Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Arma de destruição maciça


Eles faltam às aulas, tiram licenças sem vencimento, gastam uma fortuna com os telemóveis, investem em sites na Internet, organizam jantares, marchas, conferências de imprensa. Preparam tempos de antena, trazem estrangeiros, às suas custas, para os ajudar. Usam, às escondidas, os faxes e as máquinas de tirar fotocópias das empresas onde trabalham para poupar uns tostões.

Eles não têm máquinas partidárias a apoiá-los. Eles não têm as redacções do seu lado. Eles combatem num terreno inclinado e lutam contra o tempo. Eles estão a dedicar meses - alguns, anos - a esta causa.

Em 1 minuto e 55 segundos, todo o esforço dos militantes do "Não" foi implacavelmente - e irremediavelmente? - esmagado por um sensacional sktech dos "Gato Fedorento" (visto por 1,5 milhão de pessoas, eis o verdadeiro raio de alcance desta arma) a fazer troça da posição do Marcelo.

Tal como já disse o Paulo Pinto Mascarenhas, esperamos neste Domingo por igual sátira ao "Sim". Relembro que se trata de entretenimento em ambiente de total liberdade de expressão mas já agora, no Serviço Público de Televisão. Pago com os meus impostos (150 milhões de euros por ano).

Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Da série "O Som e a Fúria"

EPITÁFIO DE BEJA

Quem quer que sejas, caminhante, quando
passares por este túmulo e no epitáfio
leres que da vida me parti só tendo
uma vintena de anos, tu, sem dúvida,
haverás de lamentar-me. Se porém
pensares em que esta paz que gozo agora
te seja, a ti cansado, assim tão doce
como será para mim, eu farei votos
de que mais vivas e envelheças tarde,
gozando a vida que me não foi dada.
Mas se o chorar te é gosto, porque não
hás-de chorar? Por Nise. Jaz aqui.
Viveu só cinco lustros. Lhe fizeram
este moimento Inacos, o seu pai,
e Io, sua mãe. Vai-te, ou melhor,
ó caminhante, voa, que se agora
és tu quem lê, não tarda serás lido.

Jorge de Sena, Sequências (1980)

O Rigor da Clareza

"Falemos claro: a liberalização é a do aborto clandestino!"

- Ana Catarina Mendes, deputada do PS, no programa "Prós e Contras" da RTP (29 de Janeiro de 2007)

Sócrates vai à China

Estive há semanas, a convite da Jason Associates, num seminário sobre como «escalar a Grande Muralha da China». A proposta era simples e consistia basicamente em percorrer técnicas de negociação, que, desde a saudação inicial até ao processo de conclusão de um negócio, demonstram que ali está uma cultura diferente, um mundo novo que é preciso conhecer e respeitar, antes de entrar.
Uma das tónicas que me impressionou foi o modo como no processo de negociação se encara o tempo. O tempo remete para o amadurecimento. Não se decide à pressa, não se negoceia constrangido, nem sob pressão. Por isso, a negociação vence-se pela paciência. E quem for impaciente é vencido à partida, porque o tempo é o grande aliado do negociador.
Sócrates parte para esta viagem vencido. O seu tempo não é ditado pela agenda da viagem. É ditado pela agenda portuguesa: para marcar o passo à viagem à India do Presidente; para estar fora no dia em que começa a campanha do referendo. Mesmo que não tenha interlocutores ao seu nível lá. Mesmo que a importância dos temas que o levam à China, pudesse justificar uma alteração de calendário. Sócrates está preso do seu tempo. E, na China, essa atitude compromete irremediavelmente o sucesso. Portugal é quem perde.

Direitos do homem

Exmos.,

Fiquei de fora mais uma vez. Ninguém discute o que mais interessa. Ontem no debate sobre o referendo do aborto uma alminha perguntava: se não for a pedido da mulher, é a pedido de quem?
Decerto me reconhecem pela reivindicação em prol da poligamia. Pois bem, há mais qualquer coisa pela qual temos de lutar. A liberalização do aborto a pedido do homem.
Imaginem uma das minhas incursões sexuais em que procuro apenas obter prazer através da relação sexual. E se acontecer que por acidente se dê a fecundação? A verdade é que o meu património genético foi transmitido a outra pessoa. Se essa pessoa decidir, sem o meu consentimento, utilizar esse património genético para os seus fins pessoais, não estará a violar meu direito? E mesmo que existisse um consentimento inicial, não deveria haver uma lei que protegesse a retirada do meu consentimento de modo a que uma outra pessoa não pudesse utilizar os meus genes de acordo com a sua vontade? É que para fins de investigação médica e científica, no art. 9 da Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos, o consentimento pode ser retirado pela pessoa envolvida e nesse caso os dados genéticos humanos, dados proteómicos humanos ou amostras biológicas deverão ser irreversivelmente dissociados ou destruídos.
É só para dizer que esta lei gera uma profunda desigualdade de direitos entre homens e mulheres. É absolutamente injusto. Confere-se o direito à mulher a decidir o que fazer com os seus genes e ao homem não. Por isso, aborto sim. Mas também a pedido do homem.

Ass: T

Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

Da série "Posta Restante"

"The durability of Conservatism has depended, to a great extent, on it being a disposition rather than a philosophy. What marks Conservatives out, across the generations, and whatever the environment they operate in, is an attitude of mind rather than an adherence to dogma. And that disposition - sceptical, cautious, pragmatic, sensitive to the local and the particular - has been politically successful because it has been in tune with human nature."

Michael Gove, "All hail the new anti-Islamist intelligentsia", in The Spectator, 27/1/07

Tréplica

Caro Paulo, não sei se serão bem réplicas e tréplicas, sobretudo porque estamos a falar de coisas um pouco distintas. Não tendo o meu sentido de voto definido, e não militando em nenhum dos lados da questão, preocupo-me mais no aprofundamento dos argumentos do que na sua agitação. Há um conjunto de argumentos do lado do "Não" que colocam a questão em termos de gasto e eficiência que não me parecem devidamente fundamentados e, tal como estão apresentados, não convencem. Há até alguma indignação no argumento da pessoa idosa e indefesa que verá o seu tempo de espera por uma consulta/intervenção aumentado devido à deslocação de recursos do SNS para "garantir" o aborto livre e "gratuito". Gostava sinceramente que explicassem porquê, e sobretudo como é que este argumento encaixa em quem tem como bandeira a defesa da "vida".

Quem coloca a questão nos termos "aborto vs vida" e argumenta impostos e recursos tem de resolver a equação "aborto vs parto", que nada por acaso é altamente deficitária para o lado dos "defensores da vida", pois o parto é mais custoso e consome mais recursos ao longo de muitíssimo mais tempo (antes e depois). Se a preocupação é não prejudicar os indefesos em espera, aborta-se o feto e deslocam-se os recursos restantes que seriam gastos com parto, maternidade, pediatria, etc. para os indefesos em espera.

Compreendo que existam certos corredores de pensamento pelos quais às vezes entramos e sentimos as paredes pintadas de suásticas, uma espécie de Mengele tornado contabilista, mas o que espero que o teu lado do "Não" compreenda é que a defesa da "vida" é altamente custosa, exige dinheiro, recursos, sacrifícios. O "Sim" é eminentemente mais eficientista, fácil e os custos são sobretudo de outra ordem e suportados pelo casal ou pela mulher no dramatismo da decisão. O que espero do "Não" é a defesa de como a "vida" vale bem todos esses custos, e como compensa os sacrifício e as despesas associadas, que são muitas e prolongadas.

Quanto à questão da objecção de consciência fiscal, disfruta os Pirinéus, e cá estaremos na próxima semana para a debater se ainda fizer sentido.

Domingo, 28 de Janeiro de 2007

A Conquista da Europa

"Depois de ter sido expulso por duas vezes, o Islão regressará à Europa como um conquistador vitorioso. Sustento que desta feita a conquista não será feita pela espada, mas pela pregação e pela ideologia".

- Youssef Al-Quaradhawi, teólogo da Irmandade Islâmica.

Não me parece. A "pregação" e a "ideologia" foram a esperança da maioria dos comunistas durante a Guerra Fria, que com mais razão a acalentaram. E mesmo assim nunca prescindiram inteiramente da "missão libertadora" do Exército Vermelho, nem das virtudes do golpe de Estado nocturno. Já a demografia pode ser um aliado mais fiel da conquista islâmica da Europa. Mas é um aliado tão lento, e depende de tantas variáveis de constância duvidosa, que provavelmente não substituirá o ferro e o fogo mais caros ao prosélito impaciente.

Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Malhas que o Império tece

O post do Francisco aqui em baixo significa duas coisas.
Primeira: que para a geração de 70, à qual pertencemos, o Prof. Salazar já é uma figura um pouco burlesca e que se presta a jogos como este concurso. Não sei se isso será bom ou mau. Se representa um corte geracional com a memória traumática da ditadura que era a dos nossos pais, representa também uma importante desvalorização da penosa história do século XX português.
Segunda: que há quem se esteja a divertir bastante à custa da ideia bacoca do campeonato.

P.S. Não votei. Caso votasse, o meu voto iria para D. Afonso III, o rei que conquistou Faro. Se não fosse ele, hoje eu seria mouro ou castelhano.
(Pensando melhor, talvez houvesse algumas vantagens...)

Pela negativa

Quem vota no Salazar no concurso "Grandes Portugueses" fá-lo pelas seguintes razões:

- Porque se sentiu enganado quando quiseram impedir que o homem constasse da primeira lista de "Grandes Portugueses", mesmo que não fosse votar nele;

- Para enervar a esquerda e chocalhar o ambiente politicamente correcto que infecta há 30 anos os media (o meu pretexto favorito, por isso lá vai um votozinho);

- Para se manifestar contra o actual estado de coisas (qualquer que ele seja: crise de costumes, crise de identidade, irrelevância internacional do país etc.);

- Porque foi traído pelo 25 de Abril (diria sobretudo os retornados do Ultramar);

- Por algumas saudades do "outro tempo".

São essencialmente razões ligadas ao passado, a alguma nostalgia e reaccionarismo. São razões negativas.

Eventualmente uma minoria votará em Salazar porque o achou um grande estadista, com um papel fundamental no fim da 1º República, na 2ª Guerra Mundial, no lançamento das bases do desenvolvimento económico do pós-guerra etc. Mas será sempre uma minoria.

Como sei que isto já basta para levar muita porrada, fico por aqui.

P.S. Os meus votos restantes (devem ser uns 4 ou 5) vão para o Rei Afonso Henriques.

APCL de parabéns

O concerto promovido pela APCL (Associação Portuguesa Contra a Leucemia), ontem, no pavilhão Atlântico, em Lisboa, foi comovente e digno dos maiores aplausos. A organização liderada por Duarte Lima está de parabéns pelo belíssimo evento e pelos resultados que a APCL tem vindo a obter.

“Em quatro anos, os dadores de medula óssea em Portugal passaram de dois mil para 65 mil. O aumento deve-se em grande parte à acção da Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Ontem a associação juntou o apoio do público ao de várias figuras políticas num concerto no Pavilhão Atlântico, em Lisboa.”
in Sic On-line

A qualidade dos artistas em palco (sobre a direcção do maestro José Cura, que encheu a sala com a qualidade das suas performances) foi notória. A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve muitíssimo bem; o jovem pianista Domingos António uma vez mais surpreendeu; Luz Casal voltou a irradiar (e, a partilhar com o público sentimentos fortes…). Luís Represas e Rui Veloso, que estão com a APCL desde início, mostraram o seu apoio incondicional a esta causa juntamente com o fantástico público que (praticamente) encheu a sala. De anónimos a “conhecidos” ( Presidente da República, Primeiro-Ministro, Ministros, Empresários…) todos marcaram presença em nome de uma causa.
Foi um momento bonito. Um momento que ajudará com toda a certeza os que necessitam dele.

Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

Maravilhas


A nossa querida Lisboa, capital mundial da cultura e de outras coisas edificantes, será o local escolhido para a cerimónia de declaração das "Sete Novas Maravilhas do Mundo", a realizar no próximo dia 7 de Julho (07/07/07). A iniciativa de colocar à consideração dos internautas a escolha das maiores obras arquitectónicas do espírito humano poderia não passar de mais um exercício essencialmente fútil e infantil, que reflecte a vontade (ou mania) contemporânea de pronunciar veredictos (democraticamente, bem se vê). A votação para o "Maior Português", e o debate maioritariamente ridículo que suscitou, ilustram bem a patologia.

Todavia, a reacção virulenta do Egipto à simples ideia de fazer acompanhar as Pirâmides - a única maravilha sobrevivente das lendárias "Sete Maravilhas do Mundo" - de outros monumentos, para além de atestar o caso agudo de esquizofrenia de que padecem algumas sociedades do Médio Oriente, recordou-nos que os veredictos nunca podem ser politicamente inocentes. O caso da inclusão de Salazar no pódio dos "Grandes Portugueses" serve, uma vez mais, como exemplo. A indústria do entretenimento que se dedica a propôr estes rankings e hierarquias mais ou menos arbitrários gosta e precisa de salientar a "importância" do "envolvimento cívico" ou do "debate de ideias". Mas tem dificuldade em lidar com a reacção daqueles que estupidamente dão mais importância ao assunto do que este merece. O que servia sobretudo para elevar os "valores da Humanidade", para promover a "paz, a tolerância e o amor em toda a Terra", afinal desecandeou uma resposta rude, chauvinista e intolerante. E nós, infelizes espectadores, estamos inconsoláveis perante tamanho delírio.

O financiamento do dito

Confesso que já estou um pouco saturado com o tema do aborto. Mas como gosto de um bom debate de ideias e a coisa tem mais piada dentro do mesmo blog - no Cachimbo isto está a aquecer - aqui fica um texto, em jeito de resposta ao post Death & Taxes , do Manuel Pinheiro.
Começo por dizer que se houver um “sim” à pergunta do referendo, passará a existir na lei portuguesa um “direito” da mulher a abortar livremente, até às 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Recordo que deixarão de ser necessárias indicações (como até agora) e que nada nos garante que haja sequer um aconselhamento obrigatório (como existe na Alemanha). Se assim for, cumpre saber como se vai organizar o Estado para garantir, na prática, esse novo “direito” legal ao aborto?
Conhecendo as limitações do SNS e a recusa prática de muitos médicos em praticar o aborto (objecção de consciência), é natural que surjam clínicas privadas especializadas em IVG (duas clínicas espanholas já anunciaram que iriam abrir portas em Lisboa) onde serão praticados a grande maioria dos abortos.
É também inevitável (o Ministro da Saúde já fez declarações nesse sentido) que o Estado venha a financiar a prática de aborto mesmo fora do SNS, de modo a garantir às mulheres o seu novo “direito”. Este ponto é importante porque contraria a tese de que o aborto é uma questão privada e de “consciência”. Ou seja, para além de outras coisas, está também em causa neste Referendo o financiamento da IVG. Será que uma opção individual - note-se que não estão em causa razões de saúde da mulher ou do feto - deve ser financiada pelos impostos? Não vale a pena fugir da questão, ou dizer que é uma mais uma cedência “economicista”. Nada disso. É um problema politico e com profundas implicações na relação do Estado com os cidadãos. Será legítimo usar os recursos públicos para financiar uma prática considerada por metade da população como uma eliminação de uma vida humana?
E surge um outro problema, agora de ordem ética. Se o aborto for financiado pelos impostos, não podemos considerar legítima a evasão fiscal daqueles que consideram o aborto um crime?

Death & Taxes

Já passaram alguns dias e ainda não é claro o alcance do argumento dos impostos na questão do aborto. Julgo que para a maioria dos defensores do "Não", o objectivo não é lançar as mulheres para situações de clandestinidade, mas antes evitar que o aborto se realize e que possa nascer uma criança, preservando então a vida. Se o objectivo é este, e caso fosse um defensor do "Não", o mais provável é que ficasse quieto e calado no tema fiscal; no entanto, não só houve a má ideia de uns certos outdoors, como ainda houve algo pior: um colóquio/comunicação em que se argumentou sobre o tema com intervenções de António Borges, Isabel Neto e Maria José Nogueira Pinto.

O argumento de António Borges é a utilização alternativa de recursos, o custo de oportunidade de realizar um aborto seria demasiado elevado para ser realizado pelo SNS. Isabel Neto e Maria José Nogueira Pinto optam (pelo menos nos excertos da imprensa) pelo argumento da despesa, o mesmo dos outdoors: o aborto custa dinheiro, Portugal tem problemas de despesa pública, e esse dinheiro é melhor aplicado em outras áreas do já sobrecarregado SNS.

Este argumento alegadamente eficientista não convence no seu próprio terreno. De uma maneira geral, só utiliza o SNS em Portugal quem não tem dinheiro suficiente para escolher um privado. Quem hoje viaja até clínicas em Londres ou Madrid, tendencialmente não utilizará o SNS, por razões de maior privacidade e qualidade global. Quem rumará ao SNS será o grosso das mulheres que hoje opta por situações clandestinas em Portugal que acrescentam mais riscos clínicos ao acto por desadequação de formação e equipamento de quem o realiza. E é aqui que o argumento fiscal e eficientisca esbarra, senão vejamos:

Quem opta pelo aborto clandestino realizado em Portugal são pessoas tendencialmente pobres, com rendimentos próximos do salário mínimo, ou seja, não contribuem para a receita fiscal, ou apenas marginalmente o fazem. Recebem no entanto os benefícios do Estado, como sejam o SNS, a justiça, a segurança, etc. Estando em situação carenciada e não desejando ter (mais) filhos, e se o "Não" é para levar a sério, as crianças nascidas deste meio serão beneficiárias do Estado, utilizarão os serviços do SNS, frequentarão o pré-escolar e toda a escolaridade seguinte em escolas públicas, receberão abono de família, etc.

Fazendo a comparação monstruosa entre o custo de um aborto e o custo de uma criança ao Estado nos termos descritos, o aborto acaba por ser um óptimo negócio fiscal ao estilo Malthusiano. Abortam-se os filhos dos mais pobres, que tendencialmente serão menores contribuintes do que os filhos dos mais ricos, e passamos a dar mais e melhores condições a quem cá está. Reduz-se a pobreza, aumenta-se o PIB per capita, e o Estado deixa de estar comprometido com tantos custos sociais, libertando futuras receitas para o bolso do contribuinte ou outras realizações.

É rico? Preocupa-se com os seus impostos ou com a eficiência do SNS? Vote Sim. Vai ver que compensa.

Portugal e a Tristeza (continuação)

Não sei se é exacto, mas cá vai: “quem almeja ser trovão, tem de se acumular nuvem durante muito tempo”.
É a isto que nos recusamos. Na primeira oportunidade, por mais pequenina que seja, começa a algazarra. Mal se amontoam duas ou três nuvenzitas, começa logo a pingar. Há sempre um arauto que gosta de traduzir tudo isto em falta de auto-estima ou pessimismo. Ai Jesus! Vem lá uma depressão nacional. Temos de reverter imediatamente a situação. Vejam como somos bons. Olha o Figo, o Cristiano Ronaldo, o Mourinho. Casos individuais e pontuais? Não senhora. Portugal sabe organizar grandes eventos: a Expo, o Euro, o Laureus, o Estoril Open, o Dakar. E lá fora? Somos tão bons como os outros. Os Madredeus vão ao Japão, a Mariza ganha prémios em Inglaterra, há tecnologia portuguesa no espaço, a Selecção de Futebol faz ver a muita gente.
Que razões existem para a falta de auto-estima? Nenhumas. Mas quem foi o inteligente que disse que somos falhos nesse bem primário da auto-estima para termos que suportar estas injecções de pretenso sucesso nacional? Que urgência em fazer ver o óbvio. Como se a única mensagem de Portugal fosse a de martelar ao mundo (e a si próprio) que o português é tão bom como os outros.
É isto. Quando principiamos a escurecer, dá-se uma ténue precipitação. Penso que a sabedoria popular descreve isto como “chuva molha-parvos”. Haverá coisa mais aborrecida?

(Continua)

Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

Publicidade Institucional

Durante 20 segundos esperei, sem sorte, o momento em que diria aos microfones: É do Caracas.

Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Portugal e a Tristeza

Dizem que este é o mês em que mais se manifesta. Não me refiro a esta, mas a outra. Falo de algo que, precisamente por sermos como somos, gostamos de exorcizar ou de acreditar que já cá não mora. Mas ela por cá habita, milita, debilita. Gostamos de entendê-la como uma herança, um peso, uma tara, um espinho cravado na carne. Não é o amargor de um grande mal que aflige ou o vazio deixado pela promessa de uma qualquer plenitude que fica por cumprir. Não é noite, nem sombra. É nevoeiro. Presta-se a uma estranha doçura, à canção e à estrofe, a ser estimada, saboreada, querida até com um soluço contido e um nó na garganta, acompanhados pelos suspiros de uma guitarra:

“Ó gente da
minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Perdoem-me os políticos, os empresários, os cientistas, os economistas, os investigadores de amplos horizontes, os supostos optimistas de espírito afirmativo e confiante, enfim, perdoe-me o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Perdoem-me, mas avanço com esta extravagância de sugerir que a vocação universal deste povo talvez seja a de presentear o mundo com uma tremenda lição sobre a tristeza. Qual tristeza e que lição? Eis o que falta saber.

(Há-de continuar)

A propósito de um primeiro aniversário

Os comentários aguardam a viragem do cabo das tormentas.

Blade Runner

Há 25 anos, Ridley Scott estreou um dos filmes mais extraordinários de sempre. Blade Runner, uma combinação de produção futurista/distópica com o género do film noir dos anos 40, tem ao seu serviço recursos aparentemente inesgotáveis: uma estética própria, uma banda sonora histórica, interpretações homéricas (refiro-me à do gigante Rutger Hauer, não necessariamente à de Harrison Ford) e um argumento que aborda questões profundas sem pieguices (bem, sem pieguice excessiva) - assim teria de ser quando se escolheu um Philip K. Dick como texto original, e se permitiu que o próprio autor acompanhasse a produção do filme.



Roy Batty: "I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glittering in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die."

Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

Logicamente

O referendo de 11 de Fevereiro é essencialmente uma história para distrair os pobrezinhos da sua miséria. Sendo uma fábula socialista envolve necessariamente a denúncia de “injustiças”, a “mobilização” dos cidadãos para a luta e o apelo à marcha colectiva contra o “obscurantismo”. Já dei os meus cinquenta cêntimos para a discussão das motivações políticas e resultados previsíveis do processo e não retomarei o assunto.

Limito-me a assinalar o regresso temporário do Tiago Mendes à blogosfera, do lado do “sim” e provavelmente trazendo consigo argumentos de peso e bem medidos. Ao contrário de alguns idiotas úteis, o Tiago recusa o papel de “ingénua” e apresenta-se a título individual. Não esperava outra coisa, diga-se.

Domingo, 21 de Janeiro de 2007

Ressentimento com sabedoria

"If I left Arsenal tomorrow having won the League but the club £200 million in debt, I wouldn't feel very proud."

"The difference is, I want to win the championship and make the club £50m, then I've done the right job."

"I have been educated to understand that when you have ten pounds you don't spend eleven and I've respected that all my life in both football and my private life."
Arsène Wenger, treinador do Arsenal, em entrevista ao The Sun, referindo-se ao eternamente nosso José Mourinho.

O Homem e a Massa

Segundo o Blog Herald, existem cerca de 100 milhões de blogs em todo o mundo. Há qualquer coisa de esmagador nesta ordem de grandeza, algo que reduz tudo à insignificância.

Sábado, 20 de Janeiro de 2007

Arrependimentos e Promessas

Com o anúncio da iminente transferência de mais alguns milhões de euros provindos de Bruxelas, o País respeitável reconheceu duas "grandes certezas" ou dois "consensos importantes". Em primeiro lugar, os últimos vinte anos narraram a penosa história do "desperdício" de muitos milhões, os quais, se tivessem conhecido bom destino, poderiam ter impedido a desgraça económica contemporânea; com a lição aprendida, não se cometerá o mesmo erro duas vezes. Em segundo lugar, a impreparação dos portugueses constitui o grande defeito da Nação; logo, a "formação" é agora a "tarefa" (ou o "desígnio", ou o "desafio") nacional.

Não discuto a vacuidade das proposições. Limito-me a constatar a esperança (com "responsabilidade", evidentemente) com que a Pátria acolheu esta segunda (e, atenção, a "última", porque a Leste também há quem precise, etc., etc.) oportunidade. Depois do acto colectivo de contrição, vieram as promessas de emenda. Claro que a descoberta necessária já foi feita pela inteligência portuguesa: há que aproveitar estes novos apoios europeus para investir "a sério" na formação. Pacientemente, esperaremos pelo momento em que a inteligência lusitana perceba a contradição que esta descoberta luminosa encerra. Como alternativa, temos sempre a possibilidade de escrever o mesmo post daqui por vinte anos.

Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007

Publicidade institucional

No próximo dia 23, Terça-feira, o Blogue do Não lança um livro com os posts mais relevantes das suas primeiras dez semanas da vida, com apresentação de Maria do Rosário Carneiro e Francisco Sarsfield Cabral. É no Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade, Lisboa), às 18h30, e inclui o contributo de alguns dos fumadores do Cachimbo.
Os lucros das vendas revertem para a associação Ajuda de Mãe (mas se houver algum milionário anónimo que queira financiar-nos, as propostas mais altas serão devidamente ponderadas.)

O crepúsculo dos justos

Foi aqui mesmo ao lado, no Panthéon, ao final da tarde de ontem. Sob uma enorme ventania, os mais de 2700 Justes de France –homens e mulheres que tiveram a coragem de ajudar a sobreviver numerosos judeus perseguidos pelo regime de Vichy e pela Alemanha nazi– foram consagrados como heróis da nação francesa, ao lado de Alexandre Dumas, entre outros. Sob o som de harmonias corais de Francis Poulenc, a cerimónia foi realizada por Agnès Varda e transmitida pelos principais canais franceses.

Em Portugal, a pátria republicana, laica e socialista que não tardou em reconhecer o fado como símbolo político, atribuindo aos restos mortais de Amália Rodrigues um lugar no Panteão Nacional, ainda não concedeu a mesma distinção a Aristides de Sousa Mendes.

Mas regressemos a França: importa não subestimar o significado do acto de ontem. A França não é “só” o país onde a ocupação e o colaboracionismo determinaram a deportação de dezenas de milhares de judeus. A responsabilidade francesa é bem maior do que isso: a deportação e o massacre dos judeus franceses durante a ocupação foi conseguido com relativa facilidade porque o anti-semitismo do ocupado em nada ficava atrás do anti-semitismo do ocupante. Aliás, o estereótipo nacional-socialista do judeu como elemento desagregador da sociedade deve muito ao anti-semitismo francês, em especial a Édouard Drumont (sem o execrável La France Juive, de 1886, não teria sido possível o “Affaire Dreyfus”). A catarse do anti-semitismo é uma das linhas essenciais para se compreender a evolução do pensamento e prática política francesa no pós-guerra, mesmo nas suas evoluções perversas pós-1968. Ontem ao final da tarde, sob a nave central do Panthéon essa catarse deveria ter sido concluída: era essa a verdadeira dimensão simbólica do acto. Mas para além da oportunidade, há o oportunismo e o oportunista. O discurso de Jacques Chirac concluiu-se com esta frase espantosa:
A un moment où montent l'individualisme et la tentation des antagonismes, ce que nous devons voir, dans le miroir que nous tend le visage de chaque être humain, ce n'est pas sa différence, mais ce qu'il y a d'universel en lui.
Mencionar o “individualismo” em tom depreciativo no momento em que se evocam as vítimas dos mais tenebrosos colectivismos do séc. XX exige um enorme despudor. Mas escapa à capacidade de compreensão humana que o presidente francês una o “individualismo” à “tentação dos antagonismos”, na mesma frase –por conjunção formal e lógica. Não fosse o Panthéon estar cheio de Justos e certamente uma alma menos perfeita (como a minha) não resistiria a levantar a voz para recordar ao presidente da França que não foi a “tentação dos antagonismos” que condenou à morte milhões de inocentes por toda a Europa. O retrocesso à barbárie só foi possível pelo silêncio cúmplice de muitos “carrascos disponíveis”, na Alemanha e em boa parte do continente europeu, todos politicamente expurgados do Mal pelo exorcismo de Hitler. Chirac sabe que o impulso assassino beneficiou da tentação colectiva de apaziguamento, não do "individualismo e os antagonismos”. Chirac devia saber que ali se homenageava a coragem dos que se opuseram às consequências desumanizantes da associação entre teses raciais e um irracionalismo decadentista. Individualmente e sem receio das consequências. Chirac devia conhecer o contributo nada pequeno que algum revisionismo pós-moderno da história tem dado para conferir um carácter difuso aos massacres raciais de 1939-45: as ideias mais perigosas tendem a nascer em locais respeitáveis –como a Sorbonne, por exemplo, mesmo aqui ao lado do Panthéon. Sobre as responsabilidades intelectuais no recrudescimento do anti-semitismo, nem uma palavra.

Ontem, o vento soprava lá fora em golpes violentos. Talvez desse corpo à indignação dos que dentro do Panthéon tinham de ouvir Chirac e permanecer em silêncio. Ou talvez anunciasse tempestades.

Da série " O Picoito não tem o monopólio da poesia"

Men seldom make passes
At girls who wear glasses

E é então ao abrigo deste preciosíssimo "seldom", que alguns mortais se conseguem manter dentro da verdadeira doutrina doroteana.

Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007

A arte de fazer rir


“Fazer rir é muito complicado. Há pessoas que nascem com essa arte (de fazer rir), outras aprendem a técnica. Em ambos os casos não é fácil”, disse o actor João Carlos Garcia, director artístico do Chapitô, em declarações ao Cachimbo, hoje, dia Mundial do Riso.
Citando uma célebre frase, que sintetiza alguma da importância dada ao riso (“O riso leva à compreensão”), João fala de como “é bonito ver o público sair de um espectáculo de sorriso na cara”.
Desmistificando a confusão que paira entre “fazer rir” e “ser palhaço” este actor, que actualmente faz comédia, afirma que “ser palhaço é das coisas mais difíceis do mundo”. E, isto porque é necessário ter a dimensão do mundo. “ São os nossos defeitos todos vistos à lupa. É um esboço do ser humano em que cada risco é, de facto, muito sobressaído.” João, que pesquisou as “técnicas de palhaço” durante seis anos e que confessa “que nunca consegui ser palhaço”, explica que “ao fazer a personagem de palhaço o actor está a expor todos os nossos defeitos” e que “o palhaço é o espelho da nossa sociedade”.
Neste dia Mundial do Riso nunca é demais lembrar aqueles que tudo fazem para nos fazer rir. Mesmo sabendo que é difícil fazê-lo (“O drama é mais actual que o riso; as razões que nos levam a rir mudam muito depressa”).

O blog da Prospect



A revista de pensamento político britânica Prospect criou um blog. Se estiver ao nível da revista a coisa promete. E vai por certo para as ligações do Cachimbo.

Quem é Sócrates? (parte III)

Em dois anos de Governo, são pouco frequentes os temas de esquerda. Mesmo na questão do aborto, artificialmente colocada na agenda, o discurso é conformista, longe da utopia socialista de uma sociedade mais justa para todos.
Sócrates não critica o capitalismo ou a globalização, pelo contrário, sofre até de um certo deslumbramento pelos empresários (fenómeno “Pina Moura”). Que longe estão as nacionalizações ou a defesa do sector público, tão caras à esquerda tradicional. Privatizar está na ordem do dia, mesmo em empresas estratégicas como a TAP, GALP, REN, ou a PT (apoio tácito à estratégia de Belmiro). A única excepção é a colecção Berardo, mas por outras razões.
Apesar do “igualitarismo” ser caro à esquerda, o sistema fiscal português permanece na mesma. O Governo parece mais empenhado em cobrar impostos do que em redistribuir a riqueza. Veja-se o emblemático sigilo bancário, ainda intocado, apesar da promessa eleitoral de o reformar em seis meses.
Na política externa, Sócrates tem-se afastado do anti-americanismo, a mais recente das bandeiras. É interessante nunca lhe termos ouvido, enquanto Primeiro-Ministro, uma crítica a George Bush ou à guerra do Iraque.

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007

O tempo dos rapsodos

Aprovado em Conselho de Ministros: um professor único que, no 2º ciclo do Ensino Básico (5º e 6º Anos de Escolaridade) deverá leccionar várias "áreas" ou disciplinas. Um só docente ensinará Português, História e Geografia de Portugal, Matemática, Estudo do Meio (Ciências da Natureza), Expressões. Lindo.
Uma nova casta de docentes: o professor generalista [sic]. Qualquer coisa como um "professor enciclopédico", dividido por vários tomos e com muitas, muitas entradas que decerto abarcarão regiões surpreendentemente remotas do Saber. Já se adivinham as chusmas de Aristóteles e Leibnizes jorrando dos "politécnicos", "escolas superiores de educação" e "faculdades". Pois.
Salta aos olhos que esta coisa só pode levar a uma superficialização do ensino. Um professor "generalista" será, desgraçadamente, uma espécie de rapsodo. Imagina-se que alguma vez um docente destes estará igualmente (e suficientemente) à vontade em todas as matérias que vai leccionar (sendo elas tão díspares)? Será um professor de tudo (ou de muita coisa), o que redundará num professor de nada (ou de quase nada).
(Como não podia deixar de ser, os "responsáveis" arremessaram logo com uns provincianos argumentos de autoridade, remetendo para "a europa" ou "os outros países".)
Não são "os meninos" (expressão habitual de Maria de Lurdes Rodrigues) do 2º ciclo merecedores de docentes especificamente preparados?... Por terem onze, doze anos, são menos exigentes "cientificamente" e podemos nós, assim, darmo-nos ao luxo de degradar o seu ensino?...

Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

Argumento um bocadinho mais original que os do costume

Em 1954, a Joanne e o Abdulfattah eram putos da faculdade quando ela engravidou. Como os tempos eram outros, esperou os 9 meses e depois deu o bébé para adopção. Tanto ela como Abdulfattah pediram apenas aos novos pais que quando o bébé crescesse fosse para a faculdade.
O bébé cresceu, inventou computadores na garagem, fez um colosso chamado Apple, fez outro colosso chamado Pixar (entre outros Toy Story e Finding Nemo), re-inventou a nossa relação com a música (iPod) e agora quer também re-inventar o telemóvel (com o iPhone, aqui). Ao contrário da vontade dos pais biológicos, o jovem não acabou o curso.
Seria esta história possível em 1973 (altura em que o aborto foi liberalizado na América)? Não. Nessa altura o que a Joanne e o Abdulfattah fariam era passar por uma clínica privada e resolver a questão. Rapidamente, porque a chatice de esperar nove meses, mais ter que dizer aos pais, mais a humilhação social...enfim, para quê tudo isso sem em meia-hora se pode voltar à normalidade?
O que seria do mundo sem Steve Jobs? Quandos Jobs perdeu a América e o mundo com os milhões de abortos que se fizeram nos últimos trinta anos?

Parabéns a você

Senhores, serve este para lembrar que o Carlos Botelho faz anos hoje.
Pode ser que, com a vergonha de se ver assim nomeado, ele até passe a escrever mais.

Admirável Mundo Novo


Diz Miguel Vale de Almeida que a aceitação do aborto é o verdadeiro teste para aferir se alguém está ou não pela igualdade de género, assim como a atitude perante o casamento gay é o verdadeiro teste da homofobia.


Tocqueville tinha razão: há igualdades que são uma ameaça tão grande à liberdade de pensamento como o velho despotismo.

The Creationists

Recebi há dias a nova, “expanded edition”, do The Creationists, de Ronald L. Numbers (Harvard UP, 2006), que é geralmente considerado o melhor estudo actual sobre o movimento anti-evolucionista, pelo menos do ponto de vista da História da Ciência. O livro cresceu bastante em relação à edição original (1992) e tem dois capítulos novos, dedicados ao “Intelligent Design (ID)” e ao surpreendente crescimento mundial do apoio às teorias criacionistas.

O que Numbers tem a dizer acerca do ID merece um comentário mais longo, que fica para uma próxima ocasião, e que agora só posso resumir. Qualquer observador sereno – seja adversário ou proponente, crítico ou defensor – reconhece que as discussões em torno do ID obrigam a uma sofisticação e um apuramento conceptual muito mais cuidado do que é costume nestes assuntos. Dizer que o ID é apenas “criacionismo disfarçado” é não perceber exactamente o que está em jogo e, por conseguinte, é não perceber a enorme atracção que o movimento tem gerado em pessoas que nunca se identificariam com teses criacionistas. Parece-me que Numbers não foi totalmente feliz na descrição que apresentou.

Muito mais interessante é o que ele diz sobre o enorme crescimento do criacionismo a nível mundial, no capítulo a que chamou “Creationism Goes Global”. Para começar, o que mais surpreende neste fenómeno é que ninguém foi capaz de o prever. Até 1980 o criacionismo era considerado (e era de facto) uma bizarria de algumas denominações protestantes americanas. Fora da América a sua expressão era incipiente e não havia qualquer razão para supor que isso se modificasse. Tudo é muito diferente hoje em dia. Embora ainda grandemente dependente dos seus apoios no Estados Unidos, o movimento criacionista tem agora uma enorme expansão mundial, com números impressionantes. Há importantes focos de crescimento no Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Na Europa, há importantes centros de criacionismo no Reino Unido e na Alemanha, mas a dianteira parece estar tomada pela Holanda, que é afectuosamente designada por alguns por “Kansas da Europa”. Nos países de Leste a coisa também cresce a ritmo acelerado. Em geral, na Europa, o criacionismo tem tido maiores dificuldades de penetração nos países de tradição católica, mas isso está a mudar. Na América Latina, como Numbers mostra, a penetração do criacionismo era quase nula até à explosão dos cultos evangélicos, na década de 90, e hoje em dia vai de vento em popa, sobretudo no Brasil. Na Ásia há já uma presença muito forte de criacionistas em vários países, sobretudo na Coreia. E, finalmente, o que parece ser o desenvolvimento mais promissor, a entrada do criacionismo no mundo islâmico, via Turquia.

Qual a explicação para este espantoso crescimento? Ronald Numbers não arrisca muito, mas sugere algumas causas, e evidentemente uma delas tem que ver com a globalização do mundo de hoje. Todavia, no caso do mundo Ocidental, tudo leva a crer que este crescimento explosivo seja sobretudo uma reacção, uma resposta aos movimentos organizados de promoção do ateísmo baseados na ciência. Como é do conhecimento geral, pelos anos 80 um conjunto de cientistas e popularizadores iniciou uma ofensiva cultural com o objectivo de divulgar a ideia de que a ciência é incompatível com a religião e que caberia aos cientistas e à “cultura científica” combater todas as crenças. A tese, como se vê, é velhíssima. O que é novo é o nível de agressividade usado pelos seus modernos promotores. Ler Richard Dawkins (que chega a sugerir que os filhos devem ser retirados aos pais para evitar que recebam educação religiosa), ou Daniel Dennet (que recomenda, entre outras doçuras, que as pessoas com concepções acerca do mundo natural diferentes das dele sejam enjauladas como animais selvagens) não é propriamente uma experiência intelectual. Mas é uma experiência de raiva e parece evidente (agora) que alguma coisa iria provocar.

O que provocou não foi exactamente o que os promotores destas investidas previam ou desejavam. Muito pelo contrário. Os livros de popularizadores como Dawkins pareceram confirmar aquilo que só uns poucos e isolados criacionistas diziam: que a ciência moderna tem o propósito real de hostilizar e tentar eliminar toda a crença religiosa e que o mundo dos crentes tem de se defender. Subitamente, os criacionistas revelavam-se proféticos... e tinham planos para o combate.

A comunidade científica, que assistiu algo incomodada ao saque da sua credibilidade feito por Dawkins e co., vê agora com espanto e desespero o resultado desses absurdos empreendimentos, e percebe que terá de reagir. Nenhum cientista de prestígio já queria andar na companhia de Dawkins ou Dennet, mas agora ainda menos porque atrás deles parece vir sempre um "young-earther".

Cartão de boas vindas

O Luís M. Jorge mudou-se para A Vida Breve (oxalá que não).
Com a escrita elegante de sempre, um belíssimo template e a garantia de que vou discordar de todos os posts, que mais poderia eu pedir-lhe?

Publicidade Institucional

O nosso cachimbador Bruno C. Maçães dará, nos próximos dias 19, 20, 26 e 27, um seminário no IEP da Universidade Católica intitulado "What is Globalization?". Mais informações aqui.

O último artigo do Bruno no Diário Económico pode ser lido aqui. E aqui o do Paulo Marcelo. Há também um texto do Pedro Picoito no Expresso aqui.

Todo um programa, portanto.

Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007

Quem é Sócrates? (parte II)

Tudo o que disse sobre o percurso do Primeiro-Ministro tem reflexos no seu discurso político. Quando Sócrates fala, mais do que ideias encontramos “chavões”, como choque tecnológico ou paixão pela ciência. Veja-se esta frase, dita no Porto aos socialistas europeus: “a estratégia de Lisboa deve inspirar o novo reformismo europeu”. Está lá o chavão (“estratégia de Lisboa”, onde cabe tudo e mais umas botas) mas não se diz qual é o “reformismo” e porque é “novo”. Sócrates procura frases redondas, sempre com um “toque” de modernidade na pose e no conteúdo. Em vez de o enfrentar, Sócrates usa o poder mediático de forma eficaz. Mestre em marcar a agenda, com medidas estilo “power-point”, gerando a ideia de ritmo e preparação das reformas. E sempre com uma gestão rígida e centralizada da informação. (continua)

Domingo, 14 de Janeiro de 2007

Vitalino

Vitalino Canas, o porta-voz da Comissão Política do PS, proclamou na Sexta-Feira: 'Queremos fazer uma campanha [do referendo sobre o aborto] baseada em argumentos da ciência, em argumentos racionais - não uma campanha baseada em argumentos da moral, da ética, do que quer que seja [sic]! Argumentos relacionados com a razão, com a ciência.'
Coitado.
Convinha que alguém lhe explicasse, racionalmente, que nenhuma das pessoas sérias que defendem o 'sim' ou o 'não' nesta campanha o faz por motivos "científicos" ou "racionais". E ninguém vai escolher 'sim' ou 'não' pela "razão" ou pela "ciência". Pelo simples motivo de que nem a "ciência" nem a "razão" fornecem qualquer argumento decisivo para qualquer dos lados.
Não há nenhum argumento científico que possa ser usado como critério para demarcar uma opção errada de uma opção acertada nesta questão. E não há também nenhum argumento "racional" para decidir entre as duas alternativas.
Acontece que o que move (e justamente) as pessoas envolvidas na campanha é precisamente aquilo que o pobre Vitalino Canas arreda com enfado: 'a moral, a ética, o que quer que seja', como ele, profundamente, diz.
Se o que estivesse aqui em causa fosse "científico" ou "racional", nem sequer haveria discussão. O que está aqui em causa é bem mais importante do que aquilo que o desditoso porta-voz parece considerar ser "racional" ou "científico". O que faz com que alguém veja como justo ou injusto praticar um aborto em determinadas condições são precisamente considerações de ordem ética. Ninguém que diga 'sim', aqui, tem uma posição menos ou mais científica do que quem diga 'não'. Porque não é disso que se trata.

(Em rigor, o próprio dr. Canas nem sequer conseguiria pôr, todas as manhãs, os pés fora da cama, se se regesse por critérios exclusivamente "racionais".)

'The jihad now is against the Shias, not the Americans'

O Guardian descreve a situação actual no Iraque numa reportagem com aparente acesso a círculos da insurgência. Se esta descrição corresponder à realidade, então as perspectivas são muito positivas. A influência externa no Iraque parece ter desmoronado. Mas convém desconfiar.

Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

Quem é José Sócrates? (parte I)

Na campanha para as legislativas o candidato Sócrates não precisou de falar muito. As ideias e projecto político eram secundários, bastava-lhe capitalizar a enorme vontade de mudança do eleitorado. Hoje, com dois anos de Governo, já é possível saber mais sobre quem é e o que pensa o Primeiro-Ministro.
A primeira nota é o pragmatismo. Não se encontram grandes convicções ideológicas ou um pensamento político estruturado no eng. Sócrates. Não foi marcado pela revolução de Abril, não foi marxista na juventude, ou especialmente influenciado por correntes políticas ou filosóficas. Nem sequer se lhe conhece uma experiência religiosa ou de acção social relevantes, ao contrário de Guterres, o seu modelo político. Estes factos são importantes para perceber o estilo “Sócrates”. Por exemplo, quando o Primeiro-Ministro fala em reduzir o défice não é por ideologia (não é um liberal disfarçado) mas por necessidade. Isso reflecte-se na praxis do Governo: ninguém pretende reformar o estado social, a escola pública ou o SNS, mas apenas corrigir o necessário para manter o estado das coisas. Isso ficou bem claro na reforma da Segurança Social. Mesmo no combate à burocracia, área forte do Governo, há sobretudo uma preocupação de eficácia. (continua)

Avant la Corrida

A Exposição das Obras de Amadeo de Souza- Cardoso, que está a decorrer até este fim de semana na Fundação Calouste Gulbenkian, merece a pena ser vista.
Como nota positiva: A exposição deste grande Português está realmente muito boa.
Como nota menos positiva: Nestes últimos dias, a qualquer hora, a confusão no espaço tem sido total.
Como observação: Se merece a pena organizar exposições destas; merece muito a pena pensar em soluções que permitam desfrutar do estado da arte...
Para finalizar: Deixo aqui o relato do Missing Painting (In Newsletter da Fundação)
MISSING PAINTING REENCONTRADO
Avant la Corrida (Before the Bullfight), um óleo de Amadeo de 1912, exposto e vendido no Armory Show, nos Estados Unidos, em 1913, por localizar desde essa data, foi agora encontrado. Os esforços desenvolvidos na fase preparatória da exposição acabaram por ser bem sucedidos através de anúncios no site do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, um meio privilegiado para uma busca capaz de atravessar fronteiras e que permitiu reencontrar a obra, na posse de um coleccionador privado americano. Algum tempo depois de se ter colocado no site uma foto dessa e de outras obras desaparecidas, chegou um mail dos Estados Unidos, intitulado “The missing painting”, enviado pelo seu proprietário com a feliz notícia. “A história, aliás, é muito curiosa”, conta a comissária. “O proprietário desconhecia o autor da pintura, mas a sua qualidade despertou a atenção de uma historiadora sua amiga, que através da assinatura, chegou ao site, onde se deparou com a fotografia da obra desaparecida.” Para Helena de Freitas, “trata-se um uma obra magnífica, na linha do cubismo elegante e caligráfico do artista, que teve muito êxito na Armory Show, quando esteve exposta”. Aliás, Amadeo vendeu sete dos oito trabalhos que apresentou nessa mostra, três dos quais se encontram actualmente no Art Institute de Chicago. Avant la Corrida foi entretanto adquirida pela Fundação Gulbenkian e submetida a um cuidadoso restauro, sendo agora apresentada nesta exposição, 93 anos após a sua última exibição pública. Serão também reveladas obras inéditas e outras não expostas desde os anos 50. Uma delas exibe ainda uma moldura original de Amadeo. Como explica Helena de Freitas, “numa das últimas fases do seu trabalho, o artista tratava a moldura como superfície pictórica, mas a maior parte dessas molduras acabaram por ser destruídas nas várias exposições retrospectivas realizadas ao longo dos anos ■ ( In Newsletter da Fundação Calouste Gulbenkian)

Da série "Posta Restante"

"Sem a Igreja cristã, seja a romana, sejam as igrejas ortodoxas, luteranas, protestantes e a anglicana, o teor do debate moral na nossa sociedade seria certamente muito menor. Como tudo puxa para que ele seja pouco e tenda a ser ainda mais escasso, precisamos dessa face da nossa identidade, mesmo que para muitos essa seja uma identidade nostálgica e perdida. Perdida ou actual, ela está lá. Para o "mundo", faz mais falta uma Igreja, sólida, lenta e prudente, ou seja conservadora, do que uma igreja "progressista". Para "progressismo" e "politicamente correcto", já temos que chegue. Além disso, marxistas e "progressistas" fazem muito melhor "progressismo" do que faz a Igreja. Este é também o sentido da obra de Ratzinger."
José Pacheco Pereira, "Joseph Ratzinger, a Igreja e o mundo", in Público, 11/1/07

Entrevista Fedorenta

“Sabendo que o indivíduo se apresentará provavelmente a uma luz que lhe seja favorável, os outros poderão dividir em duas partes aquilo de que são testemunhas; numa parte, que é relativamente fácil para o indivíduo manipular à sua vontade, e que consiste sobretudo nas suas declarações verbais, e numa outra parte, relativamente à qual ele parece dispor de um menor controlo ou a que dá menos atenção, e que consiste sobretudo nas expressões que emite.” (Goffman, A Apresentação do Eu na Vida de Todos os dias)

Se Ricardo Araújo Pereira se considera um mau actor, porque se presta a entrevistas televisivas onde fala de si próprio? Ou será que ainda acredita que... Não. Não pode ser. Trata-se de um jovem minimamente inteligente.

Iraque

Tudo o que lemos sobre a situação actual no Iraque parece confirmar que a violência sectária em nada tem sido agravada pela presença de tropas americanas. Ainda hoje uma reportagem daquelas que só o Wall Street Journal nos consegue oferecer mostra como uma criança de cinco anos percebe o conflito civil com total clareza; e não tem o menor interesse pela presença americana. Está o Iraque hoje pior do que estaria sem a invasão? Sem dúvida. Uma guerra civil, mesmo uma guerra civil clandestina como esta, traz mais miséria do que qualquer tirania. Mas seria a guerra muito pior se a política americana e a atenção do mundo não estivessem concentradas no Iraque? Ninguém pode duvidar. As consequências seriam devastadoras. Seria essa a catástrofe que nos esperaria dentro de cinco a dez anos se a invasão não tivesse acontecido.

Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Aerie Fairy II

Num outro século, David Ricardo escreveu que a tentativa de estimular uma economia via aumento de défice não teria como consequência um aumento da procura. Tal aconteceria porque os consumidores sabem que o défice teria de ser, mais dia menos dia, pago com impostos. Logo, a um aumento do défice seguir-se-ia um aumento da poupança por parte dos consumidores, que fariam provisão para o dia em que a factura inevitavelmente chegaria.

Mais recentemente, em Harvard, Robert Barro desenhou um modelo mais sofisticado, igualmente controverso, que ficou conhecido como a "Hipótese de Equivalência Ricardiana" e que, sem entrar em pormenores, argumentava coisas semelhantes.

Há alguns anos atrás, o New York Times fez uma peça na qual esta teoria de Robert Barro era citada como uma "aerie fairy theory". Barro leu o texto e, não tendo bem a certeza do significado da adjectivação, decidiu, no exame de macroeconomia em Harvard, colocar a seguinte pergunta aos seus alunos:

«The Ricardian view that budgets deficits are irrelevant for the economy has been described as an 'aerie fairy' theory in the New York Times. What is the Ricardian view and what does aerie fairy mean?»

À segunda parte da questão, alguns alunos responderam:

1. «Aerie fairy is essentially a meaningless pejorative term used by social commentators with leftist inclinations to dismiss sophisticated economic theories that they disagree with but cannot fully understand or refute».

2. «Aerie fary means ... totally unrealistic, wishy-washy, non-sense. No offense! Not that I agree

3. «Aerie fary probably means something like I don't know what the hell you're talking about, or, I, personally, never save to pay future taxes».

4. «Aerie fary means in la la land, out of touch with the indisputable, hard facts of the world».

5. «Just as some people believe in fairies, so might people believe in Ricardian equivalence» .

6. «Aerie fary would imply that the theory is devoid of any relevance, utterly out of space, of no bearing in the real world, and perhaps even nutty».

7. «Aerie fary means he's a Keynesian and does not like Neoclassics».

8. «Aerie fary seems to belittle the theory as the work of an academic scribbler out of touch with the realities of saving and investment».

9. «Aerie fary could mean... the author learned macroeconomics when the IS-LM model was in the unquestioned ascendancy» .

10. «Aerie fary means that the New York Times thinks this is weird and wrong».

E porque todos conhecemos alguém assim:

11. « I don't know what aerie fary means. Nobody said that we would be tested on that».

E ainda porque há sempre alguém que acredita:

12. «I don't know what aerie fary means, but I assume it's something good».

Obrigatório ver (se ainda forem a tempo)

Mesmo nos últimos dias, à boa maneira portuguesa, lá fui ver a exposição de Amadeo Souza-Cardoso que está na Gulbenkian - até Domingo. Corram, ou antes voem, como dizia o poema do Sena. Garanto que vale a pena. E a pena, neste caso, é esperar meia hora para comprar o bilhete e outra meia para entrar. Se Portugal fosse um país civilizado, o dito bilhete descontava no IRS ou, pelo menos, nas taxas moderadadoras do ministro Correia de Campos. É impossível que o contacto com tantas coisas belas não nos torne mais honestos, mais saudáveis, mais produtivos, mais altos e louros. O pintor de Amarante é ainda melhor do que eu pensava. O "diálogo das vanguardas", título da exposição (há por lá alguns Macke, Malevitch, Duchamp, Juan Gris, um Picasso muito escondido, além dos seus amigos Delaunay e Almada Negreiros, entre muitos outros), mostra que não ficava nada a dever aos maiores.
O que mais me surpreende, no conjunto, é a espantosa rapidez com que evolui de um estilo ainda impressionista ou simbolista (veja-se O Salto do Coelho, de 1911, pintado aos vinte e quatro anos) para um claro cubismo na maturidade (por exemplo, Entrada, de 1917, um ano antes da morte), que mostra bem o seu intenso contacto, durante os anos em que vive em Paris, com o que de mais inovador se fazia lá fora. A partir de 1912/13, é muito evidente uma mudança de estilo: passa das linhas curvas para as rectas, dos corpos a três dimensões para os volimes geométricos, das paisagens para os retratos e destes para as alegorias. Em suma, do figurativo para o abstracto. Compare-se, por exemplo, o Retrato de Francisco Cardoso, um tributo que presta em 1912 ao tio que sempre apoiou a sua opção pela pintura em detrimento da arquitectura e da caricatura, com Canção Popular. A Russa e o Figaro, uma composição de 1916 em que contrapõe uma página do célebre jornal parisiense a uma boneca de artesanato popular, típica mistura entre o cosmopolita e o pitoresco que sempre lhe agradou.
Avant la Corrida (Antes da Corrida), o quadro cuja compra pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian motivou esta a primeira retrospectiva de toda sua obra, é justamente dessa fase de mudança. E foi para mim, confesso, uma ligeira desilusão. Grande mancha em tons pastel em que se distinguem mal as figuras, não tem a magnificência do desenho de algumas obras anteriores ou a força metafórica das obras-primas que viriam a seguir. Amadeo produz um efeito barroco e sufocante, acumulando elementos, mesmo que muito estilizados: não há espaço livre nem para um alfinete. Não sei se são as figuras que não conseguem respirar ou se sou eu. Mas a sensação de aperto é atenuada pelo dinamismo das linhas, predominantemente curvas (lá está...), e o quadro vive da impressão de movimento que daí resulta, uma impressão que, aliás, o pintor começava por essa altura a transmitir através de recursos mais "cubistas". Veja-se Procissão do Corpus Christi, de 1913, também pertencente ao Centro de Arte Moderna daGulbenkian. E com estes dois Amadeos vos deixo. A três dias do fim da exposição, não sei se têm alternativa...


O homem e as circunstâncias

Antes de se converter ao estruturalismo do materialismo histórico, Marx afirmou:
Men make history, but they do not make it just as they please; they do not make it under circumstances chosen by themselves, but under circumstances directly encountered, given and transmitted from the past.
Lembrei-me desta frase ao assistir à comunicação do presidente americano, anunciando o envio de mais tropas para o Iraque. Impressiona a incapacidade que George W. Bush revela para compreender as circunstâncias em que toma decisões tão importantes. Eis algumas coisas que já teve tempo para perceber:
  • A deposição de Saddam destapou um caldeirão milenar de ódios sectários. Os EUA não "subestimaram a insurgência": pura e simplesmente ignoraram a dimensão histórica e cultural das guerras iraquianas;

  • As tropas americanas foram o catalisador do conflito, mas nunca conseguirão por fim à guerra civil em curso, por mais soldados que enviem;

  • A estabilização do Iraque é mais importante para os países árabes, designadamente a Arábia Saudita e a Jordânia, e para os países europeus do que para os EUA, que se podem dar ao “luxo” de gerir diplomaticamente o caos, eventualmente com menos soldados do que o contingente actual.
São coisas simples, aparecem regularmente nas colunas decentes de opinião especializada e não tenho dúvidas que muitos já as terão explicado aos membros da presidência. Ainda não era tarde para mudar o curso de acção, para controlar a guerra civil iraquiana e isolar politicamente o Irão, dando tempo aos Ayatollahs para terminarem o seu metódico trabalho de auto-destruição. É por isso que causa especial impressão o anúncio de persistência no erro.

George W. Bush exerceu a presidência num momento especial da história, onde a conjunção de circunstâncias –boas e más– o deixaram invulgarmente livre para escolher o seu curso de acção. Foi livre para decidir como poucos presidentes americanos o foram; suspeito que o seu legado presidencial será julgado pela história com a severidade com que poucos o foram.

Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007

Não sabe ou não quer saber

No Público de hoje, João Teixeira Lopes está imparável. Começa por especular (ou seja, ver ao espelho) se Pacheco Pereira não será intelectualmente desonesto, atira-se depois à "aliança liberal-conservadora Sócrates-Cavaco" (sic) e remata com uma tirada de antologia sobre a ETA. Vale a pena transcrever o principal: "A ETA não aprende. Continua a ser um bando de facínoras fundamentalistas, em quem não se pode confiar. A esquerda espanhola tinha iniciado, contra o conservadorismo reaccionário do Partido Popular (herdeiro de boa parte do ideário franquista), um processo ousado de reconciliação. A ETA teve um papel histórico relevante nos últimos anos do franquismo e nos tímidos anos de transição para a democracia. Actualmente baseia-se num racismo étnico partilhado por uma escassa minoria do País Basco".
Continua?
Reconciliação?
Papel na transição para a democracia?
Actualmente?
Perante tanto dislate, só não digo que João Teixeira Lopes "não aprende" porque muito provavelmente nem sequer sabe. Ou não quer saber.
Não sabe ou não quer saber que o independentismo euzkara é, desde o século XIX, profundamente racista e nascido do orgulho histórico de os bascos nunca terem sido conquistados pelos mouros, ao contrário dos outros espanhóis, o que os teria preservado de qualquer contaminação de sangue mestiço. Vá ler Sabino Arana, o primeiro grande doutrinário da coisa.
Não sabe ou não quer saber que a ETA se limitou a cruzar este racismo com a justificação marxista da violência que, nos anos 60, deu origem, por vezes via teologia da libertação, ao terrorismo de esquerda em todo o mundo e, por cá, às FP 25, um grupo benemérito com ex-membros nas listas autárquicas do Bloco, e ao camarada Otelo, em cujo julgamento Francisco Louçã foi testemunha abonatória. Vá ler os jornais.
Não sabe ou não quer saber que o contributo da ETA para a democracia espanhola foi o assasínio do almirante Carrero Blanco, provável sucessor de Franco, um acto politicamente tão estúpido que os "ultras" aproveitaram logo para carpir a tímida abertura do crepúsculo franquista e até o comunista Santiago Carrillo insinuou, mais tarde, só ter sido possível com a cumplicidade dos sectores mais reaccionários das forças de segurança. Vá ler livros de história.
Não sabe ou não quer saber que a ideia etarra de "reconciliação" consiste em matar a sangue frio autarcas e deputados democraticamente eleitos (no País Basco, note-se), pela suprema ofensa de pertencerem a partidos nacionais ou, pior ainda, de terem nascido de pais não bascos - como o jovem vereador do PP Miguel Angel Blanco, filho de um pedreiro andaluz imigrado em Ermua. Vá ler o que quiser, e fique por lá.
João Teixeira Lopes não sabe ou não quer saber. Mas que saiba, ao menos, que há gente que sabe. E que não quer que deixe de se saber.

Agradeço-te Senhor, mais um ano de pilhagens

"Paulo Macedo encomenda missa de acção de graças":
Paulo Macedo fez ontem chegar aos funcionários do Fisco uma mensagem invulgar. O mediático Director-Geral dos Impostos (DGCI) encomendou uma missa de acção de graças pela sua Direcção-Geral e pelos funcionários dos Impostos, e convidou todos quantos se queiram juntar à celebração a acompanhá-lo, hoje, pelas 18h30, na Sé Patriarcal de Lisboa." - in Jornal de Negócios

Da série "Grandes Dúvidas"

Como é que as crianças têm tanta energia às 7 da manhã?

Aerie Fairy

Em conversa recente alguém me dizia que, após anos de trabalho fora da Europa na banca de investimento, dava de certa forma alguma credibilidade à tese clássica da diferenciação das pessoas entre thinkers e doers. No entanto, após o regresso a Portugal, a tese teve de ser revista, pois encontrou um novo espécime que se caracteriza por não pensar muito, não fazer quase nada, ser estruturalmente um pessimista resignado advogando a tese de que se isso pudesse ser feito já alguém o teria certamente realizado, logo é impossível e não podemos fazer nada e as coisas são como são porque têm de ser assim. Estamos onde estamos porque fazemos o que podemos. Amén.

Existindo um clima de atoleiro no país, convenhamos que este espécime era a última coisa que precisávamos. Esta sensação da mediania como destino tem travo a tragédia, e não é só para quem cruza fronteiras. Se as pessoas respondem a incentivos e não existe nada de crónico no nosso ADN, o problema central é o modelo de organização que temos. Mas a cada tentativa de mudança é um Prós e Contras inflamado, um Carvalho da Silva endiabrado ou um qualquer Partido indignado. Toca-se na legislação laboral? Invoca-se Abril, a exploração capitalista e, sobretudo, o medo, esse último argumento que rende na mentalidade do camponês medieval, são os Certificados de Aforro da propaganda em Portugal. Toca-se na propriedade e organização de alguns meios de comunicação do Estado? Ai os nossos filhos e netos, dizia o Conselho de Opinião da RTP. Podemos passar para a fiscalidade, a saúde, a segurança social, a educação, a cultura que o filme continua o mesmo. O país também, e há quem o queira assim e há até quem ache que podia ser pior. Demos graças.

O debate nas sociedades ocidentais é património, e o problema não é a existência de quem pense de forma distinta. O problema é a falta de ideias e de quem as execute. E as poucas que existem, e que são postas no carril da implementação, sofrem uma erosão mais além do que é aceitável por pressão de quem de elas discorda mas sobretudo por cedência de quem mais as deveria defender. As versões finais da legislação laboral ou das mudanças na segurança social durante os dois últimos governos PPD-PSD/CDS-PP são o case study mais adequado. E andamos assim, com pequenas alterações nestas leis de 3 ou 4 em 4 anos, aos poucos, devagarinho, como a nossa taxa de crescimento. O país é frágil e não aguenta. Há as pessoas, não te esqueças. Oremos.

Compreendo que ninguém possa mudar tudo de uma só vez, mas nem sequer tudo é o que se pretende mudar. Compreendo e aceito a ideia subjacente à "arte do possível". Mas fazer tão pouco de ainda menos está para além da fronteira do aceitável. Existia há alguns anos uma discussão de gestão sobre dois modelos algo distintos, debatiam-se imensos argumentos sobre qual dos dois sistemas funcionaria melhor. Seguindo a argumentação pela lógica, as pessoas debateram, debateram e debateram, até ao momento em que passaram ao trabalho de campo, onde se concluiu para grande surpresa que os dois sistemas funcionavam desde que bem implementados. Em Portugal, um dos modelos não funciona e outro não está sequer para venda no escaparate. Por outro lado, os voos estão mais baratos. Blasfémia.

Os despojos de Chamberlain

Como era previsível, a execução de Saddam Hussein devolveu a história recente das guerras iraquianas à discussão pública. Não vejo qualquer necessidade de modificar o que escrevi em Julho de 2005, a propósito do julgamento do ex-ditador e do seu desfecho inevitável. Por outro lado, a maioria das opiniões sobre o Iraque, oscila entre o irrelevante e o histérico –frequentemente são ambas. Em três artigos recentes e muito interessantes, João Marques de Almeida (num) e Rui Ramos (nos outros dois, na coluna regular no Público) regressam a 2003, evitando os disparates mais frequentes na análise das decisões político-militares, motivações e previsibilidade das consequências.

A “construção da democracia” foi sobretudo uma justificação politicamente aceitável para a acção militar, na era das guerras por boas causas. O objectivo estratégico imediato era o derrube de Saddam Hussein. Rui Ramos atribui ao argumento da democratização o papel de nobre mentira, uma fantasia política exigida pela “comunidade internacional” para validar as operações militares. Marques de Almeida é mais circunspecto e recorda que os pretéritos europeus se entregavam à tarefa de civilizar o mundo com o mesmo ardor com que os actuais americanos o pretendem democratizar, mas não aponta o fundamento desse optimismo histórico: a convicção no universalismo da natureza humana e da consequente existência de um modo de governação adequado a tudo e todos, embora com variações admissíveis nas “constituições”.

A saliência focal do ano de 2003 serve muitas vezes para esquecer a história recente das guerras iraquianas: desde 1991 que o governo de Saddam esteve sujeito a uma série de sanções impostas pela ONU, sendo depois reduzido a uma soberania parcial, garantida pela coligação militar que os EUA sustentavam com recursos humanos e financeiros. Este caríssimo regime de contenção –a versão contemporânea dos cercos pré-modernos– comprou, no máximo, uma paz podre e insegura: era permeável à corrupção (o Oil for Food) e exigia uma presença militar permanente nos países árabes adjacentes. Essa presença ocidental foi vista com carácter de ocupação e motivou fortes reacções, principalmente na Arábia Saudita. A impopularidade da Casa de Saud e a permanente necessidade do apoio americano criaram a base social de descontentamento que forneceu à Al Qaeda os meios financeiros e a base de recrutamento do jihadismo. Nessa altura não se ouviu um pio aos que tão vocalmente acusam a actual presidência americana de tornar o triângulo sunita numa escola prática de terrorismo.

Em 2003 ninguém sabia o que fazer relativamente ao Iraque. Saddam percebeu-o e apostou crescentemente no desafio à coligação internacional, antecipando correctamente que o tempo funcionava a seu favor e que o regime de contenção não podia durar para sempre: não há cercos eternos. Restava levantar o cerco ou tomar a cidade. Os EUA, sobre quem recaía a despesa financeira e o odioso político da contenção, não tiveram dúvidas sobre a opção preferível. Serviram umas justificações convenientes à dita “comunidade internacional” e avançaram. Em análise retrospectiva é pelo menos irónico observar as reacções à esquerda: os que sempre garantiram que a verdade não existia, ao ponto de nunca escreverem a dita palavra sem a rodearem de uma razoável dose de aspas, ficaram muito indignados com a possibilidade de alguém lhes ter mentido sobre o estado do arsenal iraquiano de armas químicas e biológicas.

As guerras iraquianas são como algumas fotografias estalinistas: por vezes é mais interessante analisar os que não constam da imagem –e porquê. Desde logo não consta a puissance musulmane: a França. Apesar do aparente paradoxo, o caso francês é o mais simples de compreender. Governada em quatro mandatos contínuos por dois presidentes política e moralmente corruptos –Miterrand e Chirac– a França estava profundamente envolvida ao mais alto nível no escândalo das transacções ilegais de petróleo iraquiano. À 25ª hora, a diplomacia francesa agia ainda como procuradora do governo de Saddam. O que é difícil de explicar, pelo menos à luz da reabilitada razão de Estado, é a ausência da UE, institucional e nacionalmente, com a excepção de britânicos, polacos e figurantes. E no entanto, os europeus estavam entre os principais beneficiários de um potencial sucesso militar americano. A estabilização geopolítica do Golfo Pérsico teria enormes vantagens para a Europa, reduzindo o risco político dos grupos islâmicos residentes na UE e a dependência energética. Este segundo efeito seria o benefício resultante da normalização da extracção de petróleo iraquiana: o Iraque tem as segundas maiores reservas conhecidas de petróleo, que poderão até estar subavaliadas, devido à ausência de trabalhos recentes de prospecção. A sua exploração em condições normais reduziria substancialmente a capacidade da OPEP em influenciar o preço do barril de crude. A incapacidade americana em estabilizar o Iraque prejudica também os europeus e confere um poder negocial acrescido à Rússia, reduzindo as alternativas de fornecimento de energia e aumentando o respectivo custo.

Sobre os interesses de países não directamente envolvidos nas operações militares, já se escreveram disparates prodigiosos. Nem a Rússia nem a China estão interessadas num “falhanço americano”, pelo contrário: a estabilização do Médio Oriente é o único estado de coisas que serve os respectivos interesses. Os chineses porque dependem relativamente mais das importações de energia dessa região geográfica que os próprios EUA: em 2005 40,4% das importações petrolíferas chinesas eram provenientes do Médio Oriente, contra apenas 17,5% das importações totais dos EUA.

Quanto à Rússia, o objectivo de reconstrução imperial passa pela reabsorção de países como a Geórgia e a Ucrânia. Mais uma vez, os políticos europeus demonstram uma incapacidade inexplicável em agirem na prossecução dos seus interesses e em compreenderem os interesses estratégicos de terceiros: a subordinação da Geórgia aos interesses russos é uma ameaça directa à segurança energética europeia e faz dos obstáculos à integração turca um erro crasso. Mas o pior pode estar para vir. Sem uma clarificação da posição europeia face aos esforços americanos de estabilização do Golfo Pérsico, os EUA não perderão muito tempo a perceber os benefícios estratégicos de um realinhamento com a Rússia: em troca do apoio tácito no bloqueio ao Irão, os EUA desistem do apoio às revoluções “coloridas” e fecham os olhos ao torniquete russo que sufoca a economia da Geórgia. O perigo potencial iraniano é o único motivo pelo qual os americanos procuram reduzir o caos iraquiano, mas a irrelevância europeia aliada aos custos da actual situação levarão Washington a procurar alternativas estratégicas.

Rui Ramos argumenta convincentemente que a intervenção americana no Iraque em 2003 está mais próxima do “espírito” de Chamberlain do que de Churchill. Chamberlain sabia o que queria: preservar o império colonial e o que restava da rule Britannia. Confrontado com a irredutibilidade dos factos percebeu que a autonomia global estava condenada e escolheu. As duas condições desqualificam-no como paradigma dos políticos contemporâneos encarregues de decidir sobre o nosso destino europeu. Nem sabem o que querem, nem se lembram do que perderam. Confrontados com os factos fecham os olhos, tapam os ouvidos e esperam infantilmente pela garantia paternal americana de que tudo não passou de um sonho mau. Resta esperar que Angela Merkel tenha uma clarividência um pouco maior: por mais que esfreguem os olhos, o sonho mau dos europeus não desaparecerá e tenderá a piorar.

Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007

Ontem foi lançado mais um jornal gratuito (o quarto no espaço 4 anos). Este é temático (o segundo no espaço de um ano) e dedica-se ao desporto (o primeiro). Chama-se Diário Desportivo.
Como sou um gajo optimista, aqui vai:
Eu quero acreditar que os tipos que investiram neste novo jornal sabem que o mercado publicitário em Portugal está a andar para trás, e fechou 2006 com valores de 1999;
Eu quero acreditar que, antes de terem avançado com este projecto, analisaram as tendências internacionais que apontam para uma diminuição generalizada do investimento na imprensa (muitos gratuitos estão a dar prejuízo);
Eu quero acreditar que os promotores do “Diário Desportivo” sabem que em Londres também só há 4 gratuitos, mas que Londres não é Lisboa nem Portugal;
Eu quero acreditar que os jornais gratuitos de cá, que pertencem a empreendedores nacionais com vontade de ganhar (excepto o Metro), não se vão começar a canibalizar, face à escassez de mercado disponível;
Eu quero acreditar que os espaços públicos onde são distribuídos estes jornais não vão ficar ainda mais sujos com o previsível excesso de oferta;
Eu quero acreditar que o “Diário Desportivo” vai melhorar o seu grafismo porque está muito fraco, tal como já estava a sua campanha publicitária;
Finalmente, eu quero acreditar que os quatro gratuitos actualmente existentes não vão arrasar ainda mais a imprensa paga (Público este ano perde 4/5 milhões, o DN tem pudor de mostrar números).
I Want to Believe Scully.

Da série "Grandes Dúvidas"

Ouvido na mesa ao lado:
-A sério, pá. Conheço pessoas que não gostam de poesia e até são gente de bem.
-Ah! Não pode ser...

É assim...

Lá bem no fundo, qual é a diferença entre o Apocalypto de Mel Gibson e o The Last of the Mohicans de Michael Mann?

Deparamo-nos, em ambos, com o nativo americano bom e o nativo americano mau; o bom tem um ar simpático, o mau não. O bom começa o filme a caçar e de predador passa a presa; no fim mata um punhado de maus e safa-se. Ambos têm excelentes cenas de correria, belos golpes e facadas. Ambos querem fazer-nos crer que têm uma mensagem a transmitir para além das cenas de acção. O bom vive mais próximo da natureza numa teia de relações familiares, íntimas, alegres e calorosas. O mau presta serviço às inautenticidades e crueldades de uma qualquer forma de civilização.

Diferenças? O filme de Michael Mann tem uma bela banda sonora; o de Mel Gibbson não. O filme de Mel Gibson tem fantásticas orgias de sangue, sacrifícios atrozes e aquele gosto característico pela crueza de carne rasgada e ossos partidos.

Se o filme dos Moicanos presta culto integral à parvoíce do “bom selvagem”, o dos Maias presta culto à irritante tese de que o principal sintoma de declínio das civilizações está na forma como estas tratam os seus desprotegidos. Se o primeiro apela a todos os que gostam de histórias da carochinha, o segundo apela particularmente àquela faceta cristã que gosta de histórias da carochinha. Enfim, trata-se de um filme da Disney para adultos que, para nós, vem depois do Natal.

Por tudo isto, adorei.


É o que dá encher as redacções de estagiários





"Chávez anuncia a privatização da electricidade e telecomunicações


O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, anunciou hoje a intenção de nacionalizar os sectores da electricidade e telecomunicações e pôr fim à autonomia do banco central - duas das iniciativas com que pretende acelerar a reforma socialista do país."
Público online, com Agências - 09.01.06

Uma pequena contradição entre o título e o texto, que passou incólume pela redacção das "agências" e pela redacção do próprio "Público".

Nota: às 9:17 o Público corrigiu o lapso. Grande Cachimbo, sempre atento e vigilante.

Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

Aconteceu Taça



Anda praí tudo a perguntar: mas o que é que faltou ao Porto para ganhar ao Atlético?
Eu digo.
Faltaram três penátis - um aos 94 minutos para mandar a bola à barra, outro aos 95 para rematar à figura do redes, e mais outro aos 96 para chutar para fora.
Esperem lá...
Mesmo assim não chega.
E ainda outro aos 97 para marcar e ir a prolongamento.
Depois não sei.

La malaise

Cara Dra.,

Ultimamente não me ando a sentir bem. Não sei se é por causa do aquecimento global, mas é verdade e –creia-me– é bastante inconveniente. Tudo começou com esta acalorada discussão sobre o aborto. O país já é mal frequentado e este referendo não melhora nada o ambiente. Mas é melhor contar-lhe tudo.

Percebi que ninguém contesta que os seres humanos têm direitos morais, a começar pelo direito a existirem, mas há quem questione se os fetos até às 10 semanas de vida serão “humanos”. Qual a alternativa: bichos? Talvez. Mas muitos dos que garantem que um feto em gestação não tem direitos morais porque ainda não é humano, também garantem que os bichos têm direitos morais, designadamente o direito a existirem e a não suportarem sofrimento provocado por acções humanas. Cães, porcos, gatos e até ratinhos têm “direitos” que se pretendem negar a um feto nas primeiras semanas de existência. A revelação de que terei sido sub-bicho na etapa inicial da minha vida deixou-me confuso. Foi então que começaram as dores de cabeça.

Depois disseram-me que a questão era outra: tratava-se de um problema de direitos de propriedade. A mulher grávida é dona do seu próprio corpo e tomando esta proposição axiomática como auto-evidente, os defensores do aborto argumentam que estes direitos de propriedade abrangem o próprio feto. Concluí que não só fui sub-bicho, como ainda por cima fui um okupa, na barriga da minha mãe.

Mas se a relação que existe entre o agente moral e o seu corpo é uma relação de propriedade, então inclui necessariamente o direito de transacção. Isso animou-me: saber que numa hora de maior dificuldade posso vender um rim, ou um bocado do fígado sem ser socialmente impedido ou sequer criticado, é reconfortante. Mas quando me lembrei que o argumento visa especificamente o feto, empalideci: e se a minha mãe me tivesse vendido a um gourmet canibal nas primeiras 10 semanas? Não haveria crueldade porque legalmente eu ainda não era humano. Aliás, tendo sido previamente abortado, nem sequer estava vivo e podia ser transaccionado como um banal pedaço de carne. Às dores de cabeça somaram-se fortes náuseas.

Incomodado, achei que me fazia bem sair de casa. Fui ver aquele documentário de que os defensores do aborto falam quando não estão ocupados com a questão do referendo. Fiquei muito preocupado com o nosso modo de vida inconveniente: o autor do documentário não tem dúvidas que o materialismo capitalista está a destruir o planeta e que se continuarmos por este caminho não sobrará nada para as gerações futuras.

Ele e outros defensores dos direitos ambientais argumentam que as gerações futuras têm direitos sobre as gerações existentes, designadamente o direito a receberem um planeta em condições habitáveis. Mas a maior parte das medidas defendidas como “necessárias” para evitar a degradação do ambiente implicam limitações no exercício dos direitos de propriedade de terceiros, ou até mesmo o seu puro e simples confisco político. E no entanto as mesmas pessoas que invocam a “inviolabilidade” dos direitos de propriedade para defender o direito unilateral a abortar pela mulher acreditam na legitimidade moral dessas políticas ambientais. Por outro lado, uma hipotética destruição do planeta eliminaria os eventuais detentores dos direitos ambientais: as gerações vindouras. Mas se estes têm uma existência contingente e até improvável, como podem deter direitos sobre as gerações actuais? Como reconhecer direitos a seres humanos que não existem e ao mesmo tempo negá-los por completo aos que já existem? É que mesmo sub-bicho e okupa, o feto indesmentivelmente existe e por um milagre profano da lei, às 10 semanas torna-se subitamente humano. Foi nesse momento que comecei a sentir umas vertigens horríveis.

Aguardo a sua resposta,

De Vexa atentamente,

(Assinatura ilegível).