No Futuro Presente , António Marques Bessa argumenta, entre outras coisas, que:
1. " Friedman (...) voltou a reabilitar a linha de Bhöm-Bawerk"
2. "chegando quase a aproximar-se da economia sem números de Ludwig von Mises"
3. "Com (...) Nobel da Economia ao austríaco Friedrich A. Hayek, premiava-se um chefe de fila da escola de Viena, e indicava-se que o caminho era a desintervenção, a liberdade do mercado e a desregulamentação"
4. "Logo em 1975 é o próprio Friedman a conquistar o Nobel"
5. "O trabalho de Friedman foi continuado e acompanhado por Henry Hazlit, Jacques Rueff, Luís M. Hacker, Ropke, e mais uns quantos teóricos influentes."
6. "A própria escola de Chicago da "escolha pública" não pode ser desligada das suas concepções quanto ao papel da Administração na economia e a função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança"
Acontece que:
1. Friedman não é de modo algum um continuador da linha de Böhm-Bawerk. O economista austríaco foi reconhecidamente pioneiro e inovador no estudo de algumas áreas, mas o debate que se seguiu acabou por afastar a maioria das suas hipóteses. Esse debate foi levado a cabo por diversos economistas, mas os mais famosos serão Irving Fisher e Frank Knight, com quem Friedman terá certamente mais afinidades.
2. Friedman não se aproximou da "economia sem número" de von Mises. É difícil encontrar, em termos económicos, pessoas metodologicamente mais opostas. O primeiro era um empirista dos quatro costados, ao contrário de Mises, cuja metodologia se baseava em apriorismos não refutáveis pela observação da realidade. Não obstante as afinidades políticas, Friedman foi um crítico desta metodologia, de muitas das suas conclusões económicas e do estilo intolerante a que objectivamente conduziam.
3. e 4. O prémio "Nobel" da Economia não é um prémio político, mas técnico. Hayek partilhou nesse ano (1974) o prémio com Gunnar Myrdal, um adversário ideológico da esquerda sueca. Afinal como é? É verdade que Friedman ganhou o prémio depois de Hayek, em 1976, mas não vejo bem qual é o ponto que Marques Bessa quer fazer com isso, até porque, mesmo nesse campeonato, o correspondente júnior do "Nobel" nos EUA, a John Bates Clark Medal, tinha sido já atribuída a Friedman em 1951.
5. Não é uma boa escolha, de todo. Os mais relevantes companheiros e/ou "continuadores" do trabalho económico de Friedman são pessoas como George Stigler, Anna Schwartz, Edmund Phelps ou Allan Meltzer.
6. Não existe a "escola de Chicago da escolha pública". Existem hipóteses subjacentes do desenvolvimento da Teoria da Escolha Pública que são mainstream economics, e como tal têm o dedo de Chicago, mas daí até conferir-lhe assim a paternidade vai uma longa distância. É verdade que James Buchanan e Gordon Tullock foram estudantes em Chicago, e o seu trabalho é prova da qualidade e diversidade dessa universidade, mas é na Virginia onde o centro de investigação está situado, e é para lá que devem ir a maioria dos créditos. E a relação desta com o pensamento de Friedman acerca da "função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança" é, no mínimo, duvidosa.
1. " Friedman (...) voltou a reabilitar a linha de Bhöm-Bawerk"
2. "chegando quase a aproximar-se da economia sem números de Ludwig von Mises"
3. "Com (...) Nobel da Economia ao austríaco Friedrich A. Hayek, premiava-se um chefe de fila da escola de Viena, e indicava-se que o caminho era a desintervenção, a liberdade do mercado e a desregulamentação"
4. "Logo em 1975 é o próprio Friedman a conquistar o Nobel"
5. "O trabalho de Friedman foi continuado e acompanhado por Henry Hazlit, Jacques Rueff, Luís M. Hacker, Ropke, e mais uns quantos teóricos influentes."
6. "A própria escola de Chicago da "escolha pública" não pode ser desligada das suas concepções quanto ao papel da Administração na economia e a função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança"
Acontece que:
1. Friedman não é de modo algum um continuador da linha de Böhm-Bawerk. O economista austríaco foi reconhecidamente pioneiro e inovador no estudo de algumas áreas, mas o debate que se seguiu acabou por afastar a maioria das suas hipóteses. Esse debate foi levado a cabo por diversos economistas, mas os mais famosos serão Irving Fisher e Frank Knight, com quem Friedman terá certamente mais afinidades.
2. Friedman não se aproximou da "economia sem número" de von Mises. É difícil encontrar, em termos económicos, pessoas metodologicamente mais opostas. O primeiro era um empirista dos quatro costados, ao contrário de Mises, cuja metodologia se baseava em apriorismos não refutáveis pela observação da realidade. Não obstante as afinidades políticas, Friedman foi um crítico desta metodologia, de muitas das suas conclusões económicas e do estilo intolerante a que objectivamente conduziam.
3. e 4. O prémio "Nobel" da Economia não é um prémio político, mas técnico. Hayek partilhou nesse ano (1974) o prémio com Gunnar Myrdal, um adversário ideológico da esquerda sueca. Afinal como é? É verdade que Friedman ganhou o prémio depois de Hayek, em 1976, mas não vejo bem qual é o ponto que Marques Bessa quer fazer com isso, até porque, mesmo nesse campeonato, o correspondente júnior do "Nobel" nos EUA, a John Bates Clark Medal, tinha sido já atribuída a Friedman em 1951.
5. Não é uma boa escolha, de todo. Os mais relevantes companheiros e/ou "continuadores" do trabalho económico de Friedman são pessoas como George Stigler, Anna Schwartz, Edmund Phelps ou Allan Meltzer.
6. Não existe a "escola de Chicago da escolha pública". Existem hipóteses subjacentes do desenvolvimento da Teoria da Escolha Pública que são mainstream economics, e como tal têm o dedo de Chicago, mas daí até conferir-lhe assim a paternidade vai uma longa distância. É verdade que James Buchanan e Gordon Tullock foram estudantes em Chicago, e o seu trabalho é prova da qualidade e diversidade dessa universidade, mas é na Virginia onde o centro de investigação está situado, e é para lá que devem ir a maioria dos créditos. E a relação desta com o pensamento de Friedman acerca da "função do dinheiro na vida económica, da inflação e da poupança" é, no mínimo, duvidosa.


5 comentários:
Bastra alguém referir a Escola Austríaca, para despertar o alarme do Manuel Pinheiro.
Pois é caro Manuel, com tantas (e crescentes) referências, a situação complica-se para os negacionistas austríacos, ainda para mais quando as referências vêm dos mais insuspeitos quadrantes...
Mas tenho esperança que um dia o MP deixará de perseguir moinhos de vento e, ainda que nunca se converta (nunca se sabe, nunca se sabe...), aceitará pelo menos o papel absolutamente decisivo que a Escola Austríaca teve e continua a ter.
Um abraço,
AAA
Quanto à escolha pública, é António Marques Bessa que tem razão e o Manuel Pinheiro que está enganado.
É relativamente consensual identificar duas escolas principais no âmbito da escolha pública: a de Chicago e a da Virginia. Se passar os olhos pela Public Choice verá amabas bem representadas e a diferença de abordagem é notória.
É certo que o mérito da fundação cabe a Virginia (Tullock e Buchanan) mas nem por isso se deve negar que também no âmbito da escolha pública há uma variante/escola de Chicago.
Para informação básica sobre a distinção entre as escolas de Virginia e Chicago da escolha pública que permitirá ao Manuel Pinheiro corrigir este erro recomendo:
William C. Mitchell, «The Old and New Public Choice: Chicago versus Virginia», in The Elgar Companion to Public Choice, ed. William F. Shughart II e Laura Razzolini (Edward Elgar Publishing, 2001), pp. 3-32.
Rowley, Charles K. 1991. "A Changing of the Guard." Public Choice 71. pp. 201–23.
Caro AAA,
Não te esqueças que a questão austríaca que nos separa não é a sua importância ou existência no passado.
Relativamente à Public Choice, tenho algumas dúvidas, sobretudo quanto à segmentação quase atomista que às vezes se realiza e que, curiosamente, era o próprio Friedman que rejeitava, relacionada com a separação entre "escolas".
A verdade é que se quisermos ser atomistas, não existe sequer uma escola de Chicago, existem, pelo menos, 3: Com F. Knight, a primeira, depois com M. Friedman e Stigler, a segunda, e mais tarde com R. Lucas e Becker a terceira. Ou até mesmo dividir a de Lucas e Becker em duas distintas.
Percebo as diferenças de perspectiva que possam existir entre diferentes autores em relação à Public Choice, mas que elas sejam tão fracturantes até ao ponto de constituir uma "escola", tenho sérias dúvidas.
Julgo que no sentido de "escola", (e até se pode discutir se a public choice é um research program ou uma "escola") será necessário ser algo atomista para fazer essa distinção, mas reservo melhor opinião depois de conseguir ler as tuas recomendações.
Consegues indicar algo com link directo para leitura?
Abraço
O melhor texto é o do Elgar Companion, mas creio que não existe online. Se eu encontrar alguma versão anterior publicada num journal aviso.
Em textos fora de revistas científicas geralmente é a confusão total, mas se encontrar algum aviso também.
De qaulquer forma é óbvio que estas questões das escolas são smepre discutíveis e, me larga medida, classificações a posteriori mas o meu ponto é que o que AMB escreveu está basicamente de acordo com o consenso existente entre pessoas dedicadas à public choice.
Abraço,
AAA
Caro Andre',
Julgo que nos dias de hoje e' preciso entender aquilo que esta' implicito quando usamos a expressao "escola de Chicago" e "public choice". Para la' das evidentes afinidades historias e de algumas interseccoes substantivas, julgo que e' mais importante reiterar a sua natureza - no dominio conceptual - relativamente independente nos dias que correm. E', no fundo, uma questao de prioritizar o conteudo sobre a forma (e a historia), se quiseres. Mas percebo o teu ponto, e nao posso, em bom rigor, discordar dele. Nao partilharei e' a tua escala de valores interente a essa escolha.
Quanto 'a metodologia do Friedman - acho que isso e' mais que consentaneo - dificilmente a sua abordagem poderia estar mais afastada do apriorismo austriaco. Veja-se isto, por exemplo:
http://www.becker-posner-blog.com/archives/2006/11/milton_friedman.html
" (...) his essay on the methodology of positive economics, in which he argued that the way to test a theory was not by assessing the realism of its assumptions, but by assessing the accuracy of its predictions. Economics makes heavy use of unrealistic assumptions, primarily concerning rationality, and yet the predictions generated by models based on those assumptions are often accurate. Where they are inaccurate, this is a spur to reexamining the assumptions and perhaps modifying them, as is occurring in such fields as finance, where assuming a more complex human psychology than finance theorists traditionally assumed has helped to explain anomalies (from a rational-choice perspective) in the behavior of financial markets.
The emphasis on predictions connects Friedman's essay to Karl Popper's philosophy of science, in which the scientific method is viewed as a matter of making bold hypotheses, confronting them with data, and ascribing tentative (always tentative) validity to the hypotheses that survive the confrontation. Popper's methodology of fallibilism has strong affinities with Friedman's methodology. Both are strongly empiricist. Stigler in conversation merged these two closely related approaches, and I was very struck by the melded approach."
Comparar o empiricismo extremado (com o qual discordo) do Friedman com o apriorismo extremado (com o qual discordo) da escola austriaca dificilmente poderia ser mais do que comparar preto e branco. (Note--se, se isso nao for obvio, que nao uso "extremado" com qualquer intuito pejorativo, mas meramente descritivo, o que nao significa que isso seja um dado "objectivo"; naturalmente, e' apenas a minha visao sobre o assunto).
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