Tenho reparado que grande parte das pessoas que se identificam como sendo "de direita" oscila entre as suas inclinações liberais e as suas inclinações conservadoras. Noto igualmente como se tenta conciliar essas inclinações perante dificuldades várias aparentemente intratáveis. O mais recente exemplo é-nos dado pelo André Abrantes Amaral. Por outro lado, aqui no Cachimbo temos leitores que nos acusam de sermos excessivamente conservadores, e leitores que nos acusam de sermos insuficientemente conservadores. É por estas razões, e por vocação patriótica, que aqui deixo alguns excertos de um texto que escrevi há já algum tempo a propósito de um livro de Daniel Mahoney (um "liberal conservador") sobre Bertrand de Jouvenel (outro "liberal conservador"). Evidentemente, as seguintes linhas não vinculam ninguém, nem esgotam o tema. Mas talvez sirvam para ajudar a perceber o que é o liberal conservador.
"(...) o “liberal conservador par excellence” é “um crítico, com princípios, das ilusões progressistas”. O “liberal conservador” sabe que o pensamento “progressista” – isto é, a ideia de que o “desenvolvimento económico e social arrasta consigo necessariamente o progresso moral” – não é mais do que uma crença ideológica, um salto de fé num domínio para o qual a fé não pode ser invocada. Contudo, sendo um crítico das “ilusões progressistas”, o “liberal conservador” é correlativamente orientado pela “rejeição, com princípios, de sucumbir, quer à nostalgia reaccionária, quer à impaciência revolucionária”. Esta é uma estipulação importante de modo a tornar absolutamente claro que o “liberal conservador” é um tipo liberal de conservador ou um tipo conservador de liberal. Assim, o “liberal conservador” rejeita sem ambiguidades o espírito revolucionário do ultra-conservadorismo. É preciso apenas recordar o movimento da “revolução conservadora” na Alemanha durante as décadas de 20 e 30 do século passado para compreender que a expressão “conservadorismo revolucionário” não é necessariamente um oximoro. Por outro lado, o “liberal conservador” não é tentado pela “nostalgia reaccionária”, presumivelmente partilhada por pensadores do século XX que cantaram as maravilhas da polis grega, ou pelo medievelismo romântico, ou, em termos mais gerais, por todos aqueles cuja relação com a Modernidade é caracterizada por uma revolta sem compromisso. O “liberal conservador” parece ler a proclamação de Joseph de Maistre, segundo a qual “a restauração da monarquia, o que eles chamam contra-revolução, será, não uma revolução contrária, mas o contrário da revolução”, compreender o seu significado e intenção e, ainda assim, permanecer céptico quanto à sabedoria dessas palavras. O “liberal conservador” vê o ultra-conservadorismo revolucionário e o romantismo reaccionário como criaturas da vontade de “pôr um fim à história”, de escapar às “contingências desarrumadas” da história, e da ilusão de que existe uma forma de existência política “sem conflito”.
Para o “liberal conservador”, o homem não é “o seu próprio criador”; a vontade humana não pode ser a única fonte de ordem na existência humana. (...) a vida humana deve ser ordenada por um “sentido de gratidão para com a gratuidade do ser”, e baseada numa reflexão abrangente sobre o facto de o “mundo ser dado”. (...) O “liberal conservador” começa por recapitular a proposição de Aristóteles de acordo com a qual o homem é um animal político. O homem vive, por natureza, numa comunidade política, na qual “poucos bens são simplesmente individuais ou privados no seu carácter”. A boa comunidade política caracteriza-se pela prossecução de um bem comum. É por essa razão que o “liberal conservador” rejeita a abordagem à política puramente individualista tal como é partilhada por muitos liberais. (...) Neste sentido o “liberal conservador” não tem alternativa senão rejeitar todas as formas de “contratualismo”. As teorias contratualistas são (...) “pontos de vista de homens sem filhos e que esqueceram a sua própria infância”. (...) O homem, para além de ser naturalmente político e social, é também um ser histórico. Para que o bem comum possa ser prosseguido deve ser cultivado um certo sentido de comunidade, e portanto de amizade cívica, sem com isso negar “a diversidade inevitável dos homens”. O “liberal conservador” concorda plenamente com a formulação de Burke, de acordo com a qual a sociedade é um “contrato” que vincula os vivos, os mortos e os que ainda estão por nascer, e com isso aceita que a natureza política e social do homem implica uma “obrigação” individual e colectiva relativamente ao passado, ao presente e também ao futuro.
O “liberal conservador” despreza a tirania em qualquer das suas diferentes formas. Ele ama a liberdade, em particular o seu elemento assertivo e aristocrático, e, apesar de acreditar na igualdade moral entre os homens, contempla o “dogmatismo igualitário” como um caminho directo para a tirania e para a miséria humana. O “liberal conservador” receia o crescimento do Estado, não porque seja um libertário que aprecia apenas as iniciativas puramente privadas, mas antes porque o crescimento do Estado envolve a repressão de todas as autoridades e instituições políticas e sociais que não lhe estejam sujeitas. Na época democrática, o “Minotauro” – o Estado moderno e “soberano” –, no seu movimento de expansão, é principalmente hostil às instituições “não-democráticas”, as quais, apesar do seu carácter “não-democrático”, são absolutamente insubstituíveis numa comunidade política saudável. (...)
A um nível económico ou tecnológico, o “liberal conservador” (...) resiste no aplauso ao aforismo de Francis Bacon que apontou o caminho ao homem moderno para o “domínio da natureza com o fim do alívio da condição humana”. Inversamente, ele vê a Terra como a sua “casa” e o seu “jardim”. A ideia de “casa” e de “jardim” evoca a “obrigação especial do superintendente”, em oposição à guerra ardilosa contra a natureza sugerida por Bacon e confirmada por Descartes. Por não ser um reaccionário nostálgico, o “liberal conservador” não é contra o crescimento económico (nem contra as possibilidades tecnológicas) enquanto tal. Mas está pronto a traçar limites à conquista da natureza, a qual conquista em si mesma dá aos homens a ilusão de que são criadores absolutos – a “auto-confiança prometeica do homem moderno” –, para não mencionar o aspecto destrutivo e revolucionário da noção de Schumpeter de “destruição criativa”.
Pertencer ao mundo, e a gratidão para com a sua gratuidade, pressupõem um mínimo de permanência que é ameaçada pela obsessão com a “inovação” e com o “progresso”. E, para além disso, o “liberal conservador” atreve-se a colocar a perguntar fundamental: nós somos (e queremos ser) mais ricos, mais poderosos, numa palavra, mais prósperos, em vista de quê? A felicidade humana requer bens materiais de produção laboriosa, mas também requer bens espirituais que florescem apenas em ambientes especiais. Recorrendo à análise aristotélica da “crematística”, o “liberal conservador”, embora afirme a inquestionável superioridade das economias de mercado relativamente aos seus rivais – reais e imaginários –, aponta para o facto de que a defesa do mercado com vista apenas a mais acumulação de riqueza e poder torna-se moralmente fraca. (...) a confirmação da superioridade prática do mercado como forma de organizar a produção deve continuar, mas não à custa da exclusão de “concepções clássicas e cristãs da vida e da boa sociedade”. (...)
"(...) o “liberal conservador par excellence” é “um crítico, com princípios, das ilusões progressistas”. O “liberal conservador” sabe que o pensamento “progressista” – isto é, a ideia de que o “desenvolvimento económico e social arrasta consigo necessariamente o progresso moral” – não é mais do que uma crença ideológica, um salto de fé num domínio para o qual a fé não pode ser invocada. Contudo, sendo um crítico das “ilusões progressistas”, o “liberal conservador” é correlativamente orientado pela “rejeição, com princípios, de sucumbir, quer à nostalgia reaccionária, quer à impaciência revolucionária”. Esta é uma estipulação importante de modo a tornar absolutamente claro que o “liberal conservador” é um tipo liberal de conservador ou um tipo conservador de liberal. Assim, o “liberal conservador” rejeita sem ambiguidades o espírito revolucionário do ultra-conservadorismo. É preciso apenas recordar o movimento da “revolução conservadora” na Alemanha durante as décadas de 20 e 30 do século passado para compreender que a expressão “conservadorismo revolucionário” não é necessariamente um oximoro. Por outro lado, o “liberal conservador” não é tentado pela “nostalgia reaccionária”, presumivelmente partilhada por pensadores do século XX que cantaram as maravilhas da polis grega, ou pelo medievelismo romântico, ou, em termos mais gerais, por todos aqueles cuja relação com a Modernidade é caracterizada por uma revolta sem compromisso. O “liberal conservador” parece ler a proclamação de Joseph de Maistre, segundo a qual “a restauração da monarquia, o que eles chamam contra-revolução, será, não uma revolução contrária, mas o contrário da revolução”, compreender o seu significado e intenção e, ainda assim, permanecer céptico quanto à sabedoria dessas palavras. O “liberal conservador” vê o ultra-conservadorismo revolucionário e o romantismo reaccionário como criaturas da vontade de “pôr um fim à história”, de escapar às “contingências desarrumadas” da história, e da ilusão de que existe uma forma de existência política “sem conflito”.
Para o “liberal conservador”, o homem não é “o seu próprio criador”; a vontade humana não pode ser a única fonte de ordem na existência humana. (...) a vida humana deve ser ordenada por um “sentido de gratidão para com a gratuidade do ser”, e baseada numa reflexão abrangente sobre o facto de o “mundo ser dado”. (...) O “liberal conservador” começa por recapitular a proposição de Aristóteles de acordo com a qual o homem é um animal político. O homem vive, por natureza, numa comunidade política, na qual “poucos bens são simplesmente individuais ou privados no seu carácter”. A boa comunidade política caracteriza-se pela prossecução de um bem comum. É por essa razão que o “liberal conservador” rejeita a abordagem à política puramente individualista tal como é partilhada por muitos liberais. (...) Neste sentido o “liberal conservador” não tem alternativa senão rejeitar todas as formas de “contratualismo”. As teorias contratualistas são (...) “pontos de vista de homens sem filhos e que esqueceram a sua própria infância”. (...) O homem, para além de ser naturalmente político e social, é também um ser histórico. Para que o bem comum possa ser prosseguido deve ser cultivado um certo sentido de comunidade, e portanto de amizade cívica, sem com isso negar “a diversidade inevitável dos homens”. O “liberal conservador” concorda plenamente com a formulação de Burke, de acordo com a qual a sociedade é um “contrato” que vincula os vivos, os mortos e os que ainda estão por nascer, e com isso aceita que a natureza política e social do homem implica uma “obrigação” individual e colectiva relativamente ao passado, ao presente e também ao futuro.
O “liberal conservador” despreza a tirania em qualquer das suas diferentes formas. Ele ama a liberdade, em particular o seu elemento assertivo e aristocrático, e, apesar de acreditar na igualdade moral entre os homens, contempla o “dogmatismo igualitário” como um caminho directo para a tirania e para a miséria humana. O “liberal conservador” receia o crescimento do Estado, não porque seja um libertário que aprecia apenas as iniciativas puramente privadas, mas antes porque o crescimento do Estado envolve a repressão de todas as autoridades e instituições políticas e sociais que não lhe estejam sujeitas. Na época democrática, o “Minotauro” – o Estado moderno e “soberano” –, no seu movimento de expansão, é principalmente hostil às instituições “não-democráticas”, as quais, apesar do seu carácter “não-democrático”, são absolutamente insubstituíveis numa comunidade política saudável. (...)
A um nível económico ou tecnológico, o “liberal conservador” (...) resiste no aplauso ao aforismo de Francis Bacon que apontou o caminho ao homem moderno para o “domínio da natureza com o fim do alívio da condição humana”. Inversamente, ele vê a Terra como a sua “casa” e o seu “jardim”. A ideia de “casa” e de “jardim” evoca a “obrigação especial do superintendente”, em oposição à guerra ardilosa contra a natureza sugerida por Bacon e confirmada por Descartes. Por não ser um reaccionário nostálgico, o “liberal conservador” não é contra o crescimento económico (nem contra as possibilidades tecnológicas) enquanto tal. Mas está pronto a traçar limites à conquista da natureza, a qual conquista em si mesma dá aos homens a ilusão de que são criadores absolutos – a “auto-confiança prometeica do homem moderno” –, para não mencionar o aspecto destrutivo e revolucionário da noção de Schumpeter de “destruição criativa”.
Pertencer ao mundo, e a gratidão para com a sua gratuidade, pressupõem um mínimo de permanência que é ameaçada pela obsessão com a “inovação” e com o “progresso”. E, para além disso, o “liberal conservador” atreve-se a colocar a perguntar fundamental: nós somos (e queremos ser) mais ricos, mais poderosos, numa palavra, mais prósperos, em vista de quê? A felicidade humana requer bens materiais de produção laboriosa, mas também requer bens espirituais que florescem apenas em ambientes especiais. Recorrendo à análise aristotélica da “crematística”, o “liberal conservador”, embora afirme a inquestionável superioridade das economias de mercado relativamente aos seus rivais – reais e imaginários –, aponta para o facto de que a defesa do mercado com vista apenas a mais acumulação de riqueza e poder torna-se moralmente fraca. (...) a confirmação da superioridade prática do mercado como forma de organizar a produção deve continuar, mas não à custa da exclusão de “concepções clássicas e cristãs da vida e da boa sociedade”. (...)
31 comentários:
Caro Miguel,
A sua mensagem é uma homenagem ao ao bom senso! É a maturidade política encarnada no discurso.
Muito bom!
Discordo apenas do que poderá vir a ser, se o for, a excessiva carga dos valores católicos sobre a educação e moral pública. Algo que repudio com veemência de modo que, se o liberal conservador não souber distanciar-se politicamente do expansionismo doutrinário da igreja receio que chegará a tornar-se um força de estagnação cultural, que é dizer um mau conservador.
É na cultura que o conservadorismo, mesmo liberal, pode tornar-se um risco, se se esquecer de ser liberal e constranger o princípio da diversidade e liberdade criativa e de expressão na cultura, assim como o princípio da autonomia do indivíduo na constituição da sua identidade moral. Não para que faça o que quer e se oponha ao bem comum, mas para que, frente ao usual reducionismo cultural do bem comum, o indivíduo não seja absorvido por ele e se torne unidimensional e robótico.
Esta diversidade cultural não é aceitar tudo, não é relativismo cultural, é evidente que as sociedades devem proteger-se dos extremos que vilipendiam a dignidade humana, mas os limites não devem ser impostos por valores religiosos pertinentes a uma organização privada como é a igreja, nem por uma visão acabada da sociedade e da civilização, mas pela sancção da razão e sensibilidade humana em constante desenvolvimento. O que não implica atitude revolucionária, ou dissolução das instituições, simplesmente, sim, o não cair na rotina mental e cultural, que é a pior das rotinas.
Por isso, homenageando o texto do Miguel, e mais ainda o projecto que lá se desenha, prefiro que o liberal conservador esteja num contexto que o ultrapasse, que conte com ele, que saiba escutar as palavras e projectos de sabedoria que veicula, mas que o ultrapasse.
Julgo com sinceridade que esta ultrapassagem da realidade frente a todos os esquemas, políticos e demais, é benéfica para a dinâmica do próprio esquema.
Caro Miguel,
Agora sim, vai-te matar, belo texto.
Acho que como isto tudo. Mas...
Acho que o Estado é bom, necessário e uma exigência da natureza humana.
Salvaguardando a inviolabilidade dos direitos humanos fundamentais e acreditando que o princípio de subsidiariedade é crucial para qualquer recta ordem social, acho que o Estado pode crescer à vontade.
Sou liberal ou não?
Complementando o meu comentário, nomeadamente esclarecendo um pouco a minha posição face à igreja, diria, como introdução, que reconheço a superioridade da civilização ocidental e muitas das razões para isto estão expressas no texto do Miguel. O que eu não penso, no entanto, é que a igreja seja a fiel depositária desta superioridade, ou até uma depositária especial. Grandes religiões todas as civilizações as têm, portanto aqui não há diferença de maior. O que nem todas têm é uma ciência, arte e filosofia fulgurantes como tem o ocidente, nomeadamente quando influem constantemente sobre a civilização, como se esta existisse ao mesmo tempo que se pensasse. Junto com isto, a laicidade dos Estados, a libertação do povos do jugo religioso e tirânico, a separação de poderes e a iniciativa privada, económica e não só, faz a meu ver a grande superioridade do ocidente.
O meu repúdio constante pela igreja não é relativo à sua existência, como é evidente, mas às suas tentativas de monopolizar a consciência e identidade do ocidente.
Muito bom. Muito bom mesmo.
João, compreendo a tua posição, mas esta descrição do "liberal conservador" também não depende de da ortodoxia religiosa que tu referes. É compatível com ela, mas não depende dela.
Chelo, claro que és um liberal, e a tua visão do Estado não diverge da do "liberal conservador", pois se fosses pressionado a julgar um crescimento do Estado que se fizesse às custas de instituições sem as quais é impossível cultivar certos bens de ordem espiritual e comunitária, também tu dirias: "Alto, já chega! Estado de bem-estar sim, para além disso, não."
Parabéns pelo texto, muito elucidativo.
Agora, talvez seja eu que esteja confuso, mas em alguns pontos um homem de esquerda moderada, um social-democrata, sente-se bastante à vontade com as ideias de um liberal-conservador, sobretudo neste último sobre a economia.
Nem o modo de estar de um liberal conservador parece ir contra o que um social-democrata defende (por exemplo, em relação ao planeta), tirando o papel do Estado – que até na esquerda moderna começa a ser reduzido ou, pelo menos, melhor regulamentado.
Diferenças à parte, não estamos aqui perante um fosso ideológico, pois não? Ou é cair num populismo?
Abraço
O meu ponto é o da anterioridade ontológica e superioridade axiológica da noção de bem comum sobre o princípio de subsidiariedade.
Se afirmar que existem deveres indeclináveis do Estado em relação ao bem comum, que têm de ser cumpridos, mesmo que, em certas circunstâncias, isso suspenda a iniciativa, energia e liberdade das associações menores e intermédias
Isto não criará problemas ao meu liberalismo?
PS. Suspeito que não voltaria a beber copos no Liberty Fund, cara.
Miguel,
O liberal conservador, tal como o descreves, não depende da ortodoxia religiosa, é verdade. Mas o Estado Liberal Conservador já não sei. Aliás, reconhecendo todo o valor e importância das instituições, sem as quais não há civilização, confio primeiro nos indivíduos, nas pessoas.
É por isso, por exemplo, que não duvido do bom carácter dos meus amigos Hugo e Miguel, embora tenha imensas dúvidas quanto ao carácter da sua igreja...
Esta questão dos rótulos, "liberal", "conservador", etc., é muito evolutiva, e os conceitos subjacentes ao rótulo dependem do tempo e do espaço considerados.
Mas, de facto, esta questão de discutir se o rótulo A ou B é isto ou aquilo ou qual dos dois é melhor, tem dado um jeitão nos ultimos 2 séculos à Imprensa, caso contrário não poderiam inventar e variar os assuntos e vender "papel".
Em alturas politicamente delicadas é dos tais assuntos, que a par por ex. dos crimes de "faca e alguidar", que também dão imenso jeito aos grandes Media nacionais serem trazidos à baila para desviar atenções e atirar areia para os olhos das populações.
Agora quem se prende muito por rótulos, acaba na situação de desculpar aqueles que cometem erros ou crimes: um erro ortográfico, ou uma fraude na obtenção de um diploma, por ex., é objectivamente um erro, ou uma fraude, independentemente de o seu autor ser de esquerda ou direta, "ista" sufixo de qualquer coisa, conservador liberal ou social-democrata liberal.
Edição ao post: no ultimo parágrafo substituir a palavra - aqueles - pela expressão "aqueles do mesmo rótulo ou cor partidária"
Junto-me a todos que dizem este post Muito Bom!
Chelo,
A anterioridade ontológica e a superioridade axiológica (lá vem o filosofês...) do bem comum sobre princípios da subsidiariedade ou sobre a protecção absoluta da esfera da dita "sociedade civil" afastam-te do liberalismo clássico, não há dúvida. Mas este "liberal conservador" também não é um representante do liberalismo clássico. Não é o lugar para discutir este ponto, mas a dimensão conservadora e cívica deste "liberal conservador" aproxima-o das tuas considerações. A sua concepção de Estado não é decididamente "contratualista" - é verdade que não desenvolvo o assunto -, e enquanto crítico do "contratualismo", o "liberal conservador" percebe a importância do Estado até para organizar e conciliar na universalidade as tensões provenientes da "sociedade civil".
Quanto aos copos na LF, cara, lembra-te que só os "xiitas" têm autorização para beber o barril todo. Os outros sujeitam-se.
Ó Abreu,
Se considera que o social-democrata aceita o que lhe diz este "liberal conservador", então teremos de concluir que a "social-democracia" faliu. Não é isso que quer, pois não?
Dá gosto ter vindo ao cachimbo, continuem.
Miguel,
1. A tentativa de colar conservadorismo e liberalismo é uma boa maneira de não levar a sério nem uma coisa nem outra.
2. Se a figura do liberal conservador tivesse consistência teórica, não terias dificuldade em desenhá-la por oposição ao simples conservador. Mas assim não acontece. Em muitos casos, os atributos que descreves do liberal conservador não são senão atributos do conservador enquanto tal.
3. Não é por acaso que tens a necessidade de opor o liberal conservador ao ultra-conservador ou ao conservador revolucionário ou ao romântico reaccionário. Como se qualquer tipo de conservadorismo não liberal fosse já um conservadorismo radical! Nota: é claro que em minha opinião todo o conservadorismo é não liberal.
4. O retrato que desenhas do liberal conservador e sua relação com a técnica daria para rir se o caso não fosse digno de chorar. Sugerir que o liberal conservador está pronto a traçar limites políticos à conquista da natureza! como não rir deste homem, deste liberal conservador! num tempo como o nosso, em que o próprio domínio do político já não é do domínio do político enquanto tal, mas antes do domínio da técnica! a política a limitar a conquista da natureza! Não me parece...
5. Dizer, ainda, que o liberal conservador, não obstante confirmar a superioridade prática do mercado como forma de organizar a produção, não quer que esta seja feita (e estou a citar) à custa da exclusão de «concepções clássicas e cristãs da vida e da boa sociedade»... Miguel, estás a brincar comigo!? «Concepções clássicas da vida e da boa sociedade?» «Concepções cristãs da vida e da boa sociedade?» Vai lá perguntar às pessoas o que preferem: se a «coragem»? se a «oração»? se o «dinheiro»? se as «mamas»? A única dificuldade seria escolher entre o dinheiro e as mamas, mas haveria logo quem viesse dizer que com dinheiro podes comprar as mamas, ou com mamas podes fazer dinheiro. Depois voltamos a falar sobre o mercado e as concepções clássicas e cristãs da vida e da boa sociedade!
6. E o que dizer desta tua afirmação: «O ‘liberal conservador’ rejeita a abordagem à política puramente individualista tal como é partilhada por muitos liberais.» Porquê o «puramente» (partilharão os liberais uma visão individualista, mas não uma visão puramente individualista)? E porquê o «muitos» (serão os liberais essencialmente individualistas, mas não todos)? Tudo isto soa a uma tentativa de forçar a realidade a assumir contornos que ela não pode assumir. Tudo isto soa a patranha.
PS. A vontade de pôr um fim à história ou de escapar às contingências desarrumadas da história ou a ilusão de que existe uma forma de existência política sem conflito são elementos característicos do liberalismo. A ideia de que o mundo pode ser simplesmente pacífico, que a existência pode ser destituída de tragédia, que o homem não necessita de sacrificar a vida por propósitos elevados é um desígnio caracteristicamente liberal, contra o qual se insurgiram os Nietzsches, os Heideggers, os Thomas Manns, os Jungers...
Tudo ficou por dizer, mas a impressão geral ficou. É claro que eu poderia ter citado as passagens no teu texto que motivaram os meus comentários, mas para já penso que é suficiente.
(Nuno) "Nota: é claro que em minha opinião todo o conservadorismo é não liberal."
Penso que não, Nuno. Pode muito bem ser-se conservador, no que respeita à valorização da capacidade reguladora da tradição, e das instituições que a representam e manifestam, e ao mesmo tempo liberal no plano económico, proponente do "lessez faire". Margareth Tatcher é um bom exemplo de uma conservadora liberal.
Aliás eu quase que diria que todo o conservador é, também, um liberal. Ou existem assim tantos princípios económicos defendidos pelos conservadores democráticos - não os da Alemanha - que não tenham sido delineados pela agenda liberal?
Ousaria ainda dizer, correndo grandes riscos aqui no cachimbo, onde há, ao contrário de mim, quem entenda de economia, que a agenda económica liberal permitiu que o conservadorismo saltasse da poeira do feudalismo e do absolutismo aristocrático para os tempos modernos.
De certa forma o liberalismo económico travou o ímpeto revolucionário, cansado dos previlégios de sangue da tradição, ao propor um esquema económico onde o mérito individual conta mais do que o berço. Só após este movimento liberal, e em conjugação com os seus valores e propostas económicas, pode o conservadorismo emergir como força política ajustada aos tempos modernos. De certa forma o conservadorismo actual - democrático - não contradiz o liberalismo económico, apenas o tempera com a reverência à tradição e aos valores aristocráticos.
(Por isso também, por vezes, geram aquelas enormidades de gente, (não o Miguel, claro está) que em família e em público falam de valores como o respeito, a tradição, a caridade cristã, e lá fora, no mercado sem rosto, são autênticos predadores.)
Um aparte para o socialismo, já agora, cuja presença suscitou a atenção aos direitos e condições dos desfavorecidos, dos proletários - «os que só tinham a prole» - amenizando na europa democrática os abusos do liberalismo, assim como a indiferença prática do conservadorismo, de cuja, Versailles, do Luis XIV ao XVI, era o exemplo acabado.
Bem haja, caro amigo.
Lobo da voz grossa,
1 e 2. Se prestaste tanta atenção às palavras, devias ter notado que eu digo no início que o "liberal conservador" é um liberal que é conservador e um conservador que é liberal. Daí o uso das duas palavras. É por isso que ele partilha algumas inclinações com os conservadores e outras com os liberais. Simples, não?
3. O conservador não liberal é radical porque para ser coerente ele não pode fazer as pazes com a Modernidade. É radical por que quer atacar a raiz da modernidade. Não se sente em paz no mundo moderno. O conservador escolhe a crítica radical, o "liberal conservador" não se ilude com a Modernidade, mas modera a sua crítica. Chama-lhe ingénuo, se quiseres, que ele chama-te "radical".
4 e 5. Ris-te da presunção de limitar a técnica por meio da política. Bem, no domínio da prática, não parece que haja alternativa. Assim como não há alternativa no caso da limitação do mercado. Abstenho-me de falar sobre as "mamas".
6. Sim, meu caro. Há liberais que não são individualistas radicais. Talvez sejam uma minoria, mas há exemplos. E já que estamos no ponto 6., sabes que para descrever a realidade, que não é geométrica, é preciso usar qualificadores, e evitar generalizações fáceis, especialmente quando são FALSAS.
É verdade que o desejo de pôr fim à história é uma aspiração liberal, mas o tal homem é liberal "conservador". Mas também é um desejo de pôr fim ao conflito a invocação dos tempos bons que já passaram, da idealização dos tempos medievais ou da polis grega. Quando nos refugiamos nesses sonhos, trata-se de colocar determinadas sociedades ou formas de vida fora da história. Tu és o típico Catão (dos tempos de César) de quem Cícero disse que só falava da República de Platão e não era capaz lidar com o facto de que vivia nas borras de Roma. E olha que Cícero adorava (literalmente) Platão. Quer dizer, Cícero percebeu que por detrás de um pretenso intelectualismo, havia em Catão muita "patranha"...
Excelente texto.
Caro "Prof." (imposição do "Prof." Hugo Chelo) Miguel Morgado,
Duvido que a social-democracia tenha falido, aliás, parece-me um exemplo muito actual. Estava mais a falar de alguns pontos, como na economia, de contacto entre os dois pensamentos e que, apesar de tudo, não há um grande fosse entre os dois.
Mas até era capaz de admitir que em alguns pontos de modo de pensar conservador não assustaria um social-democrata.
Ou seja, não são ideologias totalmente distantes. Divergem sobretudo no que toca ao Estado, que não é um mal na visão social-democrata - embora uma atitude de alguma desconfiança não fique mal.
Abraço
Caríssimo Abreu,
A minha conclusão resultava do seguinte raciocínio: se a social-democracia se reinventou adoptando (ou adaptando) considerações conservadoras, então soa um pouco a "não podes vencê-los, junta-te a eles", ou então, "estivemos enganados, vamos arrepiar caminho na direcção proposta pelos...conservadores". Cheira-me a derrota. A si não?
Caro Prof.,
Cheira-me antes a bom senso, porque, apesar de tudo, o fim a atingir continua intacto.
Aposto que só a palavra "fim" arrepia um conservador. Agora no caminho até lá é que, se calhar, demos o braço a torcer.
Agora, derrota, não me parece - pode não ser a melhor ideologia, mas das que temos, é a que tem melhor provas prestadas.
Não é que isso justifique a adesão às suas ideias.
Abraço
"...Cheira-me a derrota. A si não?"
Miguel, será uma derrota do mesmo grau da dos conservadores quando incorporam elementos liberais? Que é dizer, quando os conservadores se tornam conservadores liberais...ou liberais conservadores?
O nosso amigo Abreu mencionou especificamente o aspecto económico. Ora, historicamente a social-democracia nasce de uma suspeita profundíssima relativamente ao mercado (ex: nacionalizações) e ao objectivo declarado da igualização tendencial dos rendimentos. Reconheçamos que não é pouca a distância que a separa da sua homóloga contemporânea.
Sim, sem dúvida, não estamos, por exemplo, na Alemanha dos anos '30; felizmente o contexto mudou e também o conhecimento dos mecanismos económicos.
Do mesmo modo, seguindo o raciocínio do João Vasco, como o Liberalismo se esfreou e já reconhece algum papel útil ao Estado (sobretudo para aparar as enúmeras falhas do mercado).
No anterior comentário referi-me a "fim", se calhar foi um termo um pouco forte. Mas sim, a Social-Democracia sabe para onde quer ir.
Ou, talvez, citando Pinto da Costa (sim, esse mesmo, só não sei se ele não estaria a citar alguém): "Não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí!". Estou a brincar - nunca gostei do Pinto da Costa. Peço desculpa por este apontamento futebolísto, não consigo manter o "serieux".
Grande abraço
Num aparte ortográfico, talvez um preciosismo, emendaria o arcaico, "sancção", que escrevi algures pelo correcto, "sanção".
Só isto!
Abraços gerais.
Miguel,
Muito obrigado. Sou gay, mas sempre achei o casamento e a família uma graça. Gostaria de casar com meu namorado e adoptar muitos filhotes. Acho que sou o verdadeiro conservador liberal. Belo post.
Paulo?
És tu, Paulo?
Bom, a citação é de José Régio. Era bom demais, não era?
Não, não permito. Esta conversa do liberal conservador é uma daquelas piruetas hermenêuticas do tipo “centralismo democrático” ou “tirania democrática” ou, contemplando o mais recente chic à lá trendy, o “hetero-homo”, que me irrita profundamente. Primeiro denota uma certa fraqueza de esprit que se manifesta na tentativa infantil de reconciliar o que não é fácilmente reconciliável. O patético do Freud, interpretaria esta manobra como um desejo por harmonia. Que falta de força: ah, eu sou liberal no mercado mas sou conservador na moralidade…isto não faz qualquer sentido…no mercado damos piruetas, o experimentalismo é o leitmotiv da acção criativa e, na moralidade, fechem-se as janelas que ninguém pode saber que o puto é panasca e que a irmã é lesbo…
o meu comment foi transposto do Atlantico online blogue..é por isso que é un peu bizarre
Júlia W, leu o texto? Ou já tinha a mensagem preparada?
Enviar um comentário