo Picasso, Dèjeuner sur l`herbe, 1961

Publicidade institucional

O Cachimbo sempre em alta: Luís Cabral, num almoço-debate falará sobre "A Educação num futuro para Portugal". É já no próximo dia 21 de Junho, no Hotel Ritz, em Lisboa, num encontro promovido pelo Jornal de Negócios e a ATX Software.

Resposta ao camarada Morgado sobre o conservadorismo que ri, e de quê (2)

(Cont.)

O verdadeiro conservador não é o pessimista para quem tudo está perdido, mas o pessimista para quem tudo está perdido e só assim vale a pena lutar. Sabe que o mal é inextinguível, que cresce de noite no meio do trigo, como o joio da parábola, mas sabe também que é seu dever de cavalheiro combatê-lo até à morte, com um sorriso nos lábios.
Não o inspira a consciência tranquila dos appeasers, sempre prontos ao compromisso com os tiranos em nome da paz, mas a intranquila consciência de Churchill, esse hipopótamo genial, que só prometeu à livre Inglaterra "sangue, suor e lágrimas" e um punhado de epigramas.
Ou a ironia de Leónidas, chefe dos trezentos espartanos que, no desfiladeiro das Termópilas, detiveram o progresso em 480 a. C. - o progresso do invasor persa. Na véspera da batalha, Xerxes, o rosto do futuro, filho do imperador Dario e comandante do exército mais poderoso que a história já vira, enviou aos gregos um mensageiro intimando-os a render-se, pois os inimigos eram tantos que, se disparassem uma flecha todos ao mesmo tempo, o sol deixaria de se ver. "Óptimo, assim combateremos à sombra", foi a resposta pouco clássica. My kind of guy. Os espartanos foram massacrados até ao último, mas o breves dias que Xerxes demorou a vencê-los, à custa de pesadíssimas baixas, permitiram às cidades gregas reorganizar a defesa e, por fim, derrotar os persas.
No fundo, Leónidas é um Churchill light.
Ou um Chesterton muito light.
Se defendesse um hipopótamo, e não apenas a civilização, passava bem por conservador.

Parabéns a Você

O Portugal dos Pequeninos do João Gonçalves fez quatro anos no dia 11. Nem sempre concordo com o João, e ele sabe disso, mas há poucos blogues cá na aldeia em que se escreva melhor e mais desassombradamente. Além da companhia hilariante em almoços conspirativos... Daqui, mesmo atrasados, seguem um abraço e os parabéns deste companheiro de outras lutas.

Portela+0,5

Recomendo a leitura do artigo do ex-presidente da CML, João Soares, "Portela", na edição de hoje do Público. Um excerto (destaques meus):

Tenho para mim que uma das primeiras obrigações, especialmente de quem tem responsabilidades públicas, é cuidar bem do que já temos. Ora, no que a aeroportos diz respeito, Lisboa tem a Portela. Um aeroporto, construído de raiz, nos anos 40 do século passado, com condições para ser um excelente aeroporto.

Antes de mais, as que resultam da sua excelente localização, em termos de proximidade com o centro da cidade. Nenhuma outra capital europeia tem o seu aeroporto localizado tão perto do seu centro urbano. Nenhuma outra capital europeia lançaria pela borda fora esta mais-valia tão importante que é ter um aeroporto tão próximo do centro da cidade. Não conheço aliás nenhum caso de desmantelamento completo de um aeroporto. Usando a Portela, é possível chegar a Lisboa de manhã cedo (partindo de Amsterdão, Bruxelas, Londres, Paris etc...) ter duas reuniões durante a manhã e outras tantas durante a tarde, regressando depois, no mesmo dia, ao ponto de partida.

(...)

Os problemas da Portela são problemas com o funcionamento da Aerogare e das placas de estacionamento dos aviões. São problemas de organização. Que, aliás, começam por ser problemas de organização do espaço. Na Portela não se espera por aviões. Espera-se por malas, espera-se muito por malas. Espera-se para fazer o check-in. Espera-se por autocarros que vão buscar os passageiros a aviões que não encostam a mangas, mesmo quando há mangas disponíveis. Nunca, até hoje, soube de um avião que tivesse estado "em bicha" atrás de dezenas de outros para descolar ou aterrar, como acontece na generalidade dos outros aeroportos de capitais europeias.

Há anos juravam-nos que a Portela estaria esgotada em 2000, depois asseguraram-nos que não passaria de 2007. Viu-se. Agora falam-nos de slots recusados. É falso, redondamente falso. O Aeroporto da Portela tem uma área de implantação no solo superior a outros aeroportos que tiveram, ou têm, mais tráfego em voos e número de passageiros - Hong Kong antigo ou Málaga actual.

Isto sem considerar a área que ficaria disponível, em termos aeroportuários com a disponibilização do espaço ocupado (muito pouco ocupado, de facto!) pela Força Aérea no Figo Maduro, o Aeródromo de Trânsito n.º1. Para além do terreno de depósito municipal, propriedade da CML, também conhecido por Figo Maduro.

(...)

O que ainda não se fez, e há muito já deveria ter sido feito, foi a ligação do Aeroporto da Portela com a rede de comboios. A Portela está muito próxima do mais completo interface de transportes da cidade de Lisboa, a Gare do Oriente. Onde os passageiros podem dispor de autocarros, urbanos e interurbanos, metropolitano, comboios, táxis. Há anos foi prometida a ligação em mono-rail entre a Portela e a Gare do Oriente. Onde está ela? Como aliás onde está o metropolitano que se ficou a escassas centenas de metros do Aeroporto da Portela?
São estas as questões que os eleitores lisboetas devem colocar aos candidatos à Câmara Municipal, no que respeita à questão fundamental do aeroporto (algumas delas deviam ser dirigidas ao próprio João Soares). São estas as questões que têm de ser respondidas.

Querem fazer "estudos"? Divirtam-se. Há apenas um que me interessa: o estudo a remodelação, modernização e ampliação da Portela, de forma a abranger os terrenos do aérodromo de Figo Maduro e a ficar dotada de ligações decentes à rede de transportes públicos, especialmente ao metropolitano. À atenção dos crentes nas "virtudes" macroeconómicas da despesa pública: é mais rápido começar os investimentos necessários na Portela e na rede de transportes urbanos de Lisboa do que sonhar em plantar rebanhos de estacas de cimento em pântanos. Atendendo ao ciclo eleitoral, é capaz de ser politicamente interessante.

Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

O Querido Líder no Portugal Profundo


Publicidade institucional

As memórias, com especial destaque para as de ex-comunistas ou ex-radicais de esquerda, começam a estar na moda entre nós, notou Pacheco Pereira anteontem no Público.
Atento aos sinais dos tempos, o Cachimbo de Magritte anuncia (em primeira mão na blogosfera, quer-me parecer) o lançamento das memórias de Zita Seabra, no Quartel do Carmo, pelas 18h30 do próximo 5 de Julho. Com o título Foi Assim, a edição é da Aletheia e o convite tem no fim uma pequena frase que convida a sorrir: "Vem e traz um amigo também". Eu vou.

Da série "Posta Restante"

"O mais sério problema da integração europeia é o crescente alheamento e até hostilidade das opiniões públicas face à UE. Perante este divórcio, os políticos europeus ainda não encontraram melhor solução do que fugir ao olhar crítico dos cidadãos, fazendo as coisas pela calada. Veja-se a obsessão de evitar referendos.
(...)
Além de pouco empenhados na democracia da UE, continuam a embarcar em ilusões institucionais. Como a criação de um Ministro dos Negócios estrangeiros da UE, com este nome ou outro. Não é que daí venha grande mal e até pode vir algum bem. O problema é a ilusão de que, criando uma figura institucional, logo virá o conteúdo para lhe dar substância. É uma ilusão recorrente na UE."

Francisco Sarsfield Cabral, "Realismo e ilusão na União Europeia", in Público, 18/6/07

Resposta ao camarada Morgado sobre o conservadorismo que ri, e de quê (1)

Amigo Miguel:
Tens razão, mas não toda. Isto era um pano vermelho que se tornou uma bandeira. Não me assusta, porque gosto de bandeiras, mas o conservadorismo desfraldado era uma disposição oakeshottiana e não uma ideologia. Obtusos à diferença, uma psiquiatra analisou a minha alma e chamou-me "egóico", neologismo com alguma graça mesmo para um conservador, e o maior idiota útil da blogosfera no último referendo acusou-me de "ofertar" não sei o quê à esquerda, o que, não sendo um neologismo, tem ainda mais graça. Além de nos ser revelado que os conservadores têm melhor sexo que os progressistas, diz o insuspeito Daniel Oliveira, e que os progressistas têm no cilício um insuspeito fetiche, o que, digo eu, talvez explique o resto.
De graça em graça, no entanto, a bandeira tornou-se teoria. A indignação dos fracturantes mostrou que o seu humor amoral está muito atrás do seu amor à moral. Para mal dos teus pecados (tu não tens muitos pecados, até escreves no Cachimbo, trata-se só de uma imagem literária, convém sempre deixar bem clarinhas estas coisas todas), o sucesso do caso provou a verdade da teoria.
É certo que os conservadores partilham uma visão trágica da existência, como dizes. Não acreditam em utopias, desconfiam da bondade humana e sabem que a realidade impõe limites às mais altas intenções. Atrevo-me a concluir, no entanto, que daí nasce o seu humor. Tal como o progressista, o conservador revolta-se com o que está mal, mas, ao contrário do progressista, teme o que pode vir a estar ainda pior. O conservadorismo não é o amor ao passado - é o amor ao presente, à realidade, ao mundo como é e não como gostaríamos que fosse.
Sophia de Mello Breyner, num discurso célebre, dizia que quem vê o esplendor do mundo é levado a ver o sofrimento do mundo. Um conservador estaria de acordo, mas acrescentaria, com Chesterton, que quem vê a tragédia do mundo vê também a comédia do mundo. É impossível ver o hipópotamo como o fruto de milhões de anos de história, e não como um acidente evolutivo a corrigir no futuro, e não rir. Um conservador facilmente desconfia de que tal criatura é uma caricatura, desenhada por Deus para exclusivo gozo dos conservadores. O progressista apenas suspeita que o hipopótamo está gordo e que o Estado deve fazer uma lei que o obrigue à dieta, ao exercício e a ter poucos hipopotamozinhos por causa do aquecimento global. Pobre hipopótamo.
É por achar o hipopótamo digno de ser defendido, não apesar de gordo, mas por ser gordo, que o conservador lutará por coisas que para os outros não passam de acidentes evolutivos. Se não o fizesse, não passaria de um snob, ou seja, alguém que mantém aquilo a que chamas a pose do conservador, o irónico realismo, mas perdeu a coragem de lutar.
(cont.)

Os deuses devem estar loucos (a propósito do tempo)

Estou a pensar em pedir ao Antímio de Azevedo para ser colaborador do Cachimbo. Acho que era bom para as audiências.

Governo Narcisista

Lembram-se de um comunicado da Universidade Independente que foi elaborado e divulgado por um assessor do Ministro dos Assuntos Parlamentares? Lembram-se que o Governo ficou "chocado" com a sua actuação e exonerou-o de imediato. Lembram, lembram?

Pois bem, não se preocupem. Segundo li este fim-de-semana no Jornal de Notícias, o mesmo Governo que o exonerou já terá assegurado a nomeação de Carlos Narciso para Chefe de Redacção da TV CPLP.

Era uma questão de solidariedade revolucionária. Um sinal para os colaboracionistas.

Petição contra uma proposta indecente

Depois de uma "iniciativa" tão disparatada como esta, veio o "meio académico" britânico com uma proposta ainda mais ridícula: o boicote de académicos e instituições universitárias israelitas. Os proponentes alertaram, sem corar, para as 'implicações morais [sic] das ligações a instituições académicas israelitas'.
Felizmente que outras pessoas mais avisadas decidiram reagir a tão elevadas preocupações morais (que seriam apenas tontas, se não fossem um sinal de coisas bem mais sérias...).
Assim, quanto mais não seja, por pura decência, corre agora uma petição. Aqui.

Domingo, 17 de Junho de 2007

Os suspeitos do costume II

Costumo ler com proveito e gosto os artigos de política internacional de Jorge Almeida Fernandes, no Público.
Há momentos, porém, em que até os melhores perdem a lucidez. Foi o que lhe aconteceu hoje.
Comentando a guerra civil na Palestina, onde duas facções locais se dedicam, com ferocidade e método, a destruir qualquer hipótese de existência de um Estado palestiniano, Almeida Fernandes atribui culpas (adivinhem...) a Israel, aos americanos e à Europa (adivinharam).
À Europa?
As coisas estão assim tão mal?

Os suspeitos do costume I

Em França, a UMP de Sarkozy vence a segunda volta das eleições para a Assembleia com maioria absoluta (elege cerca de 350 deputados), mas os socialistas têm melhores resultados do que o previsto depois da tareia da primeira volta (elegem cerca de 210 deputados).
É o suficiente para os jornalistas perderem a compostura.
Um pequeno exemplo. No telejornal da RTP, José Rodrigues dos Santos inicia o diálogo com o correspondente em Paris deste modo glorioso: "Então, Paulo, todos podem cantar vitória, não é?"

Viva España!


Real Madrid: Glória, Monarquia e Centralização. Não sou grande apreciador das duas últimas. Mas, em Espanha, é diferente. No futebol, também.

A Infância do Liberalismo

Suponho que doravante em Portugal crescerá a discussão em torno das "políticas de natalidade". É um caso bicudo garantir a eficácia e a justiça de incentivos à natalidade. Aqui no Cachimbo já se abordou o assunto em termos gerais, mas não custa crer que, em breve, teremos oportunidade de regressar à discussão. No entanto, ouço cada vez mais liberais protestando contra a possibilidade de haver "políticas de natalidade", quase independentemente dos seus conteúdos. Os argumentos são variados, mas podem ser resumidos à crítica da intrusão nas escolhas livres dos indivíduos numa área absolutamente interdita a considerações públicas. É como se estivéssemos perante uma crítica da chamada "biopolítica".
Deixando de parte as confusões dos liberais lusos... Esperem lá! Liberais...? Liberalismo...? Mas então o liberalismo não é uma das versões mais fortes da "biopolítica" e, talvez, o seu maior triunfo?
Ai, ai, o liberalismo...

Os Inconformados

Embriagado talvez pela esmagadora vitória na primeira volta das eleições francesas, Sarkozy continua a ser visto por muita maltinha que se mexe na política e na comunicação social como um tipo perigoso. A sabedoria convencional avisava que se ele fosse eleito Presidente da República haveria caos social. Houve distúrbios, é verdade, que não passaram de casos justificadíssimos de polícia.
Pouco tempo depois, o povo francês tem a oportunidade de se pronunciar sobre a vitória de Sarkozy em eleições legislativas. Bem sei que é cedo para falar de uma "vitória esmagadora"; mas quanto à primeira volta estamos conversados: dos 577 mandatos do Parlamento francês, 110 foram decididos há uns dias e os restantes hoje. Desses 110 deputados já eleitos, 109 são do UMP e apenas 1 do Partido Socialista. Ah, mas como os meios de comunicação social disseram até à exaustão, a abstenção foi "enorme". Deram-se ao trabalho de difundir vezes sem conta umas imagens de uma mesa de voto em que o presidente da mesa virava a urna ao contrário para demonstrar que nem um voto fora colocado até então. Vitórias destas, também eu, diz o ressentido.
Na realidade, a abstenção na primeira volta atingiu os 39,56%. Número elevado, sem dúvida. Mas em 2002, também na primeira volta, a abstenção saldou-se em 39,68%. Em suma, uma taxa de abstenção que não anda longe dos níveis que normalmente se registam em eleições legislativas no continente europeu, sempre que o voto não é obrigatório. Todavia, há pessoas que não se conformam.

Questão de identidade

Na Segunda-Feira, membros do Hamas, cercaram na sua casa, onde se tinha refugiado com familiares, Jamal Abu Jideyan, secretário-geral da Fatah no Norte de Gaza e comandante das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa. Foram feitos quase vinte disparos de RPG para a casa. Um irmão de Jideyan, antes de serem os dois arrastados para a rua e abatidos pelos do Hamas, telefonou para a rádio Sawt al-Hurriya e protestou em directo: 'Eles estão a disparar contra nós, estão a disparar RPG's! Nós não somos Judeus!'

Sábado, 16 de Junho de 2007

Há coisas fantásticas, não há?

Internet com velocidade de 60MB, tráfego ilimitado. Telefone de utilização gratuita para mais de 100 países. Televisão com 50 canais. E equipamento? O modem é oferecido, e o receptor de TV é disponibilizado mediante caução totalmente devolvida quando o cliente o entregar de volta. Quanto é que isto custa? €29,90/mês, €358,8/ano.

Certo, mas até aqui estamos em França. Agora voltamos a Portugal:

Sem se rir, a PT apresentou, com grande orgulho, um produto de internet+telefone+tv. Internet com velocidade de 8MB, tráfego ilimitado. Telefone de utilização gratuita apenas para a rede PT. Televisão com 30 + 10 canais. A instalação custa €99, e o equipamento uma renda mensal de €7,5 para a 1ª TV e €5 para a 2ª. Preço? €54,90/mês + €7.5/mês, €62.4/mês. No primeiro ano a brincadeira fica em €748,8 + €99 = €847,8. Se for a correr (não espere por mim) e aproveitar a campanha promocional de lançamento consegue não pagar a instalação e a renda do equipamento.

Um Governo decente deveria ter como prioridade a organização dos vários mercados de modo a potenciar o aparecimento de mais e mais soluções de produtos e agentes fornecedores, diversificando ofertas e esbatendo margens, criando valor crescente para (mas não só) o consumidor.

Um Governo que tem, ou tinha, no discurso um tão grande enfoque na tecnologia, não deveria deixar de se preocupar com o custo do acesso a informação e comunicações via internet, tv e telefone. E como o tempo dos planos quinquenais está mais ou menos ultrapassado, não obstante algumas febres momentâneas, não é pelo subsídio ou controle abusivo de preços que vamos lá. É pela forma como este mercado está organizado, e pela incapacidade de quem tem responsabilidades garantir que se constitui, numa área crucial para um país com ambições, um mercado que produza soluções competitivas. Alguém sabe o que pensam os Ministros Lino, Pinho ou o Primeiro Ministro Sócrates sobre o tema?

O preço do pacote da PT, que é uma banalidade sem interesse distintivo na europa, supera, no valor ano, o salário médio mensal português. E se este último for calculado em valores líquidos assusta ainda mais. Deve ser isto, afinal, o choque tecnológico.

Que sirva de exemplo

Um engenheiro é um engenheiro é um engenheiro.
Pois é.

Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Da série "Cachimbos de Lá"

Mário Eloy, Auto-retrato, c. 1930

À espera

Encontro um amigo que não vejo há muito.
Pergunto-lhe como vai.
Mal. O pai tem um cancro, descoberto depois de um AVC que o ia matando. "Está uma sombra do que foi." Cultíssimo, muito activo para a idade, leitor voraz, extremamente atento à actualidade política, agora nem reconhece a mulher.
Já passei por isso, mas faltam-me as palavras. A ele também. "É uma questão de tempo. Estamos só à espera."
À espera.
Não estamos todos?

Da série "Posta restante"

"LNEC encontrou linces da Malcata em Alcochete"

"Bloco de Esquerda quer divórcios de Santo António"

"Desportivos só vão poder anunciar no máximo três reforços/dia para o Benfica"

In Inimigo Público, 15/06/07

Richard Rorty para Todos os Gostos

"As sociedades modernas, literatas e seculares dependem da existência de cenários políticos razoavelmente concretos, optimistas e plausíveis, por oposição a cenários sobre a redenção além-túmulo. Para manter a esperança social, os membros de tal sociedade precisam de ser capazes de contar a si próprios uma história sobre a maneira como as coisas poderiam melhorar e de não ver obstáculos insuperáveis a entravar a possibilidade de essa história se tornar verdadeira. Se recentemente a esperança social se tornou mais difícil, não é porque os intelectuasi tenham cometido a traição, mas porque, desde o final da Segunda Guerra Mundial, o decurso dos acontecimentos tornou mais difícil contar uma história convincente desse tipo. O império soviético cínico e invencível, a permanente limitação e voracidade das democracias sobreviventes, as populações em crescimento explosivo e famintas do Hemisfério Sul fazem os problemas que os nossos pais enfrentavam nos anos trinta - o fasciscmo e o desemprego - parecerem quase fáceis de enfrentar. As pessoas que tentam actualizar e reescrever o cenário social democrático típico sobre a igualdade humana, o cenário que os seus avós escreveram pelo virar do século, não estão a ter muito sucesso. Os problemas que os pensadores sociais de inclinação metafísica julgam ser causados pelo nosso fracasso em encontrar o tipo certo de cimento teórico - uma filosofia que consigo um amplo consenso numa sociedade individualista e pluralista - são, penso eu, causados por um conjunto de contingências históricas. Essas contingências estão a tornar fácil ver os últimos séculos de história europeia e americana - séculos de esperança pública e de ironismo privado crescentes - como sendo uma ilha no tempo, rodeada de miséria, tirania e caos. Tal como Orwell afirma, «as paisagens democráticas parecem terminar em arame farpado.»"
.
-- Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, 1989

Democrata

Democrata do Hamas exibindo os seus argumentos racionais nas ruas de Gaza



Vigoroso debate de ideias entre militantes do Hamas (os armados) e militantes da Fatah (os desarmados)


Outro nazi-sionista


Mudar o Mundo. Pim!

Ao entrar na Universidade Humboldt– que por estes dias visitei na chamada “Berlim de leste” - lá vi na parede central a célebre preposição de Marx:

“Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo. Chegou, porém, a hora de o mudar”
Se quisermos encontrar uma expressão de um filósofo que tenha tido impacto no rumo do século XX, não encontraremos facilmente outra tão marcante. Os movimentos políticos que se propuseram mudar o mundo a partir de uma ideia (de justiça ou de nação, por exemplo) foram a constante que marcaram o século XX. De tal maneira que, quando se percebeu que o mundo não mudava assim facilmente, houve quem dissesse que era o “fim da história”. A entrevista de José Saramago, ontem noticiada, segue essa linha: “Estamos a chegar ao fim de uma civilização e aproximam-se tempos de obscuridade” e arremata: “já não há muito tempo para mudar o mundo”.

Mudar o mundo... Quem visita os estilhaços que restam da vontade de mudar o mundo das diferentes ideologias do século XX – quem vê as fotografias, lê os livros e visita os locais que relatam e relembram os horrores perpetuados pelo império soviético ou também, por exemplo, pela nação germânica de Adolf Hitler -, não pode deixar de se perguntar como é que foi possível fazer tanto mal, provocar tanta dor e tanto sofrimento? Como foi possível tendo na base uma motivação inofensiva e até, nalguns casos, simpática? Sai-se indisposto do Museu do Judaísmo, mas a pergunta mais persistente é: como foi possível ir tão longe? Como foi possível ir tão longe ... por uma ideia.
Há quem lamente a suposta morte das ideologias. Eu, pelo contrário, alegrar-me-ia se fosse o caso. Alegrar-me-ia se se percebesse de uma vez por todas que a humanidade é complexa e não se reduz a Trilogias por muitas Luzes que tenham. Que - para usar a dualidade grega -não há ideias sem matéria, mas também não há matéria que se encerre em si. Que os homens não se dividem em uns e outros e há mais vida para além da luta de classes e do extermínio dos outros. Que pessoas - ricas ou pobres, imigrantes ou ilegais, velhos reformados ou crianças por nascer - não são gado nem massas. Que a vontade não sobrevive contra a natureza, porque a natureza é a nossa condição.
Por isso façam o favor de espetar o aguilhão nas ideologias que para aí andam disfarçadas de Saramagos, esquerda jacobina, esquerda.net ou outra esquerda qualquer. Mas também de tantas direitas que se arrogam de puras ou científicas como se o concreto não existisse e a liberdade não tivesse remédio.
Para que os nossos filhos não tenham que nos perguntar como foi possível termos ido tão longe, mais vale vigiar.
Entretanto, morram as ideologias, morram. Pim!
(Manuel, o Rorty que se lixe! )