Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006

Preparar a retirada da Casa Branca

A Spectator do semana passada trazia uma entrevista a John Hulsman, um jovem intelectual em ascensão no Partido Republicano. "The quintessencial modern American conservative", nas palavras de Allister Heath, este académico ganhou notoriedade por ter escrito um livro em que criticava abertamente a guerra do Iraque, não pela sua condução (como tantos têm feito), mas pela própria filosofia que lhe serviu de justificação. Hulsman é duríssimo para com os neocons e a política externa de Bush. "They have gone wrong by offering us humanitarianism on steroids, as though you can impose democracy at the barrel of a gun and people will like it. As though one size fits all for the world - culture and history don`t matter at all. The traditions of conservatism go back to Edmund Burke, not to this utopian fantasy that you can make the world a Kantian paradise sometime in the near future, that you can add water and get George Washington everywhere."
A entrevista, que vale a pena ler na íntegra, mostra que há quem já esteja a preparar o pós-Bush no Partido Republicano. E que a discussão sobre a guerra será, como diz Hulsman, "the key battle in the primaries".
O que Hulsman não diz, mas supõe-se facilmente, são as vastas consequências de uma vitória do novo realismo. O Irão poderá dormir descansado em cima da bomba atómica porque nenhum Presidente americano terá a coragem de arriscar um outro Iraque nos próximos vinte anos. A tese do "fim da história" de Fukuyama, com a crença optimista no triunfo universal da democracia, ficará enterrada sob os escombros de Bagdad. Alguém há-de perguntar mesmo, um dia, se é possível exportar a democracia para países onde a sociedade civil não existe. Ou onde o Estado só existe à sombra de uma teocracia, como no Irão, de uma dinastia tirânica, como na Arábia Saudita, ou de um nacionalismo musculado, como na Turquia.
Estaremos melhor então? Não sei. A Spectator que entreviste Hulsman.

2 comentários:

André Azevedo Alves disse...

Allister Heath: ora aí está uma personalidade bem recomendável (LSE Hayek Society 1995-1998). :-)

Pedro Picoito disse...

Caro André, confesso que não conhecia essa faceta. Conheço-o apenas da Spectator, onde é de facto muito recomendável.