Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

Antikythera

Notícias sensacionais. No último número da Nature é dado destaque à reconstrução do mecanismo -- ou maquineta, geringonça, como lhe queiram chamar -- Antikythera (O μηχανισμός των Αντικυθήρων) .

O Antikythera é um mecanismo fascinante e misterioso, uma surpreendente peça de maquinaria de ca. séc II. a. C., recuperada do fundo do mar em 1902. A partir dos anos cinquenta, sobretudo devido aos esforços do historiador Derek de Solla Price, começou a ser estudado em pormenor, e os resultados aparecem finalmente ao público. Diz quem o viu recentemente numa exposição: «It looks like something from another world — nothing like the classical statues and vases that fill the rest of the echoing hall. [...] But it is the details that take my breath away. Beneath the powdery deposits, tiny cramped writing is visible along with a spiral scale; there are traces of gear-wheels edged with jagged teeth. Next to the fragments an X-ray shows some of the object's internal workings. It looks just like the inside of a wristwatch. [...] These fragments contain at least 30 interlocking gear-wheels, along with copious astronomical inscriptions. Before its sojourn on the sea bed, it computed and displayed the movement of the Sun, the Moon and possibly the planets around Earth, and predicted the dates of future eclipses. It's one of the most stunning artefacts we have from classical antiquity.»

Mas isto ainda é dizer pouco. Acima de tudo o que interessa perceber é que «No earlier geared mechanism of any sort has ever been found. Nothing close to its technological sophistication appears again for well over a millennium, when astronomical clocks appear in medieval Europe. It stands as a strange exception, stripped of context, of ancestry, of descendants.» Ou seja, o Antikythera é a pontinha minúscula do iceberg da nossa ignorância histórica; a sua complexidade recorda-nos que sabemos muito pouco, mas muito pouco mesmo, sobre o que era a vida na Antiguidade.

... nas vésperas de um Benfica-Sporting duvido que alguém ligue a isto...

Da série "Posta Restante"



E como hoje é a última Quinta-feira do mês, aí está mais um número da Atlântico.
Recomendo vivamente o artigo do Rui Ramos sobre Sá Carneiro e o 25 de Novembro, que dá o mote à capa, os argumentos sobre o aborto de Matilde Sousa Franco e Rodrigo Adão da Fonseca, pelo "não", e Vasco Rato e Rita Barata Silvério, pelo "sim", e o artigo sobre a nova geopolítica da droga do Filipe Nunes Vicente, um dos melhores bloggers portugueses.
E mais, muito mais.

Um video-post sobre a OTA

A comédia de erros

Do you not see, ant that you are, that you are only crawling along the great wheel of fate? Chance, fate, Divinity is everything.”

Johann Gottfried Herder, 1774.

No artigo “Portugal à chuva”, publicado no Domingo passado, Vasco Pulido Valente referiu-se pela enésima vez ao “atraso e à miséria” portuguesa e aos “iludidos” pela possibilidade de reformismo —uma impressionante colecção de ingénuos, que ascendem ao poder político e tentam sem sucesso emendar a pátria. O flagelo acentuou-se após 1974:
Desde o princípio que a história da democracia portuguesa, que estranhamente se imagina "europeia", tem sido uma comédia de erros, que o passado impõe.
Pulido Valente escreve sobre Portugal com um desespero romântico, no sentido filosófico do termo. Para Herder, a nação era o único veículo susceptível de proporcionar ao indivíduo a plena realização do seu telos humano. As nações nasciam, floresciam, definhavam e morriam. As nações tinham uma “voz” (a cultura nacional) e uma qualidade transcendental, que tornava a metáfora orgânica real no sentido político. Ao contrário de Herder ou de Fichte, Pulido Valente não perfilha uma concepção orgânica da comunidade política, mas refere-se frequentemente a Portugal em termos semelhantes. Porém, Herder era optimista, Pulido Valente é de um fatalismo historicista: o Zeitgeist lusitano deprime e oprime os portugueses e a “voz” da pátria é um murmúrio lúgubre que condena de antemão ao fracasso todos os esforços de reforma política. Aliás, a condição do corpo político nacional reduz a aspiração reformista ao exercício desesperado de insuflar vida num moribundo. Na comédia de erros, os governantes desempenham o papel de idiotas; sempre os primeiros a “acreditar” e os últimos a compreender.

Se esta fosse uma descrição aceitável da actividade política em Portugal, o país era de facto uma tragicomédia. Sucede que, com algumas excepções e independentemente de regime ou constituição, os governantes dos últimos dois séculos dedicaram-se a outra tarefa, que não deve ser confundida com reformismo: a construção, ampliação e manutenção de um aparelho de Estado. Não de um estado weberiano dotado de uma burocracia hierárquica e racional, mas de um estado corporativo, autoritário e centralizado. E na tarefa de construção de um poder político abrangente, os governantes portugueses não fracassaram. Pelo contrário: foram demasiadamente bem sucedidos.

Em Portugal a sociedade fornece os meios, as finalidades são decididas preferencialmente por mecanismos políticos e sindicais (as ordens profissionais são sindicatos de interesses). Considerando o carácter do Estado português, o reformismo é necessariamente devolutivo. Ora com a excepção do programa de reprivatizações iniciado por Cavaco Silva (e mesmo assim excessivamente faseadas no tempo e corporativamente negociadas), poucas foram as medidas políticas orientadas pelo princípio fundamental de devolução aos portugueses da responsabilidade sobre a condução das suas vidas. Note-se: aos portugueses, não a novas entidades fictícias, como as regiões administrativas, cujo objectivo é repartir o poder dentro do Estado, para manter e até ampliar o controlo político sobre a sociedade. Agora, com a “gaiola de ferro” do Estado português ferrugenta e a ameaçar ruína, o problema de engenharia que consome a energia política consiste em encontrar uma forma de sustentar ainda um pouco mais a rede de privilégios públicos e corporativos. Não se trata portanto de reformar, mas precisamente do oposto: como evitar o reformismo.

Aparentemente, a persistência desta orientação política deveria proporcionar o aparecimento de alternativas ao consenso socialista e corporativo. Para que uma alternativa reformista seja bem sucedida, terá de emergir do interior das forças partidárias existentes. Sem o lastro de sedimentação institucional, os novos partidos são encarados pelo eleitorado como aventuras bizarras e remetidos para uma condição de marginalidade representativa. Mas basta ver um telejornal qualquer para perceber o triste destino que provavelmente espera um projecto reformista que se apresente a votos.

O problema começa e acaba no apetite ilimitado dos beneficiários que controlam politicamente o regime e que sabem perfeitamente que a trajectória actual não é sustentável, mas que nunca abdicarão dos seus privilégios: são as Pompadours do socialismo corporativista. À luz da coligação de interesses faccionais que domina o aparelho de Estado, compreende-se melhor a inexistência de reformismo político e a comédia de erros revela a sua verdadeira natureza: os esforços políticos de "racionalização" não são reformismo, são os “sacrifícios” necessários para prolongar a "festa" do socialismo corporativo. Alguns subgrupos de beneficiários do regime visados pelas medidas de “racionalização” protestam sem vergonha nem decência, indiferentes à ruína do aparelho estatal e ao fardo fiscal suportado por toda a sociedade, que se prolongará muito para lá do fim deste regime. Portugal já está politicamente “à chuva”, mas nada que se compare com o dilúvio que inevitavelmente se seguirá ao final do festim. Se calhar, também sou um fatalista.

Governo descobriu mais 39 000 privilegiados


O nosso aplicado ministro das Finanças afirmou no parlamento, certamente com a satisfação orgulhosa do dever cumprido, que as alterações fiscais previstas no Orçamento de Estado para 2007 "afectam [i. e. prejudicam] apenas [sic] 39 000 pessoas com deficiências".
O Governo, como um perdigueiro justiçoso, acaba sempre por descobrir, a bem da Nação, súcias de privilegiados, onde nós, criaturas medianas, nunca suspeitaríamos. Estes 39 000 malandros, para além do desplante de serem deficientes, ainda têm o atrevimento de gozarem de rendimentos entre os 900 e os 1000 Euros!...
Felizmente que o Governo vela e não deixa os privilegiados em paz.

Da série "O Som e a Fúria"


(Quando se levantou a Estátua Equestre ao senhor rei D. José I, ano de 1776)

Erige, Ulisseia, embora, ao rei dedica,
Essa sublime estátua , ele a merece;
Que quem tanto te ilustra e te enobrece,
Mais que te aceita, o culto justifica.

Tu nesse bronze aos séculos publica
Quanto deves à mão que te engrandece;
Que em parte os benefícios agradece
A nobre confissão que os certifica.

Deu-te ele um novo ser, e um tal aumento,
Que na tua grandeza estupefacto
Se pasma ao ver-te o peregrino atento.

Mostra-lhe, então, que o teu maior ornato
É guardar nesse augusto monumento
Do teu segundo Ulisses o retrato.

Paulino Cabral de Vasconcelos (Abade de Jazente), Poesias, I (1786)

Resposta ao post anterior

Claro que sim, Pedro!...

(E os vilões poderão ser homófobos sinistros...)

Ó qu´isto chegou...



Diz quem foi ver (coisa feia, a inveja...) que o novo 007 é uma verdadeira revolução: Bond tem dores, suja-se, apaixona-se, não vai a todas porque se apaixona, quer deixar o MI6 porque se apaixona, quer casar porque se apaixona e, supremo aggiornamento, é enganado pela rapariga.
Em suma, o último dinossáurio falocrático tornou-se politicamente correcto.
Querem apostar que no próximo filme será gay?

Da série "Cachimbos de Lá"


Salvador Dalí, Retrato do Meu Pai (1920)

Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006

Um chuto no Carmona

Finalmente, ao fim de vários anos e alguns meses na Câmara de Lisboa, Carmona apresentou a primeira ideia para a cidade: salas de chuto! Carmona reuniu personalidades de prestígio e conseguiu, num tempo recorde, executar um plano que vai revolucionar a cidade e será seguramente um marco para o futuro. Esta medida terá impactos ao nível do Turismo, do Investimento Estrangeiro e da Reabilitação Urbanística. Para a medida ter o alcance pretendido Carmona deve levar o primeiro chuto.

Só para Pagãos


É para verem. Neste país não se brinca com coisas sérias. Por cá os relativismos, os niilismos e os subjectivismos têm os dias contados. Isto é gente católica a sério. E mesmo os que não perfilham uma fé religiosa, ainda assim pautam a sua visão da realidade por normas e medidas objectivas. Venham lá os protestantes do norte da Europa, os ateus de França e aqueles agnósticos de Inglaterra com as suas modas, que a gente explica-lhes como é que é.
«O Natal é quando um homem quiser»? Era só o que faltava. Tal como se publicitou neste fim-de-semana, o Natal inaugurou-se a 25 de Novembro, na Praça do Comércio, às 20h30.
Mas, então, o que é o Natal? O inferno das compras, comer até rebentar, o borralho a crepitar, a festa da família, as crianças a abrirem prendas e o papá, ridículo, mascarado de Pai natal. Não será que nesta pluralidade de significados conflituantes se atesta a vitória do subjectivista? Nada disso. Essas modernices por cá não pegam. Na capital deste grande país erigimos um monumento, “que se pode já considerar o centro do Natal lisboeta” (segundo o site do Millennium bcp).
E o que é o centro do Natal? Uma árvore que atingirá 75 metros, o equivalente a 25 andares, onde cintilam 2,35 milhões de lâmpadas. E não é apenas uma árvore que se possa caracterizar (subjectivamente) como pitoresca, elegante, deslumbrante, esplêndida e brilhante. Ela é a maior. A maior da Europa. E assim fazemos ver a esses progressistas europeus, a essa canalha pagã, relativista, ateia e agnóstica que aqui o espírito natalício está bem vivo.
«Mas papá, a catequista disse que o Natal era quando o Jesus nasceu lá para os lados de Belém.» «Sim filho, mas ficas a saber que tudo começou com a estrela a vir aqui da Praça do Comércio». Ainda por cima, temos as beatices a estragar o espectáculo. Era só o que faltava. Já estou como o Afonso Costa do outro dia. Temos é que correr com esta padralhada daqui para fora. A educação dos nossos filhos não pode ficar a cargo dessa gente sem espírito natalício.

Da série "O Som e a Fúria"

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles
que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas de heróis lançou no Hades,
ficando os seus corpos para cães e aves
enquanto se cumpria a vontade de Zeus
Homero, Ilíada, canto I (trad. de Frederico Lourenço, 2005)

Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

Ansiedades...

Comentando a recente investida de três pesos-pesados do ateísmo militante (Daniel Dennett, Breaking the Spell; Sam Harris, Letter to a Christian Nation; Richard Dawkins, The God Delusion), Richard Schweder (NYT/IHT) fala da actual “anxiety of the atheists”, e do evidente nervosismo que se sente nas hostes ateias. É difícil não lhe dar razão, especialmente neste dia em que Bento XVI chegou à Turquia, e em que, como tantas outras vezes na história, o mundo inteiro está suspenso das palavras e dos gestos de um Papa.

O Papa na Turquia



Bento XVI inicia hoje uma histórica visita à Turquia. Embora não seja a primeira deslocação papal a um país islâmico, as circunstâncias tornam-na especial. A última Time sugeria que o Islão será para o pontificado de Ratzinger aquilo que o comunismo foi para o de Wojtyla: a maior preocupação da Igreja. Ora, não há hoje país mais propício a um diálogo entre a Bíblia e o Corão do que a Turquia, historicamente uma ponte entre a Europa e o Oriente, aliada da nação germânica e do império austro-húngaro na I Guerra Mundial, ocidentalizada à força por Ataturk, Estado laico com 70 milhões de muçulmanos mas comunidades cristãs de longa tradição, actual membro da NATO e candidata à União Europeia, origem do maior número de imigrantes não-europeus na Alemanha de Ratzinger. Um amigo dizia-me, há dias, que o périplo turco de Bento XVI terá um efeito semelhante no mundo de Maomé ao da primeira viagem de João Paulo II à Polónia no então Bloco de Leste. Uma expectativa demasiado alta, sem dúvida, mas o modo como a Turquia acolher o Papa marcará certamente o tom de eventuais idas posteriores a outros países de maioria islâmica.
A este propósito, convém lembrar que Ratzinger não contará com a boa vontade dos seus compatriotas bávaros e muito menos com o entusiasmo dos polacos por Wojtyla. Crítico da entrada da Turquia na União Europeia, não foi convidado pelo Governo, mas pelo patriarca ortodoxo de Constantinopla. A conjuntura internacional não é a melhor. A “crise dos cartoons” alimentou uma miniguerra de civilizações e a Turquia foi um dos países onde os católicos foram atacados (houve mesmo um padre italiano que foi morto por um extremista). Para agravar as coisas, a França aprovou recentemente uma lei que proíbe negar o genocídio arménio, um tema tabu para Ancara, e as negociações de adesão à União foram suspensas devido à velha recusa turca em reconhecer a soberania de Chipre. E há ainda, obviamente, as ondas de choque do célebre discurso de Ratisbona. As manifestações de hostilidade contra o Papa, algumas com milhares de pessoas, têm-se multiplicado entre os turcos nos últimos dias.
Contudo, Bento XVI mostrou já que não tem medo de criticar o Islão por aquilo que considera a maior ameaça que esta fé conquistadora lança ao Ocidente: a intolerância. Disse-o pela boca de um imperador bizantino do século XIV, mas disse-o. Não se espere dele grandes considerações sobre a questão arménia ou a Europa. Mas é provável que, em Esmirna ou em Éfeso, onde o Cristianismo tem um peso histórico, recorde o respeito pela liberdade religiosa e pelos direitos das minorias do antigo Império otomano. Aqui para nós que ninguém nos ouve, acho que é só para isso que lá vai.

Provocação ao pessoal deste Blog, à Blogosfera e ao Povo em geral

Malta: A economia "paralela" em Portugal está em estimada em 20% do PIB. É uma brutalidade. São várias centenas de milhões de contos que não "existem" nas contas públicas. Afinal não somos assim tão pobres. Toma lá Bruxelas. Toma lá Eurostat. Onde é gerado esse dinheiro? Em actividades perfeitamente lícitas (explicações de matemática aos vossos filhos, tascas onde vêm o Glorioso vencer por essa Europa fora, empregadas domésticas etc.), e outras menos bonitas (droga, contrabando, prostituição etc.). Melhor ou pior, lá que ele existe, existe.
E aqui começa a provocação, muito politicamente incorrecta e liberal:

1. Vamos assumir (todos juntos vá lá) que uma parte substancial desse dinheiro fica "cá" e não foge para "fora" (ok, algum há-de ir para as máfias e companhia) e é gasto na nossa economia, através da aquisição de produtos e serviços que estão em Portugal, em mercados mais ou menos concorrenciais e que fazem uma utilização mais ou menos eficiente de recursos;

2. Agora vamos assumir que se pelo menos as actividades lícitas que geram esse dinheiro cairem nas malhas do Sr. Paulo Macedo, duas coisas acontecem desde logo: uma parte do dinheiro desaparece - porque há menos incentivo para gerá-lo (40% ou 50% de carga fiscal é muito pouco estimulante); e a outra é que os milhões que o Sr. Macedo saca vão quase, quase todos para pagar dívidas ou para financiar a máquina do Estado (nada concorrencial e pouco eficiente).

3. Ou seja: se o dinheiro circular debaixo da mesa, é bem utilizado (a parte que fica cá) e faz bem à nossa economia. Se o dinheiro entrar nas contas públicas, uma parte desaparece e a outra é mal utilizada.

4. Assim, não entrando agora em considerações morais tipo "a César o que é de César" e sabendo que vamos ter impostos pesados durante muito tempo (passivo do metro do Porto: 260 milhões de contos, é só um exemplo), o fim da economia paralela não prejudica gravemente a criação de riqueza em Portugal?

5. É preciso ter lata, eu sei.

Os vendidos do socialismo I

Era vê-los há uns meses: contra o liberalismo, marchar, marchar! Homens de convicções lutavam contra a vida para além do défice. Agora a sua vida é outra, porque, como diria o Sampaio, «a vida está difícil para todos». Ferro Rodrigues na OCDE. Cravinho tem o filho no Governo. Mega Ferreira no CCB. Ana Gomes no Parlamento Europeu. Augusto Santos Silva é ministro. Caso para dizer: o silêncio é de ouro!

Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

A última baixa pombalina

A entrevista de Maria José Nogueira Pinto ao "Diga Lá Excelência", que ontem vi na RTP2 e hoje no Público, não me esclareceu sobre seu o imbróglio de faca e alguidar com o PSD lisboeta, mas deixou-me uma certeza: Zezinha é mais uma vítima do Marquês de Pombal.
Vejamos.
O que é que a levou à ruptura com Carmona Rodrigues (ou vice-versa)? Querer alguém de confiança a dirigir a Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa, uma exigência compreensível tendo em conta que o projecto, pelo qual deu a cara, é hoje o maior desafio urbanístico de Lisboa. Quando lemos que o já célebre plano por si apadrinhado prevê abrir um túnel no Príncipe Real para desanuviar o trânsito na Praça do Comércio, percebemos a dimensão da coisa.
Acontece que a Baixa, tal como existe, é irreabilitável. E é-o porque foi pensada como um sistema sem espaço(s) para mudar e fechado ao exterior, uma estrutura em que todos os elementos são rigidamente interdependentes. Não se consegue mexer num deles sem tocar nos outros. Em suma, um "projecto totalitário", nas palavras fortes do arquitecto José Manuel Fernandes. Pombal transformou um labirinto vivo e onde as pessoas fervilhavam aos milhares em ruelas, travessas e pracetas, numa utopia rectilínea sem lugar para uma esplanada de café. A não ser, claro, nas duas grandes praças que encerram, a sul e a norte, a teia pombalina: a Praça do Comércio, que reservou para cenário do poder absoluto, e o Rossio, que abandonou ao povo. Entre ambas, só há rectas paralelas e perpendiculares sem passeios nem recantos. Um deserto feito para nómadas. Nem as igrejas, velhos pólos de sociabilidade, têm adros dignos desse nome.
É esta utopia onde não se pode viver que Maria José Nogueira Pinto quer reabilitar. Mas as utopias não se reabilitam - pela simples razão de que se crêem perfeitas. O Marquês encarcerou Lisboa na sua rede iluminada, talvez (Deus nos livre...) até novo terramoto, e ela, como tantos lisboetas, não conseguiu escapar-lhe.

Da série "Os Outros"

Embora o Manel Pinheiro já o tenha posto nos nossos links, ainda não tínhamos dado os parabéns ao 31 da Armada, um novo blogue que vale a pena visitar.
Eu sei que somos suspeitos porque contamos por lá muitos amigos, mas desta vez confiem em nós.

Domingo, 26 de Novembro de 2006

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA


AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.

(De uma folha volante distribuída na rua, em Lisboa, Maio de 1958)

MÁRIO CESARINY

A América e o Mundo


“Uma atenção à opinião das outras nações é importante para qualquer governo por duas razões: a primeira é que, independentemente dos méritos de qualquer plano ou medida particulares, é desejável, sob vários aspectos, que ele se apresente às outras nações como o resultado de uma política sensata e honrosa; a segunda é que, em casos duvidosos, em particular naqueles em que as assembleias nacionais possam ser pervertidas por alguma paixão forte ou por algum interesse momentâneo, a opinião suposta ou conhecida do mundo imparcial pode ser o melhor guia que pode ser seguido.”


Mesmo para quem apoiou a invasão do Iraque, não custa admitir que esta recomendação do principal arquitecto da Constituição americana foi algo negligenciada pelos condutores da política externa dos EUA nos últimos anos. E agora que tanta gente aguarda o triunfo completo dos Democratas, espera-se também uma mudança de atitude política e diplomática que reflicta mais fielmente as intenções de Madison.
De certo modo, os EUA não têm alternativa. É a consequência necessária da sua vocação civilizacional proclamada desde os tempos da Fundação, e da própria lógica democrática. Resta saber o que é o “mundo imparcial” e quem são os seus porta-vozes.

Sentimos que estamos velhos quando...

... o nosso anjinho de quatro anos começa a dizer "bué".

Mas estavam à espera de quê?

Francamente, não percebo a irritação de tanta gente com a entrevista de Cavaco à SIC. Também me arrepiou aquele "nós" para se referir ao Governo, mas estavam à espera de quê? Por incrível que pareça, ele está apenas a fazer no poder o que disse que ia fazer em campanha. Acusaram-no de planear um golpe de Estado constitucional, e negou sempre. Acusaram-no de querer levar o PSD ao colo, e negou sempre. De resto, só quem não o conhecesse (ou estivesse cego pelo amor a Soares, caso do próprio) poderia acreditar em tais dislates. Cavaco não vai mexer uma palha contra Sócrates no primeiro mandato, a não ser em situação - altamente improvável, aliás - de crise parlamentar ou governativa. O segundo mandato será outra história, mas para já o Presidente da República está apenas a preparar a sua reeleição em apoteose. Enfrentar um partido com maioria absoluta é a última coisa que lhe interessa. Se o PSD quer oposição ao Governo, que a faça. Foi para isso que votei em Marques Mendes. Não foi para isso que votei em Cavaco.

Liberdade e Obediência



“A grande questão que em todas as épocas perturbou a humanidade, e que arrastou consigo a maioria dos males que arruinaram cidades, despovoaram países e perturbaram a paz do mundo, não consistiu em saber se existe poder no mundo, nem qual a sua origem, mas quem deve detê-lo.” -- John Locke, Dois Tratados do Governo Civil

Dentre todas as questões levantadas pelos homens ao longo de séculos, Locke escolhia esta como a mais decisiva, pelo menos do ponto de vista político. Quem deve mandar? Embora a citação aqui reproduzida não o explicite, Locke teve de lidar com a outra “grande questão” correlativa à determinação do direito de governar, a saber, a que diz mais directamente respeito aos destinatários do poder político: porquê obedecer? Qual a origem do dever de obediência? Não basta dizer que se obedece ao poder coercivo do Estado enquanto agente político mais forte, pois nem sempre somos motivados a obedecer pela mera ameaça da punição. E o esforço de qualquer teoria política abrangente é sempre acompanhado pela pergunta “como pode a obediência ser legitimada?” Ou, por outras palavras, em que condições a obediência é um dever?
Hoje, há razões muito plausíveis para supor que a primeira “grande questão” foi definitivamente resolvida. A importância do papel que Locke desempenhou na história da formação deste nosso consenso é inegável.
Mas a resposta à segunda “grande questão” não é tão evidente. O governo constitucional e representativo vive, ou tem de viver, com esta relativa indefinição. Os homens preparados para a cidadania da liberdade são aqueles que ajuízam prudentemente as ocasiões em que a obediência política já não é mais um dever. Não há governo liberal sem a concessão de um direito (mais ou menos residual) à revolução ou, como se diria mais tarde, à desobediência civil. Considerando tal consequência, Locke insistia que é preciso que as autoridades políticas governem bem; contudo, não se esquecia que é igualmente necessário que os cidadãos sejam racionais e responsáveis.

Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

É feio, não é bonito...

... as acusações que trocam hoje nas páginas do Público António Mega Ferreira, presidente do CCB, e René Martin, ex-director artístico da ex-Festa da Música.
Tinha que acabar assim?
Nenhum deles podia ter dito ao jornal as duas palavrinhas mágicas "não comento"?

Vinicius

Vi o filme do Vinicius uma noite, entre amigos, com vinho e queijos a acompanhar. Boa música, melhor fotografia, no ritmo certo, como as palavras do poeta vagabundo. Uma imersão na moderna cultura brasileira, doce, melancólica e decadente, alegremente decadente. Um retrato de uma vida intensa, vagabunda, nem sempre feliz, do grande poeta e músico Vinicius de Moraes. Um belo filme que nos deixa tocados pela beleza. E o que resta?

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio (...)
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil. (…)
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. (…)
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes, "Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas"

The writing on the wall

Alexander Litvinenko, ex-agente do FSB (o “sucessor institucional” do KGB) e opositor do actual regime russo, morreu durante a noite, depois de prolongada agonia. Teve o mesmo fim que a jornalista Anna Politkovskaya, abatida a tiro no elevador do seu prédio em Moscovo, há algumas semanas. O governo russo nega qualquer responsabilidade na morte do ex-agente (que outra coisa fazer: admitir abertamente a sua eliminação, em solo britânico?). O cristão e ministro libanês Pierre Gemayel, presumivelmente assassinado pelo Hezbollah, foi ontem a enterrar, no Líbano. São apenas os nomes mais recentes a juntar a uma longa e crescente lista de vítimas, como Paul Klebnikov, editor da versão russa da revista Forbes, ou o ex-primeiro ministro libanês, Rafik Hariri.

As motivações políticas por detrás destas mortes “inexplicáveis” e assassinatos são perceptíveis. Os endereços dos remetentes estão perfeitamente identificados: Moscovo, Teerão e Damasco (a ordem não é arbitrária). Mas a mensagem parece ainda não ser suficientemente clara para a generalidade do Ocidente, esse espaço político meta-geográfico que une em duplo arco a Europa ao continente americano e à Oceânia de língua inglesa.

Os adversários e inimigos do Ocidente são (também) outras culturas, não redutíveis e até talvez incompatíveis com uma base civilizacional de aspiração universal. As linguagens políticas são outras e o discurso político ocidental é traduzido para essas linguagens. Por isso, convinha que governantes e comentadores políticos percebessem, quanto antes, esta “tradução” elementar: cada vez que mencionam a necessidade de “realismo”, Putin, Ahmadinejad, Assad & Co. traduzem para “fraqueza e falta de coragem”.

Os alinhamentos geopolíticos estão a mudar rapidamente e aproximamo-nos de um ponto extremamente perigoso em termos de segurança internacional. Podemos persistir na negação das evidências. Podemos continuar a assumir um geocentrismo político ocidental que já não existe. Podemos insistir em mencionar a “diversidade cultural” como elemento estético, ignorando o imperativo político de conhecer adversários e inimigos. Mas acabaremos por ser confrontados com uma realidade, no mínimo, extremamente desagradável.

A incompetência política do governo israelita e a pressão de facções políticas europeias impediram a obtenção de uma vitória decisiva sobre os terroristas do Hezbollah. Militarmente debilitados mas politicamente vencedores e “escudados” pela força de interposição internacional, aceleram a reconstrução das infra-estruturas danificadas e recomeçaram o processo de eliminação selectiva dos principais adversários políticos à revolução islâmica em curso no Líbano. Como resultado, será difícil evitar um novo confronto militar com Israel.

O governo iraquiano, uma manta de retalhos instável e duvidosa, impede as forças militares americanas de eliminarem os principais responsáveis pela insurreição, o que há muito deveriam ter feito (esse sim, um verdadeiro erro de palmatória em qualquer estratégia realista de pacificação do Iraque). Os Democratas americanos mencionam a necessidade de “recolocação” das forças militares. As milícias shiitas Madhi e demais bandos de assassinos que espalham a morte pelo Iraque ouvem e traduzem para “retirada e impunidade”. Os resultados são evidentes.

Tony Blair sugere tomar chá com os Persas, para conversar sobre o Médio Oriente e a vida em geral. A teocracia iraniana ouve, traduz para “fraqueza”, acelera o programa de armamento nuclear e redobra os esforços de controlo estratégico da Al Qaeda — a principal rede de jihadismo que ainda não controla. O resultado é imprevisível e demasiadamente perigoso para ser tolerado. Eis algumas observações e advertências (destaques meus):
A diplomacy that excludes adversaries is clearly a contradiction in terms. But the argument on behalf of negotiating too often focuses on the opening of talks rather than their substance. The argument has become widespread that Iran (and Syria) should be drawn into a negotiating process, hopefully to bring about a change of their attitudes, as happened, for example, in the opening to China a generation ago. (…) But if, at the end of such a diplomacy, stands an Iranian nuclear capability and a political vacuum being filled by Iran, the impact on order in the Middle East will be catastrophic.

(…)

The self-confident Iranian leaders may facilitate a local American retreat in Iraq, but only for the purpose of turning it into a long-term rout. The argument that Iran has an interest in negotiating over Iraq to avoid chaos along its borders is valid only as long as the United States retains a capacity to help control the chaos.

There are only two incentives for Iran to negotiate: the emergence of a regional structure that makes imperialist policies unattractive, or the concern that, if matters are pushed too far, America might yet strike.
O título não podia ser mais claro: os Persas desprezam a fraqueza. O autor? Henry Kissinger, que, como se sabe, é um perigoso “idealista”. The writing is on the wall, escrito com o “sangue dos outros”. Por enquanto.

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Não é a resposta ao Hugo (mas podia ser)


O que é que distingue o Cristianismo de uma ONG bem intencionada, no melhor dos casos, ou de uma internacional da repressão, no pior?
A consciência do pecado e do perdão. A certeza de que o Homem cai e de que Deus o reergue (ou redime, para usar o termo teológico exacto).
O resto são flores. Belas flores, sem dúvida, mas flores.

Da série "Os Outros"

As "pérolas santanistas" desenterradas pelo Paulo Pinto Mascarenhas no sempre estimável blogue da Atlântico.

Vintage

«His wits were sharp, his perceptions acute, his arguments strong, his reasoning powers clear, coherent and terrifyingly quick. You tangled with him at your peril. And you left not necessarily convinced, but well aware of the weak points in your own argument.

Gen. William Westmoreland, testifying before President Nixon's Commission on an All-Volunteer [Military] Force, denounced the idea of phasing out the draft and putting only volunteers in uniform, saying that he did not want to command "an army of mercenaries."

Friedman, a member of the 15-person commission, interrupted him. "General," Friedman asked, "would you rather command an army of slaves?"

Westmoreland got angry: "I don't like to hear our patriotic draftees referred to as slaves."

And Friedman got rolling: "I don't like to hear our patriotic volunteers referred to as mercenaries." And he did not stop: " If they are mercenaries, then I, sir, am a mercenary professor, and you, sir, are a mercenary general. We are served by mercenary physicians, we use a mercenary lawyer, and we get our meat from a mercenary butcher."

As George Shultz liked to say: "Everybody loves to argue with Milton, particularly when he isn't there." »

No texto A man who hated government, por Brad DeLong

Passado Imaginário

No Futuro Presente , António Marques Bessa argumenta, entre outras coisas, que:

1. " Friedman (...) voltou a reabilitar a linha de Bhöm-Bawerk"

2. "chegando quase a aproximar-se da economia sem números de Ludwig von Mises"

3. "Com (...) Nobel da Economia ao austríaco Friedrich A. Hayek, premiava-se um chefe de fila da escola de Viena, e indicava-se que o caminho era a desintervenção, a liberdade do mercado e a desregulamentação"

4. "Logo em 1975 é o próprio Friedman a conquistar o Nobel"

5. "O trabalho de Friedman foi continuado e acompanhado por Henry Hazlit, Jacques Rueff, Luís M. Hacker, Ropke, e mais uns quantos teóricos influentes."

6. "A própria escola de Chicago da "escolha pública" não pode ser desligada das suas concepções quanto ao papel da Administração na economia e a função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança"

Acontece que:

1. Friedman não é de modo algum um continuador da linha de Böhm-Bawerk. O economista austríaco foi reconhecidamente pioneiro e inovador no estudo de algumas áreas, mas o debate que se seguiu acabou por afastar a maioria das suas hipóteses. Esse debate foi levado a cabo por diversos economistas, mas os mais famosos serão Irving Fisher e Frank Knight, com quem Friedman terá certamente mais afinidades.

2. Friedman não se aproximou da "economia sem número" de von Mises. É difícil encontrar, em termos económicos, pessoas metodologicamente mais opostas. O primeiro era um empirista dos quatro costados, ao contrário de Mises, cuja metodologia se baseava em apriorismos não refutáveis pela observação da realidade. Não obstante as afinidades políticas, Friedman foi um crítico desta metodologia, de muitas das suas conclusões económicas e do estilo intolerante a que objectivamente conduziam.

3. e 4. O prémio "Nobel" da Economia não é um prémio político, mas técnico. Hayek partilhou nesse ano (1974) o prémio com Gunnar Myrdal, um adversário ideológico da esquerda sueca. Afinal como é? É verdade que Friedman ganhou o prémio depois de Hayek, em 1976, mas não vejo bem qual é o ponto que Marques Bessa quer fazer com isso, até porque, mesmo nesse campeonato, o correspondente júnior do "Nobel" nos EUA, a John Bates Clark Medal, tinha sido já atribuída a Friedman em 1951.

5. Não é uma boa escolha, de todo. Os mais relevantes companheiros e/ou "continuadores" do trabalho económico de Friedman são pessoas como George Stigler, Anna Schwartz, Edmund Phelps ou Allan Meltzer.

6. Não existe a "escola de Chicago da escolha pública". Existem hipóteses subjacentes do desenvolvimento da Teoria da Escolha Pública que são mainstream economics, e como tal têm o dedo de Chicago, mas daí até conferir-lhe assim a paternidade vai uma longa distância. É verdade que James Buchanan e Gordon Tullock foram estudantes em Chicago, e o seu trabalho é prova da qualidade e diversidade dessa universidade, mas é na Virginia onde o centro de investigação está situado, e é para lá que devem ir a maioria dos créditos. E a relação desta com o pensamento de Friedman acerca da "função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança" é, no mínimo, duvidosa.

Mochos e ratos

Ao pequeno-almoço há notícias televisivas e um jornal, hábito retomado naturalmente, mesmo após ausências prolongadas. Na televisão aparece um helicóptero a sobrevoar filas compactas de automóveis, ao jeito espectacular das perseguições policiais nos EUA. O jornalista a bordo grita qualquer coisa sobre o “estado” do IC não sei quantos. A excitação do relator contrasta com a imobilidade indiferente dos figurantes acidentais. O “estado” do IC é a interminável fila dos desterrados para os subúrbios cosmopolitas — o “terceiro estado” do regime corporativo e socialista português. Tento o jornal. No caderno de Economia do Diário de Notícias, há uma peça sobre a legislação complementar à nova lei do arrendamento:
As comissões arbitrais municipais (CAM) - organismos responsáveis pelo apuramento do coeficiente de conservação dos fogos e pela arbitragem entre inquilinos e senhorios - vão sair muito caras aos municípios, que terão de pagar centenas de euros por cada reunião. É que, de acordo com a legislação publicada, a participação dos representantes das associações de senhorios, de inquilinos, das ordens de Engenheiros, de Arquitectos e de Advogados é remunerada, cabendo este encargo às próprias câmaras.
Se tivesse que escolher um candidato provável para a legislação que maiores danos causou a Portugal não teria dúvidas: a sucessão de disposições legislativas que desde os tempos de Salazar condicionam as rendas de casa. Ao longo de décadas, o condicionamento das rendas limitou as transacções no mercado de aluguer de habitação de forma arbitrária e politicamente oportunista. O valor capitalizado das perdas puras de excedente económico daí resultantes é certamente elevadíssimo (seria interessante conhecer estimativas empíricas para Portugal, se as houver). O desincentivo dinâmico à criação de nova habitação para arrendar é a principal explicação para a “terciarização” do centro das cidades e para o simultâneo crescimento brutal dos subúrbios.

Os efeitos redistributivos da arbitrariedade legal não foram menos devastadores. Aqueles que tinham as suas poupanças aplicadas em imóveis para arrendamento viram os seus rendimentos presentes e futuros congelados, e só quem tenha um profundo desconhecimento da sociedade portuguesa é que poderá supor que se tratavam principalmente de “ricos”. Em contrapartida, aos arrendatários de imóveis urbanos saiu a “sorte grande” por via legislativa: a perda de rendimento dos proprietários correspondeu a um aumento do rendimento (imputável) aos inquilinos. Os proprietários deixaram de o ser, para todos os efeitos relevantes, os inquilinos “adquiriram direitos” que os tornaram mais proprietários do que os verdadeiros e ainda receberam um generosíssimo subsídio político. Volta e meia cai mais um prédio, no fim de uma longa ruína, para ilustração das consequências.

A legislação também ajudou outros grupos sociais de nítidos pobrezinhos, designadamente empreiteiros de construção civil, consórcios imobiliários e entidades bancárias. Periodicamente — de quatro em quatro anos — os beneficiados agradecem e retribuem aos generosos benfeitores políticos. A este respeito, o estudo dos financiadores político-partidários pode revelar-se muito instrutivo.

E aqui estamos. Eu sentado, o “terceiro estado” da Nação parado na estrada para a capital do socialismo, de onde foi expulso pelo condicionamento legal, o helicóptero lá em cima e o jornal cá em baixo, a anunciar o mais recente abuso legislativo para compor este crime de lesa-pátria: umas comissões jeitosinhas, encarregues de determinar se os imóveis necessitam ou não de obras.

Há comissões por todo o lado: mochos vigilantes, que nos poupam ao fardo da responsabilidade; que estudam as leis retorcidas e se aliviam de recomendações que por má sorte as retorcem ainda mais. Depois lá estão eles, os mochos na longa noite legislativa, por feliz coincidência os únicos capazes de se orientarem na selva das leis e de nos salvarem de um triste fim.

Entre os mochos encarregues de determinar os “coeficientes de conservação” estão “representantes” das Ordens dos Arquitectos e Engenheiros. É o equilíbrio do regime socialista e corporativo. O legislador, sempre generoso com o dinheiro dos outros, entendeu remunerar “condignamente” os elementos envolvidos. Em resultado, para os maiores municípios (com mais de 100 000 habitantes), cada reunião vai custar à volta de 700 euros. Sem garantias de deliberação, evidentemente. Para (ainda maior) sossego do povo, a legislação que cria estas comissões atribui-lhes carácter “opcional”. É pois uma sugestão do legislador amigo, que se não for seguida transfere o poder decisório para a autarquia. Ou seja: desde as “comissões” até ao burocrata camarário, todos são considerados competentes para decidir sobre a propriedade privada — excepto, obviamente, o proprietário.

É necessário compreender que esta salada governamental de decretos, comissões e pareceres continuará a destruir riqueza, na tentativa de manter o controlo político sobre a sociedade e de transferir a maior parcela possível do excedente económico para os grupos de privilegiados do regime. Periodicamente, a oligarquia dirigente manifesta a sua “surpresa e preocupação” com os resultados em termos de bem estar do exercício legislativo de destruição e saque. A minha versão da “lei de bronze” das oligarquias é simples: os eleitores têm os governantes que merecem. Se os portugueses continuarem a aceitar a vida na comunidade política com a passividade do fatalismo providencial, nada mudará. E onde há abundância de ratos, haverá sempre mochos “interessados”.

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Só para Cristãos

O Cachimbo, “ocasionalmente, trata também de coisas sérias.” Então, vamos lá.
No nosso contexto moral e político, a linguagem dos direitos tornou-se o veículo discursivo de eleição para o “diálogo” entre posições morais antagónicas. O cristão tem o dever de tomar parte em certas guerras e combates, militando ao lado dos argumentos em favor do direito à vida. Contudo, há qualquer coisa na actual linguagem dos direitos (não me interessa aqui saber se a questão está nas suas raízes filosóficas ou no uso que se dá a esta linguagem na contemporaneidade) de muito pouco cristão. Falo do carácter eminentemente conflituoso em que se estruturam inúmeras vezes as disputas entre direitos e, em particular, a defesa do direito à vida e a defesa do direito à livre escolha. Duas posições absolutas confrontam-se. Uma vence a outra perde. Nestes moldes, atendento à hierarquia valorativa do cristão, não há lugar para dúvidas. Onde surge o problema?

“ ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te? E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeste’. (Mt. 25, 37-40)

A dificuldade nesta questão é que os 'mais pequeninos' podem ser o embrião e a mulher pobre, a destituída, a indigente, a rebaixada, a aflita. O problema é que o cristão é chamado a dar resposta a ambos os ‘pequeninos’, e a batalha pelos direitos coloca-os em posições antagónicas na arena do debate público. Dir-me-ão que o confronto não é este, mas o do direito à vida do embrião contra a liberdade de escolha da mulher, sem mais. Certo. Mas a luta do cristão em torno da questão do aborto não acaba neste sem mais. Começa na resposta devida àquelas mulheres que, pelo contrário, sentem que não têm outra escolha, que o seu leque de opções é limitado. A luta pelo direito à vida não deve minar as condições de acesso a essas pessoas.

No fragor, na exaltação da guerra e do combate pelos direitos, o cristão não se pode esquecer que a resposta cristã deve centrar-se na responsabilidade da comunidade cristã pelo cuidado com “os mais pequeninos”. Alguns cristãos, que dedicam a vida a ampliar a liberdade de escolha de certas mulheres, sabem-no melhor do que aqueles que se pelam por uma boa disputa abstracta em torno de noções jurídicas, sem mais. Seja lá qual for o resultado do referendo, a luta cristã pela conjugação entre a liberdade e a vida está sempre a começar.

We`ll always have Paris

A vitória de Segoléne Royal nas primárias do PSF terá dois efeitos que merecem atenção.
Primeiro, obriga os socialistas franceses a virar ao centro, se querem mostrar unidade na corrida ao Eliseu. Tendo em conta o autismo ideológico dos seus dirigentes nos últimos anos e o seu proclamado desprezo pela terceira via, o eventual contorcionismo será digno de se ver. Estarão barões como Jospin ou Lang para aí virados? Farão campanha? Ou a ascensão de Madame Royal (hummm... isto soa pessimamente...) trará consigo o fim da geração que liderou la gauche desde Mitterrand?
A segunda pista a seguir é o contra-ataque da direita, seja qual for o candidato a opor a Segoléne (provavelmente Sarkozy). Irá inflectir um pouco mais para a linha lateral ou irá meter para dentro, por exemplo em temas quentes como a imigração e o multiculturalismo? O problema da direita gaulesa pós-Chirac assemelha-se, curiosamente, ao da esquerda pós-Blair do outro lado da Mancha: não pode parecer igual a quem está no poder porque assim não ganha votos novos, mas também não pode pode parecer demasiado diferente ou então perde os antigos.
Não se julgue que isto se passa lá longe. O desenrolar dos acontecimento terá consequências entre nós. Se eu fosse conservador ou liberal num certo país algures entre a Espanha e o Atlântico, olharia mais para Paris nos próximos tempos.

Com uma costela a menos

Rapazes, não sei se já repararam, mas temos uma senhora entre nós.
Comecem a dobrar a língua e lavem as mãos antes de ir para a mesa.
E o tipo que deixou as meias na sala que vá lá buscá-las fachafavor.

Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Sabia que o Maneco, como o amigo Lula da Silva o trata, vive em Bragança?

Apesar de o assunto – eleições no Brasil – já ter passado aqui fica um registo que merece a pena ser partilhado. E, isto porque não é todos os dias que nos cruzamos com ideólogos, que defendem com unhas, dentes e neurónios convicções - sejam elas politicas, económicas ou sociais. Mas nas ruas de uma cidade qualquer –seja ela onde for ( central ou não) – encontramos seres crentes. Neste caso o encontro com o idiota ( homem de muitas ideias) deu-se em Lisboa nas vésperas da segunda volta das eleições brasileiras, que deram a vitória a Lula da Silva, um homem que perdeu um dedo a trabalhar segundo a sua história politica; e que “nos entre tantos” ganhou várias mãos e até alguns braços fora do País. Manoel de Andrade é um dos dois braços fortes de Lula no exterior ( o outro que compõe o corpo do Partido dos Trabalhadores fora do País está em Cuba) . Residente em Bragança este homem é um apaixonado, acima de tudo, pela ideologia petista e não se cansa de a defender....


Eleições no Brasil - O amigo de Lula vive em Bragança, 2006-11-02

in MENSAGEIRO DE BRAGANÇA
www.mdb.pt

Líder do Partido dos Trabalhadores em Portugal, Manoel Pereira deAndrade, o "Maneco" como o amigo Lula da Silva o trata, vive em Bragança há nove anos e afirma que esta é uma cidade central."Sinto-me integrado na Europa, estando em Bragança", diz.



"Eu sinto-me um cidadão do Mundo, estando em Bragança". É assim que Manoel Pereira de Andrade, líder em Portugal do Partido dosTrabalhadores (PT) e Professor no Instituto Politécnico de Bragança(IPB), se refere à cidade que o acolheu há nove anos.Para Andrade, Bragança é uma cidade central – tanto do ponto de vista profissional como do ponto de vista partidário. O líder do PT em Portugal, partido do recém reeleito presidente do Brasil, Luíz Inácio Lula da Silva, afirma que é uma grande facilidade estar nesta cidade."Sinto-me confortável e com fácil acesso a Santiago de Compostela,Madrid, Barcelona", diz, tentando referir algumas das vantagens de viver nesta cidade transmontana. Andrade, líder de um partido que existe em terras lusitanas desde 1993 e que conta com cerca de 20delegações em diferentes pontos do globo (de Havana a Boston),acrescenta ainda que "estou integrado na Europa, estando em Bragança,e isto porque o partido tem uma série de actividades, por exemplo, em Espanha - na Galiza e na região de Madrid."Segundo Andrade, que vive em Portugal há 15 anos, a centralidade de vista logístico, da centralidade, eu diria que Bragança está mais próximo dos grandes centros europeus do que Lisboa e Porto. Além de estar ligada, agora, por uma via área que permite estar próximo decapitais como Paris".Para este militante do PT no exterior, a geografia é muito importante,sendo que a missão é angariar votos e divulgar as acções do governo. A valer pelos resultados das últimas eleições não existe margem para dúvidas. Lula da Silva venceu em Portugal com 52,95% dos votosválidos, contra 47,05% de Geraldo Alckmin do PSDB. Uma vitória em que"um dos principais vencedores da jornada democrática foi o povo brasileiro. Perdeu a desigualdade, perdeu a injustiça e ganhou a integração, a possibilidade de ter um desenvolvimento sustentável,justo e, sobretudo, um desenvolvimento que possa diminuir asassimetrias no Brasil", refere Andrade. De notar que só em Portugal estima-se que existam cerca de 200 mil brasileiros, sendo que apenas7619 têm credencial para votar. Uma situação que se repete no mundo:dos três milhões de brasileiros presentes no exterior, apenas 94 miltêm essa credencial.O PT surgiu oficialmente como partido político em 1980. Em 2002 elegeuo operário Lula da Silva Presidente do Brasil, com uma forte bandeirasocial, marcada pela inserção dos mais pobres, pelos movimentossociais (onde se inclui, por exemplo, o Movimento Sem Terra) edefendendo políticas socio-económicas como a Bolsa Família, a BolsaEscola e a Fome Zero, que já chega a mais de 11 milhões de famílias.Um leque de políticas que vai ao encontro do crescimento da classe média do quinto maior país do mundo (em termos de população e território) e que visa o desenvolvimento sustentável de um Brasil, que é hoje uma das estrelas emergentes da chamada globalização. Andrade, que é doutorado em Engenharia Agronómica pela UniversidadeTécnica de Lisboa – Instituto Superior de Agronomia, é actualmente docente no departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural daEscola Superior Agrária do IPB e afirma que a cidade, onde tem grandesamigos, tem "uma óptima qualidade de vida". Como factores menospositivos da cidade, onde Lula já esteve para ficar e por onde jápassaram "vários Ministros da República do Brasil", o Maneco, comoAndrade é tratado por Lula da Silva, diz, em tom de brincadeira, que"o frio e falta de cerveja bem gelada são o maior defeito".Este amigo de Lula desde 1978, que se refere ao Presidente como sendo"gente boa", é um defensor das políticas sociais petistas. Um homemque surpreende pelas suas convicções fortes, pelos seus ideaispolítico –partidários e pelas suas acções partidárias e profissionais,que o levam a andar pelos cantinhos da Europa onde existem Brasileirosem defesa de uma ideologia partidária. É caso para escrever: quemcorre por gosto, não cansa.
( por mafalda avelar para o Mensageiro de Bragança)

Empreendedorismo 2.0

Até há muito pouco tempo, arriscar e fazer uma empresa em Portugal era uma aventura. Bem me lembro das reacções quando em 2000, ainda a estudar, decidimos eu e uns amigos "montar" a Netsonda. O meu pai e os meus professores mandaram-me acabar o curso, enquanto os meus coleguinhas perguntavam-me como ia ganhar dinheiro (numa alusão directa ao facto de quase todos estarem prestes a serem empregados de luxo numa consultora ou num banco). Depois, a loucura burocrática para contituir a empresa. Ui ui. O registo do nome, a marca, o "cartão", a escritura. Logo a seguir as reuniões com os potenciais clientes: a dificuldade em chegar às pessoas certas, o tempo que demoram a tomar decisões, a arrogância e aversão- em vez do apoio - à novidade...puro masoquismo.
Agora, finalmente, o tema "empreendedorismo", palavra recentemente portuguesa e cujo mérito da sua introdução no nosso léxico vai para a ANJE, está na agenda do país, para que não tenhamos todos que trabalhar para os outros. E não está só na agenda do Governo. Também câmaras municipais e "sociedade civil" (universidades, empresas e particulares) se têm empenhado nesta causa.
Compreendendo que se trata de um tema transversal, cada um tem feito o seu papel. O Estado aligeirou a burocracia, com a sua "Empresa na Hora" que funciona mesmo. Os bancos têm facilitado o financiamento para novos negócios com linhas próprias e com patrocínio de concursos de novas ideias (BES: concurso de Inovação, BPI: Prémio Start). As universidades alteram aos poucos os seus programas e introduzem cadeiras obrigatórias sobre a criação de novos negócios nos cursos e mestrados (nos MBAs então nem se fala). As câmaras estão a criar parques para facilitar a instalação de empresas e, consequentemente, de empregos (Covilhã: ParkUrbis, Cascais: DNA Cascais). E, last but not least, pessoas que no passado tiveram sucesso nas suas próprias empresas estão agora a organizar-se como Business Angels ou criando fundos de capital de risco (podia citar nomes mas não me apetece).
Como costume, acordámos tarde e a más horas para o assunto, e, também como costume, estamos a queimar rapidamente etapas.
O que falta então para que todo este movimento ganhe consistência e seja um factor de ruptura no nosso país (o tal Empreendedorismo 2.0)? três coisas, todas elas lixadas de resolver.
A primeira é que a coisa que a malta mais gosta é ver o gajo do lado a espatifar-se. A cultura indígena não premeia o risco e o fracasso ainda tem um peso decisivo.
A segunda é que aqui no rectângulo presta-se um serviço ou entrega-se um produto e recebe-se o dinheiro 3 a 6 meses depois. Resultado: empresas que estão a nascer abrem falência pouco tempo depois porque não têm tesouraria que aguente esta alarvidade.
A terceira, para mim a mais importante, é que os negócios nascem sem escala. Em Portugal qualquer mercado é pequeno, por muito boa que seja a inovação. Nascemos micro, ficamos pequenos e não somos competitivos, desde logo com os espanhóis. Estes concebem um negócio nas mesmas circunstâncias que nós, mas depois arrancam num mercado 5 ou 10 vezes maior. O mais grave é que os nossos entrepreneurs insistem em fazer business plans onde só consta o mercado nacional. Porque não sabem ir "lá para fora", o que é legítimo, mas cada vez mais inaceitável. Voltarei a este tema, para mui modestamente fazer algumas propostas.

Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006

Colombo nos Jerónimos

Amigos meus, historiadores, mandam-me emails e telefonam-me. Estão muito indignados. Parece que apareceram por aí mais uns livros a ressuscitar as tolices do “Colombo português”, que há guerras na Wikipédia por causa disto, e até que – seguramente um exagero em que me recuso a acreditar – em Cuba, no Alentejo, se ergueu uma estátua ao descobridor (sim: como filho da terra!). Queixam-se de que ainda se estavam a recompor das patetices de Gavin Menzies e do 1421: o ano em que a China descobriu o mundo, e têm agora que se haver outra vez com o Colombo alentejano...

Eu não sei que conselho dar. Três ou quatro conversas que tive com fãs do Código da Vinci chegaram para me revelar o género desta tribo. Mesmo depois de descontados os cristofóbicos e os completamente desmiolados, o que ficava não se recomenda. E, como depressa aprendi, o esforço de tentar explicar é completamente escusado: gente que mal consegue ler sem mexer os lábios não está interessada nas subtilezas do filioque. Eu acho que a ficção literária tem todo o espaço de manobra para inventar, e não pretendo que os historiadores profissionais regressem ao nobre, mas mais que dúbio, “wie es eigentlich gewesen” de Leopold von Ranke; mas se não há o cuidado de, apesar de todas as dificuldades, se tentar compreender o que se passou, e de se separar factos de conjecturas, e estas de ilusões, não tarda muito estaremos a inaugurar estátuas ao Colombo português em frente aos Jerónimos.

Aqueles de que nunca se ouve falar

Onde estão os putos de Sderot?...

Preparar a retirada da Casa Branca

A Spectator do semana passada trazia uma entrevista a John Hulsman, um jovem intelectual em ascensão no Partido Republicano. "The quintessencial modern American conservative", nas palavras de Allister Heath, este académico ganhou notoriedade por ter escrito um livro em que criticava abertamente a guerra do Iraque, não pela sua condução (como tantos têm feito), mas pela própria filosofia que lhe serviu de justificação. Hulsman é duríssimo para com os neocons e a política externa de Bush. "They have gone wrong by offering us humanitarianism on steroids, as though you can impose democracy at the barrel of a gun and people will like it. As though one size fits all for the world - culture and history don`t matter at all. The traditions of conservatism go back to Edmund Burke, not to this utopian fantasy that you can make the world a Kantian paradise sometime in the near future, that you can add water and get George Washington everywhere."
A entrevista, que vale a pena ler na íntegra, mostra que há quem já esteja a preparar o pós-Bush no Partido Republicano. E que a discussão sobre a guerra será, como diz Hulsman, "the key battle in the primaries".
O que Hulsman não diz, mas supõe-se facilmente, são as vastas consequências de uma vitória do novo realismo. O Irão poderá dormir descansado em cima da bomba atómica porque nenhum Presidente americano terá a coragem de arriscar um outro Iraque nos próximos vinte anos. A tese do "fim da história" de Fukuyama, com a crença optimista no triunfo universal da democracia, ficará enterrada sob os escombros de Bagdad. Alguém há-de perguntar mesmo, um dia, se é possível exportar a democracia para países onde a sociedade civil não existe. Ou onde o Estado só existe à sombra de uma teocracia, como no Irão, de uma dinastia tirânica, como na Arábia Saudita, ou de um nacionalismo musculado, como na Turquia.
Estaremos melhor então? Não sei. A Spectator que entreviste Hulsman.

Domingo, 19 de Novembro de 2006

Fazem Vexas o obséquio de autorizar a procissão a sair do adro?

Ontem, a crónica de António Costa Pinto no DN e o artigo de Eduardo Maia da Costa no Público revelavam um pouco do nervoso miudinho que, à esquerda, começa a surgir em relação à trindade Igreja, aborto e referendo. Para já não falar na patusca exigência da patusca Associação República e Laicidade, uma espécie de café de bairro onde velhinhos maçons gritam de vez em quando "morte aos padres!" enquanto jogam à bisca, de que a primeira não se pronuncie sobre o segundo no dia do terceiro.
Bem pode o Cardeal-Patriarca alegar que o aborto não é uma questão religiosa, mas de consciência. Bem pode a Conferência Episcopal apelar aos leigos para que sejam eles a entrar na campanha.
Nada feito.
Para algumas pessoas, a única atitude aceitável dos católicos, além de darem a outra face e uns bailes de paróquia, é o silêncio.
Alguém devia explicar-lhes que os tempos do Dr. Afonso Costa já lão vão. E não deixaram saudades.

All men are born free

O nosso Miguel Morgado vai dar uma conferência amanhã em Lisboa sobre John Locke e o livro Os Dois Tratados do Governo Civil - 20 de Nov, às 18h30, na Almedina do Atrium Saldanha. O livro é notável e coloca a questão da natureza do poder politico: All government is limited in its powers and exists only by the consent of the governed. Locke constrói todo seu argumento partindo da ideia de liberdade: All men are born free.
Aqui fica o aperitivo, lá estaremos para te ouvir Miguel. E aguardamos que escrevas no Cachimbo sobre o tema.

Sábado, 18 de Novembro de 2006

Ainda Milton Friedman

Trairia a minha formação económica se não acompanhasse o Manuel Pinheiro na evocação de Milton Friedman. Talvez não possa descrever as proezas intelectuais de Friedman com tanto entusiasmo como o Manuel, mas reconheço que o seu lugar no panteão da ciência económica do século XX é irrecusável. As minhas reservas a Friedman são suscitadas pela sua intervenção na área das políticas públicas, pela proposta de reforma dos Bancos Centrais (os quais deveriam, segundo ele, estar sujeitos a votações democráticas) ou pela sua concepção radical de liberalismo, que denotava um certo fechamento ideológico. Mas os seus contributos para a economia monetária ou a brilhante interpretação económica da Grande Depressão nos EUA transformaram o pensamento económico dos nossos tempos. Basta dizer que das três proposições mais aclamadas da ciência económica, uma é da sua autoria: “a inflação é sempre, e em toda a parte, um fenómeno monetário”. O Manuel não exagera quando diz que, sem Friedman, “o mundo ficou mais pobre”.

Sexta-feira, 17 de Novembro de 2006

A morte de um génio

Talvez com os nossos filhos venha a ser diferente, mas a leitura dos últimos textos de Milton Friedman sempre me deixou um travo de fantasia devido aos seus improváveis 94 anos. Era suposto aprendermos dos seus alunos, escutar o seu filho, mas não era expectável termos o privilégio de continuar a ouvir a lucidez de um génio que relacionamos com uma época que já não consideramos nossa.

Friedman foi alguém imenso, na sua componente económica, política e pessoal. Tecnicamente tão brilhante quanto inovador, liderou verdadeiras revoluções em áreas tão improváveis à data como a política fiscal ou monetária. A sua produção económica, se dividida por várias pessoas, originaria mais do que um Nobel, e a sua capacidade de persuasão, muito ao estilo de Keynes, é uma lição de vida acerca da força das ideias.

Dotado de uma honestidade intelectual que fez escola junto dos que com ele trabalhavam, rejeitava todo o tipo de falácias argumentativas, por muito que tacticamente fossem frutuosas no imediatismo de um soundbite. Um cuidadoso estudioso da realidade, questionava todas as afirmações com um tão empírico quanto famoso "How do you know?". Eminentemente tolerante, ergueu a sua voz contra a intolerância de todos os quadrantes, inclusivé dos liberais.

Foi, com George Stigler (na foto), o porta estandarte da explosão do Departamento de Economia da Universidade de Chicago, atingindo níveis inimagináveis mesmo para uma escola já famosa na tradição de Frank Knight. A diversidade e qualidade de pessoas e ideias a que se assistiu na escola, num modelo absoluto de não seguidismo, é a sua maior herança no Departamento. Fora dele, a incorporação das suas teorias nos manuais de economia de milhares de alunos por todo o mundo foi um reconhecimento espontâneo e merecido, assim como o foram as solicitações constantes do Partido Republicano ou de diversos meios de comunicação.

Foi, com Keynes, o mais fascinante e influente economista do séc XX. Não foi, tal como Keynes, perfeito. Mas o mundo com eles ficou melhor. E hoje, sem ele, mesmo aos 94 anos, ficou mais pobre.

Jorge, Luís Jorge

No Franco-atirador, que celebrou recentemente o primeiro aniversário, o Luís M. Jorge dedica algumas palavras simpáticas a este vosso criado e, por extensão, aqui à casa. Agradeço a honra - pois que é mesmo de uma honra que se trata. Além de ser um excelente blogger, o Luís pertence a uma espécie rara e que sempre me fascinou: a das pessoas que sabem unir convicções firmes e sentido de humor. Estou à vontade para dizer isto porque as nossas convicções, igualmente firmes, são quase sempre opostas.
No entanto, devo acrescentar que o alto conceito em que o Luís nos tem é manifestamente exagerado. Não só nos temos desentendido um pouco do combate à sodomia (parece-me que anda tudo mais atento à guerra dos sexos), como poucos de nós quererão salvar a actual Cristandade. A inutilidade do esforço é óbvia porque, desta vez, os turcos já estão cá dentro.

A metade cheia do copo laranja

Depois de Lisboa, a confirmação da notícia vem hoje do Porto: o PSD saiu do período de estagnação!

Da série "Cachimbos de Lá"


Vincent Van Gogh, Auto-retrato com Cachimbo e Orelha Ligada (1889)

É só uma hipótese

Santana Lopes: "No meu Governo a criminalidade diminuiu".
Hipótese: Grande parte dos criminosos estiveram entretidos durante alguns meses com um fabuloso espectáculo, um pouco como os Beatles que quando tocaram no Ed Sullivan Show nos EUA, originaram uma diminuição momentânea da criminalidade.

Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006

A roda da fortuna (?)

Os tempos não estão fáceis: primeiro foi o regresso do aborto, agora o de Santana Lopes.

Nem Viena nem Chicago: o liberalismo frenchkissing

Confesso-me algo surpreendido com a resposta do João Morgado Fernandes a este post. Antes de mais, porque é a primeira vez que chamam liberal aqui ao Cachimbo. Depois, porque descobri que o João é um liberal ou, pelo menos, alguém que explica ao povo o que é um liberal, missão que geralmente autodefine os liberais nativos.
Quanto ao resto, o seu até agora discreto liberalismo, saído do armário a propósito do aborto, é previsível. Para ele, como para todos os liberais pro choice, há uma esfera de liberdade pessoal onde o Estado não pode entrar, e o aborto faz parte dela. A lei não deve limitar a escolha individual, mas "deixar aos cidadãos a hipótese de praticar ou não o aborto de acordo com as suas convicções".
O erro clássico deste argumento clássico é ver a liberdade como uma abstracção. No mundo real, porém, a liberdade não existe em estado puro: é sempre limitada por milhentos factos que nos escapam, a começar pela mera existência de outras pessoas. Para usar a fórmula ingénua, a nossa liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros. O que muito irritava Sartre, como se sabe. Ora, no aborto, o outro que limita os nossos direitos não é o Estado, mas o feto.
Tipicamente, o João omite este esmagador pormenor. Mas, se não fosse pelo feto, por que razão a liberalização do aborto iria só até até às dez semanas e não até ao fim da gravidez? O que vamos votar no referendo não é se o Estado pode impedir o direito de abortar (até às dez semanas), mas se o direito de abortar da mãe pode sobrepor-se ao direito de nascer do filho (até às dez semanas). A lei actual diz que sim, em certas circunstâncias. O referendo propõe que sim - em todas as circunstâncias. Nenhum direito da mulher é sequer invocado, apenas a sua "opção".
Para o João, a posição liberal consiste em não limitar por lei essa "opção", deixando-a às "convicções" de cada um. Em coerência, peço o mesmo liberalismo para outros campos em que o Estado limita claramente as nossas opções. Os impostos, por exemplo. Que seja deixado às "convicções" de cada empresário, de cada família, de cada contribuinte português pagar ou não pagar impostos. E quanto. Que a esquerda, ou a direita, ou os liberais, ou o João proponham um referendo com esta simples perguntinha: "concorda com o pagamento de impostos segundo as convicções de cada um?" Eu votava sim.

Fujam!

A televisão começou a falar do Natal.

Nação às direitas

The Right Nation, o clássico de John Micklethwait e Adrian Wooldridge sobre o movimento conservador americano e o seu regresso ao poder na era pós-Clinton, acaba de ser traduzido em Espanha (Una Nación Conservadora, Editorial Debate).
E por cá?
Bem, a maré está a mudar. O Congresso virou à esquerda nas últimas eleições. O próximo inquilino da Casa Branca será provavelmente um democrata. Talvez o livro se publique em português quando o Presidente voltar a ser um republicano.

Quarta-feira, 15 de Novembro de 2006

Mas a energia nuclear não era para fins pacíficos?


They should know that having friendly ties with the noble Iranian nations would be to their benefit, otherwise they would face disgrace and defeat, said the president.

Não quero ser conhecido

O cachimbo de Magritte “sabe que a realidade nem sempre é o que parece”. O cachimbo está desactualizado. Magritte está a ser cristalino. Aquilo não é um cachimbo, mas a representação de um cachimbo. Não é um cachimbo, mas a realidade da representação do cachimbo. A realidade da representação aparece, substituindo-se à realidade do cachimbo.

Ao ler o editorial da última revista Tabu esperei o pior. Enganei-me. Trata-se de um dos maiores tratados filosóficos sobre a representação e inclui “estudos de caso”. Na capa prometia-se Pinto da Costa e sadomasoquistas. Comecei pela peça que me parecia ser menos excêntrica. Logo na primeira página de “Na Ponta do Chicote”, um casal BDSM (Bondage/Disciplina/Sado/Maso) afirma: “Não gostamos de violência. Não fazemos nada que mexa com as funções vitais, não consumimos drogas, não bebemos, nem fumamos, não inserimos objectos estranhos, não usamos agulhas. Nunca nos magoamos. A dor não nos traz prazer.” (p.66)
Passei para o Jorge Nuno e fiquei a saber “que não nada a ver com Pinto da Costa. Publicamente, vende uma imagem de incendiário e troglodita; na intimidade é humilde divertido e tem uma faceta que poucos conhecem: é extremamente devoto aos pobres.” (p.56) Diria antes que já vendeu as duas imagens em simultâneo, e já as vendeu com sucesso. As duas faces do Presidente estão presentes em vários trechos, mas afinal não era assim tão interessante.
Fui espreitar aquela coisa da associação dos cépticos. Atente-se ao requinte: apesar de ser muito fácil refutar Deus, “é perfeitamente legítimo ser religioso e céptico ao mesmo tempo, sempre que se reconheça a religião como algo individual e subjectivo e não a verdade absoluta”. Mas há mais e melhor. À pergunta «Mas o que é ser céptico?» o autor da peça resume a resposta do presidente da associação: Não é uma crença e não é uma resposta definitiva como acontece com as religiões e os seus dogmas”. (p.15) O ateu caçador de mitos tentou ser tolerante para com as suas presas. Tentou, mas a personagem base falou mais alto. É patético, mas não é desprovido de interesse.
Só para acabar. A representação do americanizado que já não suporta americanices. A nova estrela portuguesa na CNN, Pedro Mendonça Pinto, parece que “acabou por cansar-se dos EUA, e acima de tudo «da mentalidade americana» e voltou.” Precisamente num artigo que começa por dizer que: “Em Portugal jogou basquetebol. Nos Estados, passou-se para o futebol. Agora, em Inglaterra, talvez se volte para o basebol.” (p.18)

Dir-me-ão que se vêem aqui as contradições de um tempo, o relativismo “soft” ou o jornalista a impor-nos a sua visão caótica, a decadência de um mundo em que nada de muito mau, ou de muito bom, pode despontar. Por mim, vejo antes a crença no poder da representação como forma de substituição da realidade. Mas como pode ser isso? Os papéis representados estão cheios de incongruências. São fracas encenações. Será? É que também existem pacientes nos hospitais psiquiátricos que simulam sintomas bizarros a fim de que as estudantes de enfermagem não se sintam desapontadas por um desempenho demasiado sensato por parte deles.
Assim, que representações terão mais sucesso no futuro? O católico comunista, o conservador irreverente e engraçadinho, o sadomasoquista que não gosta de dor, o Isaiah Berlin, o Marilyn Manson e o ateu tolerante para com os bichinhos supersticiosos são alguns exemplos de fusões representativas do passado que já ocuparam o mercado da atenção pública. O mundo do espectáculo exige mais e diferente. Para subjugar estas representações, precisamos de algo mais inesperado, mais chocante, mais indecente, mais bizarro. Enfim, aceitam-se sugestões. Mas se forem muito boas, guardem-nas. Pode ser que venham ainda a render. Show must go on. E quem é que não quer aparecer?

Saddam no mundo que nós perdemos

Sejamos claros: a condenação à morte de Saddam Hussein é um péssimo sinal para a democracia iraquiana. A pena de morte é sempre uma confissão de fraqueza. Uma sociedade que espera o fim do crime com o fim do criminoso é uma sociedade com medo. Medo do crime e do criminoso, mas também de si própria - ou da sua fragilidade perpetuamente ameaçada.
Houve um tempo em que o Ocidente era assim, um tempo em que o direito penal era uma forma de extirpar o mal e instaurar o bem. Mas hoje já não temos esse medo - ou essa fé. Que se devia, aliás, não à força da lei, mas à fraqueza do Estado, incapaz de assegurar o monopólio da violência legítima dentro suas fronteiras. Max Weber explica. A justiça pública representava um acto de vingança colectiva, um espectáculo destinado a servir de exemplo ao povo e a inspirar o temor do castigo, única arma preventiva contra a desordem. Estranhamente, esse cenário feudal assemelha-se ao ocupado Iraque e à ocupante América, onde a existência da pena de morte reflecte tanto a orgulhosa autonomia judicial como a brutalidade de certos delitos.
O Homem Que Era Quinta-Feira, de Chesterton, mostra-nos um polícia-filósofo, personagem secundária mas decisiva, a dizer que "a ordem do exército é a ira da nação". Por baixo da ordem aparente, pelo contrário, o julgamento de Saddam não passa de um ajuste de contas. O Iraque não é uma nação e a morte do tirano não vai unir as tribos. Pior: vai dar um herói aos sunitas. E vai dar origem a algumas perguntas incómodas. O tribunal é livre estando o país ocupado? É uma coincidência que o veredicto seja conhecido nas vésperas das eleições americanas? Se Saddam já está condenado à pena máxima, fará sentido julgá-lo ainda pelo massacre dos curdos?
E de nada serve argumentar, como faz o João Miranda, que a morte de outros tiranos fundou algumas das actuais democracias europeias, casos da Itália e da Alemanha. Mussolini não chegou realmente a julgamento porque foi linchado pela população que o capturou. E os mais altos chefes nazis, incluindo Hitler, suicidaram-se para não cair nas mãos dos russos. Se é esse o Estado de direito que se quer levar para o Iraque, não admira que as coisas estejam como estão.

Da série "O Som e a Fúria"

"A good evening, is it?" he said sharply. "You fellows would call the end of the world a good evening. Look at that bloody red sun and that bloody river: I tell you that if that were literally human blood, spilt and shining, you would still standing here as stolid as ever, looking out for some poor harmless tramp whom you coul move on. You policeman are cruel to the poor, but I could forgive you even your cruelty if it were not for your calm."
"If we are calm", replied the policeman, "it is the calm of organized resistance."
"Eh?", said Syme, staring.
"The soldier must be calm in the thick of the battle", pursued the policeman. "The composure of an army is the anger of a nation."

G. K. Chesterton, The Man Who Was Thursday (1908)

Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Tristeza que já cansa...

Ainda não consegui perceber se esta gente é tristemente ignorante ou apenas tristemente estúpida.
É gente tristemente cega.

(possíveis) Razões de um (possível) Regresso I


O quadro acima mostra a média das audiências dos programas televisivos dos nossos principais comentadores televisivos, Marcelo, Vitorino e Portas, entre Junho e Outubro (fonte Marktest Audiometria). Antes de tirar qualquer conclusão importa esclarecer, por uma questão de rigor, alguns aspectos:

- A Sic notícias é um canal do cabo, cujo acesso pela população está limitado pelos assinantes da TV Cabo (ainda assim chega a 40% da população);
- Um canal de cabo está em permanente concorrência com os outros 50 canais (ou seja há uma maior fragmentação da audiência naquela plataforma);
- Os programas de Marcelo e de Vitorino dão no horário muito nobre da RTP, logo a seguir ao telejornal;
- A audiência da Sic Notícias é mais "qualificada" e estará (?) mais próxima do target que interessa a Paulo Portas.

Posto isto, vamos aos factos. Marcelo tem 18 vezes mais audiência que Paulo Portas. Vitorino tem 17 vezes mais audiência que Paulo Portas. O Glorioso quando recebe o Sporting ou o Manchester tem quase duas vezes mais "audiência" que Paulo Portas.

Paulo Portas não é Marcelo ou Vitorino? Não. Mas é um ex-ministro e ex-líder partidário com reconhecidos dotes oratórios. Os resultados das audiências estão claramente desproporcionados face àquilo a que certamente se habituou: falar para centenas de milhar ou mesmo milhões de pessoas. Ora aí está uma boa primeira razão para um eventual regresso.

Espelho meu

O João Morgado Fernandes evoca a suposta incompatibilidade entre ser liberal na economia e conservador nos costumes como uma "velha discussão da direita portuguesa". A propósito do aborto, claro.
É curioso que não faça o mesmo raciocínio para a esquerda, que exige a liberdade individual nos costumes e a tutela do Estado na economia.
Aí parece que não há nenhuma discussão. Nem velha nem nova.

Segunda-feira, 13 de Novembro de 2006

Lá vem outro com o aquecimento global

"O planeta está a ficar cada vez mais vermelho."
(Guenadi Ziugannov, dirigente do Partido Comunista russo, no Encontro Internacional de Partidos Comunistas realizado este fim-de-semana em Lisboa.)

Mas que grande 31

Da série "Os Outros"

Este post do Filipe Nunes Vicente e este do Bruno Cardoso Reis sobre a vexata quaestio abaixo referida.

Ah, e este do Rui Castro.

Para nos estragar um fim-de-semana?

Vale a pena perder um minuto com a última catilinária de Helena Roseta: se o referendo do aborto não for vinculativo por causa da abstenção (hipótese não inteiramente descabida), a maioria socialista deve aprovar a liberalização até às dez semanas - mesmo que o "não" tenha vencido.
Eu até pasmo.
Ó minha senhora, então para que é que se faz o referendo?

Google e os outros

Em Dezembro de 2004 a Google anunciou o seu plano de digitalizar e disponibilizar online 15 milhões de livros nos próximos dez anos, numa iniciativa que contou logo à partida com o apoio das Bibliotecas de Harvard, Stanford, da Universidade de Michigan, da Universidade de Oxford e ainda da New York Public Library. (Hoje já são mais). O empreendimento será realizado com a mais avançada tecnologia; uma coisa nunca vista.
Aplauso geral para esta fantástica iniciativa?
Nem por isso.
Com a sua cada vez mais aguda indolência e invejazinha saloia, a Europa (bem, alguma Europa) ergueu aos céus o mais vivo protesto. Jean-Noel Jeanneney, o director da Bibliothèque Nationale de France destilou logo ódio à coisa e planeou uma contra-ofensiva europeia. Porquê? Disse Jeanneney: «The choice of the books to be digitized will be impregnated by the Anglo-Saxon atmosphere.» (Acho que alguns até dirão: ainda bem!).

Dois anos depois o que aconteceu ? O Projecto da Google avança em força e esplendor, claro; mas ao mesmo tempo a Google mostrou que está aqui para (surprise, surprise) ganhar pipas e pipas -- mas pipas mesmo astronómicas -- de dinheiro, e que está disposta a vender uma parte muito substancial da alma para arrecadar essa massa (vide a história da censura às buscas para conseguir o mercado da China; originalmente era: "A Google nunca -- mas mesmo nunca -- censurará o processo de busca"). A Google mostrou também que tem uma noção muito peculiar de privacidade, e que, se for caso disso, fará guerra sem quartel ao lobby das editoras e da actual lei internacional de direitos de autor.
Ou seja, uma complicada mistura de bom e mau, de cobiça e de idealismo, onde a excelência tecnológica se acotovela com a ânsia de lucro, onde tudo é mais complicado do que parece e está sempre à beira de resvalar ou para o infame ou para o sublime. Em suma, uma fantástica história de gente que está viva.
E a Europa? E Jeanneney? Que eu saiba, nada.
Durante uns meses o mundo observou, divertido, a agitaçãozinha patética (que teve o mesmo sucesso da patusca CNN française), e que, obviamente, resultou em nada.
Bem, absolutamente nada não: não tendo feito nada a Europa pode continuar com a sua elevada autoridade moral.

Leitura recomendada...

...ao XVII Governo Constitucional que, decerto, encontrará aqui medidas eficazes, e não meramente casuísticas, para uma redução substantiva da despesa. Pública. Os "índices de saúde dos Portugueses" (seja isso o que for) e a "qualidade da educação em Portugal" (o que quer que isso queira dizer) registarão, certamente, melhorias assinaláveis.
Importa manter o rumo. Camaradas.

Os ontens que cantam

A sério, acreditem que não é nada de pessoal. Mas quando os julgava extintos, ei-los que voltam, erguendo-se sobre as ruínas do Muro para lançar os mesmos impropérios de sempre.
Os comunistas, claro.
O Público de ontem traz, não uma, mas duas entrevistas a ortodoxos, daqueles que comem criancinhas ao pequeno almoço, falam na via revolucionária e prometem "o homem novo".
Um, Blanco Cabrera, membro do PC mexicano, é apresentado como "uma das promessas da nova geração" do movimento comunista internacional. Há-de ser. Mas tudo o que diz soa à velha novilíngua. Ou, para citar o Contra-Informação, à cassete do costume.
Centralismo democrático? "É uma forma do exercício pleno da democracia". Pois. Guerra é paz, etc.
Cuba? "Quem tem o poder em Cuba é o povo, de uma maneira directa." Acontece apenas que o povo é tão generoso que entrega o poder aos mais necessitados, como àquele simpático velhinho, o Fidel, que se não exercesse o poder, de forma certamente indirecta e em nome do povo, ficaria sem emprego.
Eleições? "Há eleições em Cuba, de forma directa e sem partidos políticos." Pensando bem, até há partidos, mas é só um - o comunista. Mero pormenor.
"Temos feito muitas visitas a Cuba e o que encontramos é uma forma de democracia directa muito superior à democracia ocidental." Nem mais. Esta trabalheira da alternância, do sistema representativo, de ter que escolher entre vários partidos... Felizmente que podemos ir sempre a Cuba descansar.
Coreia do Norte? "Sabemos que é um caminho que conta com a aceitação do povo. " (Sic.)
Como é que sabem? "Recebemos a informação que nos é dada pelos companheiros do partido coreano e houve uma ocasião em que uma delegação do nosso partido visitou a república." Enfim, não vamos lá tantas vezes como a Cuba, está bem, mas os camaradas são malta fixe, do povo, e o povo, como vimos, é generoso.
Blanco Cabrera é um homem de fé.
O outro homem de fé entrevistado, embora com menos fé porque já não se trata bem de uma jovem promessa, é Saramago. A propósito dos seus 84 anos, o Público edita uma extensa entrevista digna de ser lida do princípio ao fim. Tal como se dizia dos Bourbons em França, quando voltaram ao poder com a Restauração, há na esquerda portuguesa quem não tenha esquecido nada nem tenha aprendido nada depois do 25 de Abril. Mais: para Saramago o 25 de Abril "não deixou nada. As coisas boas que criou, eliminou-as todas." Sim, até houve coisas boas: "a reforma agrária, as nacionalizações, isso é que eram as consequências do 25 de Abril", isso é que foi o que "nós quisemos" (nós?). Só que, entretanto, o antigamente "recuperou posições pouco a pouco".
Então e a descolonização? "Não tínhamos outro remédio se não sair de lá. Estávamos simplesmente derrotados." Estranha derrota, seguida, como se sabe, de uma gloriosa vitória para todos os povos entregues aos camaradas de Saramago.
E o desenvolvimento? "Em Espanha ocorreu sob o franquismo. Não foi necessário uma revolução. E a China não é já uma ameaça para os EUA?" Decididamente, à mão invisível pode substituir-se sempre, com vantagem, uma mão de ferro. Nem que seja a do Franco. Qualquer coisa serve para ameaçar os EUA.
E a democracia? "Não aceito que se diga que ficámos com a democracia. (...) Não servimos para mais nada senão para homologar coisas que não têm nada que ver connoco porque não podemos influir nelas." Nem mais. Esta maçada da alternância, do sistema representativo, de ter que escolher entre vários partidos...
Acho que o camarada Cabrera devia levar o nosso Saramago à Coreia do Norte, nem que fosse uma vez.
Pode ser no próximo aniversário.