Uma das várias lições que se pode retirar dos últimos anos e que levaram ao resultado do referendo de ontem, é a extrema e crescente dificuldade em uma comunidade impôr, de facto, uma proibição não partilhada pelas comunidades vizinhas, sobretudo em espaços de integração como a Europa, sem fronteiras, com facilidade de "troca", nos quais a mobilidade entre Estados tem hoje um custo por vezes parecido ao que se paga por um taxi em Lisboa num dia de chuva.
A triste sina da nossa pobreza e infoexclusão afastou, pelas piores razões, uma parte da população desta hipótese de mobilidade, aumentando para números de vergonha o fenómeno do aborto clandestino. O PCP tinha alguma razão quando dizia que o aborto em Portugal era um problema de "classe". Na nova geografia dos valores, leis como a que ainda vigora sobre o aborto força apenas o cumprimento ou o risco clandestino aos mais fracos. Foi quase exclusivamente a pensar neles que votei Sim.
8 comentários:
Manuel,
Impressiona-me o teu humanismo ao ofereceres a morte para os filhos dos mais pobres. Estou tocado.
Manuel,
Impressiona-me o teu lado liberal e humanista, respectivamente, por não quereres, no plano dos princípios, impôr eventuais e controversos princípios morais "pessoais" a outros; e por, com realismo, não te esqueceres que 1) uma mulher nunca leva a cabo uma gravidez não desejada e que 2) a actual lei, efectivamente, apenas resulta numa diferenciação económica das mulheres.
Estou tocado pela tua frontalidade. Fico enjoado com o fanatismo do Paulo (e de outros).
A posição do senhor Manuel Pinheiro é muito habitual. Corresponde a considerar que a vida dos pobres (e dos filhos dos pobres) é de menos valor do que a dos burgueses e a dos ricos.
Paulo, percebo que interpretes como uma espécie de anacronismo humanista. Partimos de premissas distintas e seguimos também raciocínios diferentes.
Abraço, Tiago.
Anónimo, isso não será para mim certamente.
Tiago,
Posso discordar de ti algumas vezes, mas nunca te chamei fanático. Não estava à espera.
Paulo,
Se escrever "ao ofereceres a morte para os filhos dos mais pobres.", sobretudo relativamente a alguem que certamente saberas ser "moderado" nao e' sinal de fanatismo, entao nao sei o que sera'. Nao te chamei "fanatico": apontei um sinal de fanatismo. Nao e' um ataque pessoal, e' uma adjectivacao de um comentario teu. E' um facto que nunca me chamaste fanatico, mas isso nao impede que eu, com frontalidade, e tendo essa opiniao, aponte certos comentarios como denotando um certo extremismo, um certo absolutismo, uma forma redutora de ver as coisas. E' nesse sentido que apelido de "fanatismo" o que escreves e, repito, isso nao e' chamar-te fanatico. Foi apenas um "momento". As simples as that.
Abraco,
"Anónimo, isso não será para mim certamente."
Sr. Manuel Pinheiro: Tenho a certeza de que isso não é o que você quer. Mas, de facto, é isso que está propor. Pense com calma, do ponto de vista lógico, no que afirmou. Como os pobres são mais "empurrados" para o aborto clandestino do que os ricos (isto é evidente, é uma platitude), você conclui que, então devem poder abortar. A licitude (ou conveniência, como queira) do acto ficou determinada, não por nenhuma análise do próprio acto, mas sim pela circunstância económica que lhe subjaz. É uma confusão habitual entre circunstâncias atenuantes e licitude. Mas a conclusão é inescapável: nesta lógica a vida dos pobres vale menos.
Caro anónimo,
Já percebi o que quer dizer, mas mesmo não concordando com a totalidade da argumentação, não se esqueça que o (meu) factor de decisão SIM/NÃO não foi exclusivamente esse.
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