Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

Fartinhos de Salazar



O Peter, o Bjorn e o John dizem que um post sobre Salazar já é demais.

When you decided to knock on my door.
Did you remember what happened before?
It just didn't sparkle it just didn't grow.
Some things look better inside of the store.

Did you agree, we should let it be,
And did you agree, It's a must...
Let's call the whole thing off.
Will you still have enough of us.
Let's call the whole thing off.
Will you still have enough of us

I know many people who met the same way.
Relations that lasted for more than one day.
But i don't wanna know why we couldn't do more.
Some things are better to leave unexplored.
(...)

The Germans II

Recuando um pouco atrás no tempo, antes de Mourinho já outros faziam troça da relação entre ingleses e alemães depois da Guerra. Um dos melhores momentos da série Fawlty Towers, do início dos anos 70. Ainda está no YouTube aproveitem enquanto os fascistas dos direitos de autor não o tiram de lá:





P.S. Quando o manel tiver a paciência de meter o video no post, isto vai ficar com melhor aspecto.


Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Mito?

No Blasfémias, Pedro Arroja classifica como "mito" a ideia da existência, por cá, de um "país rural" entre os anos 30 e 70 do séx. XX, apresentando como dado de refutação a percentagem que este sector representava no PIB ao longo desse período temporal.
Seria assim:
1930: 30%
1940: 29%
1950: 31%
1960: 20%
1970: 12%

Mas como um país são as suas pessoas, e por essa mesma razão Salazar jamais será considerado um patriota, pelo menos no meu critério, gostava de dar ao Pedro Arroja os seguintes dados, referentes apenas ao Continente (exclui regiões autónomas).
"País Rural" = População Agrícola*:
1060: 3,479,385
1970: 3,130,564
1981: 2,852,949
1991: 1,935,541
2001: 1,227,573

* (A população agrícola compreende a população activa e não activa ligada a explorações agrícolas pelo trabalho e/ou vivência familiar)

Não por acaso, já em tempo de governos decentes e sujeitos à crítica, à concorrência, alternância e abertura ao mundo, foi precisamente a redução da percentagem da população no sector agrícola e migração para outros sectores, nomeadamente serviços, um dos indicadores mais elogiados internacionalmente:

«A performance é indiscutível: o desemprego baixou para 4% em 1991, apesar de a redução de 20% para 10% da população agrícola activa verificada entre 1985 e 1991 ter constituído um desafio suplementar em termos de luta contra o desemprego»

Jacques Delors, 1997, sobre Portugal.


É verdade, há vários mitos sobre o Estado Novo, mas deixe que lhe diga que, nesse campeonato, nenhum rivaliza com ele próprio nem com as suas "bondosas" criações.

Identidades letais


A Letónia discute por estes dias o ensino da história nacional, e inflamadamente, rezam as crónicas - se é que o advérbio faz sentido a tão gélida latitude. Uns letões (ou letónios?) querem que a história da pátria seja uma disciplina autónoma da história universal, ao contrário do que sucedia até agora, invocando a necessidade de fortalecer a identidade colectiva e o espírito de cidadania. Outros letónios (ou letões?) pretendem manter o actual sistema e alertam para os comprovados perigos do nacionalismo e para a estreiteza de uma noção étnica de cidania na era da globalização.
O dilema é tudo menos simples, como sabe quem já tenha ensinado história no básico ou no secundário, mas na Letónia complica-o ainda mais o pormenor de um terço da população descender de russos que o camarada Estaline, nos bons velhos tempos do império comunista, trouxe para as margens do Báltico. Bons velhos tempos esses em que a história do país era explicada às criancinhas como parte integrante do passado soviético. Os letões (letónios?) russófonos temem agora que uma história especificamente letónia (letã?) nos curricula seja o despertar de um sentimento anti-russo que sempre existiu, mas que estava adormecido desde a proclamação pacífica da independência em 1991.
Talvez isto pareça um pouco distante aos meus compatriotas, que nunca conheceram grandes divisões étnicas, linguísticas ou religiosas, mas mostra como a identidade nacional é fruto, não da natureza, mas da história. E a nossa história é longa. Tão longa que Eduardo Lourenço chamou um dia à identidade portuguesa uma "sobre-identidade". Expulsámos os judeus e os mouros em 1496, um décimo da população lisboeta era negra no século XVI, os espanhóis dominaram-nos durante 60 anos, em Barrrancos têm touros de morte e em Miranda do Douro o mirandês, o Alberto João quer a independência (ou talvez não) e a Cova da Moura já a tem, mas nada que se compare ao barril de pólvora que são algumas nações da Europa.
Por cá não há histórias letãs (ou letais?). O pessoal só desata à pancada por causa de concursos de televisão.

Da série "Posta Restante"

"I once asked Alan Rickman (the chief terrorist in Die Hard) if he had an explanation for why Brits are always cast as villains in American films. "It`s because we can act, dear boy", he said."

Toby Young, "Here`s why the Brits win so many Oscars", in The Spectator, 24/2/07

Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Liberdade no Trabalho

Os números não enganam. Com a taxa de desemprego mais alta dos últimos 20 anos (8,2%) e um crescimento que é menos de metade da média europeia, Portugal continua a empobrecer. Apesar do povo estar entretido com temas mais picantes, como o aborto ou o carnaval da Madeira, é preciso olhar para as causas do nosso atraso.
No relatório Going For Growth 2007 a OCDE aponta a legislação do trabalho como uma das razões da nossa baixa produtividade (em queda desde 2000, apesar da contenção salarial). Segundo a OCDE, Portugal tem uma legislação de protecção do emprego pouco flexível, sobretudo devido às regras sobre despedimento individual.
Não vale a pena assobiar para o lado. Somos uma economia aberta e a sobrevivência das empresas depende da capacidade de adaptação à mudança. Para isso é essencial encontrar um novo equilíbrio entre flexibilidade e segurança no factor trabalho.

E o que se quer dizer com flexibilidade? Duas coisas essenciais: flexibilidade na organização interna das empresas (mobilidade, polivalência, horários flexíveis, conciliar vida familiar e profissional, salário em função do mérito) e flexibilidade legal para contratar e despedir. Sendo ambas importantes, queria centrar-me nesta última que é crítica. Recordo que a nossa lei sobre despedimentos foi considerada a mais restritiva da UE15 (OCDE, Perspectives de l’emploi, 2005).
Concordo que o problema não está apenas na lei, mas também na prática dos tribunais. Mas é hoje inegável que a legislação nacional está desajustada da realidade, conduzindo à fraude, como o recurso habitual aos contratos a termo e ao trabalho falsamente “independente”. Para que serve então uma lei que não é cumprida e que condena os jovens a sucessivos contratos precários? Não estou a exagerar: vejam-se os números sobre o crescimento do desemprego jovem em Portugal (Livro Verde sobre Relações Laborais).
O Governo já anunciou que vai mexer no Código do Trabalho. Não podemos permitir que os preconceitos ideológicos ou uma leitura “passadista” da Constituição impeçam as mudanças. Já passou o tempo dos “ajustamentos”: a crise é estrutural e carece, portanto, de soluções estruturais. Este será o grande teste à capacidade reformista de Sócrates.
Para ler mais, vejam o meu texto de hoje no Diário Económico.

Zee Germans

Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

Poligamia?

Descobri ontem esta capa do New Yorker que tinha guardado há alguns meses. Achei interessante porque pode ser vista de duas formas: (a) dois casamentos, um tradicional (bancos da frente) e um moderno (banco de trás). Ou, alternativamente, (b) o casamento de um polígamo. Porque é que a sociedade (pelo menos a sociedade americana) tem uma atitude tão diferente em relação a (a) e (b)?

Pensão Portugal (∗∗)

Consta que o Alberto João está descontente com o serviço e quer sair. Às vezes acho-lhe graça, mas sempre deu problemas e mau nome à casa, desde os tempos em que escandalizava as velhinhas com sonoros traques, pelos cafés de Coimbra.

Que vá. Que arranje casa própria, quem lhe ature os palavrões e lhe lave as cuecas depois do Carnaval.

Mas antes de sair paga o que deve. O estabelecimento pode ser mal frequentado mas não é albergue de caloteiros.

Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

A Mentira

Dois anos depois da eleição que conduziu Sócrates ao Governo, já poucos recordam as mentiras que o conduziram lá. Tornaram-se banais e, para muitos, inevitáveis em face do objectivo "ganhar a eleição". Mais recentemente, a propósito do referendo do aborto, de novo vimos altos representantes do SIM e do PS - veja-se, entre outros, Maria de Belém Roseira, Ana Catarina Mendes e Rui Pereira - defenderem um compromisso com o eleitorado, que no dia seguinte os seus porta-vozes negaram em absoluto.
Eles mentem, eles perdem - dizia-se.
Agora o mote é assumidamente outro: eles ganham, eles mentem.
Para que querem então ouvir os eleitores?
Da resposta a esta pergunta depende a manutenção do nosso regime. E temo que se a Democracia se aprofundar na Mentira, sejamos levados - mais cedo ou mais tarde e com mais ou menos marketing - a questionar a bondade da sua subsistência.

Doirar a pílula

Excelente texto do Luis Pais Antunes ontem no DN.

Bomba na Feminista



Degas "Interior", 1868-69 e "Mulher Nua Limpando o Pé", 1885-86.

A tensão entre os sexos e as poses humilhantes a que Degas sujeita o feminino são um tema recorrente nas telas de um pintor extremamente considerado e apreciado na grande maioria das elites culturais do Ocidente.

Se fosse feminista tentaria pôr um fim a esta vergonha, a esta constante exposição de uma relação de superioridade machista e ofensiva nos principais museus do Ocidente civilizado.

Obras de arte ou "lenta crueldade e um ódio paciente" em relação às mulheres? Vote voçê também.

Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

Procurador Pio

O Procurador Geral da República (PGR) - já aqui escrevi - tem dado alguns sinais que nos devem preocupar: a sua disponibilidade para aderir à agenda do Governo e do PS foi pelo menos sugestionada em diferentes momentos.
Nos casos "Apito Dourado" e "Operação Furacão", o Procurador pareceu agir a reboque do Governo.
A propósito da participação da Magistrada Maria José Morgado numa acção do Grupo Parlamentar do PS, o Procurador respondeu no próprio dia (e sem tempo para averiguar) a um pedido formal de um deputado, através de uma «nota para a comunicação social» (ver em notas de imprensa / 2007).
Mostrou que decidiu sem investigar, falou sem apurar. Num momento sensível, com uma campanha a decorrer, o Procurador parece ter revelado para que lado tomba o seu coração: mais para o corporativismo do que para a independência; mais para o poder do que para a defesa da legalidade. E, sobretudo, demonstrou pouco sentido institucional.
Agora, o Senhor PGR volta através de um périplo pela comunicação social. Ontem, em entrevista a Judite de Sousa. Hoje, no Público.
Nos dois casos, o Dr Fernando Pinto Monteiro faz declarações no mínimo surpreendentes: arguidos ficam a saber pelos "jornais" notícias dos "seus" processos; cidadãos ficam a saber que serão implicados, directa ou indirectamente, em processos que decorrem sob segredo de justiça. Houve vários deslizes em que não me quero deter, porque a crise das instituições não merece eco.
Há, contudo, uma importante omissão a realçar: o processo que, outrora, abalou o regime, deixou de existir. O processo "Casa Pia" parece ser, hoje, uma miragem, sem qualquer relevância, nem merecedor de qualquer comentário. Apenas uns meses após a sua tomada de posse, já ninguém se refere à "Crise Casa Pia", enquanto temos outros processos com que nos entreter.
Não sei se se pretende que o processo da pedofilia caia no esquecimento de todos. Mas estou convencido que haverá quem continue a apoiar o PGR, caso assim seja. Se não é a pedido, até parece...

Corte na aldeia

Há dias, preparando o próximo artigo para a Atlântico, dei com uma pergunta que Vitorino Magalhães Godinho fazia em 1971: "não será toda a nossa literatura essencialmente de corte na aldeia?" Questão retórica - o ilustre historiador queria dizer que Portugal nunca conhecera uma urbanização comparável à dos países desenvolvidos, ou até à de Espanha, e que isso se reflectia na literatura, quase toda de cenário rural ou malquista com a cidade. E citava como exemplos Gil Vicente, o próprio Rodrigues Lobo, Herculano, Camilo, Júlio Dinis - à excepção de Uma Família Inglesa -, Guerra Junqueiro, Alves Redol, Manuel da Fonseca e o inevitável Torga. Só escapavam ao anátema bucólico o Eça d`Os Maias (mas não o d`A Cidade e as Serras) e os "recentes" Rodrigues Miguéis e Abelaira.
Pus-me a pensar. Seria verdade? E, se fosse verdade então, continuaria a sê-lo hoje?
Não, não era bem verdade, embora a essa lista se devessem acrescentar A Sibila de Agustina, a Aparição de Virgilio Ferreira ou mesmo O Delfim de Cardoso Pires. Mas Godinho esquecia Fernão Lopes, o mais vigoroso retratista que Lisboa já teve. Gil Vicente metera o Rossio e a Betesga no Pranto de Maria Parda, uma deliciosa mina de informações sobre a Baixa do seu tempo. E o Eça das Farpas? E Cesário Verde, com o seu extraordinário catálogo de sons, cores, cheiros, tipos e quadros da capital? E Pessoa, tanto o ortónimo que ouvia no campanário dos Mártires "o sino da minha aldeia", em pleno Chiado, como o Bernardo Soares do Livro do Desassossego, que Steiner coloca, com Borges e Kafka, entre os "escritores de cidades"?
E de então para cá? Em 1971, talvez Magalhães Godinho não tivesse lido Ruy Belo, um poeta que começara a publicar dez anos antes e que um dia, em belíssimos versos, comparara as lágrimas de Cristo sobre Jerusalém à visão de Lisboa do Alto da Serafina. É menos provável que desconhecesse Alexandre O`Neill, o genial O`Neill que chamara à cidade "Nápoles por suíços habitada". Ou o António Gedeão da "Calçada de Carriche". E os mais "recentes" ainda? Que diria de Saramago ou Lobo Antunes, da portuense Sophia que se apaixonou pela Graça, de Eugénio de Andrade, de Graça Moura, de Assis Pacheco, de João Miguel Fernandes Jorge?
Nunca saberemos. Mas uma coisa é certa: há hoje muito mais autores a levar para os seus livros o ruído citadino. Somos finalmente um país urbano?

Da série "Cachimbos de lá"

Vincent Van Gogh, Cadeira de Vincent com Cachimbo (1888)

... e ele nunca viu televisão

Tem-se falado tanto de jornais aqui no Cachimbo que não resisto a “postar” uma pequena frase que tenho em cima da minha mesa de trabalho e para onde olho sempre que preciso de consolo espiritual:

«The daily press is the most infamous attempt to constitute the lack of conscience as a principle of the state and of humanity».

Soren Kierkegaard

NB: Se me arranjarem a citação precisa deste excerto, agradeço. (Ah, e claro, eu sei que o autor, sendo norueguês, não escrevia estas coisas em francês...)

O novo P

Ainda esperei uns dias para ver se era apenas uma primeira impressão. Leio o jornal desde que me conheço, há hábitos que se criam, talvez fosse apenas aversão à mudança. Mas não. A opinião mantém-se: não gosto da nova imagem gráfica do Público.
A letra está pequena, não apetece ler, sobretudo os textos de opinião, a grande força do jornal. As páginas estão cheias, falta espaço para respirar. A nova organização parece confusa, talvez ainda falta de hábito. Compreendo a necessidade de actualizar o logótipo, inclusive para resultar na net, mas substituir uma marca forte por um banal “P”, sem história e sem graça, parece um novo-riquismo de mau gosto e arriscado. O que os títulos e destaques ganharam em cor perderam em elegância.
Lamento o final da Xis, pela variedade e qualidade dos temas que trazia. A Pública mantém-se medíocre, sem personalidade: um amontoado de artigos e fotos, sem unidade e um fio condutor. Dou o benefício da dúvida ao Ípsilon. Quanto ao Inimigo Público continua a perder fôlego, talvez o humor não seja mesmo eterno. Persiste a fixação nas piadas contra o José Manuel Fernandes, há ali qualquer coisa.
Compreendo que se tinha de mudar para conquistar – ou não perder – leitores para os novos espaços digitais, mas tal não devia ser feito com prejuízo da consistência e do registo próprio de um jornal de referência. Prefiro mudanças tranquilas, subtis, como a do Diário Económico - mudou muito, alguém notou? - às revoluções gráficas que atacam regularmente certos jornais portugueses. Espero enganar-me, mas não parece ser ainda desta vez que o Público vai levantar a cabeça.

Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Do Outro Lado do Mundo (II): Dominos e a Nova Internacional

Em tempos, a teoria do domino' foi invocada para administrar o receio do dominio vermelho no Sueste Asiatico. A teoria, felizmente, nunca foi confirmada. Mas, agora, goza de uma redobrada reputacao. A Internacional, porem, ja' nao e' a mesma.
De acordo com o Bangkok Post, na Malasia, o governo do Estado de Terengganu anunciou a intencao de recrutar "espioes" entre a populacao que ajudem a denunciar os encontros potencialmente adulteros. Nos restaurantes, o alegado adultero podera' pedir a conta 'a mesma pessoa que descrevera' o seu jantar romantico ao Comite' Islamico e para o Bem-Estar.
Na Tailandia cresce o medo da internacionalizacao do movimento separatista islamico na fronteira sul com a Malasia. A revolta persiste apesar da repressao, e o caudal de cadaveres engrossa com o passar do tempo num pais tradicionalmente pacifico segundo padroes regionais. A promessa do ex-Primeiro Ministro Thaksin - entretanto deposto por um golpe militar -, que ameacava manter a Tailandia unida, nem que para isso tivesse de "cobrir a terra com sangue", ainda paira no ar.
Mais a sul, a comunidade muculmana da Australia alimenta a polemica sobre o hastear da bandeira da nacao nas mesquitas. Aparentemente, o problema foi avivado depois de um tal Sheik Hilali ter descrito os "Ocidentais" como um reles bando de trapaceiros e opressores. Para delirio de muitos dos seus fieis, o clerigo avancou a tese irreprovavel de que a Australia pertence aos muculmanos, e nao aos brancos inimigos da verdadeira religiao.
Por ultimo, varios peritos asiaticos repetem insistentemente o palpite de que o Bangladesh sera', a curto prazo, o futuro crescente fertil da Al-Qaeda e seus aliados.
E' ja' ali, no outro lado do mundo.

Do Outro Lado do Mundo (I): a Politica do Desespero

Na Coreia do Sul, as taxas de suicidio atingiram dimensoes de horror. Em 2005, o numero de mortes por suicidio ultrapassou por um factor de 1,5 o numero de obitos em resultado de acidentes de viacao. Treme-se so' de esbocar a conversao desta proporcao 'a realidade portuguesa.

O governo sul-coreano ja' anunciou algumas "medidas" que a calamidade exige: criacao de "centros de aconselhamento", vedacao de terracos e pontes, e a reducao da producao de "herbicidas toxicos" (!). Se Plutarco e Hobbes fossem vivos, recomendariam - com toda a dureza que, por vezes, os caracterizava, e na ignorancia das patologias psicologicas - que se expusesse publicamente os cadaveres nus de quem tivesse praticado o suicidio. Foi assim que se curou o mal numa certa cidade antiga.

Se conhecessem a ancestral cultura do suicidio do Extremo Oriente, Plutarco e Hobbes sentir-se-iam ainda mais confirmados nos seus conselhos. Pensando com ambos, este seria o modo mais directo e mais desumano de colocar o orgulho contra si proprio.

Publicidade institucional

Um amigo meu, José Eduardo Franco, escreveu uma tese de doutoramento sobre O Mito dos Jesuítas em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI-XX). A Gradiva resolveu editá-la - o que diz bem do seu interesse para o público não académico -, e o lançamento será amanhã, às 18h30, no auditório do Centro Cultural e Científico de Macau (R. da Junqueira, 30, Lisboa).
Apareçam.
Ou, então, leiam o livro. Se outros méritos não tivesse, e tem, é uma excelente introdução à história do jacobinismo lusitano, o tal que ganhou há pouco um referendo.

Sabedoria dos Antigos


Tal como Salústio sobre dois estadistas (César e Catão), também Aristóteles discorreu sobre dois treinadores portugueses:

“Magnânimo é quem se julga ter um grande valor e tem-no de facto. Quem se julga, por outro lado, valer muito, mas nada vale, é parvo, e não há nenhum parvo ou insensato entre os que existem de acordo com a excelência.”

“Na verdade, os grandes homens julgam-se a si próprios extremamente merecedores de honra em vista do valor que julgam ter.”
“O vaidoso, por outro lado, ultrapassa a medida ao julgar-se com mais valor do que tem, mas não ultrapassa, certamente, o magnânime nesse julgamento.”

“É próprio do magnânimo […] ser grandioso junto dos que têm uma posição de poder e daqueles que têm sucesso, mas ser moderado junto dos que estão numa posição média…Exaltar-se junto dos que nos são superiores não é ignóbil, mas fazê-lo junto dos humildes é mesquinho…”

“Os que são amargos por natureza dificilmente chegam a reconciliações, ficam zangados durante muito tempo e guardam ressentimento. Só ficam descansados quando tiverem retaliado. A vingança faz cessar a ira, pois faz nascer dentro deles um doce prazer, ao expulsar a amargura do sofrimento. Pois, se não conseguirem vingar-se, vivem como que a carregar um fardo pesado (…) e é preciso muito tempo para se conseguir digerir a ira dentro de si.”
(Aristóteles, Ética Nicomaqueia, IV, 3, 5.)

Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Discriminação

O “tiro à feminista” é desporto favorito de muita gente (alguns neste blog, pelo que observo). O perigo é que, neste processo lúdico, esqueçamos questões importantes como a discriminação laboral em função do sexo. Como este blog ocasionalmente trata também de coisas sérias, chamo a atenção para o artigo de C. Goldin e C. Rouse. É um trabalho sério (coisa rara neste campo) que estuda os critérios de selecção das orquestras sinfónicas nos E.U.

Ao longo do Séc XX, muitas orquestras americanas passaram a um sistema de blind auditions: o júri de selecção não sabe quem é o candidato nem o/a vê, apenas ouve. Goldin e Rouse estimam que a mudança de processo aumentou a probabilidade de uma mulher ser aceite em cerca de 50%. O resultado é particularmente relevante porque a justificação anteriormente apresentada para o pequeno número de mulheres era simplesmente o facto de não serem tão boas músicas como os homens.

A discriminação não é um mito do movimento feminista nem uma estratégia do Bloco de Esquerda; é, pelo menos nalguns casos, um facto estatístico. (OK, concordo que um “facto estatístico” é uma contradição de termos, mas percebem a ideia.)

Pragas

Primeiro foi o terramoto entre os pagãos.
Depois a demissão dos hereges do DN.
Agora é o cismático ministro que sofre às mãos do bom povo do Norte.
Deus não dorme...

Lusitanos

Duas descrições dos Lusitanos feitas por autores da época:

Diodoro Sículo: «Há um costume muito próprio do Iberos, mas sobretudo dos Lusitanos: quando atingem a idade adulta, aqueles que se encontram mais depauperados de recursos mas que se destacam pelo vigor dos corpos e pela intrepidez, provendo-se de coragem e de armas, vão reunir-se nas escarpas dos montes; aí formam bandos consideráveis, que percorrem a Ibéria acumulando riquezas através do roubo e fazem-no com o mais absoluto desprezo por tudo».

Estrabão: «Umas trinta tribos habitam o país entre o Tejo e os Artabros. Apesar do país ser rico em produtos e gado e em quantidade de ouro, prata e outros metais, a maioria dos habitantes, porém, deixando de viver da terra, vivia do roubo e em guerra contínua entre si e contra os seus vizinhos do outro lado do Tejo. Até que os Romanos acabaram com isso, subjugando-os e transformado a maior parte das suas cidades em povoações e até reagrupando melhor algumas. Começaram com esta ilegalidade os serranos, como é natural, porque, habitando um país pobre e tendo poucas riquezas, lhes veio o desejo de possuir a dos outros; e estes, forçados a defender-se contra eles, perderam os seus próprios bens e, em lugar de cultivarem a terra, também se dedicaram à guerra. Assim sucedeu que o país foi abandonado e perdeu o seu bem-estar, ficando povoado de bandoleiros".
Segundo o autor, apesar de bons guerreiros contra os romanos em 200 anos de guerras de guerrilha, os Lusitanos acabaram por ser derrotados porque «o seu excesso de individualismo os impedia de se organizarem». (apud Viriato, Maurício Pastor Muñoz, Esfera dos Livros, 2006, pags. 95-96).
E.T. Estas citações nada têm que ver com amanhã ser Carnaval.

A confissão mais velha do mundo

Qual é a maior diferença entre progressistas e conservadores?
Os progressistas sonham com ideais abstractos: a liberdade, a igualdade, a fraternidade.
Os conservadores temem por realidades concretas: estas liberdades, estas comunidades, estas pessoas.
Assim, o progressismo gera fatalmente a utopia e o conservadorismo gera facilmente o preconceito.
Mas, no caminho para a utopia, os progressistas acabam por cair no preconceito contra os que crêem inimigos do progresso. E os conservadores, por amor à realidade, abandonam os preconceitos que não defendem as liberdades, as comunidades e as pessoas.
É por isso que sou conservador.
Um conservador corrige-se porque o que quer conservar muda. Um progressista é incorrigível porque quer a perfeição. A menos que se torne conservador, claro.

Sábado, 17 de Fevereiro de 2007

Adieu ou a Artilharia Silenciosa

Todos os paises sao expansionistas quando se trata da promocao cultural ou linguistica. O desejo de poder que se esconde por detras de tao universal imperativo e' compreensivel para a esquerda e para a direita, para os ricos e para os pobres, para os velhos e para os novos. A Franca ha' muito que se dedica com frenesim a proteger e expandir o seu "mundo cultural". Mas o seu esforco chega a ser patetico num reduto que ate' ha' 50 anos era inequivocamente seu: a Indochina.
Imaginacao nao lhes falta: e' o jornal em lingua francesa que e' financiado, o protocolo cultural assinado, o ensino do Frances obrigado, o museu inaugurado, entre outros requintes da reconquista cultural do Imperio perdido. Mas ate' para os mais optimistas, o resultado e' um desanimo. Sao pouquissimos os indigenas que falam Frances. Atender turistas, trabalhar na empresa japonesa, aprender com Tailandeses, e' suficiente para tornar o Ingles no estrangulador evidente da voz francesa com pronuncia asiatica, que so' existe na cabeca de espiritos inquietos em Paris.
A globalizacao limpa como uma esponja do Mar Egeu todos os esforcos franceses. O Ingles serve a globalizacao; esse e' o pesadelo frances. Os franceses tremem e deliciam-se com o combate 'a ideia de que a globalizacao e' mais imaginativa e poderosa do que todas as secretarias da francofonia. Mas, no fundo, sabem que o Ingles e' essa artilharia silenciosa que derruba todas as muralhas da China.
P.S. O teclado em que escrevo nao e', como se pode ver, patrocinado pelas agencias da francofonia. Pelo facto, a globalizacao obviamente nao pede desculpas.

Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

A tabloidização em curso

A notícia de que a direcção do DN foi demitida por causa dos maus resultados é preocupante. Parece notícia de futebol (não por acaso). Estou à vontade para dizer isto porque sou leitor da concorrência e acho que o DN faz demasiados fretes ao PS, como se viu na vergonhosa cobertura do último referendo. Mas quando me garantem que um jornal deve tornar-se "mais popular" para não perder leitores, acende-se logo uma luzinha vermelha na minha cabeça. Com o equívoco do SOL, a fatal tentação do Expresso em agradar e até o Público um pouco mais levezinho (apesar da boa surpresa do Ípsilon de hoje), o panorama da imprensa portuguesa não está famoso. Se alguém se chegar à frente com a massa, aqui o Cachimbo passa a diário...

Como e onde o farei

Li a frase hoje de manhã - e foi como um murro no estômago (mesmo para mim, que ando há três meses a ler barbaridades). Passando os olhos pela banca de um quiosque, descobri-a na capa de uma revista feminina, daquelas que ensinam truques "para o enlouquecer na cama" e contam tudo sobre a vedeta do momento, desde o primeiro amor ao último vestido.

A um cantinho, meio envergonhada mas bem visível, lá estava ela, simples e brutal: "Aborto. Como e onde o farei".

Sim, leram bem.

"Como e onde o farei".

Não "se", nem sequer "quando", mas "como e onde".

A vedeta do momento? Não reparei quem era.

Ainda mais "Fé"

Manifestei aqui a minha descrença sobre a viabilidade de existirem 4 jornais gratuitos em Portugal, em particular na Grande Lisboa. Fi-lo há um mês quando foi lançado o quarto gratuito, desportivo.

Parece que Joaquim Oliveira, depois de demitir as direcções do "DN" e do "24 horas", vai lançar outro gratuito. A ser verdade vamos ter o mesmo número de gratuitos que, por exemplo, em Londres.

Já se percebeu que os custos de lançar um gratuito, sobretudo quando inserido num grupo de media, não são os mesmos que o investimento de raiz num jornal "tradicional". O problema está na sua sustentação.

Um "case study" da Universidade espanhola IESE refere que a existência de pelo menos dois gratuitos, em algumas cidades espanholas, levou a guerras de preços na publicidade - a única forma de sustento dos gratuitos - com descidas nos preços até 90%!

Há aqui qualquer coisa que me está a escapar. Deve ser da constipação.


Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Lykeion XXI

Depois do desconstrutivismo de Derrida, do pós-estruturalismo de Foucault, do pós-colonialismo de Said, dos "estudos culturais" e dos "queer studies", eis finalmente a aguardada síntese académica, um estudo verdadeiramente seminal:



"Images of Bliss: Ejaculation, Masculinity, Meaning" (Murat Aydemir)

Book Description:
Aristotle believed semen to be the purest of all bodily secretions, a vehicle for the spirit or psyche that gives form to substance. For Proust’s narrator in Swann’s Way, waking to find he has experienced a nocturnal emission, it is the product of “some misplacing of my thigh.” The heavy metal band Metallica used it to adorn an album cover. Beyond its biological function, semen has been applied with surprising frequency to metaphorical and narratological purposes.

In Images of Bliss, Murat Aydemir undertakes an original and extensive analysis of images of male orgasm and semen. In a series of detailed case studies—Aristotle’s On the Generation of Animals; Andres Serrano’s use of bodily fluids in his art; paintings by Holbein and Leonardo; Proust’s In Search of Lost Time; hard-core pornography (both straight and gay); and key texts from the poststructuralist canon, including Lacan on the phallus, Bataille on expenditure, Barthes on bliss, and Derrida on dissemination—Aydemir traces the complex and often contradictory possibilities for imagination, description, and cognition that both the idea and the reality of semen make available. In particular, he foregrounds the significance of male ejaculation for masculine subjectivity. More often than not, Aydemir argues, the event or object of ejaculation emerges as the instance through which identity, meaning, and gender are not so much affirmed as they are relentlessly and productively questioned, complicated, and displaced.

Combining close readings of diverse works with subtle theoretical elaboration and a keen eye for the cultural ideals and anxieties attached to sexuality, Images of Bliss offers a convincing and long overdue critical exploration of ejaculation in Western culture.

Murat Aydemir is assistant professor of comparative literature at the University of Amsterdam.
Agora que a longa noite obscurantista acabou, encomende já o seu exemplar.

‘The Economist’ não acredita na força de José Sócrates

‘The Economist’ não acredita na força de José Sócrates - In Diário Económico (14/02/07):

"Os especialistas da revista “The Economist” não acreditam que o Governo seja capaz de reduzir o défice orçamental para um valor inferior a 3% até 2008, como impõe Bruxelas.

Porquê? Por falta de capacidade política do Executivo. José Sócrates tem uma maioria absoluta que garante estabilidade política e o apoio do Presidente da República, mas mesmo assim não conseguirá. O primeiro-ministro, que hoje vai estar presente na conferência da revista britânica em Lisboa, tem aqui um golpe na sua credibilidade externa. O raciocínio é simples: a reforma da Administração Pública está atrasada e deverá atrasar ainda mais devido à resistência dos funcionários públicos e à presidência da União Europeia no segundo semestre do ano. Depois, em 2008, o Governo vai estar a pensar nas eleições do ano seguinte. Até porque a economia continuará fraca e o desemprego em alta, logo o PS reclamará uma política orçamental mais expansionista. A “The Economist” fez previsões nada abonatórias para o Governo. A bola está agora do lado de Sócrates. Terá que provar que a realidade será diferente e que tem a força suficiente para não mudar de rumo."

(Artigo de opinião de Bruno Proença com André Macedo e Ana Maria Gonçalves in DE)

Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Atlântico


Com a confusão dos últimos dias, ia-me esquecendo de dar os parabéns ao Paulo Pinto Mascarenhas pela última Atlântico. Gostei especialmente de saber do próximo lançamento das memórias de Raymond Aron, um dos padroeiros aqui da casa, ainda por cima com uma capa deliciosa - Aron a fumar...

General Review Of The Sex Situation

Woman wants monogamy;
Man delights in novelty.
Love is woman's moon and sun;
Man has other forms of fun.
Woman lives but in her lord;
Count to ten, and man is bored.
With this the gist and sum of it,
What earthly good can come of it?

Depois, claro, há sempre uma feliz excepção na série Doroteana.

And now for something completely different


Os últimos 7-post-7 foram sobre imprensa de esquerda, Salazar, jacobinos, o aborto, Vital Moreira, a Igreja católica e o criacionismo.

Chega!

Criacionistas

Na Segunda-feira, o New York Times publicou uma história sobre Marcus Ross, recente doutorado em ciências geofísicas pela Universidade de Rhode Island (onde estudam muitos portugueses). Ross é um cristão fundamentalista que acredita no relato literal da criação.

Como é possível conciliar a crença de que o mundo existe desde há 10000 anos com uma dissertação sobre répteis que morreram há milhões de anos? O artigo correctamente realça esta inconsistência básica. Mas como é costume, o NYT aproveita para empurrar a agenda de que os crentes, nomeadamente os crentes na doutrina da criação, não têm lugar na universidade. Aparte de esquecer quem criou a universidade, o NYT cai no frequente erro de pôr todas as teorias da criação num só saco – o outro erro, claro está, é colocar todas as teorias da evolução num só saco.

Felizmente, várias cartas ao editor procuram esclarecer a questão. Robert Novak lembra que “the Bible presents religious truths, not scientific knowledge”. E acrescenta que “if the Bible were to be written today, the human author would probably incorporate the Big Bang theory into the creation story instead of the days of creation”.

Mas a minha carta favorita é a de Joseph Borini:
The idea of some that science is best left to atheists would be disturbing if it wasn’t so amusing. After all, Geoges Lemaître, the M.I.T.-trained Belgian scientist who in 1927 formulated the Big Bang theory, was a Roman Catholic priest.

If Lemaître’s religious faith had disqualified him from the profession of science, I’m sure that an atheist would have come up with the Big Bang by now. And give that the universe is billions of years old, what difference would a delay of a few decades make anyway?

A Derrota da Igreja?

É magnífico. Os critérios que presumivelmente são utilizados para aferir a derrota da Igreja são de um conservadorismo inacreditavelmente retrógrado.

Se a Igreja ainda tivesse vitórias ou derrotas políticas, então sim teria perdido.

Se a Igreja ainda comandasse a consciência moral das pessoas e as opções políticas, então sim teria perdido.

Que protagonismo de bispos e sacerdotes?

Felizmente, os critérios da Igreja para aferir as suas vitórias e derrotas já estão muito afastados destas patetices. Talvez tenham razão. Afinal, uma parte significativa da mentalidade deste país é mesmo medieval.

Cabeleiras empoadas

Como era de prever e o camarada Botelho já aqui notou, o resultado do referendo está a trazer ao de cima muito jacobinismo escondido. O caso mais notável é o de Vital Moreira, progressista-caranguejo que ruma ao futuro recuando na história. Quando todos julgávamos que tinha deixado de ser estalinista a tempo, ei-lo que se acolhe à longa sombra de Afonso Costa. O Prof. Vital acha que a vitória do "sim" foi a maior derrota da Igreja desde a proclamação da República, e desta vez pelo voto popular. Está no seu direito. Mas convém lembrar que o Prof. Vital preside (ainda?) a uma comissão nomeada pelo Governo para preparar as comemorações do centenário da mesma República. Devo concluir, assim sendo, que em 2010 iremos comemorar a maior vitória não democrática sobre a Igreja portuguesa dos últimos cem anos?
Alguém que o segure. Ou o homem ainda acaba, de cabeleira empoada, a pedir a expulsão dos jesuítas.

Coisas que também eu aprendi num referendo*

O PCP é um arauto da modernidade.
O Bloco quer mais liberalismo.

*título escandalosamente roubado a este senhor

A Doença Infantil...

...do Jacobinismo: sintoma aqui.

Isto sim é Liberdade

Ontem foi um dia histórico em Portugal por duas razões:

- Porque uma pessoa de Direita apresentou, de forma livre e não "editada" a sua perspectiva sobre Salazar, no canal de Serviço Público, a horas razoáveis.

- Porque logo a seguir Maria Elisa, também a propósito de Salazar, recomendou a leitura do livro de Franco Nogueira (meu Deus ao que chegámos!), ainda que depois tenha compensado com o livro do Mattoso (organizado pelo Fernando Rosas) e o do Fernando Dacosta.

Acrescentaria por isso às datas do PREC mais uma. Assim: 25 de Abril, 25 de Novembro, 13 de Fevereiro (esta última 33 anos atrasada, mas mais vale tarde.).

Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

O drama da "Visão" (e dos media que cantam "25 de Abril sempre")

Os números não enganam. A revista "Visão", um dos supostos bastiões da nossa imprensa, perde leitores a um ritmo interessante (to say the least). Em 2003, eram vendidas semanalmente 110 mil revistas. Se no fim deste ano chegou às 95 mil foi sorte. No Verão passado uma das edições da "Sábado" ultrapassou em vendas a "Visão", e foi a primeira vez - mas seguramente não a última - que uma newsmagazine ultrapassou a Visão.

Para explicar este fenómeno há as razões mais óbvias, que andam nas bocas dos especialistas em "tendências" de media e tecnologia, e há as menos óbvias (as minhas preferidas).

Rapidamente, as razões que logo vêm ao de cima são: concorrência da Internet/TV/outras plataformas; concorrência da "Sábado"; aburguesamento "tipo Expresso" devido a um monopólio de mais de 10 anos; crise económica - sempre são uns euros por mês.

Agora um motivo menos óbvio para uma decadência lenta, mas inevitável (maravilha): para quem não sabe, a origem da "Visão" está n' "O Jornal", uma minhoca da esquerda pesada que em 1993 se fechou num casulo e deu origem a esta borboleta que é a "Visão". A sua direcção nunca escondeu as suas origens, mas também nunca assumiu o seu perfil de esquerda. Optou pelo "jornalismo de referência", acreditando piamente ser o arauto da imparcialidade, isenção e qualidade. À sombra do regime imposto pelos media desde o 25 de Abril - onde na melhor das hipóteses a esquerda moderada é tolerada - a Visão teve crescimento sólido e criou uma impressionante base de assinaturas. Parte do país "literado" engoliu este produto e assim caminhámos alegremente quase 10 anos.

Entretanto temos uma nova geração (estou lá): viaja mais, tem acesso a outras formas de informação, não vive com o complexo do 25 de Abril e é mais pragmática, dispensando vincos ideológicos. Provam-no os números: os leitores da Visão estão a envelhecer enquanto que na "Sábado", por exemplo, a maior parte dos seus leitores são "jovens" até aos 35 anos. Acredito que esta geração irá dizer "basta." a este posicionamento sonso da "Visão". Acredito também que a "Visão" não vai mudar porque não sabe ser de outra maneira (seria autofágico) e porque de facto é de outro tempo. Por isso manterá o seu declínio. A acompanhá-la estão outros jornais do rectângulo.

Até que enfim porra.

A chamada que deviamos atender


"India calling" (12/02/07) é um artigo que está na versão on line da revista The Economist e que fala do take over da Vodafone na emergente India (“Vodafone takes over a leading Indian mobile-phone firm”). Resolvi citar este artigo não só pela importância do mesmo para este player do phone business; mas acima de tudo porque este artigo me lembrou o pertinente titulo de uma capa da revista de domingo do The New York Times (que saiu há dois anos e que infelizmente não encontrei, agora, na internet) intitulada “ Africa is calling”. Nessa excelente reportagem ficam duas ideias chave: Em primeiro lugar a capacidade de adaptação dos povos às novas tecnologias (e, estamos a falar de membros de tribos, que segundo a revista, andam vários kms a pé para irem carregarem os seus telemóveis); em segundo lugar, o grande mercado potencial que algumas empresas têm a sua frente se tiverem a capacidade de conquistar novos mercados e de se adaptarem às novas realidades.

Em tom de desabafo escrevo este último parágrafo: neste mundo global não consigo compreender qual a estratégia das nossas empresas lusas e que proveito/ que contributo é que as mesmas estão a tirar/estão a dar aos países em vias de desenvolvimento. Se a nossa herança cultural não chega para alicerçar pontes estratégicas (e, está à prova que não), creio que está na hora de se pensar em grande. Ser grande implica compreender e antecipar as necessidades dos outros. E, já agora Senhoras e Senhores Empresários e digníssimos membros do Governo não se esqueçam dos mercados potenciais (sejam eles emergentes ou não). Sem eles a equação dos negócios é resolvida sem o input das expectativas elevadas. Para bem - ou para mal - nos mercados as expectativas têm o valor que todos nós lhes reconhecemos.

De referendo em referendo

Dizem por aí que o próximo referendo será sobre a Constituição europeia.
Outra vez?
Mas agora não nos largam com isto do aborto?

Umas más e outras boas


Camaradas, depois de quase três meses fora, tenho notícias - umas más e outras boas.
As más: perdi o referendo.
As boas: estou de volta.
Ou será ao contrário?

Ainda sobre o Aborto

... e numa atitude cientificamente deplorável e hermeneuticamente desprezível, aqui ficam umas citações de Tocqueville sobre a extinção dos povos índios na América.
Como meio de propaganda tardia e irreflectida, peço que as apliquem ao caso do aborto. Em vez de povos, leia-se humanos por nascer:

“Existem povos que desapareceram tão completamente da face da Terra que a própria recordação do seu nome se apagou; as suas línguas perderam-se, a sua glória desvaneceu-se como um som sem eco, mas não sei se terá havido algum que não tenha deixado pelo menos um túmulo em memória da sua passagem. Deste modo, de todas as obras do homem, a mais duradoura é ainda aquela que melhor retrata o seu vazio e as suas misérias!”

“Ao colocá-los no meio das riquezas do Novo Mundo, a Providência parecia só lhes ter dado um curto prazo de tempo para delas gozarem; de certo modo, eles estavam de passagem, como que à espera. Aquelas costas, tão adequadas para o comércio e a indústria, aqueles rios tão profundos, aquele inesgotável vale do Mississipi, o inteiro continente apareciam então como o berço ainda vazio de uma grande nação.
Seria aí que os homens civilizados iriam tentar construir a sociedade sobre novos alicerces e que, aplicando pela primeira vez teorias até então desconhecidas ou consideradas inexequíveis, dariam ao mundo um espectáculo para o qual a história do passado não o preparara.” (Da Democracia na América, I, I, 1.)

P.S. Eh! Eh! Eh! Tocqueville dá mesmo para tudo, até para estas pequenas desonestidades.

Notícias do mundo real

Os que sobreviveram a estes últimos tempos de demência colectiva talvez estejam interessados numa notícia importante do mundo real: Earliest Semitic Text Revealed In Egyptian Pyramid Inscription:
Scientists at the Hebrew University of Jerusalem have, for the first time, deciphered the oldest texts written in an ancient Semitic language (from which Hebrew, Phoenician, and Aramaic languages originated). This proto-Semitic language was in use about 5,000 years ago, and the deciphered inscriptions used Egyptian characters.
Vem a propósito recordar que, entre nós, o estudo de línguas antigas está em acelerado processo de desaparecimento. Seguindo a brilhante evolução de toda a sociedade, as nossas universidades estão a ficar tão modernas e evoluídas que até mesmo coisas antes consideradas banais (como o conhecimento de latim e grego clássico) se tornam de dia para dia raridades. Estamos — felizmente! — cada vez menos retrógrados e antiquados (como os coitados da Hebrew University, em Jerusalém...).

Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

A Nova Geografia dos Valores

Uma das várias lições que se pode retirar dos últimos anos e que levaram ao resultado do referendo de ontem, é a extrema e crescente dificuldade em uma comunidade impôr, de facto, uma proibição não partilhada pelas comunidades vizinhas, sobretudo em espaços de integração como a Europa, sem fronteiras, com facilidade de "troca", nos quais a mobilidade entre Estados tem hoje um custo por vezes parecido ao que se paga por um taxi em Lisboa num dia de chuva.

A triste sina da nossa pobreza e infoexclusão afastou, pelas piores razões, uma parte da população desta hipótese de mobilidade, aumentando para números de vergonha o fenómeno do aborto clandestino. O PCP tinha alguma razão quando dizia que o aborto em Portugal era um problema de "classe". Na nova geografia dos valores, leis como a que ainda vigora sobre o aborto força apenas o cumprimento ou o risco clandestino aos mais fracos. Foi quase exclusivamente a pensar neles que votei Sim.

Apoio à maternidade

As notícias de hoje falam que o orçamento da Saúde fechou com resultado positivo. A propósito disto lembrei-me de uma das propostas feitas, na noite de ontem, pelos movimentos cívicos do “Não”. É simples. Como a partir de hoje a mulher grávida tem “direito” a abortar até às 10 semanas pago pelo Estado, se decidir não o fazer, defendendo a vida que tem dentro de si, deve ter direito a receber um subsídio de montante equivalente ao que seria gasto com o aborto no SNS. Tão simples quanto justo.
E, como todos somos pela vida e contra o aborto, haverá consenso nacional sobre esta proposta, certo?

Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Uf...

Afinal somos um país moderno. Uf... cheguei a recear que não...
Hoje, subitamente, descendo de que não sei que espírito santo, derramou-se sobre nós a luz da modernidade. É com alívio que me apercebo não sermos um país medieval pejado de gente medieval. Se assim não fosse, em que cavalariças iria eu amanhã desencantar um ginete que me levasse para o emprego? E onde pára a minha cota de malha? E o montante? E os Mouros decapitáveis?...

Como interpretar a abstenção?

Apesar dos apelos insistentes, a abstenção será muito elevada neste referendo. Mais de metade dos eleitores não irão votar. Como interpretar este fiasco referendário?
Há uma conclusão inevitável: o tema não mobilizou as pessoas, revelando-se artificial. Não esqueçamos que houve um referendo com a mesma pergunta há nove anos. Talvez seja também um sinal de que muitos pensam que o problema do aborto não se resolve alterando a lei.
Mas a fraca participação deste referendo vem, sobretudo, tornar mais evidente o desfasamento entre "agenda" política e os problemas das pessoas. Esta realidade é preocupante e deve fazer-nos reflectir.
Se, como tudo indica, a consulta voltar a não ser vinculativa o Referendo vai atravessar uma crise. Surgirão vozes para alterar a lei e, atrevo-me a dizer, não teremos um novo referendo nos próximos anos.
E agora que venham os resultados.

I Love Lucy

Morreu Bob Carroll Jr. O nome em si provavelmente não diz muito, excepto se acrescentar que, juntamente com Madelyn Pugh Davis, foi um dos criadores de “I Love Lucy”, o programa de televisão transmitido regularmente desde há mais tempo (desde 1951).

Por coincidência, há algumas semanas decidi rever alguns dos velhos episódios, como o da fábrica de chocolates ou o do anúncio do Vitameatavegamin. Gostei imenso! “I Love Lucy” é uma prova de que não é necessário comprometer o bom gosto para conseguir uma boa gargalhada.

Nem são necessários grandes meios materiais. Falando sobre a evolução da televisão americana, Bob Carroll disse que

I’m not too sure about these reality shows. They take 16 contestants, 100 crew, tons of equipment, go to Borneo — and all we had to do was say, ‘Ethel, if Ricky finds out I bought this hat, he’ll kill me.’

Princípio da incerteza

Chove. É impossível prever o resultado do referendo de hoje. O efeito dos últimos dias de campanha, ou da mensagem “despenalizadora” dos Independentes pelo Não, apontando outros caminhos à liberalização do aborto. Como reagem as pessoas?
Sobre os factores de incerteza, leiam o excelente post do Pedro Magalhães no Margens de Erro. Uma coisa é certa está mau tempo, sobretudo a norte. A afluência às urnas é muito baixa.

Sábado, 10 de Fevereiro de 2007

Todos os Caminhos

"Impala are known to hold on for the first rains before giving birth and it is a proven fact that they can abort the foetus in the first few months of pregnancy if conditions are so adverse that it will affect the breeding stock"
Sem utilização do SNS, em caso de necessidade sobre o qual a mulher será o único decisor... Estava tranquilamente a tentar ler um pouco sobre safaris...

Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

Galbraith, o autor eleito por Alberto João Jardim






John Kenneth Galbraith - autor eleito por Alberto João Jardim. Entrevista áudio disponível aqui (novo blog está no ar). Fotografia de Miguel Silva/Expresso - 09/02/07.

Mar Salgado

O “Sim” ao referendo neste Domingo procura pôr um fim ao aborto clandestino.

O ministro do ambiente disse, hoje, que se está a fazer o que tem de ser feito e o que deve ser feito.

Todos reconhecemos que o aborto clandestino é uma realidade terrível, baixa, infamante atentatória contra a dignidade e a integridade física das pessoas e que pode constituir-se como grave um problema de saúde pública.

Todos reconhecemos a necessidade de avançar com um plano estratégico de maior alcance para evitar a progressão do mar. Tirar areia daqui para pôr ali, não é uma solução de fundo para o problema.

Se o «Sim» ganhar, cá estaremos para ver se, além da «acumulação de inertes» nos hospitais públicos, temos o problema do aborto clandestino resolvido.

A menos que haja um plano estratégico de combate a essa realidade (que consensualmente todos consideramos criminosa) do aborto clandestino além das 10 semanas, ou seja, detenções, tribunais, penas e prisões. Concordamos todos com isto? Ou continuamos a atirar areia para os olhos.

Vida humana

O meu post de segunda-feira (o meu primeiro post) não foi suficientemente claro, julgando pelos comentários feitos. Para evitar confusões, e pedindo desculpa pela insistência: a decisão de abortar confronta os interesses de uma pessoa (a mãe) com os interesses de uma vida (o feto). Uns consideram o feto uma pessoa, outros consideram-no apenas uma vida biológica. O meu ponto é que, salvo o caso de aborto terapêutico, o que a mãe tem a perder com o nascimento é infinitamente menos do que o feto tem a perder como o aborto (a vida). Logo, a atitude de prudência mínima é que se poupe a vida do feto a não ser que tenhamos a certeza, "beyond reasonable doubt", que não se trata de uma pessoa mas sim simplesmente um processo biológico. É este o sentido da analogia com o princípio consagrado pela jurisprudência norte-americana.

A ideia de que o feto é apenas um processo biológico -- uma pessoa em potência -- foi “cientificamente” apresentada num artigo da Visão da semana passada. Transcrevo a carta que enviei para o director, publicada ontem no correio do leitor juntamente com outras cartas que sugerem que o artigo é tudo menos imparcial e científico.
____

O artigo “Quando começa a vida humana” (1 Fevereiro 2007) recolhe as opiniões de académicos e cientistas de várias competências e disciplinas. Como é possível que não haja sequer menção daquele que é porventura o filósofo mais ouvido e citado da nossa geração, o australiano Peter Singer?

Singer, à semelhança de Fletcher e outros especialistas citados no artigo, liga a definição de pessoa humana à auto-consciência. Mas Singer, ao contrário de muitos outros, tem o mérito de ser coerente com o seu sistema ético: um infante ou um ser deficiente, tal como um feto, não são pessoas, são apenas pessoas em potência. Por este motivo, se aceitamos o aborto como mal menor temos de aceitar também o infanticídio e a eutanásia involuntária como males menores – os três têm uma carga moral semelhante.

Apesar de discordar da posição de Singer, não posso deixar de admirar, neste aspecto específico, a sua coragem e honestidade intelectual.

Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007

Mind the Gap

O tema das desigualdades dentro de uma sociedade é cada vez mais controverso pela sua natureza, mas cada vez mais consensual quanto à sua importância e à necessidade de uma resposta. Existem várias desigualdades sociais, mas a mais urgente é a desigualdade de rendimento, o vulgo "fosso" entre ricos e pobres. Compreendo e partilho a ideia que o problema maior não é o "fosso", mas a existência de pobres, ou seja, podem existir sociedades bastante desiguais, mas sem pobreza, a qual apenas passa a existir "no papel" se medida com índices relativos, que transformam em "pobres" famílias com casa, carro e filhos com PC. O problema é que esta pobreza relativa está efectivamente a transformar-se num problema, e a discussão económica e política (ao nível da decisão) distingue mas não desqualifica nenhuma destas situações como problemas de facto.

A pressão social nos estados democráticos tem sempre tradução política, e a desigualdade tem aumentado esta pressão. Ninguém (ou quase niguém) duvida dos efeitos extraordinários das mudanças tecnológicas e da globalização, mas ninguém duvida também dos seus efeitos no crescimento da desigualdade em países como os EUA. Não é especialmente claro como funciona o fenómeno, parte dele é explicado porque a força de trabalho mais qualificada retira um maior ganho das mudanças recentes, por razões facilmente perceptíveis até por intuição, a qual, por outro lado, serve de pouco para explicar porque é que os salários mais baixos crescem mais rápido do que os salários que se encontram a meio da tabela de distribuição.

Aquilo que é de todo perceptível é a pressão social, e os agentes políticos têm um excelente ouvido para o mercado eleitoral. Pode-se pensar que há alguma ingratidão irracional em relação a alguns fenómenos, mas estudos diversos em economia experimental dizem-nos que as pessoas efectivamente sentem a diferença, e que a sentem em termos relativos: o problema não é o meu mau carro, é o bom carro do vizinho. Há um interessante artigo escrito pelo economista Robert H. Frank (Why Living in a Rich Society Makes Us Feel Poor) sobre o fenómeno, assim como diversa literatura que explica porque é que a maioria das pessoas prefere ganhar menos dinheiro (ex:$100,000) mas mais do que o resto da população (ex:$85,000), do que ganhar mais dinheiro (ex:$110,000) mas menos do que os outros (ex:$200,000).

Quem defende os benefícios do comércio livre, da globalização, da inovação nas sociedades, não pode esquecer as condições políticas necessárias para a sustentabilidade destes fenómenos, que, sem a política, não seriam mais do que ideias. E é aqui que a linha é difícil de traçar. Tenho uma resposta de instinto para colocar ênfase nas liberdades negativas, que tende a excluir a promoção directa da "igualdade". A esquerda tem o puzzle muito melhor definido, já fez as contas e o gráfico: a desigualdade é menor nos países com maior despesa pública, alegadamente será a despesa social redistributiva a fazer a diferença. Eat the rich, portanto.

Acontece que a desigualdade é um resultado directo do progresso e do crescimento. Se o sucesso não fosse melhor remunerado não existiria especial incentivo ao risco, à inovação, à iniciativa, não existiria crescimento como o conhecemos hoje. A questão é então quanta desta desigualdade é tolerável por uma sociedade, e quais são as formas mais aceitáveis para a atingir e reduzir. Antes deste old-fashioned tax&spend socialista, e sobretudo para países como Portugal, parece ser mais sensato alargar a base de acesso aos corredores que permitem a progressão, utilizando algumas das ferramentas sugeridas por Jane Yellen ou, ontem mesmo, pelo Chairman do FED: existindo mobilidade laboral, facilitar o acesso a educação e a formação, desde logo na infância (a educação é também um hábito) mas também ao longo da vida de trabalho, com políticas que facilitem a formação para mobilidade entre trabalhos de natureza distinta. Um conjunto de políticas públicas, num misto de fornecedor (menos) e facilitador (mais), que permitem um maior e melhor acesso a ferramentas de valorização pessoal. Sem criação de mega-estruturas públicas nem novos escalões no IRS.

Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Das Arábias

Uma amiga que vive em Riade contou duas histórias que aqui vos trago. Parece que a polícia "religiosa" saudita, integrada no Ministério para a Prevenção dos Vícios e Promoção da Virtude, foi recentemente reforçada por estar demasiado branda. Os resultados não se fizeram esperar. Há dias um alemão foi apanhado, preso e espancado por ter sido encontrado com uma saudita. Esta, por sua vez, foi levada para um local desconhecido, não se sabendo o que lhe aconteceu. Duas amigas sauditas solteiras foram impedidas de visitar um “condomínio de ocidentais” pelo guarda do condomínio com a ameaça de chamar os Muttawa, a polícia religiosa lá do sítio. Parece que o guarda em vez das bombas protege de outras coisas. Quando ouvi estas histórias agradeci ser cristão e ter nascido no Ocidente.

Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

In dubio pro reo

O sistema criminal anglo-saxónico põe grande ênfase no princípio de "beyond reasonable doubt": se os membros do júri têm uma dúvida razoável sobre a culpabilidade do acusado, então este deve ser ilibado, mesmo que provavelmente seja culpado. "Reasonable doubt" entende-se como qualquer dúvida que levaria uma pessoa razoável a hesitar ao tomar uma decisão importante. (Veja-se por exemplo a decisão do Supremo Tribunal In re Winship, 1970).

Na discussão sobre o aborto e a vida, parece haver um certo “acordo sobre o desacordo”: o consenso de que um feto é uma vida, mas uma grande discordância sobre a natureza desta vida (vida humana ou simplesmente vida biológica). Sei que a analogia com o direito criminal é um pouco vaga, mas a mesma atitude prudencial sugere que se aplique um princípio semelhante: se não estamos certos — "beyond reasonable doubt" — de que um feto não é uma vida humana, então este merece o benefício que a lei atribui a um presumível e mesmo provável criminoso.

Paciência para aturar isto

Gente bem informada disse-me que, nos EUA, algumas feministas reivindicam a substituição da palavra "seminário" por "ovário" no léxico universitário. Haverá alguém que tenha paciência para aturar isto?

La Folie

Comecemos pela Ota, já que Lisboa, tendo um problema no seu aeroporto, tem de escolher entre diferentes alternativas. A minha convicção é que as alternativas foram colocadas de fora depressa demais. Basta recordar que a decisão política foi tomada em Julho e os estudos técnicos só foram apresentados meses depois. Por isso, quando me dizem que o aeroporto vai ser feito, só me lembro do que uma vez me disse um oficial da Força Aérea. Para ele, se os civis quisessem uma base militar, a primeira que daria era a Ota, pois a sua pista era perigosa. Quando aterrava na Ota ia sempre ele aos comandos, pois o local tem problemas de ventos.

Mas o maior problema é que a Ota não tem capacidade de expansão. Imagine o que era ter-se feito, e o que é que hoje diríamos, um aeroporto decidido no tempo de Sá Carneiro ou Mário Soares e agora, 20 anos depois, verificar-se que estava congestionado. Ora, 20 anos é o tempo previsto para a Ota ficar congestionada, pelo que leio na imprensa. E é um investimento muito grande. Pode não passar pelo Orçamento de Estado, mas que será sempre pago pelos portugueses e pelos utilizadores de aeroportos.
Declarações do ex-ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, ao Público / Rádio Renascença.

Aos lisboetas e aos que vivem em Lisboa: será que ainda não vos chegou a lição do apeadeiro do Oriente, uma gare caríssima, que tive a infelicidade de ter de usar regularmente durante um ano e onde numa manhã de chuva é praticamente impossível permanecer nas plataformas sem ficar encharcado? Não vos chega a vergonha de viverem numa das poucas capitais europeias de cujo aeroporto só se pode sair a pé ou de carro? Nem a porcaria de uma estação de metro? Vão permitir que o investimento público continue a ser usado como forma de mascarar temporariamente o desemprego (é o ciclo eleitoral, estúpido!) e pelo caminho Lisboa perca a mais-valia fundamental que é ter um excelente aeroporto praticamente no centro? Estão dispostos a trocá-lo por um aeroporto perigoso a 40 km de Lisboa, com uma vida útil prevista de 20 anos? A loucura não tem limites?

Qual o impacte previsível que as taxas a pagar na Ota pelas companhias operadoras terão sobre o custo dos bilhetes de avião? Por que razão não se constrói um segundo aeroporto próximo de Lisboa para as companhias low cost, ao mesmo tempo que se moderniza a infra-estrutura da Portela? Será a Ota servida pelo TGV? Mais um apeadeiro caríssimo (mal) projectado por um arquitecto de “reputação internacional”, para consolo dos saloios? Com que receitas vão ser financiados os aeroportos deficitários de Portugal (a excepção, ao que sei, é a Portela)? Quem presta contas e responde pelo desperdício de dinheiro na modernização da linha ferroviária do Norte?

A única coisa que importa saber é como e quando é que se consegue parar a loucura da Ota e do TGV. Porque é absolutamente fundamental evitar mais armadilhas caríssimas que a sabujice política tece.

Domingo, 4 de Fevereiro de 2007

Silêncios

Estamos habituados a pensar que em democracia é sempre possível “dizer a verdade”. Afinal, este constituiu o invariável argumento em defesa da liberdade de expressão e pensamento. A mentira reina apenas nas tiranias, regimes inevitavelmente esquizofrénicos e construtores de verdades fictícias. A democracia, enquanto regime oposto às tiranias, não deseja, nem pode promover mentiras; não deseja, nem pode repreender quem quer “dizer a verdade”. As sociedades democráticas são sociedades abertas também nisto: a palavra dos cidadãos é protegida para abrir aos outros a opinião e os pontos de vista sinceros. De resto, qualquer abordagem comparativa entre regimes democráticos e não-democráticos comprova esta relação entre liberdade de expressão e democracia política. Não existe um Estado democrático de Direito enquanto persistirem formas oficiais e repressoras de censura.

Contudo, existem formas subtis de auto-censura que são propiciadas pelo próprio espírito democrático. Em particular, quando uma voz discordante ameaça desafinar o coro uníssono da conformidade, as sociedades democráticas promovem um certo silêncio naquelas matérias que constituem os pilares fundamentais em que assenta a sua justificação intelectual e moral: a “igualdade”, os “direitos”, e, mais recentemente, a “diversidade cultural”.
Esse parece ter sido o caso de Robert Putnam, um dos mais reputados sociólogos do momento, que se notabilizou por demonstrar que o gradual desaparecimento de ligas comunitárias de bolingue era sintoma da delapidação do “capital social”, ou da confiança entre indivíduos necessária para a estabilização e florescimento de laços sociais. Desde há alguns anos que Putnam tem estudado a relação entre a diversidade cultural num dado espaço social e as relações de confiança que se geram entre os indivíduos. Aparentemente, os resultados da sua investigação trazem más notícias para a ideologia multiculturalista. Não sei se os resultados pessimistas de Putnam são fidedignos. Mas o mais significativo neste episódio foi o silêncio voluntário a que Putnam durante anos, e apesar do seu prestígio e da força da sua autoridade, sujeitou os resultados da sua pesquisa, bem como o modo envergonhado com que finalmente os anunciou. Putnam sabia que penetrava nesse território perigoso cujas fronteiras avisam, por meio de sinais mais ou menos evidentes, que a aliança histórica entre democracia e ciência se torna precária.

A democracia aceita e inclina-se perante a autoridade da ciência. Este pacto foi crucial para o triunfo histórico da democracia. Resta saber o que acontecerá quando a democracia já não puder acatar os ditames da ciência sem se trair a si mesma.

Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2007

Arma de Destruição Maciça 2: hipocrisia e desonestidade não valem

O meu objectivo neste meu post era sobretudo demonstrar o desequilíbrio de recursos que existe entre o "Sim" e o "Não" (com esmagadora vantagem para o "Sim").

No entanto, aquela parte final do texto originou uns 20 comentários (um apaguei porque achei desagradável), que me obrigam a manter a conversa (estou mesmo a ver que vai ser assim até 11 de Fevereiro):

1. O RAP dos "Gato Fedorento" podia perfeitamente imitar o Marcelo, ter a mesma graça, e não ter que "orientar" o sketch para uma mensagem claríssima em torno do "Sim". Não foi uma imitação qualquer, e sobretudo não foi num momento qualquer.

2. Acontece que estamos em plena campanha eleitoral. Acontece também que RAP é uma das caras mais mediáticas do "Sim". Por isso, apesar de se poder expressar livremente, não devia - no sentido ético e não por estar a incumprir qualquer lei - tê-lo feito daquela forma. A não ser que faça o mesmo no Domingo com alguém do "Sim". Cá estaremos para ver.

3. Porém, o que mais me enerva profundamente, isso sim, é a desonestidade intelectual e a hipocrisia com que publicaram os vossos comentários: é que se fosse ao contrário, todos os que me criticaram diriam exactamente o mesmo que eu.

O dodo

Carlos, cada um tem a Lídia Jorge que merece...

Times they are a-changin’

Ninguém pode prever qual será o resultado final do referendo de dia 11, mas se os recentes sinais de intenso nervosismo do lado do Sim são significativos, parece que o Não se aproxima de mais uma vitória histórica.

O que já é certo é que a campanha foi uma grande vitória para o Não. O problema do aborto, no fundo, nunca terá uma resolução eficaz que não passe por uma educação sobre o assunto. Para que uma mulher e mãe encare a possibilidade de terminar a vida do filho que traz em si, não basta que esteja submetida a pressões extremas (como frequentemente está). É também preciso que a cultura dominante a tenha envolvido numa nuvem irreal de obfuscação e “newspeak” que tornem o acto contemplável – IVG e outros acrónimos assépticos, distinções bizantinas entre “feto” e “pessoa”, tecnicismos vários, etc.

Combater o mal do aborto é, antes de mais nada, recordar o que é o aborto. Para o Não, que habitualmente não tem qualquer possibilidade de acesso aos media, estas campanhas são sempre benvindas porque são ocasiões únicas para explicar. E, neste sentido, esta campanha foi muito bem conduzida. De 1998 até hoje percorreu-se um grande caminho; não me refiro apenas às dezenas de associações de protecção à maternidade e apoio às grávidas que entretanto se fundaram, mas à própria natureza do discurso, que reflecte silenciosas, mas profundas, alterações culturais e de mentalidade que estão em marcha: a de 98 foi uma etérea campanha de despenalização da IVG, mas esta foi, mais concretamente, a campanha do aborto. É um importante progresso. Permite alimentar a esperança de que, se numa ocasião futura nos voltarmos a enfrentar, os do “Sim” e os do “Não”, talvez estejamos apenas a discordar acerca da melhor forma de proteger a vida humana — a do filho e a da mãe. Times they are a-changin’...

Direitos do homem (2)

Caríssimos,

Algumas das vossas objecções foram argutamente apresentadas. Sinto-me, assim, na obrigação de justificar um pouco mais a minha posição. Aqui vai.

Ao contrário da posição sexista antagónica que defende o sim neste referendo, a minha não se sente limitada por considerações politicamente correctas (talvez por não ir a referendo). Tal como ela, defendo um direito em absoluto, a saber, o direito do homem a decidir o que fazer com a sua informação genética. Como tal, e enquanto não estiver formado um sujeito de direitos, o homem tem o direito a decidir, sem qualquer tipo de constrangimentos, o que fazer com a sua informação genética, esteja ela num laboratório ou no ventre de uma mulher.
Mas em 10 semanas é difícil aferir se aquilo que se está a desenvolver no ventre de uma mulher contém os meus genes? Terão pois de ser permitidas as semanas que forem necessárias. Existe um direito absoluto e legítimo a salvaguardar, tanto me dá se forem 10, 20 ou 30.
Mas a partir de uma certa altura o feto já tem sensibilidade, espinal-medula, etc. E daí? Façam-no sem causar sofrimento desnecessário. Questões sobre a dignidade humana ou sobre o vitalismo intra-uterino dizem-me pouco. Eu tenho um direito a decidir sobre o que fazer com a minha informação genética.
Mas para levar a cabo essa proposta não estaríamos a entrar na esfera de liberdade da mulher, obrigando-a a fazer coisas que não quer? Que diabo! E se o aborto depender só do pedido da mulher, ela também não está a entrar na minha esfera de decisão sobre o meu património genético?
E isso tudo não violaria também o direito à privacidade? Isso também acontece nos aeroportos, queixamo-nos, mas todos assentimos.

Se houvesse uma paródia do Gato Fedorendo sobre esta forma de dizer Sim, seria nestes moldes: Pergunta: «Mas a mulher não tem o direito a decidir se deve abortar ou não?» Resposta: «Sim.» «E depois das 10 semanas?» «Não.» «Mas isso não é um bocado incoerente?» «Chiu!» «Mas o que fazer com o aborto clandestino após as 10 semanas?» «Nada, só é clandestino se for até às 10 semanas» «E essas mulheres que abortarão depois das 10 semanas irão para a prisão?» «Não.» «Mas é proibido?» «É».
«Até às 10 semanas a mulher tem direito a cuidados de saúde num estabelecimento público?» «Sim» «E às 11 semanas?» «Não».
Por isso, Sim. Mas com coerência e igualdade para todos, ou seja, também a pedido do homem.

Ass: T

Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007

Boomerang

César das Neves ou O Boomerang.