
Outros observadores atentos também se aperceberam: ontem à noite, a RTP-1 transmitiu uma extraordinária entrevista com Zita Seabra. Para além do conteúdo factual, há a assombrosa atitude, o modo frio e objectivo como descreve o passado: o afastamento da família, a vida na clandestinidade, a formação ideológica, a tentativa abortada de revolução socialista em 1975. Deixo algumas transcrições (destaques meus):
Sobre a adesão ao partido comunista aos 16 anos:
“Entrei com a ideia romântica de fazer justiça no país e no mundo. Não se entra para o partido a pensar nos crimes de Estaline (...). Entrávamos em nome dos trabalhadores e do proletariado, que não conhecíamos —nunca tínhamos visto um operário ao pé.”Sobre a disciplina “militar” do comunismo:
“Vivi (...) como uma verdadeira bolchevique. (...) Por isso é que quando depois vim a sair o choque foi brutal, foi o questionar de toda a minha vida e do sacrifício que tinha feito. (...) Eu era uma revolucionária profissional.”Sobre Carlos Brito:
“Tinha tudo o que eu imaginava que era o homem novo do comunismo: dedicado, entregue à luta, não olhando a meios para atingir os fins.”Sobre Cunhal e o PREC como preparação da revolução bolchevique:
“Ele considera-se o Lenine português. (...) Em 1968 o partido comunista toma uma decisão importantíssima: os militantes comunistas vão infiltrar as Forças Armadas. (...) Ele teorizou rigorosamente o que se ia passar [o golpe militar de 25-04-1974] e no dia em que acontece, não acredita. (...) A partir daí todo o PCP está virado para a revolução socialista, para chegarmos ao ‘nosso Outubro’.”Sobre o período entre 11 de Março e 25 de Novembro de 1975:
“[No “Verão quente” de 75] Pusemos o país a ferro e fogo. A 11 de Março tudo acelera e fizemos tudo para evitar as eleições: foi na altura que o COPCON prendeu “meio mundo”, mas as eleições realizaram-se. (...) O 25 de Novembro foi o momento dramático na vida do partido: estávamos a preparar a revolução, eu [i.e.: Cunhal] tinha os estudantes em casa espalhadas por Lisboa para naquela noite do 25 de Novembro receberem armas e passarmos à revolução socialista. Era o ‘nosso Outubro’ (...) Cunhal manda-me à URSS, (...) depois de eu ter questionado por que é que a URSS não veio naquela noite em nosso auxílio, por que é que tivemos de recuar. Claro que já tínhamos tido uma grande vitória: Angola, Guiné e Moçambique já estavam independentes e estavam sob os movimentos de libertação marxistas-leninistas que nós queríamos. Mas faltávamos nós! Naquela noite arriscámos tudo. Cunhal dizia, citando Lenine: nós vamos conseguir a revolução socialista quando tivermos metade dos militares mais um. E não tivemos porque os pára-quedistas mudaram de campo a meio da noite. Sem homens suficientes nas Forças Armadas para tomar o poder, fomos para casa.”Nos blogues há uma espécie de tendência neo-pragmática para a relativização da verdade: desde o psicopata até ao investigador especializado, todos sabem “coisas diferentes” e vão construindo "verdades" alternativas por referência às comunidades imaginadas. Para evitar contribuir para essa tendência, não vou fazer a exegese destas declarações, muito menos do comunismo. Por cá, Pacheco Pereira tem um longo percurso de investigação do comunismo em Portugal. Sobre o marxismo, creio que isto continua a ser insuperável.


3 comentários:
É verdade, foi muito interessante. Gostei particularmente que ela tivesse assumido que acreditava no marxismo-leninismo e que conhecia as suas práticas e não as renegava ao tempo. O contrário teria sido hipócrita. Notou-se uma coisa curiosa: uma vez ou outra, entusiasmou-se a falar do Cunhal e... nesses momentos não falava exactamente como uma ex-comunista: havia ali uma espécie de autenticidade, como se naquele instante acreditasse de novo naquilo.
De facto o que mais me impressionou foi tb a autenticidade. Estranhei, pelo que dela conheço, que não apontasse a razão maior do falhanço comunista: o materialismo. Zita sabe que há mais vida para além desta prodigiosa trampa. Na verdade, de certo modo ainda somos todos comunistas: tudo se explica pela infra-estrutura, pelo interesse. Não há tanta diferença assim, entre a mão invisível e a luta de classes. Creio ter ouvido 'eu tinha os estudantes em casa à espera das armas' e não 'ele' [Cunhal].
Carlos,
Também reparei nesse entusiasmo nostálgico, e embora possa ter várias explicações, há um outro aspecto das declarações de Zita Seabra que conflitua com essa hipótese: ao longo da entrevista ela sublinha bem que a dissidência teve origem na recusa inflexível de Cunhal em aceitar uma revisão dos objectivos do PCP após a derrota do 25 de Novembro. Creio que para Z. Seabra esse terá sido o início de um longo processo de tomada de consciência do que era realmente o comunismo.
As viagens a Moscovo também terão sido elucidativas sobre a capacidade do comunismo em promover outra coisa que não a pobreza generalizada da população (e, claro, o fausto da liderança política).
Hajapachorra,
Ouvi de novo a gravação e realmente ela fala na 1ª pessoa (29:50, aprox). O que faz sentido tendo em conta as responsabilidades dela na UEC. Vou corrigir, mas deixo o comentário entre parêntesis: o plano de revolução socialista era de Cunhal e o PCP era a estrutura política de concretização. Depois do branqueamento político de Cunhal é importante não esquecer que o único projecto político dele era a destruição da democracia e a criação de uma ditadura comunista. Até porque como recorda J. M. Fernandes no editorial de hoje do Público, a “vanguarda intelectual” desses anos é hoje parte da oligarquia burocrática do regime socialista (e não só: é também parte importante do topo da hierarquia académica, do sistema judicial e das empresas controladas pelo Estado).
Não sei se o Carlos tem razão quanto a Zita Seabra, mas “não saber viver num regime constitucional de base democrática” não descreve correctamente o problema de parte da oligarquia socialista: na verdade nunca o desejaram e não vão desistir de controlar o regime.
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