Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

A parábola dos cegos

A cegueira continental dos burocratas que governam a Europa está resumida na frase que o Público atribui hoje a Jean-Claude Juncker, Primeiro-Ministro do Luxemburgo: "Haverá um acordo [sobre o novo tratado europeu] em Lisboa porque tem de haver um acordo em Lisboa".
Alguém me explica porque é que tem de haver um acordo?

8 comentários:

Anónimo disse...

Raramente concordo consigo, mas nesse ponto tem absoluta razão. Essa frase resume na perfeição a atitude dos nossos queridos Eurocratas. Revela sobretudo o grande défice democrático existente na U.E. e sobretudo o grande distanciamento dos supostos "cidadãos europeus" em relação às instituições europeias. Tem de haver acordo porque não existe um cidadão europeu, como tal é preciso criá-lo, se necessário criá-lo de forma artificial, não é um meio novo e original na história. Porém a Europa devido à sua peculiar história parece-me que está a pôr a carroça à frente dos bois, no entanto temo que esta arrojada e duvidosa atitude possa mesmo resultar e que daqui a alguns anos tenhamos essa criatura que é o cidadão europeu. Que cidadão será esse não sei, mas uma coisa já aprendi, é que a U.E. parece algo com vida própria e que tende a ter um movimento contínuo, sendo que a sua força e vitalidade depende da constante transformação dos seus propósitos. O caminho poderá não ser o melhor nem ideal,mas à muito que o "melhor" já não consta do vocabulário dos políticos.

Rui Fonseca disse...

Se o acordo tinha de ser obtido em Lisboa ou não, pode ser discutível. De qualquer modo a actual configuração da União Europeia exige um contrato, a que chamam Tratado, para poder funcionar.

Se esse funcionamento é necessário ou não, depende do ponto de vista do observador. Para mim é, que me confesso europeísta convicto.

Convicto de que Portugal tem muitíssimo mais a ganhar do que a perder com a sua adesão à UE.

Porque aí é que está o cerne da questão: Queremos ou não queremos ser membros da UE? Esse, sim, é talvez o referendo que falta.

Sim ou sopas.

Quanto à discussão dos termos do Tratado V. já leu as suas 152 páginas? Acha viável a discussão de um texto tão hermético na praça pública?

Meu caro, foi por estas e por outras que os homens inventaram a democracia representativa. Há muitos anos já.

All-facinha disse...

Tem de haver um acordo porque está na hora do pequeno almoço.

Pedro Picoito disse...

Ou seja, Rui Fonseca, como o tratado é muito hermético e tem 152 páginas não pode ser submetido a referendo porque o povo, coitado, é um pouco estúpido. Acho que o dr. Salazar também tinha esta ideia de democracia representativa.

Nuno Ferreira Martins disse...

O Rui Fonseca é em si mesmo o paradigma do "Federalista", ele que se assume um "europeísta convicto".

E o cerne da questão, caro Rui Ferreira, não é nada esse: Portugal pertence e quer pertencer à UE. A questão tal como a põe é falaciosa. A questão que realmente interessa é outra: é este o modelo que melhor serve a Europa? E repare que tanto é a pergunta pertinente que nunca foi feita assim de chofre aos europeus.

Claro que para si, que é um "europeísta convicto" isto explica-se facilmente: para quê perguntar aos ignaros dos "europeus" o que têm eles a dizer sobre o seu futuro? E deixe-se de coisas: o texto é curto (demasiado longo para uma Constituição Europeia, mas isso é outra história) e não é nada hermético. Pelo contrário, aponta bem para o que são e para onde querem ir (e como o vão fazer) os "europeístas convictos" como o meu amigo. Essas são desculpas esfarrapadas de quem prefere não ter uma discussão pública (nos casos das discussões públicas, poderiam surgir maiorias que depois não interessariam aos "europeístas convictos", como aconteceu nalguns países...)

E por último: não confunda democracia representativa com esta "Eurocracia" que os "europeístas convictos" seus amigos estão a forjar a centenas de quilómetros dos Europeus.

Rui Fonseca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui Fonseca disse...

P Picoito,

V. diz:"Acho que o dr. Salazar também tinha esta ideia de democracia representativa."

Não acredito que v. ache isso. Porque v. sabe muito bem que Salazar do que fugia a sete pés não era da democracia representativa mas da democracia, qualquer que fosse o seu modo de expressão.

E é neste seu achar confundindo que está a intenção (que julgo propositada da sua parte) demagógica dos que vêm no referendo uma forma de manifestação da vontade do povo por excelência.

Porque o referendo, como v. muito sabe, não é uma forma de democracia representativa. Para os que, demagogicamente, clamam por um referendo a este Tratado, altamente complexo na sua formulação intrincadamente jurídica , só o referendo pode recolher a expressão genuína da vontade popular.

Ora não é nada disso. Alto e bom som diga-se que, em matérias como estas, o referendo é uma oportunidade a que se agarram os grupos políticos para a chicana permanente e é, portanto, altamente antidemocrático.

E antidemocrático porque, precisamente, pretende encostar a democracia representativa para o lugar das instituições não democráticas, assumindo-se como único meio legítimo de expressão do voto e lançando achas para a fogueira do populismo.

Não é. Serviria sobretudo para discutir tudo menos o Tratado.

Há dias, a 13 deste mês, perguntava
uma jornalista a uma peregrina em Fátima, o que achava ela do discurso do Papa que acabava de ser transmitido: Olhe, respondeu ela, não percebi nada, mas acho que falou bem, muito bem mesmo.

Seria assim o referendo acerca do Tratado.

Pergunte-se, em referendo, se queremos ou não continuar a ser membro da União Europeia. Essa sim, seria uma pergunta que não daria lugar a grandes derivas demagógicas.

Abreu disse...

Talvez algumas sugestões.

"Tem de ser aprovado" queria talvez colocar alguma pressão nos Polacos e nos Italianos, ao mesmo tempo tentar impedir que mais algum Estado Membro surgisse com outras pretensões.

Até porque a grande maioria já tinha aceite o texto depois da devida negociação. Claro que ninguém impõe nada, se a Polónia não tivesse aceite não havia acordo.

E assim ficávamos mais uns meses ou mais uns anos com uma UE não adaptada a 27, com os custos, que todos pagamos (bem nós não porque recebemos mais do que damos - talvez devêssemos sair da UE), que isso implica. Talvez essa seja uma razão razoável.

Embora alterações quanto a esse problema só de forma faseada ao longo da próxima década, à europeia.

Quanto à questão do referendo... enfim, comecem por ler a nossa própria Constituição para dissipar dúvidas.

E quanto ao défice de democraticidade, ele existe sim na Comissão Europeia (que tem a exclusiva competência legislativa) mas também existe o Conselho, convém não esquecer. Por outro lado, convém esquecer que o Parlamento Europeu existe.

Por isso em vez de andar facilmente a dizer que a UE é feia, podia-se discutir como tornar a Comissão mais democrática e talvez conferir reais poderes ao PE.

Cumprimentos,