Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

A extrema-esquerda e a Guerra Civil de Espanha

No Expresso do passado Sábado, o Daniel Oliveira insiste que a Igreja devia ter beatificado os sessenta padres bascos mortos pelos franquistas em 1936 para se redimir da sua "cumplicidade com a ditadura" espanhola. Que é uma vergonha, e são sempre os inocentes que morrem nas guerras (as coisas que a gente aprende com o Daniel...), e a Igreja escolheu mais uma vez o lado dos maus, e só do outro estão aqueles a quem "a democracia deve alguma coisa", etc. Enfim, o que o Nuno Ramos de Almeida já tinha dito no Cinco Dias, mas com mais indignação. Expresso oblige.
Eu gostava de olhar para o mundo com esta simplicidade. A sério. Os bons de um lado, os maus do outro, e o Daniel Oliveira ou o Nuno Ramos de Almeida a distribuir comendas. Gostava, mas não posso - porque nem a história é uma cerimónia do 10 de Junho, nem os bons e os maus andam por aí tão separados como na cabeça do Daniel.
Talvez os que acreditam na bondade da natureza humana vejam no interesse da nossa esquerda pelos altares um sinal de que Deus está mesmo em toda a parte, até na cabeça do Daniel. Será uma conversão paulina? Será que a socialdemocratização acelerada o levou à democracia cristã? Serão efeitos do intenso convívio com os camaradas da Atlântico e do 31 da Armada?
Mistérios da fé. Quanto a mim, pobre céptico, reservo toda a minha esperança em milagres para o Benfica. A súbita devoção da esquerda blogosférica ao santoral tem razões mais terrenas.
Antes de mais, tentar equivaler os sessentas padres bascos fuzilados pelos franquistas aos sete mil padres espanhóis mortos pelos republicanos. Estratégia velha e muito usada. Se alguém lembra os abusos das ditaduras de esquerda, logo nos atiram com os abusos das ditaduras de direita - ou das democracias, se não há ditadura à mão. É uma forma de relativizar massacres.
Acontece que os mortos em causa não se equivalem - e não é só no número. Os primeiros foram fuzilados por razões políticas: tomaram o partido da República, que lhes prometia a autonomia, contra a Espanha centralista. Como diz o insuspeito Raymond Carr, "they were Catholics on the wrong side in a crusade against the murderers of priests and monks (...) who had put Basque nationalism above Catholic unity" (The Spanish Tragedy, 2000, p. 189). Os segundos morreram por razões religiosas: foram assassinados por ódio à fé católica, e seriam assassinados mesmo que fossem zulus. Os sessenta padres bascos foram fuzilados por serem bascos e não por serem padres. Os sete mil padres mortos pelos republicanos, juntamente com outros mil frades, freiras e leigos avulsos, foram-no por serem católicos.
Acontece também que, na tradição cristã (não apenas na católica, mas igualmente na ortodoxa), um mártir é alguém que morre pela fé. Não se trata do caso dos padres bascos. A sua morte é tão repugnante como qualquer outra que resulte de uma perseguição política. Mas não resulta de uma perseguição religiosa.
É isso que o Daniel Oliveira e o Nuno Ramos de Almeida não conseguem disfarçar, por mais fumo que façam. E é por isso que tentam desesperadamente santificar os mortos do franquismo. Os mortos, se misturados, parecem todos iguais. Matem-nos todos e Deus escolherá os seus, gritava-se na noite de São Bartolomeu. Matem-nos todos e beatifiquem-nos todos, grita-se nos Cinco Dias de Arrastão. Pode ser que ninguém dê por nada.
Acontece que nós damos. Em 36 e 37, a esquerda republicana, comunista e anarquista, de que a extema-esquerda portuguesa é hoje herdeira, matou entre oito mil e dez mil espanhóis por puro ódio religioso. Não tinha que ser assim. A República, vitoriosa em eleições, foi bem recebida por muitos católicos, sobretudo no País Basco e na Catalunha - o que motivou a reacção franquista que vimos. Foi a intolerância dos republicanos que atirou a Igreja para os braços de Franco. Quando os bispos de Espanha declararam publicamente o seu apoio à causa nacionalista, na célebre carta pastoral de Setembro de 36, já a perseguição religiosa fizera 6500 vítimas. Para os arautos do lado "a que a democracia deve alguma coisa", eis uma verdade inconveniente. Uma verdade inconveniente porque faz cair pela base o mito da superioridade moral antifascista. E mostra como a violência política está inscrita no ADN da extrema-esquerda.
Não estou a falar apenas do passado.
Qual o dirigente partidário que aplaudiu o ataque dos verdeufémios ao milheiral de Silves no último Verão? Miguel Portas, do Bloco de Esquerda.
Qual o dirigente partidário que minimizou os incidentes do Chiado, protagonizados por anarquistas, no último 25 de Abril? Daniel Oliveira, do Bloco de Esquerda.
Qual o dirigente partidário que foi testemunha abonatória de Otelo no julgamento das FP 25? Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda.
Qual o partido português que tem nas suas listas autárquicas um ex-condenado das FP 25? O Bloco de Esquerda.
Qual o partido português que recebe as FARC na Festa do Avante? O PCP.
E assim por diante.
Tragam-me já o Oscar e o Nobel, sff.

24 comentários:

i figueiredo disse...

Parabéns, Pedro Pocoito. Você está em grande forma!!

NFM disse...

Esperemos para ver a resposta (a haver resposta) do grande
D(emagog)O...

MRC disse...

De facto, faz-me muita impressão o que é que um tipo de extrema esquerda tem a ver com o facto da Igreja querer beatificar a Branca de Neve e os sete anões, o Noddy, o Ruca, um grupo de Bascos, madrilenos ou alentejanos ou o que seja.
O que é que ele tem a ver com isso, se diz respeito a uma instituição que ele abomina?
Não andará o senhor Daniel Oliveira a desperdiçar tempo que poderia utilizar, antes, na promoção do aborto livre, da luta contra o imperialismo americano ou na promoção do casamento entre homossexuais e lésbicas, da liberalização dos charros, etc..
Mas como até a Fernanda Câncio, nos últimos tempos, tem andado a escrever sobre a biblia etc.. só se este pessoal está a pensar em abrir uma Igreja República para fazer face à Igreja Católica e, por isso, andam-se a treinar.
Será?
Já estou a ver o actual Ministro da Saúde a ser canonizado...

Abreu disse...

Não podia concordar mais com o Pedro Picoito.

Mas, francamente, há dois aspectos que não me parecem correctos: desde logo, colocar toda a esquerda nesse grupo de carniceiros extremistas (embora no final explicíte bem).

E, segundo, talvez seja melhor ir tomar um café com o Daniel Oliveira, já está quase a cair no ataque pessoal, e isso já não interessa a ninguém – mesmo que ele mereça.

Anónimo disse...

Concordo plenamente. Como já muitos por aí escreveram, é um desperdício estes textos do Pedro Picoito ficarem-se por estas 4 paredes. Os vizinhos do 31 da Armada bem que se podiam lembrar de abrilhantar a Atlântico (ainda que não seja esse o destino mais adequado).

PS. Não concordo com o Abreu. Isto está longe do ataque pessoal. Está sim da disputa acesa (que com o Daniel funciona bem e torna a discussão bem mais interessante)

JMM

Anita disse...

O Abreu tem razão.

Também vou a esse café com o Daniel O.
Combinem isso.

Beijinhos!

x disse...

Estou mesmo a ver que ainda vão buscar as vítimas da Inquisação como contra-argumento.

F. do Valle disse...

O êxito da esquerda intelectual sempre se deveu à ignorância generalizada daqueles que os admiram: acham-nos giros, irreverentes, jovens de espírito e outras patetices.
Quem saiba um pouco de História, neste caso, da guerra civil espanhola, compreende que o Pedro Picoito até é moderado no discurso. Na verdade, o Daniel Oliveira só debita disparates, confiado que está - infelizmente, com razão - na total ausência de conhecimentos mínimos da maioria dos que o lêem e ouvem.
Concordo com o que diz mrc: que lhes interessa a eles o que diz a igreja acerca de beatificações? Só se têm pena de não lhes calhar uma em rifa... beato daniel oliveira... até que nem soa mal!

Rui Fonseca disse...

Quando ouço falar de questões religiosas o meu entendimento transporta o fio do discurso para as razões primordiais dos argumentos utilizados e concluo, quase sempre, de que a religião caiu na discussão como a mosca no prato da sopa: foi para petiscar e ficaram-lhe presas as asas no caldo.

São poucos os que, ao longo dos milénios, não sujaram as mãos e conspurcaram as consciências quando se bateram em nome de Deus.
E nenhum daqueles que brandiram armas para O glorificar e impor.

Para os que acreditam que só há um Deus, a guerra entre eles (e a maior parte das guerras ditas religiosas foram travadas entre eles) tem de ter, forçosamente, motivações não estritamente religiosas.

A beatificação recente de alguns milhares de religiosos espanhóis durante a brutalidade geralmente conhecida por Guerra Civil de Espanha não pode desligar-se do papel empenhado de intervenção política desempenhado pela Igreja Católica em Espanha ao longo dos séculos.

Lamentavelmente, entramos no sec XXI com um recrudescimento do embate religioso que não é senão um crescendo de confrontos pelo poder mobilizados pelo arvorar das bandeiras do irracionalismo.

O Papa fará as beatificações que entender mas, entendamo-nos, o seu acto não pode ser percebido como uma acção de apaziguamento da sociedade espanhola. A prova disso é que abriu feridas saradas.

Para glória do Senhor?

Nesse caso, qual deles?

Paulo Marcelo disse...

Mereces vários óscares Pedro!

carlosi disse...

Não a(panhe)i, ui, quem será esse "grande D(emagog)O"? LOL

Abreu disse...

Caro JMM,

Mas eu disse "quase"! Se caísse mesmo, seria como o Daniel Oliveira e a extrema esquerda... Felizmente não é, mas a este ritmo arrisca-se.

De resto, concordo.

Fernando Martins disse...

Excelente texto!

Pedro Picoito disse...

Abreu e Anita, venha esse café. Até me ofereço para pagar, já que sou o capitalita de serviço. Mas não vejo onde está o ataque pessoal. Criticar as ideias do Daniel Oliveira, do Nuno Ramos de Almeida ou do respectivo partido é ataque pessoal? O critério é um pouco curioso, tendo em conta que, no artigo e nos vários posts que motivaram esta resposta, os católicos foram acusados à má fé de cumplicidade com uma ditadura. Os católicos não são uma abstracção, são pessoas concretas: sou eu, muitos dos meus amigos, a velhinha da primeira fila da Missa das nove. Pela minha parte, assumo a maculada herança de dois mil anos de erros e heroísmos da Igreja. Mas não recebo lições de amor à liberdade dos que em 1789, em 1910 ou em 1936 andavam a perseguir gente como eu.

Abreu disse...

Caro Pedro Picoito

Repito mais uma vez para evitar confusões: concordo plenamente com tudo o que disse (excepção feita à esquerda que colocou no título, mas isso até pode ser um exercício de estilo). De resto, não podia concordar mais e faz uma excelente crítica ao Daniel Oliveira, assino por baixo.

Mas, como disse, está quase (e reitero o quase!!) a entrar no ataque pessoal, sobretudo com o tom com que o acusa. Isso é simplesmente entrar no jogo fácil dessa esquerda, e dissolver o excelente argumento que faz numas formulações bombásticas.

Como começar a falar de jacobinismos e 1789 (se bem me lembro, foi o Clero que apoiou o Tiers Etat nesse anito...) ou 1910...é uma generalização fácil de mais.

Obviamente, é só a minha opinião, e volto a dizer que valorizo muito mais a sua do que a do Daniel Oliveira.

Cumprimentos,

Pedro Picoito disse...

Caro Abreu, concordo que generalizo quando falo da esquerda, mas também me parece que se percebe qual a esquerda de que estou a falar. Quanto ao tom, peço-lhe apenas que leia outra vez os posts e o artigo a que faço referência.

Abreu disse...

Bem sei que deve ser difícil manter um tom mais elevado face aos posts ofensivos que outros escrevem.
Só disse que vale a pena tentar e não cair, como eles querem e fazem, no espectáculo e na simplicidade. De resto, concordo consigo, argumentou exemplarmente.

Venha a próxima! vai certamente continuar a receber rebuçados dessa esquerda.

FPV disse...

Excelente artigo!
A lata e a hipocrisia desta esquerda "caviar" é uma das suas caracteristicas mais marcantes!
Intitularem-se os arautos da democracia, quando pertencem a partidos que de democratas nada têm, é, no mínimo, caricato!
A verdade é que felizmente será difícl a algum destes senhores assumir o poder. Caso contrário, não é preciso ter muito descernimento ou dons de permonição para prever que se tal acontecesse, o pedro e eu, e todos os outros que comungam dos mesmos valores, estariam, na melhor das hipoteses presos! Porque na verdade, o mais provável é que estivessemos todos no campo pequeno perante um pelotão de fuzilamento!

FPV disse...

lapsus calami: "premunição"

Anónimo disse...

"erros" da Igreja, Pedro Picoito? ;) Pois....maus e violentos são os outros. Esta discusão será sempre viciada.

Adérito.

Pedro Picoito disse...

Erros, sim. Os seus (se for catolico) e os meus. Ao menos sabemos isso. A discussao nao esta viciada para quem nao queira usar a historia como arma de arremesso.

FF disse...

Mais uma vez, excelente. Se eu fosse o Prof MRS não hesitaria em dar nota 20!

Carlos Botelho disse...

O teu texto está muito bom, Pedro. E não fazes nenhum ataque pessoal ao Daniel Oliveira.

Guiluisantunes disse...

Sabe bem ao Picoito falar desta esquerda-caviar, apatetada e inconse-
quente. Eu também concordo que o Daniel Oliveira é só um provocador,
meio analfabetizado e meio "trólóró".
Todavia,colocar no mesmo saco as FARC, que luta há 40 anos (com o apoio do povo)por irradicar do seu país os assassinos do seu povo, é só mais uma manifestação de ignorância ou de ódio de classe.A caravana, não obstante, continuará a passar...