THE VALLEY OF THE BLACK PIG
The dews drop slowly and dreams gather: unknown spears
Suddenly hurtle before my dream-awakened eyes,
And then the clash of fallen horsemen and the cries
Of unknown perishing armies beat about my ears.
We who still labour by the cromlech on the shore,
The grey cairn on the hill, when day sinks drowned in dew,
Being weary of the world`s empires, bow down to you,
Master of the still stars and of the flaming door.
W.B. Yeats, The Wind Among the Reeds (1899)
Domingo, 31 de Dezembro de 2006
Da série "O Som e a Fúria"
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Pedro Picoito
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Sábado, 30 de Dezembro de 2006
É do Caracas
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Pedro Picoito
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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006
Qualidade de vida
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Paulo Marcelo
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
Nova Atlântico
Saiu hoje mais um número da Atlântico. Da minha leitura muito rápida, destaco o notável artigo de Rui Ramos sobre a história do PS pós-25 de Abril, "o verdadeiro partido conservador do regime" (não é um elogio), continuação de um outro sobre o mesmo tema que aqui citei há tempos. Vale a pena lê-lo. Nos seus textos dispersos pelo Independente, pelo Público e pela Atlântico, Rui Ramos é actualmente o melhor historiador da vida política da democracia portuguesa. Espero sinceramente, a bem da nação e do mundo civilizado em geral, que o Paulo Pinto Mascarenhas esteja a pensar na colectânea.
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Pedro Picoito
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Da Série "Posta Restante"
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Pedro Picoito
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Motos, origami e dança
As comunidades políticas recebem, produzem e destroem conhecimento. Classificar uma comunidade política, presente ou futura, como “sociedade do conhecimento” envolve um juízo de descontinuidade, de oposição às formas de organização política prevalecentes no passado, que são, presumivelmente, as sociedades do desconhecimento. Trata-se de uma mistura de estupidez estruturalista e ignorância tecnocrática, cujo contraponto é a estupidez irracionalista dos que acreditam que o conhecimento gera poder e que o poder gera conhecimento, num ciclo inquebrável de dominação humana que necessita de ser destruído, alargado aos discursos culturais “alternativos” e que a “opressão da razão” deve ceder prioridade à imaginação poética.
A oposição entre trabalho físico e trabalho intelectual também envolve dois juízos de valor implícitos – e ambos errados. O primeiro é que o trabalho físico dispensa qualquer actividade mental relevante; o segundo é que o trabalho intelectual se baseia essencialmente em esforço mental complexo. Por último, é fácil compreender que a “sociedade de lazer” é apenas outra forma de designar a mesma abstracção materialista que a sociedade sem classes, a última etapa da progressão humana em direcção à “verdadeira” liberdade. Os historicistas marxistas acentuam a centralidade das condições de produção; os adventistas do lazer eterno acentuam a centralidade das condições de consumo.
Vem isto a propósito de um dos mais interessantes ensaios que li este ano: “Shop Class as Soulcraft”, de Matthew B. Crawford, publicado pela The New Atlantis. Soube da existência deste ensaio através da crónica de David Brooks, para o The New York Times de 14 de Dezembro, mas só tive oportunidade de o ler no dia de Natal. Crawford começa por notar que nas últimas décadas houve um notório decréscimo na utilização humana de ferramentas e uma acentuação da passividade nos modos de vida. A redução das competências implica uma redução da capacidade de agência: a passividade torna-se dependência. O objectivo fundamental do ensaio de Crawford é a identificação dos motivos que levaram a uma notória diminuição da preparação escolar para o desempenho de determinadas tarefas essenciais à autonomia prática e moral.
A capacidade de desempenhar bem uma tarefa que se constitui como finalidade em si própria, tem no racionalismo inspirado em John Dewey e em Frederick Taylor o seu adversário primordial. O objectivo racionalista é dissociar completamente o trabalho humano dos aspectos cognitivos de experiência e aprendizagem, reduzindo-o a um processo decomponível em tarefas abstractas, rotineiras e destituído de decisões autónomas, que são concentradas na administração empresarial – a elite dos cognoscenti. Tal como Oakeshott recordava, o racionalismo moderno procura reduzir a totalidade do conhecimento ao conhecimento técnico, suprimindo o conhecimento prático, precisamente porque este não pode ser deduzido a partir de conjunto de regras criadas ex novo, de aplicação puramente mecânica e universal. Como tal é incompatível com o sistema de produção assente na lógica de “linha de montagem”.
Conscientemente ou não, foi-se também sedimentando a equivalência entre trabalho intelectual e esforço mental, com a correlativa equivalência entre trabalho manual e esforço físico. Ambas são erros conceptuais: o trabalho intelectual está a ser progressivamente esvaziado de exigência mental e o trabalho manual exige competências intelectuais que podem ser extremamente sofisticadas. A este respeito, Crawford cita um exemplo interessante: um programa de computador desenvolvido para facilitar a construção de origami (HyperGami) revelou-se particularmente ineficiente em determinadas figuras geométricas. Tratavam-se de formas cuja solução de construção não podia ser obtida por processos algorítmicos porque o modelo não podia ser completamente especificado: havia restrições, detectáveis apenas através da prática, que não eram formalizáveis. A conclusão é generalizável: há conhecimento prático que não pode ser reduzido a conhecimento técnico e sem o conhecimento prático resultante da experiência acumulada – porventura ao longo de gerações – não é possível executar determinadas tarefas com qualidade.
Sobre o progressivo esvaziamento do trabalho intelectual, basta pensar na actividade esmagadoramente rotineira da generalidade das organizações, quer sejam públicas ou privadas. A título de exemplo corroborante, posso citar uma experiência pessoal. Há alguns anos, fui consultor de um ministério; no decurso da aplicação de uma importante reforma legislativa, foi necessário realizar um exercício de optimização espacial de recursos humanos. Os decisores políticos relevantes confiaram a tarefa a uma empresa de consultoria, tendo-me sido solicitado o acompanhamento dos respectivos trabalhos. Os elementos da consultora efectuavam fundamentalmente tarefas de recolha de dados, que depois serviam para calibrar o modelo de optimização; mas o modelo era “fechado”, ou seja: o algoritmo vinha “pronto a usar” e não era acessível aos consultores que o utilizavam. Este tipo de situação não é caso único, nem é especificamente portuguesa: como refere Crawford, na generalidade das organizações há uma tendência para a crescente concentração do conhecimento técnico numa pequena elite.
O racionalismo moderno encontrou aliados inesperados e improváveis na pós-modernidade inspirada em Nietzsche, para quem todas as certezas são apenas ilusões decorrentes de “essencialismos” (por um motivo inexplicável, esta máxima não se aplica à certeza de que todas as certezas são ilusões) e os factos “não existem”: apenas há discursos “alternativos” e não comparáveis. A pós-modernidade irracionalista detesta aquilo a que Crawford chama o infalível julgamento da realidade: aviões que voam em segurança, infra-estruturas físicas como edifícios e pontes que não abatem no decurso da sua utilização normal, ou até uma simples cadeira, confortável e duradoura, expõem de forma demasiadamente real o absurdo do relativismo epistemológico e cultural. Opositores declarados da civilização ocidental, sabem, como Crawford sublinha evocando uma frase de Hannah Arendt, que a durabilidade dos objectos produzidos pelo homem é uma origem da familiaridade do mundo, dos seus costumes e hábitos de relacionamento, entre homens e objectos, bem como entre homens e outros homens. O provisório gera a instabilidade propícia à inovação, geralmente liderada por um capo político, enquanto que a familiaridade gera conforto e cria uma disposição a manter o que é satisfatório, dificultando o tumulto da inovação permanente.
Racionalistas e irracionalistas, nas suas motivações distintas mas convergentes, instrumentalizaram os sistemas educativos ocidentais, tentando eliminar as instituições dedicadas à transmissão do conhecimento prático e forçando a evolução na direcção de uma crescente abstracção teórica, onde a realidade constitui uma interferência indesejável.
Depois de ler o ensaio de Matthew Crawford, decidi ver um documentário há muito (a)guardado: Ballets Russes, a história das companhias de bailado que nasceram a partir da companhia original fundada por Sergei Diaghilev (consulte a lista de compositores e pintores que ao longo dos anos colaboraram com os Ballets Russes). Na cena inicial assiste-se ao reencontro de alguns dos elementos que ao longo dos anos integraram as duas companhias. Nathalie Krassovska, então com 81 anos, faz alguns exercícios: I’m doing a little barre. Two days I didn’t do barre. Krassovska, cuja mãe e avó materna também haviam sido bailarinas – a mãe no Ballet Bolshoi – recebeu delas o gosto e o conhecimento prático da dança. Tal como ela, quase todos os antigos bailarinos entrevistados tinham mais de 80 anos de idade e apesar disso a grande maioria continuava a ensinar diariamente. São vidas inteiras dedicadas ao aperfeiçoamento da prática da dança, numa procura permanente da excelência. Viajando pelo mundo através da II Guerra Mundial, apesar das dificuldades financeiras e das divergências pessoais, os Ballets Russes renovaram a tradição da dança e influenciaram decisivamente o bailado contemporâneo. Quanto a Crawford, preferiu trocar o think tank de Washington onde trabalhava por uma oficina de reparação e restauro de motos antigas. Apesar dos muitos que desistem e dos muitos mais que nem sequer tentam, prefiro terminar o ano de 2006 evocando os exemplos daqueles que defenderam a sua autonomia pela escolha de um modo de vida e que tiveram a disciplina necessária para procurar realizar nele o mais elevado potencial humano.
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FCG
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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006
Factos ...
1) Decretada a morte de Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti. Enforcamento a decorrer nos próximos 30 dias
2) Ramos- Horta, prémio Nobel da Paz, envia mensagem de Natal a Bin Laden
3) Já morreram mais norte-americanos na guerra do Iraque do que civis nos atentados de 11 de Setembro
Comentários?
...........................
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mafalda avelar
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Réplica
Como te disse, não concordo com a primeira parte deste teu argumento. Ao contrário do que escreves, não é a vida que confere o direito, mas sim a "pessoa humana", reconhecida pelo Direito, que carece de protecção a vários níveis, inclusive o mais básico para a sobrevivência, a vida. Por isso o direito à vida é o primeiro (e a condição) de todos os outros direitos, inclusive o direito à liberdade, de que falas. Claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos direitos, pois nem todos são "pessoa". Esta noção é pois essencial. Séculos para densificar o conceito, não percebo como o afastas em duas linhas.
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Paulo Marcelo
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18:08
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A Morte de Deus
Sim, digam-me…
Por que é que a pausa da SuperLiga é tão longa neste tempo de Natal? Onde estão os golos do Nuno Gomes? Os longos cruzamentos do Nani? As exibições de Lucho? Estaremos condenados a sobreviver com os deuses de fora, com os golos de Drogba e do Cristiano Ronaldo? Para onde vamos nós sem os comentários do Paulo Bento? Onde está Fernando Santos, esse homem tão bom? Como é possível viver com 16 clubes? Façam mais uma competição. Transmitam os jogos da Liga de Honra, da IIª Liga e da IIIª. Neste tempo em que se celebra um nascimento, não deixem morrer a nossa Vida. Recuso-me a viver num mundo sem Deus!
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Hugo Chelo
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11:24
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Direito à vida?
Claro que tudo isto tinha a ver com o problema do aborto. Teremos muito a ganhar se colocarmos a questão em termos de um direito à liberdade e não um direito à vida. Os meios de contracepção conferem a cada pessoa uma esfera de liberdade sem a qual a sua vida estaria dependente das necessidades da vida em sociedade. O mesmo socialismo parece resultar de um regime de aborto livre. Como explicar a alguém que cada indivíduo é dono e senhor de uma vida própria se essa vida está inicialmente dependende da escolha de outro? Como defender que cada um de nós não existe para cumprir uma função social quando se defende simultaneamente que essa inconveniência que é ter um filho não deve existir, que os nossos filhos cumprem uma função na nossa vida e nada mais do que isso? Como preservar o sentido agudo de aventura quando os poderes públicos estão ao virar da esquina para nos trazer de volta ao conforto? Como impedir que todas as pessoas à sua volta decidam que uma mulher deve fazer um aborto e como garantir que ela permanece livre de decidir o contrário?
A questão não diz respeito à biologia. É política.
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Bruno Verdial Maçães
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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006
The sense of an ending
Lembremo-nos do que aconteceu há pouco com o Idomeneo em Berlim e, no ano passado, em Genève, a Le Fanatisme, do Voltaire. Muita gente “sensata”, então, considerou as preocupações, ou mesmo as supressões, como razoáveis. Começa sempre assim.
Lembremo-nos, também, do desfile miserável que foi o episódio dos cartoons. Cá, a tristíssima declaração oficial do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, o ‘senhor Amaral’ - como lhe chamou essa criatura sem vergonha que é o embaixador do Irão em Portugal.
Há qualquer coisa que se dissemina. Qualquer coisa que não é nada bonita. Os sinais vão aparecendo por todo o lado. Por exemplo, contaram-me noutro dia que, em Croydon, um borough de Londres, uma piscina municipal, num certo dia da semana, está vedada a qualquer cidadão que a queira frequentar, com excepção dos muçulmanos, porque é para estes que esse dia está reservado (para homens e mulheres, segregados por diferentes alturas do dia, note-se). Como se isto fosse normal.
O que está a acontecer (irá acontecer) a este nosso mundo? Um mundo em que ainda (?) faz sentido ouvir-se o “White Christmas”, celebrar-se o Natal (com menor ou maior “autenticidade”, não vem ao caso), exibirem-se símbolos que podem ser religiosos, sim (e, ao escolher um símbolo, excluo outros, claro), haver liberdade de expressão, opções estéticas carregadas de “ideologia” pouco simpática, etc.
Nada de novo, na verdade: o Nacional-Socialismo chegou ao ponto, também, de alterar o texto do Requiem de Mozart para eliminar as referências “judaicas”, não convenientes para aquela modernidade. Entre outros, 'Deus in Sion' passou a cantar-se 'Deus in coelis' e, na vez de 'in Jerusalem', ouvia-se agora 'hic in terra'...
Um dia, proibir-se-á uma interpretação pública do Messias de Händel, porque também ela poderá ferir ouvidos “religiosamente” susceptíveis. E chegará a data em que, serenamente, sem um protesto, retirarão, da National Gallery, por ofensiva, Uma Alegoria com Vénus e o Tempo, de Battista Tiepolo, ou talvez, por obscena, a Vénus ao Espelho, de Velázquez. Sem um protesto.
Não sei se é acertado, como fazem alguns, comparar esta espécie de anemia do “Ocidente” ao final do Império Romano ou, como outros preferem, à queda de Constantinopla. Mas, esta noite, não consigo deixar de ouvir soar na minha cabeça a expressão the sense of an ending (que, atrevidamente, fui buscar a Sir Frank Kermode) – gosto muito dela. Tem-se a sensação amarga de se estar rodeado de gente para quem nada daquilo que se está perdendo é importante. Gente para quem a falta daquilo que ainda se vai tendo (vendo, ouvindo, lendo, fazendo) não fará, realmente, diferença. A sensação de que se está sozinho. Just my rifle, pony and me.
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Carlos Botelho
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03:13
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Domingo, 24 de Dezembro de 2006
Baldios de Natal
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Paulo Marcelo
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16:14
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Ainda a poluição visual nas cidades
Em complemento a este post do Marcelo, a prefeitura da cidade de S. Paulo decidiu proibir a utilização de todos os tipos de outdoors e painéis electrónicos. Nada mau, para uma metrópole com 11 milhões de habitantes. Obviamente estou contra.
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Francisco A. van Zeller
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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006
Não se governam nem se deixam governar
A reacção da recusa de Rui Rio em dar "tolerância de ponte" no dia 26 de Dezembro mostra quão actual está esta expressão. Passem milhares de anos e de influências de tantas civilizações e cá estaremos, sempre a chafurdar nos direitos e nas conquistas do "povo".Numa reportagem da SIC, em tom pesaroso, a locutora lá ia dizendo que a tal tolerância tinha sido concedida pelo Governo e que "todas as câmaras municipais contactadas pela SIC" iam ter os serviços encerrados no dia 26.
Rio argumentou, e muito bem, que estamos em crise económica e que milhares de pessoas do sector privado - como eu porra - iam trabalhar dia 26. Muitas delas precisam dos serviços da câmara a funcionar, e não a ressacar no enésimo feriado deste ano.
É que só neste mês já tivémos e vamos ter: uma sexta-feira pela Restauração, uma sexta-feira pela Imaculada Conceição, uma segunda-feira pelo Natal e uma segunda-feira pelo ano Novo! O que é que querem mais?
P.S. Eu até admito que Rio faça isto para piscar o olho a alguns sectores da direita. Mesmo assim prefiro que alguém dê o exemplo.
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Francisco A. van Zeller
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16:13
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Feliz Natal em Pecado
Somos uma desgraça de criação, nesta viagem não embarco sozinho e o quotidiano está recheado de muitos mais. Não houvesse mercado e não haveria produto, mas ao menos poder-se-ia disfarçar. Ele serve para nos erguer, escreveu aqui o Picoito em tempos. Não sou um entendido, mas se a doutrina é a que consta por aí, consta também que trabalho não lhe vai faltar.
No metro, que uso regularmente durante o ano, são as pessoas mais pobres que dão sistematicamente esmola. Elas sabem porquê.
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Manuel Pinheiro
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15:03
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Com tanto para olhar ainda sobra espaço para ver?
Já sei que é o Natal, o apogeu do consumismo. Já sei que o frio não ajuda a levantar a cabeça. E que Lisboa não está melhor. Mas será que a globalização capitalista implica vendermos espaço e tempo nas nossas cabeças? Com que direito nos impõem um esforço permanente para preservar a liberdade de ver e pensar naquilo que queremos? E será que sobra espaço para ver alguma coisa?
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Paulo Marcelo
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11:54
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Da série "O Som e a Fúria"
Marc Chagall, A Virgem com o trenó (1947)
A ESTRELA
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada
A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava
(cont.)
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Pedro Picoito
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01:54
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Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006
Da série "Os Outros"
No Mar Salgado, o Pedro Caeiro diz o que há a dizer sobre a recente nomeação de Maria José Morgado para combater a corrupção no futebol. Apesar de quase desaparecido, o Pedro continua a ser um dos melhores marinheiros da blogosfera lusa.
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Pedro Picoito
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12:51
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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006
Zangam-se as comadres...
Depois de ter ficado famoso por dizer que os seres humanos não tinham mais direitos do que os animais, Peter Singer enfrenta agora a fúria dos activistas de direitos dos animais por dizer que ...bem ... que os animais não têm mais direitos que os seres humanos. O célebre filósofo de Princeton não compreende como é que os princípios gerais que, em seu entender, tornam lícitos certos actos praticados sobre humanos – aborto, infanticídio, eliminação dos deficientes, por exemplo – também não sejam aplicáveis aos bichos, justificando, nomeadamente, a experimentação com animais. Foi como uma bomba. Para os grupos de direitos dos animais esta posição é absolutamente inaceitável.
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H. Leitão
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17:55
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Já se zombou acerrimamente com o conteúdo da campanha da Igreja Maná que, nos últimos tempos, tem ocupado os espaços públicos e os pára-brisas dos nossos automóveis. Resta saber porquê. Os princípios teológicos respeitantes à virtude da esperança (ou à falta dela) são perfeitamente adequados. Senão vejamos.O estado nas nossas finanças particulares e públicas é “um caso sério de falta de graça”. Dívidas e despesas imprevistas? Público e privados estão em sintonia. E pode ser que a solução para este caso tão sério dependa integralmente da Graça divina. «Não desespere! Deus quer e pode fazer um milagre nas suas finanças!» Se dos nossos méritos e dos deméritos dos governantes já pouco se espera, então como não desesperar? Consultemos rapidamente São Tomás de Aquino. A esperança tem como fim último a felicidade eterna. O seu objecto é assim um bem futuro sobrenatural, árduo, mas exequível. O desespero, por outro lado, nasce da consideração de que é impossível atingir o bem árduo a que se aspira. A perpetuidade da pena dos condenados no fogo do inferno impede-os de terem qualquer esperança. Ao saberem que não podem evadir-se do castigo, o bem sobrenatural e objecto primário da esperança nem sequer é apreendido como possível.
Dirão que a Igreja Maná exagera. O bem constituído pelo equilíbrio das nossas finanças públicas é um fim árduo, mas precipitamo-nos quando clamamos por Deus. Afinal, tal bem é exequível e nada tem de sobrenatural. Pois permitam-me discordar. É exequível e antevemo-lo como possível. Não estamos na situação dos condenados no inferno. Mas olhem que tem contornos sobrenaturais. Deixem lá ver se completam e publicam a lista dos excedentários da função pública e depois logo falamos. Pois é. Talvez só mesmo um deus nos possa salvar.
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Hugo Chelo
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Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Falta de vigor
A Lactogal, um potentado ibérico da indústria dos lactícinios, decidiu fazer uma campanha do seu produto estrela, o leite Vigor.
A empresa, que se considera socialmente responsável, espalhou por Lisboa uns outdoors onde orgulhosamente afirma "Leite Vigor: dura mais que alguns casamentos", pretendendo demonstrar que o produto se aguenta uma semana no frigorífico sem se estragar.
Ao contrário do Miguel Sousa Tavares, que a propósito do anúncio da TV Cabo "Tchau pai vou bazar", se indignou e exigiu a tomada de posição de algum "organismo público", eu defendo uma tomada de posição individual. Por exemplo enviando um email para info@lactogal.pt .
Em todo caso, o que leva uma empresa desta importância a embarcar em tal estupidez? Deslumbramento perante as meninas da agência publicitária que fizeram o anúncio? Tentação do humor fácil para seduzir novos "targets"? Combate ao ruído do Natal com uma frase "bombástica"?
O mais extraordinário é que, na cabeça de qualquer um de nós "consumidores", o leite está intimamente associado a momentos passados em família: no pequeno-almoço, no lanche, antes de nos deitarmos etc. Ora como uma família, na esmagadora maioria dos casos, nasce do casamento...
Por isso, esta é uma campanha no mínimo contraproducente e que uma vez mais ofende, sem nenhuma necessidade, milhões de pessoas.
Nota: as imagens deste post foram tiradas do site da Lactogal (!)
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Francisco A. van Zeller
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21:41
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Há que reconhecer
O PS deu o dito por não dito e fez bem.
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Filipe Anacoreta
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20:13
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Contra a TLEBS, marchar, marchar
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Paulo Marcelo
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14:32
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Descredibilizar o sistema político
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Filipe Anacoreta
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
Perda de confiança
Sucede que tal como jogar bem não é suficiente para se ser um grande jogador, também não basta ser bom parlamentar para se ser um grande político. Um jogador que trata bem a bola e constrói jogo - mesmo sem ser genial - e não tem fair-play, simula faltas e agride o público e os árbitros, nunca será considerado um grande jogador.
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Filipe Anacoreta
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11:59
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Na própria baliza
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Pedro Picoito
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02:02
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006
O Regresso do Cadáver
Aparentemente, as notícias da morte do projecto constitucional europeu foram muito exageradas. Pela mão de alemães, franceses, escandinavos, portugueses e outros povos amigos da paz e do progresso, o projecto constitucional – com outra designação e com outro rosto – regressará do seu coma prolongado no próximo ano, ou, na pior das hipóteses, em 2008.
Não consta, porém, que tenha sido superada a contradição que o dito projecto constitucional encerra. O tempo passou, mas a “Constituição europeia” ainda é demasiado federal para o que tem (e quer preservar) de nacional, e ainda é excessivamente nacional para as suas necessidades federais.
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Miguel Morgado
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23:11
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Revisionismos
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Pedro Picoito
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11:10
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Sábado, 16 de Dezembro de 2006
Da série "Posta Restante"
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Pedro Picoito
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01:35
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006
Private joke
É caso para dizer que quando Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé...
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Pedro Picoito
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14:50
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Daqui, um atlântico obrigado
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Pedro Picoito
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14:23
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E no Pai Natal
"Acreditem no Ministério Público, na polícia e nos tribunais."
Maria José Morgado, Procuradora-Geral adjunta, in Público, 15/12/06
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Pedro Picoito
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14:18
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Fumo
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Filipe Anacoreta
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13:29
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We Didn't Start The Fire
Em tempo de leitura na Casa Branca, George Bush terá sido visto a assobiar o refrão de uma música de Billy Joel, enquanto caminhava nos corredores com certo e determinado relatório debaixo do braço:
We didnt start the fire
It was always burning
Since the worlds been turning
We didnt start the fire
No we didnt light it
But we tried to fight it
Publicada por
Manuel Pinheiro
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12:51
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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006
A caminho de Damasco
Então não é que o Daniel Oliveira, afinal, quer as tropas americanas no Iraque?
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Pedro Picoito
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16:57
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Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006
Sem sulistas, elitistas e outros liberais
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Pedro Picoito
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Última Hora II
Num inquérito realizado em Lisboa e Porto, 400 mil portugueses confessam que já difamaram alguém. O inquérito será divulgado via internet no âmbito de uma campanha que pugna pela despenalização dos crimes contra a honra. A «Associação Liberal Social - Liberdade sim Prisão nunca mais» defende que a honra já não é o que era.
Publicada por
Filipe Anacoreta
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16:08
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Última hora
Publicada por
Filipe Anacoreta
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13:08
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Carta Aberta
Exma. Frances Kissling (Presidente da CFFC),Quando me deparei com a organização Catholics for a Free Choice (CFFC) e com as imagens da sua campanha publicitária “Good Catholics use Condoms”; quando percebi que defendiam “o direito dos indivíduos e casais a decidirem quando, de que forma, e como formarão famílias”, considerei que havia esperança para o meu caso. Porém, a sua organização católica afirma apenas o “respeito e o reconhecimento de pessoas e relações gays, lésbicas, bi e transsexuais”. Isso não me chega e a esperança deu lugar ao desânimo. Volto a estar só no mundo católico.
Sou católico. Sou heterossexual. Sou casado. Sou um heterossexual com tendências poligâmicas profundas e o problema é que a Igreja afirma “que a poligamia não está de acordo com a lei moral”. Tal como os homossexuais, eu não escolhi a minha condição e a génese psíquica da minha tendência está por explicar. Também para mim esta condição é uma provação.
Desejaria todos os dias unir-me casualmente a (pelo menos) outras duas mulheres adultas. Naturalmente, com o consentimento delas e da minha esposa (com quem já falei sobre o assunto e que me aceita como sou). A Igreja afirma que o matrimónio deve ser uno, indissolúvel e que a fidelidade é um elemento irrecusável. Mas como a senhora sabe, a Igreja “é uma estrutura política totalmente masculina, onde o poder depende do compromisso de não ser casado e de ser celibatário. Que políticas se podem esperar de pessoas que levam uma vida deste tipo?”(Entrevista ao Público, Domingo, 10 de Dezembro, p.14)
A sociedade poderá chamar-me o que quiser. Mas acho que não tem direito de me impor os seus valores familiares ocidentais e burgueses. Noutras culturas e noutros tempos (diz-se que até vem na Bíblia) a poligamia é moralmente aceite. Os cristãos recordem-se ainda que não se deve atirar a primeira pedra.
Tem razão senhora Kissling. De facto, “sempre me pareceu que o que Deus pretende de nós é que sejamos responsáveis ao trazer crianças para este mundo e que a nossa capacidade para sermos sexuais é uma coisa boa.” Por isso é que só eu teria filhos no casamento e usaria o preservativo fora do casamento. Na minha vida, a responsabilidade e a sexualidade gratificante andariam de mãos dadas.
Enfim, não entendo porque é que esta organização não defende o meu caso. Volta a ter razão quando diz que os católicos não ligam nada ao Papa. “Os católicos divorciam-se, os católicos usam contraceptivos, os católicos abortam, há casais homossexuais católicos.” Mas eu também existo. E da próxima vez que vier ao nosso país, lembre-se de mim. De facto, os nossos líderes religiosos “não têm experiência do quotidiano. E quando não temos essa experiência é muito fácil estabelecer regras para as outras pessoas”. Por isso é que a sua organização católica deveria defender, perante a Igreja dos padres, pessoas como eu. Não entendo a fobia que a Igreja tem contra mim. Logo contra mim. Logo eu, que até nem sou má pessoa.
Respeitosamente,
T.
Publicada por
Hugo Chelo
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11:20
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Da série "O Som e a Fúria"
LOS BORGES
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
Jorge Luis Borges, El Hacedor (1960)
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Pedro Picoito
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Crimes no espesso Oriente
A catástrofe em que se tornou o Iraque veio recordar-nos uma coisa que deveríamos saber desde Burke e Tocqueville: não basta fazer eleições para ter uma democracia. É preciso "algo" mais - uma sociedade civil forte, uma sólida cultura de tolerância e sobretudo elites verdadeiramente comprometidas com a liberdade. O maior erro de Bush e dos neoconservadores terá sido pensar que se podem exportar as instituições democráticas na ponta de um canhão para latitudes onde a sociedade civil não existe, esmagada entre um Islão tribal e um Estado tirânico, "this utopian fantasy that you can add water and get George Washington everywhere", como disse o republicano John Hulsman. Esquecemo-nos demasiado depressa que George Washington e o resto do kit democrático do Novo Mundo nasceram do sistema representativo medieval e de mil anos de luta entre a Igreja e o Estado no velho continente.
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Pedro Picoito
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006
Da série "O Som e a Fúria"
(...)
The new year walks, restoring
Through a bright cloud of tears, the years, restoring
With a new verse the ancient rhyme. Redeem
The time. Redeem
The unread vision in the higher dream
While jewelled unicorns draw by the gilded hearse.
(...)
T.S. Eliot, Ash-Wednesday (1930)
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Pedro Picoito
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23:45
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Pelos vistos a dose não chegou
1. estivesse a considerar o problema demográfico que existe em Israel, onde os não judeus se multiplicam a uma taxa bastante superior à dos judeus;
2. se estivesse a referir ao desaparecimento gradual dos judeus na América (via casamentos).
Mas não é isto que vai na sua cabeça. Porque quem acredita num passado sem holocausto, acredita noutras coisas igualmente sinistras.
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Francisco A. van Zeller
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Ou o futebol acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o futebol
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Paulo Marcelo
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Literatura Salgada
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Filipe Anacoreta
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Quaestiones

Deve um católico e liberal lamentar a morte de um ditador? Poderá sequer relativizar a sua governação em função das "circunstâncias" ou deve avaliá-la como essencialmente o resultado da "agência moral", com a correlativa responsabilidade pelos actos? Terá um católico o dever moral de advogar a deposição de tiranos?
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FCG
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
Nóbeis
Por outro lado, a consistência e o bom senso dos prémios Nobel em Física são impressionantes. É “bingo” ano atrás de ano. Estive a olhar para a lista dos premiados dos últimos 30 anos e só vi o que parece ser um flop claro -- em 1987, com o prémio a ir para J. G. Bednorz e K. A. Müller (supercondutividade em materiais cerâmicos: uma descoberta mais ou menos casual, sem compreensão e sem brilho) -- e alguns prémios “assim-assim”, que parecem ter atribuído uma importância (talvez) excessiva às capacidades organizativas e de “management”, ou são a derrapar para a engenharia -- por exemplo, Carlo Rubbia (1984) ou Georges Charpak (1992). Tudo somado, pouquíssimos deslizes e inclusivamente lapsos para os quais, com boa vontade, se pode fazer uma defesa credível. Na física a comissão tem até conseguido corrigir a tempo alguns atrasos que ameaçavam escândalo: Ernst Ruska, o inventor do microsópio electrónico, ganhou o prémio em 1986, o que foi mesmo à justa, porque morreu dois anos depois; e Vitaly Ginzburg recebeu finalmente o prémio (2003), aos 83 anos. Mas o que é excepcional e notório é que os verdadeiramente fora-de-série foram sempre recompensados e na lista estão os nomes que daqui a muitas décadas ainda serão mencionados com respeito e admiração: Laughlin (1998), t’Hooft (1999), Abrikosov (2003), Wilczek (2004), etc. Na física, que me lembre, Forster, Eliot ou Borges nunca ficaram de fora.
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H. Leitão
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Domingo, 10 de Dezembro de 2006
Da série "Posta Restante"
Vasco Pulido Valente, "O Socialismo no Porto", in Público, 10/12/06
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Pedro Picoito
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Da série "Grandes Dúvidas"
Este novo concurso para eleger o melhor monumento português parece-me bem, mas...
...e se o Salazar ganha outra vez?
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Pedro Picoito
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Sábado, 9 de Dezembro de 2006
Consequências
Em primeiro lugar, Royal deveria ser recordada do óbvio: o Banco Central Europeu não possui o monopólio da “decisão económica” e Trichet não determina o “futuro das nossas economias”. Por mais importante que seja a política monetária, esta não esgota o âmbito da política económica. As instituições políticas europeias partilham com as instituições políticas dos vários Estados-membros (é notável que, no seu discurso, Royal se tenha esquecido das segundas) a jurisdição sobre a política económica, à excepção da política monetária. Não é o Banco Central Europeu que faz os orçamentos, que determina a lei fiscal, o número de funcionários públicos, nem o investimento estatal na educação ou na saúde. Não é o Banco Central Europeu que aumenta as pensões de reforma, a idade da aposentação, nem o salário mínimo.
Também não são muito evidentes as ligações entre a intenção de Royal e as consequências da sua denúncia. Dizer que o Banco Central Europeu deve estar “sujeito a decisões políticas” deliberadas no Eurogrupo e no Conselho Europeu significa a destruição imediata da independência do Banco Central Europeu e a politização irrestrita das questões monetárias e cambiais. Boa receita para destruir a União Monetária, e, por arrastamento, a União Europeia, mas tenho dificuldades em perceber como é que o socialismo europeu pode querer reivindicar a paternidade destes sarilhos. Qualquer socialista português com responsabilidades governativas e noção da realidade deve ter sentido um arrepio a percorrer-lhe a espinha.
No entanto, o discurso de Royal é útil na medida em que permite vislumbrar uma tendência. O socialismo europeu, em particular na versão francesa e espanhola, adoptou o caminho “populista”. Bem sei que em Portugal a palavra está saturada, mas neste caso não há alternativa. Royal assemelha-se ao “populista” do final do século XIX William Jennings Bryan quando este se bateu pelo “homem comum” e denunciou o padrão-ouro. Tal como Bryan, também Royal poderia dizer “Não enterrareis no sobrolho do trabalho esta coroa de espinhos, não crucificareis a humanidade numa cruz de ouro” (reconheço que a laicista Royal teria de evitar as referências bíblicas, e que substituiria o ouro pelo euro). No imaginário de Royal, o Banco Central Europeu ocupa a posição de instituição tenebrosa da igualmente tenebrosa “globalização”, apostada no ataque incessante aos “direitos sociais” e ao “modelo social europeu”.
A campanha do referendo da Constituição europeia fez escola entre os socialistas franceses. Ensinou-lhes que o único caminho que resta ao socialismo é o de travar uma guerra catastrófica. Os socialistas franceses e os seus discípulos resolveram, em nome das “globalizações alternativas”, declarar guerra a um mundo que não compreendem. Esta crítica provavelmente não os incomoda. Pelo menos, podem consolar-se com a preservação da sua “identidade” e da sua “vocação”, a de ser o partido dos “ideais” e do “sonho de um amanhã diferente”.
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Miguel Morgado
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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006
Rui Rio
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Filipe Anacoreta
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
Coisas que aconteceram hoje no Porto
O Primeiro-Ministro e o Ministro da Administração Interna reuniram de emergência devido ao falso alarme de sequestro de um avião da Lufthansa.
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Pedro Picoito
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23:39
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Mas o que se passa com este país?
O país está mal, sobre isso não pode haver dúvidas. Basta olhar para as universidades, o parlamento, as livrarias, os jornais, as empresas, e comparar com o que acontecia há dez anos. Mas porquê? Eis uma explicação plausível: Portugal, um país historicamente fechado ao exterior, está hoje mais fechado do que nunca. Um muro impenetrável faz de fronteira. A questão mais interessante, para mim, é perceber como isto pode suceder num mundo onde as fronteiras valem cada vez menos. Porque caminha Portugal na direcção contrária? E porque caminha quase sozinho?
O paradoxo nada tem de paradoxo. Não há lugar para todos no mundo global. Num mundo que pela primeira vez se descobre a si mesmo, há demasiado a descobrir. O que pode fazer um pequeno país sem nada de muito notável senão desaparecer na vertigem? Se os outros não se interessam por nós, nós também não nos interessamos por eles. Quem andou no liceu sabe como estas coisas funcionam.
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Bruno Verdial Maçães
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23:12
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A caravana da morte revisitada
Garanto-vos que não sabia que ele tem coração.
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Pedro Picoito
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16:50
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"Quem disse que as crianças são sempre bem vindas" - Parte II
Recordo-me também de outros casos em que, depois da difícil decisão, a espera para o acto legal foi grande (a verdadeira selvajaria do sistema); recordo-me também de escutar casos de mulheres, sem condições, que engravidaram. Já li muitas reportagens sobre casos de aborto clandestino, sobre casos de risco de vida, sobre casos humilhantes da condição humana. Também já tive conhecimento (como certamente todos nós) de casos de dúvidas que se tornaram vidas. Crianças que hoje têm brilho no olhar. Crianças que se tornaram estrelas do universo que as rodeia. Crianças que estiveram um dia prestes a deixar de ser vida. Mas que nasceram. Foram fruto da decisão. Umas sim, outras, não. Outras também não foram felizes. A decisão foi “deixar nascer”. A evolução foi “ cresce por ti” . Enfim… O que está certo? O que está errado? Será que a máxima: “a minha liberdade termina onde começa a dos outros” ainda é válida? O que é que Nós, enquanto cidadãos, podemos fazer para evitar que este drama continue a existir?
Será que aos mais novos falamos abertamente de amor e sexo? Será que nos colocamos nos seus lugares? Será que já nos faltou pão em casa e que depois de uma sessão de pancadaria engravidamos? Será que já nos lembrámos de falar de métodos contraceptivos aos homens, mulheres e jovens da nossa sociedade? Será que falamos sem tabus sobre a vida, sobre a importância do amor, da familia e sobre os valores da nossa sociedade?
Muito se tem dito e escrito, merecidamente dada a importância do assunto, sobre a liberalização do aborto. Resumidamente, estamos a falar, para uns, de direito à vida; para outros, de direito à liberdade de escolha. E o que é a escolha senão um direito democrático, ganho ao longo dos anos, por tantas vidas. É complicado falar de actos dolorosos. Não só física como psicologicamente. Actos que não têm retorno. Actos que ficarão, vivos ou não, para sempre presentes na memória de quem um dia teve que decidir.
Por isso creio que o mais importante é evitar. Não é remediar (apesar de estar consciente de que os remédios existem para aliviar a dor e que muitas vezes devem ser usados). É falar abertamente – mas com respeito – dos assuntos que fazem parte da nossa vida. É dar valor à vida valorizando a vida daqueles que nos rodeiam. E isso passa também por deixar decidir. Por falar dos valores da sociedade que queremos construir, onde a família – e, o amor intrínseco da mesma - deve ser ( e, isto segundo a minha visão subjectiva) o pilar de tudo. Quem ama e é amado é livre, decide, respeita as decisões dos outros, partilha as alegrias e as tristezas, sonha e constrói.
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mafalda avelar
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14:40
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“Quem disse que as crianças são sempre bem vindas?” - PARTE I
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mafalda avelar
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14:24
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Ainda mais hardcore
«Corruption so defined is bad if it lowers efficiency in the economy or society - that is, if the cost imposed on everyone else exceeds the gain to an official. Good corruption raises efficiency, so while the corrupt official may gain, so does the economy and society as a whole. » Gary Becker
É bem possível que os 72% alí de baixo induzam uma elevada parte da dita "informalidade" e da corrupção. Com tantas e tantas comissões e subcomissões pagas para pouco mais que nada, parece que neste país não se conseguem quantificar algumas das coisas que mais nos deviam preocupar.
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Manuel Pinheiro
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12:38
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Estudos de género e outras coisas do género

Há dias, escrevi para o Público um artigo ("Talvez", 28/11/06) que respondia a um outro de Madalena Barbosa no qual esta "especialista em estudos de género" fazia algumas acusações patéticas aos movimentos pró-vida. Referi-me por várias vezes, e com mal disfarçada acrimónia, ao título que a senhora se atribuía. Confesso que era irresistível. Um amigo e leitor do Cachimbo (vocês sabem de quem é que eu estou a falar...) bateu-me forte e feio porque isso teria sido um ataque pessoal. No Blogue do Não, onde postei o texto, também disseram o mesmo. Vamos lá a ver.
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Pedro Picoito
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02:49
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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006
Pagar para ver
Baseando-se nos cálculos desenvolvidos pelos próprios (2004), as barreiras que nos impedem de aumentar a nossa produtividade, medidas em percentagem do nosso "nonstructural gap", são:
1. Informalidade: 28%
2. Red tape (licenciamentos, restrições de oferta por área geográfica, etc): 24%
3. Ineficiências de regulção no mercado/produto: 13%
4. Serviços públicos deficientes: 22%
5. Leis laborais rígidas: 13%
Mesmo admitindo que não se mexem nos impostos, se os 72% de burocracias e quadros concorrenciais ineficientes fossem alterados e, passe mágico, passassem para 0%, qual seria o grau absoluto (e não o relativo medido em relação ao gap) de informalidade que passaríamos a ter?
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Manuel Pinheiro
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20:01
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Ainda a Economia Informal
Não feches assim o caso, não porque ache que no teu primeiro texto/provocação o argumento fosse inteiramente válido, mas sim porque este que usas não o encerra, sobretudo porque falam de coisas um pouco distintas. Existe um efeito nocivo de distorção da concorrência num sector se ele estiver dividido entre quem cumpre e quem não. Mas o mais interessante do teu primeiro texto é que ele cita exemplos de sectores inteiros (vamos esquecer excepções) que vivem na informalidade: empregadas domésticas, explicações de matemática, tascas. E aí a tua pergunta original faz não só todo o sentido, como é bem possível que, hoje e aqui, a resposta seja sim.
Um dos efeitos nocivos da economia informal é que reduz os incentivos à invoção e aumento da produtividade, como tu e a McKinsey bem citam, mas isso é porque, entre outras razões, o não pagamento de impostos no trabalho baixa o custo do trabalho em relação ao capital. Como tudo fica logo mais baratinho, vai tudo para o Algarve celebrar em vez de gastar energia a tentar perceber como se pode produzir melhor. Mas esta realidade, que se aplica no sector da construção que citas, não se aplica aos teus exemplos originais, onde o efeito de incentivo negativo que adviria da "formalização" da actividade teria como consequência não um aumento da produtividade mas sim uma quebra de actividade económica, pois muitos dos agentes simplesmente sairiam do mercado, e aí a equação segue depois o caminho que descreves.
Não me parece também válido o argumento utilizado correntemente, segundo o qual, por um dado sector não pagar impostos, os outros irão pagar impostos mais elevados. Acho que todos já percebemos que qualquer tostão que vá parar ao Estado terá sempre um qualquer caminho digno de exaltação que não o de volta ao bolso do contribuinte comum.
Também não me parece que os cidadãos por cá acreditem nisso, ou pediriam sistematicamente recibo nas tascas, nas explicações e às suas empregadas domésticas. Parece que antes acreditam em algo distinto, que a existência de alguns sectores na informalidade os beneficia, pois têm acesso a um produto que passa existir, mais barato e que pode ser comprado por um maior número de pessoas, que por sua vez beneficiam de um acréscimo de produtividade na medida em que alguém lhes lava o chão, engoma as camisas ou faz os trabalhos de casa e treina matematicamente os filhos.
Vamos portanto decidir quais é que são os sectores e aplicamos taxa zero? Só num mundo a preto e branco, o modelo saudável é aquele que minimiza os incentivos negativos de entrada baixando a taxa - somos um país relativamente pobre, quem tira 42% num país rico deixa muito dinheiro em caixa (incentivo positivo), mas por cá tira quase toda a vontade de trabalhar - sem sobrecarregar o preço por aumento de custos ou ajuste da oferta. Mas a taxa baixa para todos os sectores, não apenas para alguns. A existência de uma economia informal neste sectores advém da prevenção de morte por asfixia via excesso de impostos e regulação, responsáveis por ineficiência nos restantes sectores, e não tanto nos informais porque, em legítima defesa, lhes fizeram um manguito.
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Manuel Pinheiro
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18:24
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Da série "Posta Restante"
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Pedro Picoito
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17:20
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Mas porque é que isto não me surpreende?
Público, 6/12/06
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Pedro Picoito
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17:12
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Les valeurs de la France
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Paulo Marcelo
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14:07
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Querem vender um rim?
Aqui fica a tradução/selecção dos principais pontos:
“Se fossem apenas mais um produto, o mercado desenvolveria a sua magia habitual (…) Mas os rins humanos não são uma mercadoria qualquer. A sua comercialização é proibida na maioria dos países. Assim, a oferta depende em larga medida da caridade dos indivíduos: alguns querem doar um dos seus rins saudáveis, enquanto estão vivos (com poucos riscos para a sua saúde); outros permitem que os seus rins sejam utilizados após a sua morte. Sem surpresas, com o altruísmo como único incentivo, os dadores são insuficientes.
(…) A procura de rins está a crescer rapidamente, 7% ao ano na América, sendo que no último ano morreram 4039 pessoas em lista de espera. (…) Os pacientes mais ricos compram rins aos mais pobres e aos aflitos em mercados negros emergentes. (…) Os vendedores de rins clandestinos recebem poucos cuidados médicos, os compradores são contaminados frequentemente com Hepatite ou Sida, ambos sofrem com as consequências de cirurgias descuidadas.
Perante tudo isto, a maioria dos países abraçam a pior das opções políticas. Os governos colocam a responsabilidade nos seus cidadãos, esperando que ofereçam órgãos. (…) Por outro lado, se apenas 0.06% dos americanos saudáveis, entre os 19 e os 65, partilhassem um rim, o país não teria qualquer lista de espera.
A forma de encorajar isto é legalizar a venda de rins.
Muitos considerarão repugnante a simples ideia da venda de órgãos por parte dos indivíduos. Todavia, um mercado de órgãos, de partes corporais de pessoas falecidas, já existe. As empresas facturam milhões neste mercado. Deste modo, parece perverso excluir os indivíduos. Além disso, a remoção de um rim é tão segura como qualquer cirurgia comum ou até como os tratamentos de beleza; o que a diferencia de outros géneros de doação de órgãos.
(…) Com legislação adequada, um mercado de rins seria uma grande melhoria no estado de coisas corrente e deplorável. Os vendedores poderiam ser examinados, visando a despistagem de doenças e uso de drogas, sendo bem tratados depois das operações. Os compradores obteriam rins melhores e de forma mais rápida. Vendedores e compradores sairiam beneficiados em comparação com o mercado ilegal, onde grande parte do dinheiro vai para o intermediário.
Habitualmente o instinto ludibria a lógica. Por vezes, está bem. Mas neste caso, o instinto que nos diz que a venda de porções de si próprio está mal conduz a várias mortes prematuras e a imenso sofrimento. A resposta lógica, neste caso, é a humana.”
Publicada por
Hugo Chelo
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10:05
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