Sexta-feira, Julho 04, 2008

Todos diferentes, todos cachimbos

[Glenn Ford]

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Quinta-feira, Julho 03, 2008

Os narcisos do progresso


Confesso que este desabafo do Pedro Marques Lopes me dá uma certa vontade de ironizar, como ele diria. Aparentemente, o problema de ser contra o "casamento gay" não é que a posição esteja errada (não está), mas que faça perder votos (não faz). Doravante, Manuela Ferreira Leite não pode defender princípios sem apresentar as continhas aos narcisos do progresso. Razão tinha o Oscar Wilde: há quem conheça o preço de tudo, mas não saiba o valor de nada. (Esta do Oscar Wilde foi de génio, já ninguém me acusa de homofobia.)

Acontece que o Pedro Marques Lopes não é o Oscar Wilde. É alguém que criticou a falta de ideologia da senhora e a falta de liberalismo do PSD. Alguém, pois, que gostaria de ver o maior partido da direita portuguesa à sua imagem e semelhança. Infelizmente, nem a senhora nem o partido estão para aí virados. Talvez desconfiem, continhas feitas, que o dito liberalismo lhes faz perder mais votos do que a oposição ao "casamento gay".

O que é uma péssima razão para ter princípios, mas a única que os narcisos entendem.

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Cachimbos de lá



Paul Cézanne, O fumador de cachimbo (c. 1895)

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Ainda sobre a libertação de Ingrid Betancourt

Ler a Ana Cristina Vicente e o Paulo Tunhas.

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Manuela Ferreira Leite


Manuela Ferreira Leite, entrevistada anteontem na TVI, afirmou que não concorda com a atribuição do mesmo estatuto legal às uniões entre duas pessoas do mesmo sexo e duas pessoas de sexo diferente. Admitiu que se trata de uma discriminação, mas justificou que discriminar significa diferenciar aquilo que é desigual. Acrescentou que a sociedade está organizada em núcleos familiares com vista à procriação. Em jeito de conclusão, disse que uma coisa é o casamento, outra será outra coisa que não o casamento.

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A questão do casamento

Aparentemente, de um momento para o outro, quase sem darmos por isso, o casamento, tal como o temos entendido desde sempre, passou para o domínio do mito. Hoje em dia, quando ouvimos alguém designar o casamento como a união familiar entre um homem e uma mulher, com vista à procriação, sentimos que estamos perante um discurso sem credibilidade, um arcaísmo que precisa urgentemente de ser ultrapassado.
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O primeiro passo para a liquidação do casamento enquanto tal foi dado há já algum tempo, quando se universalizou a noção da igualdade entre homens e mulheres. A passagem de uma coisa a outra é fácil de compreender: uma vez que os homens e as mulheres são iguais, as uniões entre um homem e uma mulher ou entre dois homens ou entre duas mulheres são também iguais.
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Contudo, a noção da igualdade entre homens e mulheres não é assim tão simples.
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A questão foi convincentemente resumida pelo "filósofo da igualdade" na primeira página do capítulo V do Emile, o famoso tratado sobre a educação natural. Os homens e as mulheres são em tudo iguais naquilo que não diz respeito ao sexo: têm os mesmos órgãos, as mesmas necessidades, as mesmas faculdades; por outro lado, os homens e as mulheres são em tudo diferentes e complementares naquilo que diz respeito ao sexo. A dificuldade estará em discriminar entre aquilo que na constituição dos homens e das mulheres é comum, e pertence à espécie humana, e aquilo que é diferente e pertence ao sexo. Não obstante a dificuldade, é evidente que as igualdades e diferenças entre os homens e as mulheres têm uma influência determinante na vida moral e política das sociedades.
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Daqui decorre que o Legislador tem de ter em conta aquilo que é igual e aquilo que é diferente entre os homens e as mulheres.
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Os homens e as mulheres têm determinados direitos e deveres universais que decorrem da sua pertença à espécie humana (direitos e deveres esses que, naturalmente, não se estendem aos animais e às plantas); é por esta razão que faz algum sentido discutir em que medida dois homens ou duas mulheres devem ter, ou não, direito a casarem um com o outro ou uma com a outra, e não faz nenhum sentido discutir o direito ao casamento entre um homem e uma cerejeira ou entre uma mulher e um porquinho-da-índia.
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Contudo, os homens e as mulheres têm, ainda, determinados direitos e deveres particulares que decorrem das suas diferenças sexuais: as mulheres têm direito a uma licença de maternidade distinta da licença de paternidade atribuída aos homens; as mulheres grávidas têm prioridade em lugares especiais nos transportes públicos e nas filas dos supermercados; as escolas têm balneários distintos para rapazes e raparigas. Outros exemplos poderiam ser dados. Mas talvez não haja um outro aspecto da vida humana onde o sexo desempenhe uma influência tão determinante na vida moral e política das sociedades do que a união entre as pessoas, pelo que o Legislador não pode deixar de discriminar claramente entre a união entre homens e mulheres, já que é nelas que se verifica a complementaridade dos sexos e a totalidade da espécie, por um lado, e a união entre dois homens ou duas mulheres, onde nem os sexos se complementam nem a totalidade da espécie se manifesta.
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Sendo assim, a tarefa que se impõe actualmente é a da desmistificação da própria ideia de desmistificação do casamento.
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De facto, o mito não está na designação do casamento como a união familiar entre um homem e uma mulher, com vista à procriação; o mito está na ideia de que os homens e as mulheres são em tudo iguais, nomeadamente naquilo que diz respeito ao sexo, e que, por essa razão, a união entre um homem e uma mulher é igual à união entre dois homens ou duas mulheres.
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E nem sequer se pode dizer que se trata de uma tarefa de grande monta, já que a noção do casamento como a união exclusiva entre homens e mulheres tem do seu lado a política e a filosofia: por um lado, a autoridade que decorre da tradição e das leis antigas; por outro lado, a autoridade que decorre das leis da natureza.

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Da série "A concorrência faz melhor" (1)

"O revolucionário e paladino dos oprimidos Hugo Chávez andou um ano a prometer a libertação de Ingrid Betancourt. O conservador e amigo dos imperialistas Álvaro Uribe não prometeu nada e libertou-a." (Rodrigo Moita de Deus)

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Da série "A concorrência faz melhor" (2)

"A lei portuguesa não prevê casamentos entre homossexuais. Ferreira Leite disse que concordava com a lei. Logo Ferreira Leite é homofóbica. Faz sentido." (Rodrigo Moita de Deus)

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Estado da Graça


Rui Ramos começa assim a sua coluna habitual no Público: "Ao contrário dos exames do secundário, o comentário da actualidade não está mais fácil. Ou para ser mais exacto: depende. Há quem opte – e muito bem – pelo humor: é então uma questão de ter graça." Permitam-me que discorde. De facto, em Portugal há quem opte pelo humor, mas não sei se muito bem. É verdade que têm razão os que alegam que o humor é sintoma de inteligência. Mas a julgar pelo que anda por aí, diria antes que o humor é um substituto da inteligência. Não tenho nada a dizer sobre o assunto, mas se o rodear com umas referências divertidas, se usar uma palavrinha mais malandra, passo incólume. Mais, fica no ar a suspeita de que eu sabia mais do que disse, só que preferi guardar essa sabedoria para mim. Haverá com certeza palmas. Que belo efeito.

No fundo, é esse o retrato do País. Os "comentadores da actualidade" não são diferentes dos outros portugueses. Fazem pela vida. Tentam desenrascar-se. E isso não tem graça nenhuma.

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Quarta-feira, Julho 02, 2008

A telegenia de Sócrates (2)

O homem que não entra em "calculismos" e que não perde tempo com "politiquices" deu-se ao trabalho de levar, expressamente para a entrevista, um papel garatujado com as "propostas" do PCP, para as ridicularizar em directo. Lembram-se de Manuela Ferreira Leite ter ontem dito, na sua entrevista de mulher inteira, que este Governo se preocupa mais em fazer oposição à oposição do que em governar?

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A telegenia de Sócrates

Nesta entrevista que está passando na RTP, tudo está feito para prestar um serviço de propaganda ao primeiro-ministro. O ar nervosinho dos dois jornalistas (parecem ir prestar provas a um patrão possível), aquela solenidade tossida e composta do ambiente no estúdio, aquele belo cenário em fundo condizente com a gravidade da coisa. Antes, as imagens da chegada e depois da caminhada de Sócrates para o estúdio - vedeta ansiada que chega com aquela leve mostra de nervosismo que convém sempre às grandes personagens cientes da sua tremenda, pesada responsabilidade. Ele vela por nós. Não se preocupem, pequeninos desamparados e aflitos. Ei-lo que chega.
E ele - ele, logo à primeira pergunta, da "crise", põe aquele ar (quem não vê que é postiço?) de gravidade (o peso, o tremendo peso...), de franzida preocupação. A situação é muito difícil, é, não brinquemos à política que eu estou aqui para me preocupar com coisas sérias.
[Nota simpática: José Alberto Carvalho não tem muita paciência para o tom arrogante do primeiro-ministro.]

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Os juros

O João Miranda diz que Manuela Ferreira Leite não terá razão acerca da alegada (não vi a entrevista) relação entre dívida pública e taxas de juro. Porquê? Por várias razões, entre as quais, segundo o João, porque "entretanto o mundo mudou". Mudou o mundo e mudou o João também, porque eu ainda sou do tempo (2003) em que o João acreditava nessa relação, essa mesma entre défice, dívida e juros:

"No entanto, a taxa de juro teria descido mais se o Deficit tivesse descido em vez de subir"

"Endividamento do estado só é racional se (...) compensar a consequente subida dos juros."

Mas porque a honestidade intelectual é uma coisa muito bonita, é melhor acrescentar que partilho uma parte da opinião actual do João. Há uma série de razões pelas quais o acréscimo do endividamento do estado deve ser criticado neste momento, mesmo sob a óptica do peso do endiviadmento externo e do nosso score na balança de transações correntes. Não colocaria no início o hipotético aumento da taxa de juro, via alegado aumento dos spreads para os créditos em Portugal, causada pelo acenado endividamento do estado.

Há bastante trabalho académico e empresarial sobre as taxas de juro e a relação com as políticas orçamentais públicas. E o que é que nos diz, por exemplo, a NBER num estudo coordenado por Robert Barro? Que para efeitos de determinação das taxas de juro importa a dívida do país em percentagem do PIB e não o défice, e que a dívida internacional importa mais do que a dívida de um país isoladamente. Como Portugal é um país pequeno, a nossa contribuição para este "agregado" internacional é marginal, senão mesmo negligenciável. Num agregado de 12 países constituido pelos EUA, Canadá, Japão, Austrália e alguns países europeus, estimou-se que se a dívida de cada um destes países aumentasse 1%, a taxa de juro aumentaria 0,1%. Mas se esse 1% aumentasse apenas nos EUA, a taxa de juro aumentaria apenas 0,05%.

Mesmo no cenário de maior escassez relativa de capital e maior cuidado na concessão de crédito, tenho dúvidas que o acrescento no spread de empresas e famílias fosse tão forte ao ponto de ser preferível não realizar as ditas "obras" pelo impacto negativo nos orçamentos e opções destas. O problema está bem centrado por Manuela Ferreira Leite na discussão da utilidade e do custo, e fará bem em alertar para os nossos níveis de endividamento interno e externo e para o estado da balança de transações correntes. O impacto que isto tem exclusivamente nos juros não deve ser o que mais preocupe, pelo menos até prova em contrário.

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Cachimbos de lá


Norman Rockwell, A descoberta (1956)

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Terça-feira, Julho 01, 2008

Política liberal de género

Vão ali ao lado ler este post... Por favor, leiam-no até ao fim. Exercício fácil, porque o post não diz nadinha. Por outro lado, difícil, porque custa ler tanta manipulação desonesta das palavras da Manuela Ferreira Leite entrevistada.
Mas vão até ao fim. É lá, no Post Scriptum, que está a pérola do post:
Nesta coisinha, troça-se da idade de uma pessoa, brinca-se com a sua família e troça-se do apego que ela já mostrou ter-lhe. Tudo muito adulto, não é? Podia chamar-se um nome a isto, mas vamos só dizer que é vulgar.

Agora está aqui outra coisa feia e que salta aos olhos. Talvez mais feia do que as outras. Um machismo muito mal disfarçado. Sim, machismo. Ou imaginam que aquela coisa seria dita a respeito de um homem?
Mais tarde ou mais cedo, estas coisas subterrâneas aparecem.

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Sabedoria Popular Bolsista

«Sell in May and go away. Buy again on St Leger's day.»

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Arte, democracia e o resto (1)

Só posso alegar em minha defesa que o João Galamba é simpático, mas está a exagerar.
Em primeiro lugar, qualquer posição conservadora com um mínimo de bom senso, anteceda ela o que anteceder, fugiria a credibilizar-se por meio deste vosso criado. Só o João Galamba, que é simpático e de esquerda, não vê isso.
Em segundo lugar, não sou tão ambicioso. A última vez que tentei credibilizar posições conservadoras, pelo menos aqui no blogue, recorri à infeliz metáfora de um hipópotamo dançante, o que me valeu insultos dos leitores, sermões dos meus companheiros de fumo e até ameaças do Manel Pinheiro de que voltava a postar gajas nuas se eu insistisse no desvario.
Em terceiro lugar, não me parece que toda a arte moderna caiba dentro de uma panitzscheana "revolta contra Deus", seja qual for o corolário (panitzscheana soa mal, mas o João Galamba é de esquerda, não sei se vos disse, e está habituado a palavrões). Entre os muito grandes, basta pensar em Dostoievsky, T. S. Eliot ou Messiaen para seguir um rumo muito diferente. Um ensaísta tão influente como George Steiner escreve grande parte da sua obra - Presenças Reais, mas não só - defendendo que a arte nunca deixou de ser uma aposta na transcendência, no "sentido do sentido" que leva alguns homens a entregar toda a sua vida à experiência de eternidade alcançada pela criação.
Mas a questão nem sequer é metafísica. Quando eu disse que os "excessos" de Amy Winehouse e de outros génios decadentes são convencionais - queria dizer isso mesmo. O desprezo pelas regras de civilidade mais elementares, a necessidade compulsiva de "épater le bourgeois" (ah, mítica palavra, a burguesia! que pena ter-se esfumado com o fim do marxismo...) , os luxos e caprichos de stars e starlettes, a indispensável toxicodependência, a trepidante vida sentimental, as quedas reais ou figuradas, até o suicídio ou a morte violenta, tudo isso, afinal, faz parte de uma verdadeira indústria e do respectivo comércio. Eis, em todo o esplendor fáustico, o pacto que a sociedade de consumo oferece aos novos deuses: cobrimo-los de ouro e glória para que nos entretenham. E eles pagam com a sua vida. Literalmente. Quando essa vida acaba, jovem e bela de preferência, faz-se avançar para o palco o próximo candidato aos quinze minutos de fama. E o ciclo recomeça. Chama-se cultura de massas.
(cont.)

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Ano Paulino

Bem sei que sou suspeito. Mas dois mil anos após o nascimento do Apóstolo Paulo, penso que vamos ter um bom ano.

[A Conversão no Caminho de Damasco, Caravaggio, 1601]

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Segunda-feira, Junho 30, 2008

Branding

Já depois da famosa readmissão do FC Porto à Liga dos Campeões, tenho visto em vários canais de televisão internacionais diversas entrevistas e conferências de imprensa com o Presidente da UEFA que se podem resumir assim:

Jornalista A: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Jornalista B: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Jornalista C: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Pelo que tenho entretanto lido em diversa imprensa internacional, e independentemente das decisões passadas e futuras da UEFA sobre o caso, a mensagem de Platini sobre o FCP passou. E de que forma.

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A minha teoria da conspiração é maior que a tua

Em Portimão, alguém disparou meia dúzia de tiros contra um edifício onde o Primeiro-Ministro estivera minutos antes.
Aguardo que os sherlocks para quem o 11 de Setembro foi uma maquinação de Bush e dos judeus (Diana Andringa e Mário Soares, remember?) venham explicar-nos que o "atentado" a Sócrates não passa de um balão de oxigénio que dá jeito ao Governo.

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Domingo, Junho 29, 2008

Uns e outros

Tenho lido aqui e ali que a adesão dos jovens portugueses aos movimentos de massas marxistas das décadas de 1960 e 1970 foi determinada pelo regime de Salazar e Caetano, como se não houvesse outra forma de resistência possível! Contudo, havia. As vidas e obras de autores como Eric Voegelin, Raymond Aron e Eugène Ionesco -- ora perseguidos, ora ostracizados, tanto à direita como à esquerda -- testemunham com invulgar transparência que havia no século XX um caminho de liberdade e sabedoria a percorrer por quem quisesse mesmo resistir aos movimentos ideológicos de massas.

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Beirut - A Sunday Smile

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Sucesso


Vale a pena relermos a já famosa citação:

Na verdade, a Directora Regional de Educação do Norte acabou por revelar o princípio que regula, a ideia que enforma a política de educação do seu Ministério em particular e do Governo. (Chega a ser divertido ver como estas pessoas, na volúpia do seu poderzinho, não resistem a “fazer” doutrina e exteriorizam, assim, para a ilustração dos indígenas, o seu “pensamento”, sem dúvida conscientes da sua elevada missão. Daí o tom de injunção moral, sentencioso, insuportavelmente “catequético”: a criatura atreve-se a perorar sobre “o que louva o trabalho do professor” etc )

O que importa é o “sucesso” (palavra mágica de virtudes ocultas), o sacro “sucesso”. “Os alunos têm direito a ter sucesso.” Não. Os alunos não têm direito ao “sucesso”. Os alunos têm, sim, direito a que lhes sejam garantidas as condições para poderem obter “sucesso”. Ou melhor, alcançar o “sucesso”. Os alunos devem ser postos perante a possibilidade do seu “sucesso”. A possibilidade tem de lhes estar garantida. Os esforços para isso nunca serão de mais. Mas não é o “sucesso” que é garantido. O “sucesso” é mais um mérito do que um direito.

O “pensamento” do Governo (revelado pelas tocantes injunções da DREN) é um insulto aos alunos e aos professores. Insulta os alunos, porque parte claramente do princípio que um aluno é uma entidade meramente passiva a quem é oferecido o “sucesso”. Não vale a pena exigir esforço, porque nunca o conseguiriam: não tem mal, aqui tens o teu "sucesso", toma-o, tens direito a ele. Insulta os professores, porque os ridiculariza, dando-lhes o sinal (e em forma de argumento ad baculum!) de que têm de baixar o grau de exigência e devem limitar-se a ser fornecedores de “sucesso”. Devem dar em bandeja ao aluno o terminus ad quem de todo um percurso sem verificarem se ele adquiriu as competências para caminhar até lá. Quer dizer, o “sucesso” não se discute. É um direito. Não sejamos ingénuos: aquelas frasezinhas da DREN condicionam não só o escrutínio dos correctores como o próprio sentido da tarefa do professor em geral. E têm um efeito verdadeiramente criminoso nos alunos. Criminoso.

Pede-se que o “sucesso” tenha correspondência numa efectiva apropriação de conhecimentos? Não. Exige-se que o “sucesso” seja carimbado nos alunos. Ao invés de todo o sentido, preconiza-se que não tem de haver (não deve haver!) uma qualidade efectiva que corresponda ao carimbo do “sucesso”. O que está por detrás deste “sucesso”? O vazio.
Não se trata de alcançar ou obter melhores resultados. Trata-se de mostrar melhores resultados. Se necessário, fabricam-se. Falsificam-se. Para uma coisa tão séria como o Ensino, esta gente procura uma solução meramente “retórica”.

E valem todos os truques: os critérios da “avaliação” dos professores (esse princípio absurdo – de cada vez que a “direita” o aplaude, está a fomentar o mesmo “facilitismo” contra o qual se esganiça tão alvoroçada, coitada); atira-se mais meia hora para cima de cada exame; baixa-se o seu grau de dificuldade até níveis que chegam a ser ridículos (como denunciaram várias vozes com autoridade – “pessimistas de serviço” e “ignorantes”, segundo a ministra e sua gente); amolecem-se os critérios de correcção até ficarem pueris. E como estas trapaças não são ainda suficientes, avisa-se os correctores de que não estão ali verdadeiramente para corrigir, verificar, aferir, mas sim para fazer momices estatísticas – participar na farsa.

Não se trata já de conformar, violentando-a, a realidade à “ideologia”. Trata-se antes de algo mais perverso, mais doentio. Esta gente trata de substituir a realidade pela “ideologia”.

“Os alunos têm direito a ter sucesso”. E, no entanto, àqueles que são realmente direitos dos alunos, direitos silenciosos, direitos cuja satisfação não se presta a anúncios de fanfarra e trombeta, a esses, o Governo mostra indiferença (quando não os atropela) e mente sem vergonha. É o caso desta história edificante do “Ensino Especial”.

O que aquela gente pensa, mas não se atreve a dizer, de cada vez que os mais conscienciosos se indignam com as trapaças dos exames, é isto:
“O quê? Estão doidos? Queriam fazer exames a sério aos nossos alunos, não?”

Para eles, os alunos portugueses não são merecedores de um Ensino a sério. Não valem a pena. Por isso, faz-se uma coisa a fingir. Brinca-se à Escola. O brinquedo somos nós todos.

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O "Futebol" que Temos



Michel Platini, que não é nem ingénuo nem um D. Quixote, não quer o Futebol Clube do Porto na Liga dos Campeões de 2008-2009 por se ter provado, sem qualquer dúvida, que o actual campeão da Liga Portuguesa viciou, e tentou viciar, resultados desportivos. Mas na frente interna isto pouco importa. Tanto na Federação Portuguesa de Futebol, como na Liga de Futebol Profissional, não há, nem nunca houve, purismos e puritanismos.

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Sábado, Junho 28, 2008

"... kiss my ass."

Ao que parece Bill Clinton só sairá em apoio de Obama depois deste "lhe beijar o rabo". No entanto, e a avaliar por umas palavrinhas proferidas pelo mesmo Obama no "comício" com Hillary Clinton em Unity ("I know how much we need both Bill and Hillary Clinton as a party. They have done so much great work. We need them badly."), é óbvio que o homem da "esperança" não só já está a beijar há muito os rabos do casal Clinton, como irá a beijar o que for preciso para contar com o apoio do ex. presidente e da ex. primeira dama e sua rival nas primárias. Ainda assim não será por isso que Obama deixará de ser o homem dos "princípios" e da certeza na luta contra o "sistema" lá da terrinha.
Foto daqui.

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Sexta-feira, Junho 27, 2008

A purga

Hoje, em debate parlamentar, a respeito da saga dos Exames Nacionais, Paulo Portas citou um documento da Directora Regional da Educação do Norte (aquela de sinistra memória):

"Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir dos correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações distantes da média. O que louva o trabalho do professor é o sucesso dos alunos."

Sim, leram bem.

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Alvo: Trichet e BCE

O fenómeno não é imprevisível, em particular em contextos como o nosso actual, mas não deixa de chatear. Nos dias que correm, cresce a contestação irada a Trichet e ao Banco Central Europeu. Ontem foi a vez de Ângelo Correia mostrar a sua indignação. Segundo ele, Trichet e o Banco Central Europeu a que preside "não percebem nada", tal é a sua obcessão com critérios "monetaristas". Sem qualquer conhecimento dos dados da economia europeia, Ângelo Correia e os demais não se coíbem de criticar subidas da taxa de juro determinada pelo BCE (as descidas da taxa de juro presumivelmente nunca são criticadas). Eu nem duvido que Ângelo Correia saiba o que é o "monetarismo". Mas duvido que ele e a maior parte do restante coro de críticas à actuação do BCE percebam como é que a economia funciona, e qual a natureza da relação entre as taxas de juro (nominais e reais) e o comportamento da chamada "economia produtiva". Como em tantos outros casos, este tipo de crítica vulgar denuncia tanto de frustração como de ignorância. Principalmente, quando vem de cidadãos, produtores e consumidores portugueses.

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Father Knows Best

Segundo Vital Moreira, o investimento dos socialistas em obras públicas é "aquilo que melhor pode aliviar a situação da classe média, dinamizando a economia, criando oportunidades de negócio para pequenas e médias empresas, gerando procura de serviços profissionais, etc."

Isso seria apenas parcialmente verdade se os cidadãos fossem incapazes de uma aplicação mais eficiente dos seus recursos, se fossem incapazes de detectar melhores "oportunidades de negócio", de gerar melhor oferta e "procura de serviços profissionais". Se os recursos não forem retirados aos privados, eles não vão parar ao fundo do mar sem utilização, terão uma aplicação alternativa que tudo indica ser mais eficiente do ponto de vista económico que a aplicação estatal em Portugal neste momento, dados os valores globais que estamos a falar (o que não quer dizer que não haja individualmente investimentos que se justifiquem).

O que Vital Moreira tem de explicar para justificar a generalidade que afirma, é porque é que retirando dinheiro aos privados, limitando-lhes ainda mais a tal capacidade de iniciativa, e dando-o ao estado, que por sua vez irá pagar a sua despesa burocrática de funcionamento antes de lançar o que restar em investimentos cuja última decisão é política, será melhor do que deixar estes mesmos recursos no bolso dos contribuintes.

Keynes seria o primeiro a não concordar com a visão de Vital Moreira, o diagnóstico dos problemas económicos do país tem sobretudo que ver com eficiência, produtividade e competitividade, aos quais se juntam alguns problemas financeiros e macroeconómicos (ex: défice externo, défice contas públicas, dívida pública, peso da fiscalidade, etc). E deste ponto de vista em que espécie de análise custo-benefício, com aplicação alternativa de recursos, se baseia Vital Moreira para defender a globalidade do "pacote de investimentos" para além dessa defesa ideológica e algo mitológica das alegadas bondades intrínsecas do investimento público?

Ouvi uma vez o ministro Pinho, um ou dois dias depois da demissão de Campos e Cunha, fazer exactamente o mesmo tipo de defesa ideológica cada vez que da plateia da Ordem dos Economistas surgiam questões específicas sobre determinados projectos, sobretudo dos grandes. Não convenceu, preocupou e criou uma escalada no tom das perguntas, ao ponto de lhe ser questionado se ele era ministro da economia (dos cidadãos e das empresas) ou uma espécie de ministro do plano descontextualizado no tempo e no espaço.

O que Vital Moreira diz é preocupante, pois é bem possível que seja quase só isso que Sócrates, Pinho e Lino nos tenham para dizer. Investimento, "dinamização" da economia? O Estado é que sabe. Já vimos este argumento na tela, o final não é feliz.

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Da série «outras leituras»

Excelente artigo Biotech Enhancement and Natural Law, publicado no número 20 da New Atlantis, sobre os avanços científicos e o direito Natural.

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Quinta-feira, Junho 26, 2008

Diogo Chang Faria

Anda, por aqui, uma jovem e promissora (boa) notícia para quem gosta de guitarra.

Aconselho o "clique". E mais não digo.

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Do cinismo como política educativa

Sou professor há mais de uma década. Já ensinei a ler miúdos de bairros de lata e já dei aulas de Mestrado. Hoje, dou formação universitária a futuros professores do Básico, formação contínua a professores do Secundário e História ao 10º ano. Posso dizer que conheço o ofício e os que o exercem.
Ao contrário da lenda, são poucos os que escolhem esta profissão porque não têm outra "saída" - horrorosa palavra. Mas o desalento está no ar e sente-se cada vez mais. Nos melhores casos, os professores conformam-se com a mediocridade dos alunos, a indiferença dos pais, a solidão a que são votados pelas escolas, a burocrática estupidez do Ministério da Educação. Fazem o que têm a fazer e esforçam-se por ensinar, ainda que sem grande investimento pessoal. Aprenderam a defender-se. Mesmo assim, manter este low profile anos a fio pode ser uma espécie de heroísmo quotidiano. Nos piores casos, porém, os professores tornam-se cínicos. Deixam de acreditar que os alunos possam mudar ou que o seu trabalho sirva para alguma coisa, deixam de acreditar no sistema, deixam de acreditar em si próprios. Por vezes, passam a odiar tudo e todos - a profissão, os colegas, a Ministra ou o Ministro, os pais e, claro, os bárbaros que têm de enfrentar diariamente. Não é preciso ser um génio para ver aqui a origem de muitas depressões. E uma das principais causas de fracasso do ensino público.
O cancro do cinismo é o pior de tudo. Não é a indisciplina, nem o excesso de alunos, nem a ausência de reconhecimento, nem a falta de apoio, nem a incerteza profissional. Tudo isso é mau, é péssimo, mas pode remediar-se. A única coisa que não tem remédio é a perda de sentido. Um professor que não tem razões para ensinar está morto por dentro.
Não se espera, no entanto, que o cinismo ataque também as instituições. Ou a política educativa de um Governo democrático. Pelo contrário, é legítimo esperar que aqueles que nos governam, mal ou bem, e para isso foram eleitos, mal ou bem, acreditem que podem mudar as coisas. Acontece que as provas de aferição e os exames em curso revelam que o cancro do cinismo se tornou galopante no Ministério da Educação. A actual Ministra e a sua equipa, com o tenebroso GAVE à cabeça, já não acreditam que os resultados escolares possam melhorar pelo esforço dos professores e dos alunos. Mas como têm de mostrar serviço, e mostrar serviço é talvez a única motivação dos cínicos, reduziram a exigência dos testes para chegar a melhores resultados. Conseguiram - inevitavelmente. Na União Soviética, as estatísticas dos planos quinquenais também eram inevitavelmente gloriosas em nome dos amanhãs que cantam. Só que não estamos na União Soviética. Embora alguns idealistas não tenham dado por isso.
Ora, se um cínico é um idealista desiludido, nada o ilustra melhor do que este episódio. Depois de ter passado a legislatura a pedir à escola que nos desse a igualdade e o "homem novo", o tal que não fuma, fala inglês desde pequenino e acede ao futuro através do inesgotável Plano Tecnológico, o PS descobriu que a história anda mais devagar do que gostaria. Afinal, o bom selvagem não consegue somar 2+2 sem a mão invisível dos especialistas em "avaliação" da 5 de Outubro. Que não faltou. A bem dos manhãs que cantam, perdão, das estatísticas.
O embuste já foi denunciado, mas não deixa de ser criminoso. Porque se o cinismo pode acabar com um professor, o cinismo como política pode destruir uma geração inteira. Os que passaram pelas escolas portuguesas no último ano não sabem ainda, mas depressa hão-de dar conta que as suas notas falsas não têm crédito na universidade e no mercado de trabalho. Feliz ou infelizmente, quando perguntarem de quem é a culpa, Maria Lurdes Rodrigues e os outros cínicos não estarão cá para lhes responder.

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Quarta-feira, Junho 25, 2008

Sossego e propostas

Tem uma certa piada, porque aquilo que se deveria pedir ao PSD pós-Congresso de um ponto de vista de gestão seria a operacionalização da equipa, sendo que parte dela consiste em recrutar e literalmente enfiar dentro dos "gabinetes" quadros do partido que construam as propostas do mesmo (não tanto a visão, análise, objectivos nem a estratégia, já alinhados pela Presidente).

O que algumas pessoas estão a pedir ao PSD é que se aventure de forma ligeira na produção instantânea de números e datas, uma espécie de leite instantâneo em pó. Parece um regresso à infância, em que existe uma necessidade incessante de entretenimento no berço. Nada disto tem como consequência um absoluto silêncio, mas quem não percebe que uma coisa é detectar um montante excessivo de investimento em obras públicas e uma outra coisa é análise uma a uma e hierarquizá-las para definir o ponto máximo de execução e respectiva calendarização, percebe efectivamente muito pouco. Ou isso ou a má fé. Ou as duas.

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Terça-feira, Junho 24, 2008

Justiça é...



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Segunda-feira, Junho 23, 2008

Palavras há muitas (2)


O João Galamba escreveu um post no 5 dias com uma resposta -- via José Manuel dos Santos no Expresso -- a este outro post que eu escrevi aqui no Cachimbo.
O desafio que lancei no meu post era o de questionar a natureza da retórica de Obama. Para João Galamba, o desafio foi exemplarmente superado por José Manuel dos Santos. E o que é que faz José Manuel dos Santos no seu artigo do Expresso? Enuncia os três meios retóricos elementares estudados por Aristóteles, nomeadamente o argumento (logos), a emoção (pathos) e o carácter (ethos), ao mesmo tempo que afirma que Obama convence porque argumenta, porque emociona, porque há um “eu” que diz “vós” e é reconhecido. Para José Manuel dos Santos, ouvir Obama é voltar a ler a Retórica de Aristótles.
Porém, se considerarmos que a boa retórica aristotélica se resume a estes três meios elementares, e se a nossa intenção fosse justificar (e não apenas afirmar) que Obama é um bom exemplo da retórica aristotélica, o que deveríamos nós fazer? Deveríamos mostrar que a retórica de Obama não se limita a provocar um sentimento emocional na sua audiência e a induzir a audiência a formar uma opinião favorável sobre ele. Deveríamos, acima de tudo, mostrar que Obama convence a audiência pela força dos seus argumentos. Acontece que José Manuel dos Santos não tenta fazer nada disto e não apresenta os méritos de um único argumento de Obama. Obama é um bom exemplo da retórica aristotélica porque sim. Ponto final.
Mas não chega. A verdade é que, durante as primárias, a principal crítica a que Obama foi sujeito é a de ter um discurso vazio. Sem conteúdo. Centrado na sua pessoa. Um discurso com palavras sonantes como "mudança" e "esperança" e "sonho" ou slogans circulares do género "Nós somos aqueles por quem temos esperado". Não é difícil concluir que todos nós queremos a "mudança" para melhor. Não é difícil concluir que todos nós queremos ter "esperança" em vez de estarmos desesperados. Não é difícil concluir que todos nós temos um "sonho" que queremos realizar. Mas importa perguntar qual o sentido da mudança?! Importa perguntar qual o sentido da esperança?! Importa perguntar em que medida o sonho pode ser realizado?! É aqui que deve começar o argumento e acabar a má retórica (a mera produção de emoções na audiência). E é aqui, precisamente, que Obama se cala.
É claro que quando Obama discursa e fala às pessoas, cada uma delas identifica a "mudança" e a "esperança" de acordo com os seus "sonhos" pessoais, mas não é evidente que todas elas queiram mudar no mesmo sentido ou esperem o mesmo ou que todo e qualquer "sonho" possa ser realizado. O argumento deve discernir os fins e os meios da política e persuadir as pessoas de um caminho concreto e responsável que se pretende percorrer. Nada disto se vislumbra no discurso de Obama. Pelo contrário, ouvimos Obama dizer "Nós somos aqueles por quem temos esperado"? Mas que raio quer isto significar? Algum argumento racional pode ser construído a partir de um slogan que ninguém percebe o que significa? Alguém acredita que os milhares de pessoas que exultam quando ouvem Obama dizer “Nós somos aqueles por quem temos esperado” fazem a mínima ideia do que ele está a falar? Alguém acredita que o próprio Obama sabe do que está a falar? "Nós somos aqueles por quem temos esperado" é um eloquente resumo da má retórica de Obama: um slogan redondo, sem porta de entrada ou de saída. Argumento: zero! Emoção: a rodos! (Não é por acaso que Obama recusou os tais 10 debates propostos por McCain, em que cada um dos candidatos teria de responder a perguntas não planeadas feitas por membros da audiência –- recusou porque sabe que não é no argumento que reside a sua força.)
De facto, não basta afirmar que Obama é um exemplo da boa retórica aristotélica, é necessário argumentar. José Manuel dos Santos não argumenta, limita-se a afirmar –- ele também não é um bom exemplo da retórica aristotélica de que curiosamente diz ser adepto.
Em relação a João Galamba, a aposta parece ser na distinção do posicionamento de Platão e Aristóteles face à retórica. Sou capaz de acompanhar João Galamba quando ele afirma no seu post que Aristóteles procurou "reabilitar" o significado da retórica. Mas importa acrescentar que Aristóteles tentou reabilitar acima de tudo o elemento argumentativo da retórica, contra aqueles que a reduziam à mera produção de emoções na audiência. Neste sentido, Aristóteles seria hoje um acérrimo crítico da retórica de Obama. É importante lembrar que Aristóteles define a retórica como sendo a “antístrofe” da dialéctica. Para Aristóteles, uma coisa é a antístrofe de outra quando aquela pode ser convertida nesta, isto é, quando a relação que se estabelece entre os dois termos é de reciprocidade e reversibilidade. Dizer que a retórica é a antístrofe da dialéctica significa dizer que discurso político e a filosofia estão numa relação de reciprocidade e reversibilidade. Eis a boa retórica.
Em suma, a noção de que a retórica de Obama ilustra o entendimento que Aristóteles tem da retórica é um elogio precipitado a Obama e uma simplificação da filosofia de Aristóteles. Saber se a retórica de Obama faz justiça ao entendimento que Aristóteles tem da retórica? ou se a retórica de Obama é uma mera técnica de produção de emoções nos eleitores com o fim de conquistar o poder político? é uma questão que não pode ser respondida com duas ou três pinceladas e muito menos deve ser respondida com o recurso à autoridade de filósofos que exigem estudo cuidadoso e não permitem leituras simplificadas.

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Roy Lichtenstein, Natureza morta cubista, 1974

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