Domingo, 31 de Dezembro de 2006

Da série "O Som e a Fúria"

THE VALLEY OF THE BLACK PIG

The dews drop slowly and dreams gather: unknown spears
Suddenly hurtle before my dream-awakened eyes,
And then the clash of fallen horsemen and the cries
Of unknown perishing armies beat about my ears.
We who still labour by the cromlech on the shore,
The grey cairn on the hill, when day sinks drowned in dew,
Being weary of the world`s empires, bow down to you,
Master of the still stars and of the flaming door.

W.B. Yeats, The Wind Among the Reeds (1899)

Sábado, 30 de Dezembro de 2006

É do Caracas

Na Venezuela, o presidente Hugo Chávez anunciou anteontem, fardado e perante uma plateia de militares, que não irá renovar a concessão à Rádio Caracas Televisión, uma emissora privada que acusou de "subversiva" (sic).
Há aqui um inconfundível cheirinho a Weimar, mas sempre gostava de saber o que pensa da democracia de Chávez a esquerda lusa, que tão prestimosamente saudou a sua reeleição.
Aceitam-se respostas em norte-coreano.

Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

Qualidade de vida


Mudar de paradigma, propõe David Cameron: em vez do tradicional GDP (Gross Domestic Product) fala do objectivo GWB (General Well-Being). Voltaremos ao tema, mas aqui fica uma nota positiva na viragem para 2007.

Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

Nova Atlântico

Saiu hoje mais um número da Atlântico. Da minha leitura muito rápida, destaco o notável artigo de Rui Ramos sobre a história do PS pós-25 de Abril, "o verdadeiro partido conservador do regime" (não é um elogio), continuação de um outro sobre o mesmo tema que aqui citei há tempos. Vale a pena lê-lo. Nos seus textos dispersos pelo Independente, pelo Público e pela Atlântico, Rui Ramos é actualmente o melhor historiador da vida política da democracia portuguesa. Espero sinceramente, a bem da nação e do mundo civilizado em geral, que o Paulo Pinto Mascarenhas esteja a pensar na colectânea.
Ah, a revista traz também uma análise deste vosso criado à recente viagem do Papa à Turquia. Para ser franco, parecia-me melhor quando a escrevi há três semanas do que ao lê-la hoje de manhã. Será efeito da comparação com o Rui Ramos?

Da Série "Posta Restante"

"Na sua condenação da teologia da libertação, nos seus textos contra Leonardo Boff e outros teólogos sul-americanos, Ratzinger travou a dissolução de um acervo doutrinal mais vasto do que a instituição da Igreja em si, que na realidade punha em causa a dignidade da pessoa humana e a correlativa responsabilidade individual, substituindo-a por uma culpabilidade social baseada numa versão abastardada do marxismo e na apologia da violência. Ratzinger, que achava que os teólogos da libertação tinham lido "teologia alemã a mais", referindo-se a colegas e discípulos seus cujas posições tinham influenciado os latino-americanos, atacou doutrinariamente com veemência não só em pontos de política, mas de filosofia e teologia. Ao lermos esses textos hoje, à luz do fim do comunismo e do que se sabe das experiências latino-americanas, percebemos a razão de Ratzinger e a solidez do seu corpo doutrinário" .
José Pacheco Pereira, "Um intelectual orgânico europeu: Joseph Ratzinger (Bento XVI)", in Público, 28/12/06

Motos, origami e dança

Os políticos e burocratas dificilmente evitam chavões quando se referem ao admirável futuro: é a “sociedade do conhecimento” que está em preparação, onde todos seremos “qualificados” e com elevado “potencial”; é também a libertação da “escravidão” do trabalho físico, que nos momentos oníricos se torna numa sociedade sem trabalho – a sociedade de lazer que nos espera no fim da história. Uma análise destes chavões revela a respectiva vacuidade.

As comunidades políticas recebem, produzem e destroem conhecimento. Classificar uma comunidade política, presente ou futura, como “sociedade do conhecimento” envolve um juízo de descontinuidade, de oposição às formas de organização política prevalecentes no passado, que são, presumivelmente, as sociedades do desconhecimento. Trata-se de uma mistura de estupidez estruturalista e ignorância tecnocrática, cujo contraponto é a estupidez irracionalista dos que acreditam que o conhecimento gera poder e que o poder gera conhecimento, num ciclo inquebrável de dominação humana que necessita de ser destruído, alargado aos discursos culturais “alternativos” e que a “opressão da razão” deve ceder prioridade à imaginação poética.

A oposição entre trabalho físico e trabalho intelectual também envolve dois juízos de valor implícitos – e ambos errados. O primeiro é que o trabalho físico dispensa qualquer actividade mental relevante; o segundo é que o trabalho intelectual se baseia essencialmente em esforço mental complexo. Por último, é fácil compreender que a “sociedade de lazer” é apenas outra forma de designar a mesma abstracção materialista que a sociedade sem classes, a última etapa da progressão humana em direcção à “verdadeira” liberdade. Os historicistas marxistas acentuam a centralidade das condições de produção; os adventistas do lazer eterno acentuam a centralidade das condições de consumo.

Vem isto a propósito de um dos mais interessantes ensaios que li este ano: “Shop Class as Soulcraft”, de Matthew B. Crawford, publicado pela The New Atlantis. Soube da existência deste ensaio através da crónica de David Brooks, para o The New York Times de 14 de Dezembro, mas só tive oportunidade de o ler no dia de Natal. Crawford começa por notar que nas últimas décadas houve um notório decréscimo na utilização humana de ferramentas e uma acentuação da passividade nos modos de vida. A redução das competências implica uma redução da capacidade de agência: a passividade torna-se dependência. O objectivo fundamental do ensaio de Crawford é a identificação dos motivos que levaram a uma notória diminuição da preparação escolar para o desempenho de determinadas tarefas essenciais à autonomia prática e moral.

A capacidade de desempenhar bem uma tarefa que se constitui como finalidade em si própria, tem no racionalismo inspirado em John Dewey e em Frederick Taylor o seu adversário primordial. O objectivo racionalista é dissociar completamente o trabalho humano dos aspectos cognitivos de experiência e aprendizagem, reduzindo-o a um processo decomponível em tarefas abstractas, rotineiras e destituído de decisões autónomas, que são concentradas na administração empresarial – a elite dos cognoscenti. Tal como Oakeshott recordava, o racionalismo moderno procura reduzir a totalidade do conhecimento ao conhecimento técnico, suprimindo o conhecimento prático, precisamente porque este não pode ser deduzido a partir de conjunto de regras criadas ex novo, de aplicação puramente mecânica e universal. Como tal é incompatível com o sistema de produção assente na lógica de “linha de montagem”.

Conscientemente ou não, foi-se também sedimentando a equivalência entre trabalho intelectual e esforço mental, com a correlativa equivalência entre trabalho manual e esforço físico. Ambas são erros conceptuais: o trabalho intelectual está a ser progressivamente esvaziado de exigência mental e o trabalho manual exige competências intelectuais que podem ser extremamente sofisticadas. A este respeito, Crawford cita um exemplo interessante: um programa de computador desenvolvido para facilitar a construção de origami (HyperGami) revelou-se particularmente ineficiente em determinadas figuras geométricas. Tratavam-se de formas cuja solução de construção não podia ser obtida por processos algorítmicos porque o modelo não podia ser completamente especificado: havia restrições, detectáveis apenas através da prática, que não eram formalizáveis. A conclusão é generalizável: há conhecimento prático que não pode ser reduzido a conhecimento técnico e sem o conhecimento prático resultante da experiência acumulada – porventura ao longo de gerações – não é possível executar determinadas tarefas com qualidade.

Sobre o progressivo esvaziamento do trabalho intelectual, basta pensar na actividade esmagadoramente rotineira da generalidade das organizações, quer sejam públicas ou privadas. A título de exemplo corroborante, posso citar uma experiência pessoal. Há alguns anos, fui consultor de um ministério; no decurso da aplicação de uma importante reforma legislativa, foi necessário realizar um exercício de optimização espacial de recursos humanos. Os decisores políticos relevantes confiaram a tarefa a uma empresa de consultoria, tendo-me sido solicitado o acompanhamento dos respectivos trabalhos. Os elementos da consultora efectuavam fundamentalmente tarefas de recolha de dados, que depois serviam para calibrar o modelo de optimização; mas o modelo era “fechado”, ou seja: o algoritmo vinha “pronto a usar” e não era acessível aos consultores que o utilizavam. Este tipo de situação não é caso único, nem é especificamente portuguesa: como refere Crawford, na generalidade das organizações há uma tendência para a crescente concentração do conhecimento técnico numa pequena elite.

O racionalismo moderno encontrou aliados inesperados e improváveis na pós-modernidade inspirada em Nietzsche, para quem todas as certezas são apenas ilusões decorrentes de “essencialismos” (por um motivo inexplicável, esta máxima não se aplica à certeza de que todas as certezas são ilusões) e os factos “não existem”: apenas há discursos “alternativos” e não comparáveis. A pós-modernidade irracionalista detesta aquilo a que Crawford chama o infalível julgamento da realidade: aviões que voam em segurança, infra-estruturas físicas como edifícios e pontes que não abatem no decurso da sua utilização normal, ou até uma simples cadeira, confortável e duradoura, expõem de forma demasiadamente real o absurdo do relativismo epistemológico e cultural. Opositores declarados da civilização ocidental, sabem, como Crawford sublinha evocando uma frase de Hannah Arendt, que a durabilidade dos objectos produzidos pelo homem é uma origem da familiaridade do mundo, dos seus costumes e hábitos de relacionamento, entre homens e objectos, bem como entre homens e outros homens. O provisório gera a instabilidade propícia à inovação, geralmente liderada por um capo político, enquanto que a familiaridade gera conforto e cria uma disposição a manter o que é satisfatório, dificultando o tumulto da inovação permanente.

Racionalistas e irracionalistas, nas suas motivações distintas mas convergentes, instrumentalizaram os sistemas educativos ocidentais, tentando eliminar as instituições dedicadas à transmissão do conhecimento prático e forçando a evolução na direcção de uma crescente abstracção teórica, onde a realidade constitui uma interferência indesejável.

Depois de ler o ensaio de Matthew Crawford, decidi ver um documentário há muito (a)guardado: Ballets Russes, a história das companhias de bailado que nasceram a partir da companhia original fundada por Sergei Diaghilev (consulte a lista de compositores e pintores que ao longo dos anos colaboraram com os Ballets Russes). Na cena inicial assiste-se ao reencontro de alguns dos elementos que ao longo dos anos integraram as duas companhias. Nathalie Krassovska, então com 81 anos, faz alguns exercícios: I’m doing a little barre. Two days I didn’t do barre. Krassovska, cuja mãe e avó materna também haviam sido bailarinas – a mãe no Ballet Bolshoi – recebeu delas o gosto e o conhecimento prático da dança. Tal como ela, quase todos os antigos bailarinos entrevistados tinham mais de 80 anos de idade e apesar disso a grande maioria continuava a ensinar diariamente. São vidas inteiras dedicadas ao aperfeiçoamento da prática da dança, numa procura permanente da excelência. Viajando pelo mundo através da II Guerra Mundial, apesar das dificuldades financeiras e das divergências pessoais, os Ballets Russes renovaram a tradição da dança e influenciaram decisivamente o bailado contemporâneo. Quanto a Crawford, preferiu trocar o think tank de Washington onde trabalhava por uma oficina de reparação e restauro de motos antigas. Apesar dos muitos que desistem e dos muitos mais que nem sequer tentam, prefiro terminar o ano de 2006 evocando os exemplos daqueles que defenderam a sua autonomia pela escolha de um modo de vida e que tiveram a disciplina necessária para procurar realizar nele o mais elevado potencial humano.

Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Factos ...

Tudo isto dado a conhecer num só dia: ontem

1) Decretada a morte de Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti. Enforcamento a decorrer nos próximos 30 dias

2) Ramos- Horta, prémio Nobel da Paz, envia mensagem de Natal a Bin Laden

3) Já morreram mais norte-americanos na guerra do Iraque do que civis nos atentados de 11 de Setembro

Comentários?
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Réplica

Meu caro BCM,
Como te disse, não concordo com a primeira parte deste teu argumento. Ao contrário do que escreves, não é a vida que confere o direito, mas sim a "pessoa humana", reconhecida pelo Direito, que carece de protecção a vários níveis, inclusive o mais básico para a sobrevivência, a vida. Por isso o direito à vida é o primeiro (e a condição) de todos os outros direitos, inclusive o direito à liberdade, de que falas. Claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos direitos, pois nem todos são "pessoa". Esta noção é pois essencial. Séculos para densificar o conceito, não percebo como o afastas em duas linhas.
Quanto à segunda parte do teu texto, não posso estar mais de acordo.
Obrigado pelo almoço, recebe um abraço.

A Morte de Deus

“… Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao seu sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite? Não teremos de acender lanternas em pleno dia? Será que ainda não estamos a ouvir o ruído que fazem os coveiros a enterrar Deus? Ainda não nos terá chegado o cheiro da decomposição divina? Porque até os Deuses se decompõem! Deus está morto!” (Nietzsche, A Gaia Ciência, §125)

Sim, digam-me…

Por que é que a pausa da SuperLiga é tão longa neste tempo de Natal? Onde estão os golos do Nuno Gomes? Os longos cruzamentos do Nani? As exibições de Lucho? Estaremos condenados a sobreviver com os deuses de fora, com os golos de Drogba e do Cristiano Ronaldo? Para onde vamos nós sem os comentários do Paulo Bento? Onde está Fernando Santos, esse homem tão bom? Como é possível viver com 16 clubes? Façam mais uma competição. Transmitam os jogos da Liga de Honra, da IIª Liga e da IIIª. Neste tempo em que se celebra um nascimento, não deixem morrer a nossa Vida. Recuso-me a viver num mundo sem Deus!

Direito à vida?

Recentemente, em conversa com o Paulo Marcelo, expressei a opinião de que essa entidade jurídica e moral a que chamamos o direito à vida devia ser abandonada, por claramente absurda. Eis o meu argumento, tal como o apresentei na altura, sem tempo para grande subtileza. Se a vida conferisse um direito, então qualquer ser vivo teria de ser igualmente beneficiário desse direito. Mas se o direito decorre da liberdade ou da personalidade, de nada serve dizer que se protege a vida de um ser livre e único. A vida enquanto tal não é protegida. Em bom rigor, isto explica por que é que nas nossas sociedades somos tão tolerantes em relação ao sacrifício mais ou menos evitável de vidas humanas, como por exemplo nas estradas ou nas grandes obras de construção. O número de mortes é certo, contabilizável, e mesmo assim não deixamos de usar automóveis e de construir pontes.
Claro que tudo isto tinha a ver com o problema do aborto. Teremos muito a ganhar se colocarmos a questão em termos de um direito à liberdade e não um direito à vida. Os meios de contracepção conferem a cada pessoa uma esfera de liberdade sem a qual a sua vida estaria dependente das necessidades da vida em sociedade. O mesmo socialismo parece resultar de um regime de aborto livre. Como explicar a alguém que cada indivíduo é dono e senhor de uma vida própria se essa vida está inicialmente dependende da escolha de outro? Como defender que cada um de nós não existe para cumprir uma função social quando se defende simultaneamente que essa inconveniência que é ter um filho não deve existir, que os nossos filhos cumprem uma função na nossa vida e nada mais do que isso? Como preservar o sentido agudo de aventura quando os poderes públicos estão ao virar da esquina para nos trazer de volta ao conforto? Como impedir que todas as pessoas à sua volta decidam que uma mulher deve fazer um aborto e como garantir que ela permanece livre de decidir o contrário?
A questão não diz respeito à biologia. É política.

Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006

The sense of an ending

Esta noite, estive a ver o Bing Crosby e o Sinatra cantando o “White Christmas”. Depois, por acaso, vi o Dean Martin a cantar a “My Rifle My Pony and Me”, no Rio Bravo, com o John Wayne e o inesquecível Walter Brennan – lembram-se?... Mas veio-me então uma imensa tristeza. Percebi porquê. Lembrei-me de ter lido isto e ainda isto. E das outras inacreditáveis histórias sobre o abafamento das imagens e designações associadas ao Natal. Aqui e ali. Para não ofender [sic] crentes de outras religiões.
Lembremo-nos do que aconteceu há pouco com o Idomeneo em Berlim e, no ano passado, em Genève, a Le Fanatisme, do Voltaire. Muita gente “sensata”, então, considerou as preocupações, ou mesmo as supressões, como razoáveis. Começa sempre assim.
Lembremo-nos, também, do desfile miserável que foi o episódio dos cartoons. Cá, a tristíssima declaração oficial do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, o ‘senhor Amaral’ - como lhe chamou essa criatura sem vergonha que é o embaixador do Irão em Portugal.
Há qualquer coisa que se dissemina. Qualquer coisa que não é nada bonita. Os sinais vão aparecendo por todo o lado. Por exemplo, contaram-me noutro dia que, em Croydon, um borough de Londres, uma piscina municipal, num certo dia da semana, está vedada a qualquer cidadão que a queira frequentar, com excepção dos muçulmanos, porque é para estes que esse dia está reservado (para homens e mulheres, segregados por diferentes alturas do dia, note-se). Como se isto fosse normal.
O que está a acontecer (irá acontecer) a este nosso mundo? Um mundo em que ainda (?) faz sentido ouvir-se o “White Christmas”, celebrar-se o Natal (com menor ou maior “autenticidade”, não vem ao caso), exibirem-se símbolos que podem ser religiosos, sim (e, ao escolher um símbolo, excluo outros, claro), haver liberdade de expressão, opções estéticas carregadas de “ideologia” pouco simpática, etc.
Nada de novo, na verdade: o Nacional-Socialismo chegou ao ponto, também, de alterar o texto do Requiem de Mozart para eliminar as referências “judaicas”, não convenientes para aquela modernidade. Entre outros, 'Deus in Sion' passou a cantar-se 'Deus in coelis' e, na vez de 'in Jerusalem', ouvia-se agora 'hic in terra'...
Um dia, proibir-se-á uma interpretação pública do Messias de Händel, porque também ela poderá ferir ouvidos “religiosamente” susceptíveis. E chegará a data em que, serenamente, sem um protesto, retirarão, da National Gallery, por ofensiva, Uma Alegoria com Vénus e o Tempo, de Battista Tiepolo, ou talvez, por obscena, a Vénus ao Espelho, de Velázquez. Sem um protesto.
Não sei se é acertado, como fazem alguns, comparar esta espécie de anemia do “Ocidente” ao final do Império Romano ou, como outros preferem, à queda de Constantinopla. Mas, esta noite, não consigo deixar de ouvir soar na minha cabeça a expressão the sense of an ending (que, atrevidamente, fui buscar a Sir Frank Kermode) – gosto muito dela. Tem-se a sensação amarga de se estar rodeado de gente para quem nada daquilo que se está perdendo é importante. Gente para quem a falta daquilo que ainda se vai tendo (vendo, ouvindo, lendo, fazendo) não fará, realmente, diferença. A sensação de que se está sozinho. Just my rifle, pony and me.

Domingo, 24 de Dezembro de 2006

Baldios de Natal

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

Tolentino Mendonça, A Infância de Herberto Helder (1990)

Ainda a poluição visual nas cidades

Em complemento a este post do Marcelo, a prefeitura da cidade de S. Paulo decidiu proibir a utilização de todos os tipos de outdoors e painéis electrónicos. Nada mau, para uma metrópole com 11 milhões de habitantes. Obviamente estou contra.

Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006

Não se governam nem se deixam governar

A reacção da recusa de Rui Rio em dar "tolerância de ponte" no dia 26 de Dezembro mostra quão actual está esta expressão. Passem milhares de anos e de influências de tantas civilizações e cá estaremos, sempre a chafurdar nos direitos e nas conquistas do "povo".

Numa reportagem da SIC, em tom pesaroso, a locutora lá ia dizendo que a tal tolerância tinha sido concedida pelo Governo e que "todas as câmaras municipais contactadas pela SIC" iam ter os serviços encerrados no dia 26.

Rio argumentou, e muito bem, que estamos em crise económica e que milhares de pessoas do sector privado - como eu porra - iam trabalhar dia 26. Muitas delas precisam dos serviços da câmara a funcionar, e não a ressacar no enésimo feriado deste ano.

É que só neste mês já tivémos e vamos ter: uma sexta-feira pela Restauração, uma sexta-feira pela Imaculada Conceição, uma segunda-feira pelo Natal e uma segunda-feira pelo ano Novo! O que é que querem mais?

P.S. Eu até admito que Rio faça isto para piscar o olho a alguns sectores da direita. Mesmo assim prefiro que alguém dê o exemplo.

Feliz Natal em Pecado

Tem sido assim desde sempre, e este que me bate à porta já está planeado para ser igual. Assim de cabeça mergulho em três pecados capitais: gula, luxúria e preguiça. Três em sete não é maioria, mas sendo capitais talvez o argumento não colha. No dia do juízo em que não acredito talvez possa argumentar que em tempos escrevi num blogue com muitos cristãos. Como se diz na gíria anglosaxónica: that's got to count for something. Ou talvez não.

Somos uma desgraça de criação, nesta viagem não embarco sozinho e o quotidiano está recheado de muitos mais. Não houvesse mercado e não haveria produto, mas ao menos poder-se-ia disfarçar. Ele serve para nos erguer, escreveu aqui o Picoito em tempos. Não sou um entendido, mas se a doutrina é a que consta por aí, consta também que trabalho não lhe vai faltar.

Nunca comprei a famosa "ideia de Deus", mas sempre olhei com curiosidade a delicada escolha do menu por muitas das suas "criações". Pensei que os ensinamentos fossem eternos, mas, genuinamente, para bem e para mal, alguns são mais eternos do que outros. Talvez não fosse má ideia encarecer um pouco a "absolvição". Digo eu, de fora, e como parte não especialmente interessada. Eu e os meus tratamos bem mim e dos que nos estão próximos. Também não tratamos mal os outros, mas sei que, em Janeiro, quando voltar ao serviço cívico após a profissão, vamos ser bem menos do que aqueles que fizeram fila para comprar bonecos daquele que os irá, diz o Picoito, erguer.

No metro, que uso regularmente durante o ano, são as pessoas mais pobres que dão sistematicamente esmola. Elas sabem porquê.

Feliz Natal.

Com tanto para olhar ainda sobra espaço para ver?

Passei uns dias em Londres. Mesmo tentando evitar o roteiro turístico, são inevitáveis certas ruas, museus, algumas lojas, o metro. Impressiona a quantidade de publicidade nos espaços públicos, até no metro e autocarro há som e televisões a passar anúncios. É impossível passar ao lado, fugir das imagens e do barulho, tão intrusivos que ocupam os sentidos, quando não a cabeça. Acaba por sobrar pouco espaço para ver a cidade e observar as pessoas.
Já sei que é o Natal, o apogeu do consumismo. Já sei que o frio não ajuda a levantar a cabeça. E que Lisboa não está melhor. Mas será que a globalização capitalista implica vendermos espaço e tempo nas nossas cabeças? Com que direito nos impõem um esforço permanente para preservar a liberdade de ver e pensar naquilo que queremos? E será que sobra espaço para ver alguma coisa?

Da série "O Som e a Fúria"

Marc Chagall, A Virgem com o trenó (1947)

A ESTRELA

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

(cont.)

Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

Da série "Os Outros"

No Amigo do Povo, o meu amigo (e do povo) Fernando Martins escreveu o post que eu gostaria de ter escrito sobre a última pérola do Daniel Oliveira: o revolucionário conceito de "conservadorismo católico e comunista" (sic). A ciência política nunca mais será a mesma.

No Mar Salgado, o Pedro Caeiro diz o que há a dizer sobre a recente nomeação de Maria José Morgado para combater a corrupção no futebol. Apesar de quase desaparecido, o Pedro continua a ser um dos melhores marinheiros da blogosfera lusa.

Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

Zangam-se as comadres...

Depois de ter ficado famoso por dizer que os seres humanos não tinham mais direitos do que os animais, Peter Singer enfrenta agora a fúria dos activistas de direitos dos animais por dizer que ...bem ... que os animais não têm mais direitos que os seres humanos. O célebre filósofo de Princeton não compreende como é que os princípios gerais que, em seu entender, tornam lícitos certos actos praticados sobre humanos – aborto, infanticídio, eliminação dos deficientes, por exemplo – também não sejam aplicáveis aos bichos, justificando, nomeadamente, a experimentação com animais. Foi como uma bomba. Para os grupos de direitos dos animais esta posição é absolutamente inaceitável.

A polémica instalou-se e os defensores dos direitos dos animais tratam-no agora como um proscrito: «No one in the animal rights movement views Peter Singer as the father of the modern animal rights movement. It’s a label that has been placed on him by the media because he wrote a book entitled “Animal Liberation”». E vejam lá bem as coisas horríveis de que os seus antigos admiradores agora (mas só agora…) o acusam: «Mr Singer has never believed in the rights of animals but is a Utilitarian, who would presumably agreed that if the experiments conducted on the Jews in the concentration camps by the Nazis could be seen to have benefited more human beings than the number of Jews killed, then somehow this would be deemed acceptable because it is viewed by utilitarians as being for the greater good. He’s the same man that advocates killing handicapped children in circumstances where for them to live might be a burden on the parents.» [Notícia aqui e reacções aqui].

Ou seja, no nobre desejo de proteger cães e gatos talvez ainda se venha a recuperar, como uma espécie de efeito secundário, alguma humanidade para os humanos... Não sei se rir, se chorar, ou se soltar um grunhido (e escusam de brincar com o meu apelido...)

Já se zombou acerrimamente com o conteúdo da campanha da Igreja Maná que, nos últimos tempos, tem ocupado os espaços públicos e os pára-brisas dos nossos automóveis. Resta saber porquê. Os princípios teológicos respeitantes à virtude da esperança (ou à falta dela) são perfeitamente adequados. Senão vejamos.
O estado nas nossas finanças particulares e públicas é “um caso sério de falta de graça”. Dívidas e despesas imprevistas? Público e privados estão em sintonia. E pode ser que a solução para este caso tão sério dependa integralmente da Graça divina. «Não desespere! Deus quer e pode fazer um milagre nas suas finanças!» Se dos nossos méritos e dos deméritos dos governantes já pouco se espera, então como não desesperar? Consultemos rapidamente São Tomás de Aquino. A esperança tem como fim último a felicidade eterna. O seu objecto é assim um bem futuro sobrenatural, árduo, mas exequível. O desespero, por outro lado, nasce da consideração de que é impossível atingir o bem árduo a que se aspira. A perpetuidade da pena dos condenados no fogo do inferno impede-os de terem qualquer esperança. Ao saberem que não podem evadir-se do castigo, o bem sobrenatural e objecto primário da esperança nem sequer é apreendido como possível.
Dirão que a Igreja Maná exagera. O bem constituído pelo equilíbrio das nossas finanças públicas é um fim árduo, mas precipitamo-nos quando clamamos por Deus. Afinal, tal bem é exequível e nada tem de sobrenatural. Pois permitam-me discordar. É exequível e antevemo-lo como possível. Não estamos na situação dos condenados no inferno. Mas olhem que tem contornos sobrenaturais. Deixem lá ver se completam e publicam a lista dos excedentários da função pública e depois logo falamos. Pois é. Talvez só mesmo um deus nos possa salvar.

Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

Falta de vigor


A Lactogal, um potentado ibérico da indústria dos lactícinios, decidiu fazer uma campanha do seu produto estrela, o leite Vigor.
A empresa, que se considera socialmente responsável, espalhou por Lisboa uns outdoors onde orgulhosamente afirma "Leite Vigor: dura mais que alguns casamentos", pretendendo demonstrar que o produto se aguenta uma semana no frigorífico sem se estragar.
Ao contrário do Miguel Sousa Tavares, que a propósito do anúncio da TV Cabo "Tchau pai vou bazar", se indignou e exigiu a tomada de posição de algum "organismo público", eu defendo uma tomada de posição individual. Por exemplo enviando um email para info@lactogal.pt .
Em todo caso, o que leva uma empresa desta importância a embarcar em tal estupidez? Deslumbramento perante as meninas da agência publicitária que fizeram o anúncio? Tentação do humor fácil para seduzir novos "targets"? Combate ao ruído do Natal com uma frase "bombástica"?
O mais extraordinário é que, na cabeça de qualquer um de nós "consumidores", o leite está intimamente associado a momentos passados em família: no pequeno-almoço, no lanche, antes de nos deitarmos etc. Ora como uma família, na esmagadora maioria dos casos, nasce do casamento...
Por isso, esta é uma campanha no mínimo contraproducente e que uma vez mais ofende, sem nenhuma necessidade, milhões de pessoas.

Nota: as imagens deste post foram tiradas do site da Lactogal (!)

Há que reconhecer

O PS deu o dito por não dito e fez bem.

Contra a TLEBS, marchar, marchar


A nova Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário está ferida de morte, mas mais vale assinar a certidão de óbito. E já que estamos a falar de surrealismo, o quadro aqui do lado é do nosso amigo René Magritte (Les valeurs personnelles, 1952).

Descredibilizar o sistema político

À Assembleia de República cabe uma função fiscalizadora sobre a actuação do Governo. Ou, pelo menos, devia caber. No entanto, a Assembleia da República rege-se pela vontade da maioria parlamentar.

Ou seja, a eficácia fiscalizadora da Assembleia está seriamente comprometida, porque a maioria parlamentar não fiscaliza antes se subjuga diante do Governo. E o epísódio do Senhor ERSE é apenas mais um triste e grave exemplo da descredibilização da Assembleia e do papel dos Deputados.

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

Perda de confiança

Nuno Melo é um bom parlamentar.
Não é extraordinário. Não há nada que diga, pense ou escreva que seja muito profundo, inaudito ou imprescindível. Mas mesmo assim é razoavelmente bom. Não há muitos jovens parlamentares que tenham a sua qualidade, nem no PSD nem no PS. E, por isso, era bom para o CDS ter um parlamentar assim.
Dito isto, era previsível que Nuno Melo, além de líder parlamentar, tivesse um futuro promissor e viesse a ser considerado um político de peso, com influência e o respeito, não só dos apoiantes do CDS, mas como acontece com tantos grandes políticos, do eleitorado em geral.
Sucede que tal como jogar bem não é suficiente para se ser um grande jogador, também não basta ser bom parlamentar para se ser um grande político. Um jogador que trata bem a bola e constrói jogo - mesmo sem ser genial - e não tem fair-play, simula faltas e agride o público e os árbitros, nunca será considerado um grande jogador.
Ora, Nuno Melo é um exemplo de quem não tem tido fair-play e está a desrespeitar o seu eleitorado até ao limite do admissível.
O eleitorado de direita gosta de clareza, sentido institucional, integridade e respeito pela autoridade.
Nuno Melo com a sua actuação premeditada contra Ribeiro e Castro pode conseguir fragilizar a actual Direcção do CDS, mas está-se a revelar aquilo que não lhe conhecíamos. E é nestas alturas que os políticos se revelam: grandes ou menores. E para muitas pessoas com quem tenho falado Nuno Melo está-se a revelar um político baixo, desleal e acima de tudo sem credibilidade.
O mesmo se passa com Telmo Correia, Mota Soares e Alberto Carlos Monteiro, dirão.
Mas no caso de Nuno Melo é pena: porque se perde a possibilidade de nascer um grande político que pudesse contribuir para um CDS maior.

Na própria baliza

Juro que não tenho nada contra o dr. Luís Filipe Menezes. Ele é que me persegue, e não é só por eu ser sulista, elitista e liberal. Anteontem, estava a ver o telejornal para tentar perceber um pouco melhor este vasto mundo, quando o dr. Menezes me entra em casa a falar (adivinhem...) do dr. Marques Mendes (adivinharam). Ou, na sua peculiar visão das coisas, do PSD: que há manifestações de professores, e o Governo aumenta a electricidade, e isto das SCUTs, e o PSD nada diz. Para terminar com uma metáfora supostamente tão assassina como o seu sorriso irónico - "e todos sabemos que uma equipa que não marca, sofre".
O que o dr. Menezes, esse génio da estratégia, parece ignorar é que uma equipa não marca se o Nuno Gomes tiver trinta oportunidades, mas outra marca se o Drogba tiver três, ou duas, ou uma (e eu sei que é cruel recordá-lo). Por outras palavras, quando um Governo tem maioria absoluta e está para durar, a oposição não deve ir a todas, mas não pode falhar as decisivas.
Por exemplo.
Estamos a mês e meio do referendo sobre o aborto, um tema que divide o país e em que o PS se está a empenhar, nem sempre da forma mais feliz. O dr. Marques Mendes não vinculou o PSD a uma posição oficial, e acho que fez bem, mas declarou publicamente que votará "não", e acho que fez ainda melhor. Se o "não" ganhar, será uma sempre uma derrota do Governo, que se comprometeu na campanha, mas se o "sim" vencer não será uma derrota do PSD, pois Marques Mendes envolveu-se apenas a título pessoal.
Alguém sabe o que diz o dr. Menezes na questão mais quente da actualidade política nacional?
Não?
Pois.

Da série "Cachimbos de Lá"

Joan Miró, Cavalo, cachimbo e flor vermelha (1920)

Domingo, 17 de Dezembro de 2006

O Regresso do Cadáver

Aparentemente, as notícias da morte do projecto constitucional europeu foram muito exageradas. Pela mão de alemães, franceses, escandinavos, portugueses e outros povos amigos da paz e do progresso, o projecto constitucional – com outra designação e com outro rosto – regressará do seu coma prolongado no próximo ano, ou, na pior das hipóteses, em 2008.

Não sou dos que dizem que nunca haverá uma constituição federal na Europa. Os “negacionistas” passam um mau bocado quando tentam comprovar que no espaço europeu as dificuldades “históricas” e “culturais” são maiores do que noutros lugares onde se ensaiou com “êxito” a fórmula federalista. E pode bem acontecer que este seja um daqueles cadáveres que respiram, falam e agem mais do que muito ser vivo que por aí se arrasta.
Não consta, porém, que tenha sido superada a contradição que o dito projecto constitucional encerra. O tempo passou, mas a “Constituição europeia” ainda é demasiado federal para o que tem (e quer preservar) de nacional, e ainda é excessivamente nacional para as suas necessidades federais.
Claro que este pequeno detalhe nunca atrapalharia a copiosa retórica europeia. E, convenhamos, um momento de “profunda reflexão” sobre a situação europeia até dá um certo jeito para não ter de retomar as negociações de adesão com a Turquia.

Revisionismos

Leiam com um bocadinho de atenção, se fazem favor, a colorida notícia do Expresso sobre passagem de Nuno Rogeiro pelo encontro negacionista de Teerão, aí em baixo lincada pelo camarada Botelho. Ao que parece, Rogeiro terá sido convidado pelo Governo do Irão a deslocar-se ao país numa "fact finding mission" (whatever that porra is) e, já que lá estava, terá sido também convidado a falar no tal encontro que reunia especialistas de todo o mundo com uma característica comum - todos negam ou relativizam o Holocausto. Prestes a iniciar a sua conferência, que seria contrária ao tom geral do encontro, Rogeiro ter-se-á dado conta da presença do chefe do Ku Klux Klan na sala, o que o indispôs ao ponto de decidir não discursar.
Acreditando que tudo se passou assim, a gente pasma ao ler estas coisas.
Qual é o tipo de relação que Nuno Rogeiro mantém com o Governo iraniano, relação suficientemente próxima para que ele se declare "amigo" do Irão e o dito Governo o convide a falar num acto público de pura propaganda?
Alguém sempre tão bem informado não sabia da fauna que iria encontrar num evento organizado expressamente para provar que o Holocausto foi "um mito"?
A que credibilidade ganha pelo Irão nos últimos tempos e perdida com este encontro estará ele a referir-se? À corrida do Estado persa ao armamento nuclear? Ao seu apoio ao Hezbollah? À constante ingerência no Líbano? Ou à conhecida vontade do seu Primeiro-Ministro de "riscar Israel do mapa"?
Quer-me cá parecer que não foi só a credibilidade do Irão que ficou mal em toda esta história...

Sábado, 16 de Dezembro de 2006

Something for the weekend

Da série "Posta Restante"


It is strange to find my self at odds with several fellow Tatcherites. but it seems to me obvious that david Cameron`s first year as Tory leader, which falls this week, has been a success. What his critics cannot get into their heads is that opposition is completely different from government. You can`t do: you must just be. So the first thing you have to be, particularly when people have long disliked your party, is nice. I read that focus groups say that Cameron has a "kind face". Seriousminded people scoff at such things, but if voters thought he had an unkind face, the Tories would get nowhere.
Charles Moore, "The Spectator`s notes", in The Spectator, 9/12/06

Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Private joke

E por falar nisso, não sei se repararam que a última Atlântico cita este post do Manel Pinheiro na coluna de "citações da internet portuguesa" (este mês dedicada ao Iraque).
É caso para dizer que quando Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé...

Daqui, um atlântico obrigado

No blogue da Atlântico, ao qual me ligam muitas razões, o Paulo Pinto Mascarenhas teve a exagerada amabilidade de considerar-nos um dos cinco melhores blogues colectivos de 2006. Apesar da simpatia do Paulo, o facto não deixa de ser surpreendente, tendo em conta a qualidade da concorrência e o nosso escasso tempo de vida. Costumo dar uma importância relativa a semelhantes distinções porque acredito que a excelência, na blogosfera e não só, depende pouco do voto. Mas, por vir de quem vem e de onde vem, abro uma excepção: em nome de todos os acendedores do Cachimbo, obrigado.

E no Pai Natal


"Acreditem no Ministério Público, na polícia e nos tribunais."

Maria José Morgado, Procuradora-Geral adjunta, in Público, 15/12/06

Fumo

Da Justiça - e no espaço de apenas três dias -, chegam-nos sinais preocupantes.
O Ministro da Justiça falou, o Procurador Geral da República disse que agiria.
Mais. O Procurador agiu. O Ministro da República falou.
Tudo pode parecer natural e razoável. Afinal de contas é só uma opinião.
Mas deve um Ministro ter opinião sobre esta ou aquela decisão na condução da investigação? Não, não deve. Não deve achar bem, aquilo que não pode achar mal. O Ministro simplesmente não deve pronunciar-se sobre aquilo que não é da sua competência. E como não é analista político, um Ministro não tem competência para ter opiniões.
Com a independência da Procuradoria não se pode brincar. E todo o fumo, é brincar com o fogo.

We Didn't Start The Fire

Em tempo de leitura na Casa Branca, George Bush terá sido visto a assobiar o refrão de uma música de Billy Joel, enquanto caminhava nos corredores com certo e determinado relatório debaixo do braço:

We didnt start the fire
It was always burning
Since the worlds been turning
We didnt start the fire
No we didnt light it
But we tried to fight it

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006

Coitadinho...

...do Nuno Rogeiro...

A caminho de Damasco

Então não é que o Daniel Oliveira, afinal, quer as tropas americanas no Iraque?

Um Judeu errante. Errante.

Make Poverty History

Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

Sem sulistas, elitistas e outros liberais

O grande problema do PSD, hoje, não está apenas na estratégia ou na doutrina, mas nas pessoas. Algo vai mal quando as últimas ideias de Marques Mendes são uma reforma da segurança social de que ninguém se lembra, uma revisão do programa para Pacheco Pereira dizer que o partido não é de direita ou a proposta de martelar no Parlamento uma lei de excepção para julgar Camarate (na qual a maioria socialista, como era de prever, já disse não ter o mínimo interese). No entanto, nada disso é grave. Marques Mendes mostrou até agora uma resistência invulgar, mesmo para aparatchik, e chegará a 2010 ao leme do navio - se não houver uma calamidade.
O grave é aqueles que esperam os sapatos do defunto serem Santana Lopes, o que anda por aí, Morais Sarmento, o da central de comunicação que se extingiu antes de existir, e Luís Filipe Menezes, o que ganhou a imortalidade e perdeu um congresso apodando de sulistas, elitistas e liberais os seus adversários.
O grave é serem estes os barões assinalados do partido de Cavaco e Sá Carneiro.
A isto chegámos, senhores, a isto chegámos.

Última Hora II

Num inquérito realizado em Lisboa e Porto, 400 mil portugueses confessam que já difamaram alguém. O inquérito será divulgado via internet no âmbito de uma campanha que pugna pela despenalização dos crimes contra a honra. A «Associação Liberal Social - Liberdade sim Prisão nunca mais» defende que a honra já não é o que era.

Última hora

Cerca de 8 Milhões e 300 Mil portugueses já fizeram um download de uma música e/ou copiaram um livro. O estudo será apresentado na EMI/Valentim de Carvalho e visa a despenalização da violação dos direitos de Autor.

Carta Aberta

Exma. Frances Kissling (Presidente da CFFC),

Quando me deparei com a organização Catholics for a Free Choice (CFFC) e com as imagens da sua campanha publicitária “Good Catholics use Condoms”; quando percebi que defendiam “o direito dos indivíduos e casais a decidirem quando, de que forma, e como formarão famílias”, considerei que havia esperança para o meu caso. Porém, a sua organização católica afirma apenas o “respeito e o reconhecimento de pessoas e relações gays, lésbicas, bi e transsexuais”. Isso não me chega e a esperança deu lugar ao desânimo. Volto a estar só no mundo católico.
Sou católico. Sou heterossexual. Sou casado. Sou um heterossexual com tendências poligâmicas profundas e o problema é que a Igreja afirma “que a poligamia não está de acordo com a lei moral”. Tal como os homossexuais, eu não escolhi a minha condição e a génese psíquica da minha tendência está por explicar. Também para mim esta condição é uma provação.
Desejaria todos os dias unir-me casualmente a (pelo menos) outras duas mulheres adultas. Naturalmente, com o consentimento delas e da minha esposa (com quem já falei sobre o assunto e que me aceita como sou). A Igreja afirma que o matrimónio deve ser uno, indissolúvel e que a fidelidade é um elemento irrecusável. Mas como a senhora sabe, a Igreja “é uma estrutura política totalmente masculina, onde o poder depende do compromisso de não ser casado e de ser celibatário. Que políticas se podem esperar de pessoas que levam uma vida deste tipo?”(Entrevista ao Público, Domingo, 10 de Dezembro, p.14)
A sociedade poderá chamar-me o que quiser. Mas acho que não tem direito de me impor os seus valores familiares ocidentais e burgueses. Noutras culturas e noutros tempos (diz-se que até vem na Bíblia) a poligamia é moralmente aceite. Os cristãos recordem-se ainda que não se deve atirar a primeira pedra.
Tem razão senhora Kissling. De facto, “sempre me pareceu que o que Deus pretende de nós é que sejamos responsáveis ao trazer crianças para este mundo e que a nossa capacidade para sermos sexuais é uma coisa boa.” Por isso é que só eu teria filhos no casamento e usaria o preservativo fora do casamento. Na minha vida, a responsabilidade e a sexualidade gratificante andariam de mãos dadas.
Enfim, não entendo porque é que esta organização não defende o meu caso. Volta a ter razão quando diz que os católicos não ligam nada ao Papa. “Os católicos divorciam-se, os católicos usam contraceptivos, os católicos abortam, há casais homossexuais católicos.” Mas eu também existo. E da próxima vez que vier ao nosso país, lembre-se de mim. De facto, os nossos líderes religiosos “não têm experiência do quotidiano. E quando não temos essa experiência é muito fácil estabelecer regras para as outras pessoas”. Por isso é que a sua organização católica deveria defender, perante a Igreja dos padres, pessoas como eu. Não entendo a fobia que a Igreja tem contra mim. Logo contra mim. Logo eu, que até nem sou má pessoa.

Respeitosamente,

T.

Da série "O Som e a Fúria"

LOS BORGES

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.

Jorge Luis Borges, El Hacedor (1960)

Crimes no espesso Oriente

A catástrofe em que se tornou o Iraque veio recordar-nos uma coisa que deveríamos saber desde Burke e Tocqueville: não basta fazer eleições para ter uma democracia. É preciso "algo" mais - uma sociedade civil forte, uma sólida cultura de tolerância e sobretudo elites verdadeiramente comprometidas com a liberdade. O maior erro de Bush e dos neoconservadores terá sido pensar que se podem exportar as instituições democráticas na ponta de um canhão para latitudes onde a sociedade civil não existe, esmagada entre um Islão tribal e um Estado tirânico, "this utopian fantasy that you can add water and get George Washington everywhere", como disse o republicano John Hulsman. Esquecemo-nos demasiado depressa que George Washington e o resto do kit democrático do Novo Mundo nasceram do sistema representativo medieval e de mil anos de luta entre a Igreja e o Estado no velho continente.
A Rússia actual, que sob a capa da democracia está a retomar velhos hábitos da União Soviética e do Império dos czares (se é que alguma vez os perdeu), tais como o silenciamento cirúrgico dos críticos do poder e a brutalidade militar em larga escala, recorda-nos exactamente o mesmo. Não se apagam facilmente séculos de autocracia. A própria Igreja ortodoxa esteve sempre muito próxima do trono, o que simplificou a sua decapitação pelos comunistas, ao contrário do Leste católico onde a perseguição religiosa levou naturalmente à resistência política.
Talvez o Ocidente exista, afinal. Talvez seja mais do que uma ideia. Talvez seja mesmo uma civilização, uma forma própria de viver "sob o único governo de Deus e das leis". Talvez o Ocidente seja (quem diria?) a civilização.

Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006

Da série "O Som e a Fúria"

(...)

The new year walks, restoring
Through a bright cloud of tears, the years, restoring
With a new verse the ancient rhyme. Redeem
The time. Redeem
The unread vision in the higher dream
While jewelled unicorns draw by the gilded hearse.

(...)

T.S. Eliot, Ash-Wednesday (1930)

Pelos vistos a dose não chegou

Parece que o Presidente do Irão acha que Israel vai desaparecer em breve. O amigo Mahmoud estaria a pensar correctamente se:

1. estivesse a considerar o problema demográfico que existe em Israel, onde os não judeus se multiplicam a uma taxa bastante superior à dos judeus;

2. se estivesse a referir ao desaparecimento gradual dos judeus na América (via casamentos).
Mas não é isto que vai na sua cabeça. Porque quem acredita num passado sem holocausto, acredita noutras coisas igualmente sinistras.

Ou o futebol acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o futebol

Lendo as recentes notícias sobre a corrupção na política e no futebol - a literatura salgada como lhe chama abaixo o Filipe Anacoreta - lembrei-me da recente campanha lançada no Brasil contra a corrupção. A frase que vi afixada em cartazes por todo o país dizia: «Ou o país acaba com a corrupção, ou a corrupção acaba com o país.» É que já cheira mal.

Literatura Salgada

O ano de 2006 brindou-nos com um novo género literário. Manuel Maria Carrilho, José António Saraiva e Pedro Santana Lopes foram alguns dos seus protagonistas. Falam de conversas privadas, referem-se a episódios concretos e desenvolvem uma trama à volta do seu ego. E a trama é real: expõe amigos, desvela factos privados e trata por tu as instituicões. Não tem pudor nem faz cerimónia.
Falou-se muito da literatura picante. Esta é salgada. A Carolina a sua mais recente aparição.

Quaestiones




Deve um católico e liberal lamentar a morte de um ditador? Poderá sequer relativizar a sua governação em função das "circunstâncias" ou deve avaliá-la como essencialmente o resultado da "agência moral", com a correlativa responsabilidade pelos actos? Terá um católico o dever moral de advogar a deposição de tiranos?

La vie est belle...


mais les femmes dão cabo d'elle.

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

Nóbeis

A propósito da entrega dos prémios Nóbeis este domingo, em Estocolmo, fui dar uma vista de olhos na lista dos laureados, para concluir o que já suspeitava: Como é possível que a Fundação Nobel atribua tão mal um prémio (o da literatura) e tão bem outro (o da física) ? Sobre o da literatura acho que não vale a pena elaborar – e não estou a pensar especialmente no Orhan Pamuk deste ano nem no “nosso” Nobel. Estou a pensar em tudo: os laureados irrelevantes, as falhas clamorosas, o servilismo à moda, a cedência a pressões evidentes, etc. etc. De vez em quando lá acertam, e toda a gente percebe as grandes dificuldades em premiar artistas, mas mesmo assim a lista é muito decepcionante... Como resumiu Truman Capote (que nunca ganhou): «anybody that could have given the Nobel prize to Pearl Buck ought to go and be examined by a mental institution». Nem mais.

Por outro lado, a consistência e o bom senso dos prémios Nobel em Física são impressionantes. É “bingo” ano atrás de ano. Estive a olhar para a lista dos premiados dos últimos 30 anos e só vi o que parece ser um flop claro -- em 1987, com o prémio a ir para J. G. Bednorz e K. A. Müller (supercondutividade em materiais cerâmicos: uma descoberta mais ou menos casual, sem compreensão e sem brilho) -- e alguns prémios “assim-assim”, que parecem ter atribuído uma importância (talvez) excessiva às capacidades organizativas e de “management”, ou são a derrapar para a engenharia -- por exemplo, Carlo Rubbia (1984) ou Georges Charpak (1992). Tudo somado, pouquíssimos deslizes e inclusivamente lapsos para os quais, com boa vontade, se pode fazer uma defesa credível. Na física a comissão tem até conseguido corrigir a tempo alguns atrasos que ameaçavam escândalo: Ernst Ruska, o inventor do microsópio electrónico, ganhou o prémio em 1986, o que foi mesmo à justa, porque morreu dois anos depois; e Vitaly Ginzburg recebeu finalmente o prémio (2003), aos 83 anos. Mas o que é excepcional e notório é que os verdadeiramente fora-de-série foram sempre recompensados e na lista estão os nomes que daqui a muitas décadas ainda serão mencionados com respeito e admiração: Laughlin (1998), t’Hooft (1999), Abrikosov (2003), Wilczek (2004), etc. Na física, que me lembre, Forster, Eliot ou Borges nunca ficaram de fora.

Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Da série "Posta Restante"

O mundo muda e eles [socialistas] não querem mudar, querem resisitir à mudança do mundo. Jacques Delors resumiu muito bem o estado de espírito geral: veio por aí a globalização, a demografia não ajuda, mas, dê por onde der, é preciso resistir. Ou seja, mais prosaicamente, aguentar a segurança social, o sistema de saúde e essa nebulosa que se chama os direitos adquiridos dos trabalhadores. Por outras palavras, para o socialismo europeu, a história parou por volta de 1980 e o que tem para oferecer, ele que sempre ofereceu o futuro (imaginário, mas futuro) é agora o passado. Não mexer em nada e não deixar que se mexa em nada. Um programa velho, de velhos, para velhos.

Vasco Pulido Valente, "O Socialismo no Porto", in Público, 10/12/06

Da série "Grandes Dúvidas"

Este novo concurso para eleger o melhor monumento português parece-me bem, mas...
...e se o Salazar ganha outra vez?

Sábado, 9 de Dezembro de 2006

Consequências


Os ventos socialistas que sopraram esta semana do Porto assobiaram, para além dos cansativos lugares-comuns, recados curiosos com pronúncia francesa. A candidata socialista à Presidência da República francesa, Ségolène Royal reservou o seu golpe de originalidade para a denúncia dos privilégios do Sr. Trichet, ou, mais rigorosamente, da instituição que este dirige, o Banco Central Europeu. Palavras vazias para acordar o congresso do socialismo europeu? Ou devemos considerar seriamente os comentários de Royal? Ambas as hipóteses são viáveis.

Em primeiro lugar, Royal deveria ser recordada do óbvio: o Banco Central Europeu não possui o monopólio da “decisão económica” e Trichet não determina o “futuro das nossas economias”. Por mais importante que seja a política monetária, esta não esgota o âmbito da política económica. As instituições políticas europeias partilham com as instituições políticas dos vários Estados-membros (é notável que, no seu discurso, Royal se tenha esquecido das segundas) a jurisdição sobre a política económica, à excepção da política monetária. Não é o Banco Central Europeu que faz os orçamentos, que determina a lei fiscal, o número de funcionários públicos, nem o investimento estatal na educação ou na saúde. Não é o Banco Central Europeu que aumenta as pensões de reforma, a idade da aposentação, nem o salário mínimo.

Também não são muito evidentes as ligações entre a intenção de Royal e as consequências da sua denúncia. Dizer que o Banco Central Europeu deve estar “sujeito a decisões políticas” deliberadas no Eurogrupo e no Conselho Europeu significa a destruição imediata da independência do Banco Central Europeu e a politização irrestrita das questões monetárias e cambiais. Boa receita para destruir a União Monetária, e, por arrastamento, a União Europeia, mas tenho dificuldades em perceber como é que o socialismo europeu pode querer reivindicar a paternidade destes sarilhos. Qualquer socialista português com responsabilidades governativas e noção da realidade deve ter sentido um arrepio a percorrer-lhe a espinha.

No entanto, o discurso de Royal é útil na medida em que permite vislumbrar uma tendência. O socialismo europeu, em particular na versão francesa e espanhola, adoptou o caminho “populista”. Bem sei que em Portugal a palavra está saturada, mas neste caso não há alternativa. Royal assemelha-se ao “populista” do final do século XIX William Jennings Bryan quando este se bateu pelo “homem comum” e denunciou o padrão-ouro. Tal como Bryan, também Royal poderia dizer “Não enterrareis no sobrolho do trabalho esta coroa de espinhos, não crucificareis a humanidade numa cruz de ouro” (reconheço que a laicista Royal teria de evitar as referências bíblicas, e que substituiria o ouro pelo euro). No imaginário de Royal, o Banco Central Europeu ocupa a posição de instituição tenebrosa da igualmente tenebrosa “globalização”, apostada no ataque incessante aos “direitos sociais” e ao “modelo social europeu”.

A campanha do referendo da Constituição europeia fez escola entre os socialistas franceses. Ensinou-lhes que o único caminho que resta ao socialismo é o de travar uma guerra catastrófica. Os socialistas franceses e os seus discípulos resolveram, em nome das “globalizações alternativas”, declarar guerra a um mundo que não compreendem. Esta crítica provavelmente não os incomoda. Pelo menos, podem consolar-se com a preservação da sua “identidade” e da sua “vocação”, a de ser o partido dos “ideais” e do “sonho de um amanhã diferente”.

Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Rui Rio

Henrique Burnay diz bem a razão porque muitos gostam de Rui Rio. E eu compreendo e, em certa medida, concordo.
Mas é difícil de aceitar que não se conheça em Rui Rio nenhuma opinião, decisão ou política que vise qualquer questão relevante para a cidade que dirige. Toda a sua actuação baseia-se em aspectos secundários e vive de irrelevâncias.
Por isso, estou convencido do seguinte: a cidade não guardará nada da sua passagem pelo pelouro. E o PSD há-de lamentar tê-lo tido como seu rosto no Porto, como hoje lamenta ter sido liderado por Santana Lopes.

Alternância


No Minho, onde antes havia verde e sol anda o amarelo coberto de castanho.

Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006

Coisas que aconteceram hoje no Porto

O Primeiro-Ministro e o Ministro da Administração Interna reuniram de emergência devido ao falso alarme de sequestro de um avião da Lufthansa.
Socialistas de toda a Europa reuniram-se na Alfândega para discutir o modelo social europeu.

Mas o que se passa com este país?

A pergunta tem algo de cómico, e não apenas por ser mil vezes repetida. Os portugueses querem saber, e não apenas por serem portugueses. O mistério desafia a curiosidade e mesmo um povo sem vocação filosófica tem os seus momentos metafísicos. De resto, a analítica da alma portuguesa é a única filosofia que conhecemos.
O país está mal, sobre isso não pode haver dúvidas. Basta olhar para as universidades, o parlamento, as livrarias, os jornais, as empresas, e comparar com o que acontecia há dez anos. Mas porquê? Eis uma explicação plausível: Portugal, um país historicamente fechado ao exterior, está hoje mais fechado do que nunca. Um muro impenetrável faz de fronteira. A questão mais interessante, para mim, é perceber como isto pode suceder num mundo onde as fronteiras valem cada vez menos. Porque caminha Portugal na direcção contrária? E porque caminha quase sozinho?
O paradoxo nada tem de paradoxo. Não há lugar para todos no mundo global. Num mundo que pela primeira vez se descobre a si mesmo, há demasiado a descobrir. O que pode fazer um pequeno país sem nada de muito notável senão desaparecer na vertigem? Se os outros não se interessam por nós, nós também não nos interessamos por eles. Quem andou no liceu sabe como estas coisas funcionam.

A caravana da morte revisitada

Pinochet teve um ataque de coração e está às portas da morte. Se eu fosse de esquerda, agora fazia aquelas piadinhas de mau gosto do costume. Mas o tema, para mim, é mais motivo de surpresa do que de alegria.

Garanto-vos que não sabia que ele tem coração.

"Quem disse que as crianças são sempre bem vindas" - Parte II

Recordo-me de uma conhecida minha italiana que recorreu ao aborto. Esta jovem, na casa dos 20, namorava há pouco tempo. Ficou grávida e resolveu abortar. Na altura estava em Itália e acompanhei, ainda que à distância (dado que a jovem era amiga de uma grande amiga minha), o drama vivido por esta “criança grande”. Foi como se do meu quarto escutasse o choro desta estudante, que na cozinha com a amiga tentava afogar a sua indecisão. Chorou quando soube que estava grávida. Chorou enquanto decidia o que fazer. Chorou depois de decidir. Chorou depois de abortar. E, possivelmente, hoje, ainda chora ( ainda que não manifeste as suas lágrimas).

Recordo-me também de outros casos em que, depois da difícil decisão, a espera para o acto legal foi grande (a verdadeira selvajaria do sistema); recordo-me também de escutar casos de mulheres, sem condições, que engravidaram. Já li muitas reportagens sobre casos de aborto clandestino, sobre casos de risco de vida, sobre casos humilhantes da condição humana. Também já tive conhecimento (como certamente todos nós) de casos de dúvidas que se tornaram vidas. Crianças que hoje têm brilho no olhar. Crianças que se tornaram estrelas do universo que as rodeia. Crianças que estiveram um dia prestes a deixar de ser vida. Mas que nasceram. Foram fruto da decisão. Umas sim, outras, não. Outras também não foram felizes. A decisão foi “deixar nascer”. A evolução foi “ cresce por ti” . Enfim… O que está certo? O que está errado? Será que a máxima: “a minha liberdade termina onde começa a dos outros” ainda é válida? O que é que Nós, enquanto cidadãos, podemos fazer para evitar que este drama continue a existir?
Será que aos mais novos falamos abertamente de amor e sexo? Será que nos colocamos nos seus lugares? Será que já nos faltou pão em casa e que depois de uma sessão de pancadaria engravidamos? Será que já nos lembrámos de falar de métodos contraceptivos aos homens, mulheres e jovens da nossa sociedade? Será que falamos sem tabus sobre a vida, sobre a importância do amor, da familia e sobre os valores da nossa sociedade?

Muito se tem dito e escrito, merecidamente dada a importância do assunto, sobre a liberalização do aborto. Resumidamente, estamos a falar, para uns, de direito à vida; para outros, de direito à liberdade de escolha. E o que é a escolha senão um direito democrático, ganho ao longo dos anos, por tantas vidas. É complicado falar de actos dolorosos. Não só física como psicologicamente. Actos que não têm retorno. Actos que ficarão, vivos ou não, para sempre presentes na memória de quem um dia teve que decidir.

Por isso creio que o mais importante é evitar. Não é remediar (apesar de estar consciente de que os remédios existem para aliviar a dor e que muitas vezes devem ser usados). É falar abertamente – mas com respeito – dos assuntos que fazem parte da nossa vida. É dar valor à vida valorizando a vida daqueles que nos rodeiam. E isso passa também por deixar decidir. Por falar dos valores da sociedade que queremos construir, onde a família – e, o amor intrínseco da mesma - deve ser ( e, isto segundo a minha visão subjectiva) o pilar de tudo. Quem ama e é amado é livre, decide, respeita as decisões dos outros, partilha as alegrias e as tristezas, sonha e constrói.
Neste intenso debate é importante termos consciência que este tema vive connosco. Faz parte da vida. Como tal é um assunto onde todos nós temos responsabilidade. A responsabilidade do esclarecimento não é só do "Governo" ( apesar do mesmo ter poderes mais alaragados do que o cidadão individual) nem tão pouco é só dos "outros". A responsabilidade é também nossa. Complementando a votação é necessária, mais do que nunca, a acção. E, esta pode ser tão pura e simplesmente...uma conversa.

“Quem disse que as crianças são sempre bem vindas?” - PARTE I

“Quem disse que as crianças são sempre bem vindas?” foi o título de uma reportagem de Andreia Sanches, que saiu no Publico (26/11/06) e que não pode ser mais pertinente no actual momento! A reportagem não é sobre o aborto mas sim sobre a “segmentação de mercado”. Isto é: sobre os locais públicos que não aceitam crianças. Na reportagem ficamos a saber (e, isto para quem ainda não se tinha apercebido desta realidade) que existem restaurantes e hotéis que “não aceitam crianças”. É um drama, dirão muitos. É percebível, dirão outros tantos. O facto é que quando me deparei com este título fiquei gelada e perguntei-me: Como é que as inocentes crianças, que dão vida e sentido a tantos lares, podem não ser bem vindas? Pensei sobre o assunto, e já mais quente, comecei a tentar entender os argumentos que poderão estar na base desta decisão. O facto é que de acordo com alguns “gerentes” os seus clientes procuram lugares onde possam descansar... Todos nós sabemos que, às vezes, sabe bem estar num local com tranquilidade absoluta. E, até muitos pais (os que podem) gostam de sair de vez enquanto, por exemplo, para jantar fora – a dois – num restaurante romântico. Ao deixarem as suas criancinhas - e ao embarcarem por um deja vu de romance inicial - muitas vezes querem tudo menos escutar o choro, os berros, as traquinices das crianças dos outros. Claro está que não é “socialmente aceite” espernear em torno desta questão barulhenta. Por isso o comentário remete-se para qualquer coisa do género: “que criança mal educada!” ou “os pais hoje em dia dão tudo aos filhos e depois é isto!”. Mas afinal as crianças têm ou não direito de gritar, de brincar, de serem desprovidas das responsabilidades que um dia farão delas adultos? Claro que sim. As crianças têm que ter liberdade para serem traquinas, para correram, para sonharem. O papel dos adultos é educar, amar, dar todo o mimo necessário (porque esse nunca é demais) e ter capacidade de discernimento que passa também por SABER onde levar, ou não, as suas crianças. Se os adultos assumirem o seu papel, as crianças podem ( e, devem) continuar a assumir o delas.
Assim o esperamos.....

Ainda mais hardcore

«Corruption so defined is bad if it lowers efficiency in the economy or society - that is, if the cost imposed on everyone else exceeds the gain to an official. Good corruption raises efficiency, so while the corrupt official may gain, so does the economy and society as a whole. » Gary Becker

É bem possível que os 72% alí de baixo induzam uma elevada parte da dita "informalidade" e da corrupção. Com tantas e tantas comissões e subcomissões pagas para pouco mais que nada, parece que neste país não se conseguem quantificar algumas das coisas que mais nos deviam preocupar.

Estudos de género e outras coisas do género


Há dias, escrevi para o Público um artigo ("Talvez", 28/11/06) que respondia a um outro de Madalena Barbosa no qual esta "especialista em estudos de género" fazia algumas acusações patéticas aos movimentos pró-vida. Referi-me por várias vezes, e com mal disfarçada acrimónia, ao título que a senhora se atribuía. Confesso que era irresistível. Um amigo e leitor do Cachimbo (vocês sabem de quem é que eu estou a falar...) bateu-me forte e feio porque isso teria sido um ataque pessoal. No Blogue do Não, onde postei o texto, também disseram o mesmo. Vamos lá a ver.
A expressão "especialista em igualdade de género" é uma tradução idiossincrática dos gender studies anglo-saxónicos, uma curiosa área temática das ciências sociais muito marcada pelo feminismo. Ao assinar um artigo sobre o aborto com esse título académico, Madalena Barbosa estava a dizer várias coisas: que o aborto é uma questão que cai sob tal alçada científica, que ela é uma especialista na matéria e faz da sua especialização um argumento de autoridade, que os gender studies se resumem à reivindicação da igualdade entre os sexos e que o próprio aborto é uma questão que se resume à igualdade entre os sexos.
Tenho vários problemas com este cocktail ideológico e nenhum deles é pessoal.
Em primeiro lugar, desde quando a igualdade entre homem e mulher é um tema para especialistas? Não diz respeito a todos? E porque há-de uma especialidade das ciências sociais, por muito ideológica que seja (e esta é-o, sem dúvida), servir de base a uma reivindicação política, por muito justa que seja (e esta é-o, com dúvidas)? Seguindo o mesmo raciocínio, qual a autoridade científica que o feminismo dá a alguém para falar do aborto? Mais conhecimentos de medicina, psicologia ou direito? Mais experiência de vida? Mais compaixão?
O meu maior problema com os gender studies, porém, são mesmo os gender studies. Ou melhor (ou pior), o seu feminismo: o tremendo enviesamento que consiste em reduzir todas as relações sociais, e portanto sexuais, a relações de poder. Como já muita gente notou, trata-se de uma encarnação moderna do velho marxismo em que se substitui apenas a luta de classes pela guerra dos sexos. Não é preciso ser um especialista em igualdade de género para saber que as mulheres sempre foram tratadas com injustiça. É por isso, dizia Chesterton, que lhes tiramos o chapéu. Mas as feministas não querem que lhes tiremos o chapéu: querem arrancar-nos a cabeça (e outras coisas que me abstenho de referir para não chocar machos sensíveis, os únicos que ainda poderiam usar chapéu). Querem, nos casos mais radicais -e olhem que não estou a fazer caricatura - eliminar a presença masculina das suas vidas e da sociedade. Querem, no fundo, trocar a injustiça que todas as mulheres sofreram ao longo da história pelo simples facto de serem mulheres por uma espécie de vingança universal contra o sexo forte.
As consequências de tudo isto vão muito para além do aborto, embora sejam particularmente aberrantes (sim, eu escrevi mesmo aberrantes) quando servem para apresentar o aborto como um direito das mulheres. Não vou desenvolvê-las. Fico-me apenas por um terreno que muitos consideram marginal: o cavalheirismo (sim, eu escrevi mesmo cavalheirismo). As feministas, e não só, consideram discriminatório, pequeno-burguês, anacrónico, hipócrita que os homens tratem as mulheres com deferência, ou seja de uma forma diferente, simplesmente porque são mulheres. Que não digam palavrões à frente delas, por exemplo. Que reservem para si as tarefas mais pesadas. Que escolham o vinho. Que paguem o jantar (há mulheres que querem repartir a conta!). E talvez tenham razão. Talvez o cavalheirismo não passe de uma hipocrisia de quem depois olha para as mulheres como objectos sexuais, ou fica a ver futebol em vez de levantar a mesa, ou não é capaz de ouvir e compreender e apoiar e partilhar emoções e dialogar sobre a megera da colega/empregada/vizinha/sogra, oh sim, sogra que lhes faz a vida negra.
Acontece que, quando se dispensa um homem da hipocrisia das boas maneiras, ele regressa à sinceridade do bom selvagem com uma rapidez surpreendente. Ora o bom selvagem nunca deixa des ser um selvagem, convém não esquecer. As mulheres que exigem aos homens que as tratem como tratariam os outros homens, estão a poupar-nos o esforço de sermos humanos pelo menos com metade da humanidade. Até eu, que não sou um especialista em nada que agora me ocorra, prevejo o resultado. Passarão a pagar metade das contas - e jamais conseguirão que um homem, um único homem, seja capaz de as ouvir, compreender e apoiar contra todas as megeras deste mundo.

Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

Pagar para ver

Eram uns tostões bem pagos à McKinsey se lhe pedissem o seguinte número:

Baseando-se nos cálculos desenvolvidos pelos próprios (2004), as barreiras que nos impedem de aumentar a nossa produtividade, medidas em percentagem do nosso "nonstructural gap", são:

1. Informalidade: 28%
2. Red tape (licenciamentos, restrições de oferta por área geográfica, etc): 24%
3. Ineficiências de regulção no mercado/produto: 13%
4. Serviços públicos deficientes: 22%
5. Leis laborais rígidas: 13%

Mesmo admitindo que não se mexem nos impostos, se os 72% de burocracias e quadros concorrenciais ineficientes fossem alterados e, passe mágico, passassem para 0%, qual seria o grau absoluto (e não o relativo medido em relação ao gap) de informalidade que passaríamos a ter?

Ainda a Economia Informal

Francisco,

Não feches assim o caso, não porque ache que no teu primeiro texto/provocação o argumento fosse inteiramente válido, mas sim porque este que usas não o encerra, sobretudo porque falam de coisas um pouco distintas. Existe um efeito nocivo de distorção da concorrência num sector se ele estiver dividido entre quem cumpre e quem não. Mas o mais interessante do teu primeiro texto é que ele cita exemplos de sectores inteiros (vamos esquecer excepções) que vivem na informalidade: empregadas domésticas, explicações de matemática, tascas. E aí a tua pergunta original faz não só todo o sentido, como é bem possível que, hoje e aqui, a resposta seja sim.

Um dos efeitos nocivos da economia informal é que reduz os incentivos à invoção e aumento da produtividade, como tu e a McKinsey bem citam, mas isso é porque, entre outras razões, o não pagamento de impostos no trabalho baixa o custo do trabalho em relação ao capital. Como tudo fica logo mais baratinho, vai tudo para o Algarve celebrar em vez de gastar energia a tentar perceber como se pode produzir melhor. Mas esta realidade, que se aplica no sector da construção que citas, não se aplica aos teus exemplos originais, onde o efeito de incentivo negativo que adviria da "formalização" da actividade teria como consequência não um aumento da produtividade mas sim uma quebra de actividade económica, pois muitos dos agentes simplesmente sairiam do mercado, e aí a equação segue depois o caminho que descreves.

Não me parece também válido o argumento utilizado correntemente, segundo o qual, por um dado sector não pagar impostos, os outros irão pagar impostos mais elevados. Acho que todos já percebemos que qualquer tostão que vá parar ao Estado terá sempre um qualquer caminho digno de exaltação que não o de volta ao bolso do contribuinte comum.

Também não me parece que os cidadãos por cá acreditem nisso, ou pediriam sistematicamente recibo nas tascas, nas explicações e às suas empregadas domésticas. Parece que antes acreditam em algo distinto, que a existência de alguns sectores na informalidade os beneficia, pois têm acesso a um produto que passa existir, mais barato e que pode ser comprado por um maior número de pessoas, que por sua vez beneficiam de um acréscimo de produtividade na medida em que alguém lhes lava o chão, engoma as camisas ou faz os trabalhos de casa e treina matematicamente os filhos.

Vamos portanto decidir quais é que são os sectores e aplicamos taxa zero? Só num mundo a preto e branco, o modelo saudável é aquele que minimiza os incentivos negativos de entrada baixando a taxa - somos um país relativamente pobre, quem tira 42% num país rico deixa muito dinheiro em caixa (incentivo positivo), mas por cá tira quase toda a vontade de trabalhar - sem sobrecarregar o preço por aumento de custos ou ajuste da oferta. Mas a taxa baixa para todos os sectores, não apenas para alguns. A existência de uma economia informal neste sectores advém da prevenção de morte por asfixia via excesso de impostos e regulação, responsáveis por ineficiência nos restantes sectores, e não tanto nos informais porque, em legítima defesa, lhes fizeram um manguito.

Da série "Posta Restante"

"O PS tem esta característica: nunca, desde 1974, encabeçou nenhuma grande mudança em Portugal. Não fez nem as nacionalizações nem as privatizações. Também não as desfez. O que fez foi moderar o que os outros fizeram. A grande preocupação dos líderes socialistas foi sempre a de arbitrar entre as várias correntes políticas, esperando com isso serem reconhecidos, à esquerda e à direita, como partido natural do Governo. (...)
Para exercer o poder é preciso, agora, respeitar os limites europeus do défice, aumentar impostos e cortar ou congelar prestações e salários. Em tempos, também foi necessário fazer acordos com o FMI e desvalorizar o escudo (a maneira antiga, indirecta, de diminuir salários e prestações). O PS, nos seus tempos de Governo, fez tudo isso. O que nunca fez foi tentar romper com o sistema instalado. O PS tem um projecto de poder, não tem um projecto de mudança do país."
Rui Ramos, "O pragmatismo governamental", in Público, 6/12/06

Mas porque é que isto não me surpreende?

"O procurador-geral da Rússia, Iuri Chalka, anunciou ontem que Moscovo não extraditará as pessoas consideradas suspeitas do envenenamento do ex-espião Alexander Litivinenko, devendo qualquer julgamento de um cidadão nacional decorrer no país."

Público, 6/12/06

Les valeurs de la France

Antes que o Henrique Leitão arrase com a coisa, aqui fica a nota de que o novo canal francês de notícias France 24 já está disponível na net. Amanhã estreia por cabo e satélite, juntando-se à CNN International, BBC World, e Al-Jazira Internacional.
O objectivo é "véhiculer partout dans le monde les valeurs de la France". Que venha lá essa perspectiva francófona. Seja lá o que isso for, o presidente Chirac está entusiasmado.

Querem vender um rim?

Apresento o nervo de um argumento, que encontrei na revista Economist (18-24 de Novembro 2006, p.13), em defesa da legalização do comércio de rins humanos. A discussão sobre a legitimidade da venda de órgãos humanos não é nova. Contudo, considero este artigo extraordinariamente bem estruturado, sintético e convincente. Por isso, bastante discutível. É instintivamente generoso e abjecto. Portanto, a discussão que proponho pode ser apenas sobre pressupostos filosóficos, políticos, económicos, ou sobre pontos fortes e lacunas na estrutura do argumento.

Aqui fica a tradução/selecção dos principais pontos:

“Se fossem apenas mais um produto, o mercado desenvolveria a sua magia habitual (…) Mas os rins humanos não são uma mercadoria qualquer. A sua comercialização é proibida na maioria dos países. Assim, a oferta depende em larga medida da caridade dos indivíduos: alguns querem doar um dos seus rins saudáveis, enquanto estão vivos (com poucos riscos para a sua saúde); outros permitem que os seus rins sejam utilizados após a sua morte. Sem surpresas, com o altruísmo como único incentivo, os dadores são insuficientes.
(…) A procura de rins está a crescer rapidamente, 7% ao ano na América, sendo que no último ano morreram 4039 pessoas em lista de espera. (…) Os pacientes mais ricos compram rins aos mais pobres e aos aflitos em mercados negros emergentes. (…) Os vendedores de rins clandestinos recebem poucos cuidados médicos, os compradores são contaminados frequentemente com Hepatite ou Sida, ambos sofrem com as consequências de cirurgias descuidadas.
Perante tudo isto, a maioria dos países abraçam a pior das opções políticas. Os governos colocam a responsabilidade nos seus cidadãos, esperando que ofereçam órgãos. (…) Por outro lado, se apenas 0.06% dos americanos saudáveis, entre os 19 e os 65, partilhassem um rim, o país não teria qualquer lista de espera.
A forma de encorajar isto é legalizar a venda de rins.
Muitos considerarão repugnante a simples ideia da venda de órgãos por parte dos indivíduos. Todavia, um mercado de órgãos, de partes corporais de pessoas falecidas, já existe. As empresas facturam milhões neste mercado. Deste modo, parece perverso excluir os indivíduos. Além disso, a remoção de um rim é tão segura como qualquer cirurgia comum ou até como os tratamentos de beleza; o que a diferencia de outros géneros de doação de órgãos.
(…) Com legislação adequada, um mercado de rins seria uma grande melhoria no estado de coisas corrente e deplorável. Os vendedores poderiam ser examinados, visando a despistagem de doenças e uso de drogas, sendo bem tratados depois das operações. Os compradores obteriam rins melhores e de forma mais rápida. Vendedores e compradores sairiam beneficiados em comparação com o mercado ilegal, onde grande parte do dinheiro vai para o intermediário.
Habitualmente o instinto ludibria a lógica. Por vezes, está bem. Mas neste caso, o instinto que nos diz que a venda de porções de si próprio está mal conduz a várias mortes prematuras e a imenso sofrimento. A resposta lógica, neste caso, é a humana.”