Como era previsível, a execução de Saddam Hussein devolveu a história recente das guerras iraquianas à discussão pública. Não vejo qualquer necessidade de modificar o que
escrevi em Julho de 2005, a propósito do julgamento do ex-ditador e do seu desfecho inevitável. Por outro lado, a maioria das opiniões sobre o Iraque, oscila entre o irrelevante e o histérico –frequentemente são ambas. Em três artigos recentes e muito interessantes, João Marques de Almeida (
num) e Rui Ramos (nos outros dois, na coluna regular no
Público) regressam a 2003, evitando os disparates mais frequentes na análise das decisões político-militares, motivações e previsibilidade das consequências.
A “construção da democracia” foi sobretudo uma justificação politicamente aceitável para a acção militar, na era das guerras por boas causas. O objectivo estratégico imediato era o derrube de Saddam Hussein. Rui Ramos atribui ao argumento da democratização o papel de nobre mentira, uma fantasia política exigida pela “comunidade internacional” para validar as operações militares. Marques de Almeida é mais circunspecto e recorda que os pretéritos europeus se entregavam à tarefa de civilizar o mundo com o mesmo ardor com que os actuais americanos o pretendem democratizar, mas não aponta o fundamento desse optimismo histórico: a convicção no universalismo da natureza humana e da consequente existência de um modo de governação adequado a tudo e todos, embora com variações admissíveis nas “constituições”.
A saliência focal do ano de 2003 serve muitas vezes para esquecer a história recente das guerras iraquianas: desde 1991 que o governo de Saddam esteve sujeito a uma série de sanções impostas pela ONU, sendo depois reduzido a uma soberania parcial, garantida pela coligação militar que os EUA sustentavam com recursos humanos e financeiros. Este caríssimo regime de contenção –a versão contemporânea dos cercos pré-modernos– comprou, no máximo, uma paz podre e insegura: era permeável à corrupção (o
Oil for Food) e exigia uma presença militar permanente nos países árabes adjacentes. Essa presença ocidental foi vista com carácter de ocupação e motivou fortes reacções, principalmente na Arábia Saudita. A impopularidade da Casa de Saud e a permanente necessidade do apoio americano criaram a base social de descontentamento que forneceu à Al Qaeda os meios financeiros e a base de recrutamento do jihadismo. Nessa altura não se ouviu um pio aos que tão vocalmente acusam a actual presidência americana de tornar o triângulo sunita numa escola prática de terrorismo.
Em 2003 ninguém sabia o que fazer relativamente ao Iraque. Saddam percebeu-o e apostou crescentemente no desafio à coligação internacional, antecipando correctamente que o tempo funcionava a seu favor e que o regime de contenção não podia durar para sempre: não há cercos eternos. Restava levantar o cerco ou tomar a cidade. Os EUA, sobre quem recaía a despesa financeira e o odioso político da contenção, não tiveram dúvidas sobre a opção preferível. Serviram umas justificações convenientes à dita “comunidade internacional” e avançaram. Em análise retrospectiva é pelo menos irónico observar as reacções à esquerda: os que sempre garantiram que a verdade não existia, ao ponto de nunca escreverem a dita palavra sem a rodearem de uma razoável dose de aspas, ficaram muito indignados com a possibilidade de alguém lhes ter mentido sobre o estado do arsenal iraquiano de armas químicas e biológicas.
As guerras iraquianas são como algumas fotografias estalinistas: por vezes é mais interessante analisar os que não constam da imagem –e porquê. Desde logo não consta a
puissance musulmane: a França. Apesar do aparente paradoxo, o caso francês é o mais simples de compreender. Governada em quatro mandatos contínuos por dois presidentes política e moralmente corruptos –Miterrand e Chirac– a França estava profundamente envolvida ao mais alto nível no escândalo das transacções ilegais de petróleo iraquiano. À 25ª hora, a diplomacia francesa agia ainda como procuradora do governo de Saddam. O que é difícil de explicar, pelo menos à luz da reabilitada razão de Estado, é a ausência da UE, institucional e nacionalmente, com a excepção de britânicos, polacos e figurantes. E no entanto, os europeus estavam entre os principais beneficiários de um potencial sucesso militar americano. A estabilização geopolítica do Golfo Pérsico teria enormes vantagens para a Europa, reduzindo o risco político dos grupos islâmicos residentes na UE e a dependência energética. Este segundo efeito seria o benefício resultante da normalização da extracção de petróleo iraquiana: o Iraque tem as segundas maiores reservas conhecidas de petróleo, que poderão até estar subavaliadas, devido à ausência de trabalhos recentes de prospecção. A sua exploração em condições normais reduziria substancialmente a capacidade da OPEP em influenciar o preço do barril de crude. A incapacidade americana em estabilizar o Iraque prejudica também os europeus e confere um poder negocial acrescido à Rússia, reduzindo as alternativas de fornecimento de energia e aumentando o respectivo custo.
Sobre os interesses de países não directamente envolvidos nas operações militares, já se escreveram disparates prodigiosos. Nem a Rússia nem a China estão interessadas num “falhanço americano”, pelo contrário: a estabilização do Médio Oriente é o único estado de coisas que serve os respectivos interesses. Os chineses porque dependem relativamente mais das importações de energia dessa região geográfica que os próprios EUA: em 2005 40,4% das importações petrolíferas chinesas eram provenientes do Médio Oriente, contra apenas 17,5% das importações totais dos EUA.
Quanto à Rússia, o objectivo de reconstrução imperial passa pela reabsorção de países como a Geórgia e a Ucrânia. Mais uma vez, os políticos europeus demonstram uma incapacidade inexplicável em agirem na prossecução dos seus interesses e em compreenderem os interesses estratégicos de terceiros: a subordinação da Geórgia aos interesses russos é uma ameaça directa à segurança energética europeia e faz dos obstáculos à integração turca um erro crasso. Mas o pior pode estar para vir. Sem uma clarificação da posição europeia face aos esforços americanos de estabilização do Golfo Pérsico, os EUA não perderão muito tempo a perceber os benefícios estratégicos de um realinhamento com a Rússia: em troca do apoio tácito no bloqueio ao Irão, os EUA desistem do apoio às revoluções “coloridas” e fecham os olhos ao torniquete russo que sufoca a economia da Geórgia. O perigo potencial iraniano é o único motivo pelo qual os americanos procuram reduzir o caos iraquiano, mas a irrelevância europeia aliada aos custos da actual situação levarão Washington a procurar alternativas estratégicas.
Rui Ramos argumenta convincentemente que a intervenção americana no Iraque em 2003 está mais próxima do “espírito” de Chamberlain do que de Churchill. Chamberlain sabia o que queria: preservar o império colonial e o que restava da
rule Britannia. Confrontado com a irredutibilidade dos factos percebeu que a autonomia global estava condenada e escolheu. As duas condições desqualificam-no como paradigma dos políticos contemporâneos encarregues de decidir sobre o nosso destino europeu. Nem sabem o que querem, nem se lembram do que perderam. Confrontados com os factos fecham os olhos, tapam os ouvidos e esperam infantilmente pela garantia paternal americana de que tudo não passou de um sonho mau. Resta esperar que
Angela Merkel tenha uma clarividência um pouco maior: por mais que esfreguem os olhos, o sonho mau dos europeus não desaparecerá e tenderá a piorar.