O tema das desigualdades dentro de uma sociedade é cada vez mais controverso pela sua natureza, mas cada vez mais consensual quanto à sua importância e à necessidade de uma resposta. Existem várias desigualdades sociais, mas a mais urgente é a desigualdade de rendimento, o vulgo "fosso" entre ricos e pobres. Compreendo e partilho a ideia que o problema maior não é o "fosso", mas a existência de pobres, ou seja, podem existir sociedades bastante desiguais, mas sem pobreza, a qual apenas passa a existir "no papel" se medida com índices relativos, que transformam em "pobres" famílias com casa, carro e filhos com PC. O problema é que esta pobreza relativa está efectivamente a transformar-se num problema, e a discussão económica e política (ao nível da decisão) distingue mas não desqualifica nenhuma destas situações como problemas de facto.
A pressão social nos estados democráticos tem sempre tradução política, e a desigualdade tem aumentado esta pressão. Ninguém (ou quase niguém) duvida dos efeitos extraordinários das mudanças tecnológicas e da globalização, mas ninguém duvida também dos seus efeitos no crescimento da desigualdade em países como os EUA. Não é especialmente claro como funciona o fenómeno, parte dele é explicado porque a força de trabalho mais qualificada retira um maior ganho das mudanças recentes, por razões facilmente perceptíveis até por intuição, a qual, por outro lado, serve de pouco para explicar porque é que os salários mais baixos crescem mais rápido do que os salários que se encontram a meio da tabela de distribuição.
Aquilo que é de todo perceptível é a pressão social, e os agentes políticos têm um excelente ouvido para o mercado eleitoral. Pode-se pensar que há alguma ingratidão irracional em relação a alguns fenómenos, mas estudos diversos em economia experimental dizem-nos que as pessoas efectivamente sentem a diferença, e que a sentem em termos relativos: o problema não é o meu mau carro, é o bom carro do vizinho. Há um interessante artigo escrito pelo economista Robert H. Frank (
Why Living in a Rich Society Makes Us Feel Poor) sobre o fenómeno, assim como diversa literatura que explica porque é que a maioria das pessoas prefere ganhar menos dinheiro (ex:$100,000) mas mais do que o resto da população (ex:$85,000), do que ganhar mais dinheiro (ex:$110,000) mas menos do que os outros (ex:$200,000).
Quem defende os benefícios do comércio livre, da globalização, da inovação nas sociedades, não pode esquecer as condições políticas necessárias para a sustentabilidade destes fenómenos, que, sem a política, não seriam mais do que ideias. E é aqui que a linha é difícil de traçar. Tenho uma resposta de instinto para colocar ênfase nas liberdades negativas, que tende a excluir a promoção directa da "igualdade". A esquerda tem o puzzle muito melhor definido, já fez as contas e o gráfico: a desigualdade é menor nos países com maior despesa pública, alegadamente será a despesa social redistributiva a fazer a diferença.
Eat the rich, portanto.
Acontece que a desigualdade é um resultado directo do progresso e do crescimento. Se o sucesso não fosse melhor remunerado não existiria especial incentivo ao risco, à inovação, à iniciativa, não existiria crescimento como o conhecemos hoje. A questão é então quanta desta desigualdade é tolerável por uma sociedade, e quais são as formas mais aceitáveis para a atingir e reduzir. Antes deste
old-fashioned tax&spend socialista, e sobretudo para países como Portugal, parece ser mais sensato alargar a base de acesso aos corredores que permitem a progressão, utilizando algumas das ferramentas sugeridas por
Jane Yellen ou,
ontem mesmo, pelo Chairman do FED: existindo mobilidade laboral, facilitar o acesso a educação e a formação, desde logo na infância (a educação é também um hábito) mas também ao longo da vida de trabalho, com políticas que facilitem a formação para mobilidade entre trabalhos de natureza distinta. Um conjunto de políticas públicas, num misto de fornecedor (menos) e facilitador (mais), que permitem um maior e melhor acesso a ferramentas de valorização pessoal. Sem criação de mega-estruturas públicas nem novos escalões no IRS.