terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Bem lembrado

Aqui, pelo João Pinto e Castro. Não sei para quem era originalmente dirigido, mas poderia assentar que nem uma luva a este PS de Sócrates pós perda de maioria absoluta. Mais dia menos dia terão de aceitar o que aconteceu.

One Art - Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Explicar às crianças, então...

O Pedro Picoito perde demasiado tempo na bloga e isso naturalmente não é do agrado da mulher dele (1). A Ana Vidigal, apesar de solidária, tem inveja do Pedro e sonha com o dia em que poderá perguntar ao Sr. Manel da tabacaria se a mulher já levou a revista Maria para casa (pelo meio, uma referência ao Dunhill) (2). O Pedro desconfia que a Ana nunca será um marido à séria se antes não arranjar um cachimbo a sério (p. ex., um Peterson Commodore) (3). A Maria João Pires dá um raspanete ao Pedro porque tem a certeza de que não passaria pela cabeça da Ana ser marido de alguém (4). O Pedro, que bem escaldado está no que toca a perguntas casamenteiras, jura à João que não perguntou nadinha à Ana (5); mas há mais: com medo de ver novamente o Cachimbo na capa da revista Caras (6), o Pedro denuncia a descida do nível das jugulares e ameaça destruir as postas passadas que escreveu sobre o assunto (7). A Ana Matos Pires, antecipadamente grata não vá o Pedro apagar mesmo as postas, pede explicações e quer saber qual a natureza da alegada descida do nível das jugulares (8).

A coisa não está fácil. O Pedro, homem valente que é, lá vai dando a luta que pode, não a uma, mas a duas e três jugulares. Eu, maricas que sou, nem sequer me quero meter no meio dele e delas. Mas não posso deixar de vir aqui fazer uma pergunta retórica: se compreender estas coisas entre adultos já é o que é, imaginem lá quando agora tivermos de as explicar às crianças... O melhor é começar logo aos 2, 3, 4 anos, a ver se pega, caso contrário...

O paradoxo de Godot



O Paulo Marcelo percebe que o PSD tem de se manifestar como verdadeiramente reformista para voltar a crescer. Para se assumir o PSD tem de enfrentar "o bloco central de interesses instalados". O problema é que PSD e PS representam corpo e alma do bloco central, pelo que quando o Paulo Marcelo sugere que o PSD enfrente o bloco central de interesses instalados mais não está (sem querer) do que a prescrever a subversão do PSD.

Ora, infelizmente para o país, o PSD não deixa que o tornem aquilo que deveria ser, mas não é.

Já não estamos no estádio da peça de Becket em que dois homens estão à espera de Godot. A realidade aproxima-se muito mais à peça "Seis personagens à procura de um Autor" de Pirandello em que as personagens procuram desesperadamente um autor que as ponha a representar mas que recusam, sistematicamente, a forma com que o autor as quer representar. Afinal quem melhor que o PSD pode representar o que o PSD é hoje.

Citação montesquieuana do dia

«Há dois tipos de povos pobres: os que a dureza do governo tornou assim; e esses povos são incapazes de quase nenhuma virtude porque a sua pobreza faz parte da sua servidão; os outros só são pobres porque desdenharam, ou porque não conheceram, as comodidades da vida; e estes podem fazer grandes coisas porque essa pobreza faz parte da sua liberdade.»

PSD à espera de Godot


Há uma peça de Samuel Becket que retrata dois homens numa espera ansiosa por um terceiro chamado Godot. Todos os diálogos são marcados por este personagem misterioso, que nunca aparece, mas condiciona todos os outros. Até ao fim não se chega a perceber quem é Godot, o que se espera dele, ou porque não vem. Beckett cria uma imagem poderosa do absurdo.

Lembrei-me disto a propósito do momento actual do PSD. Com excepção de Passos Coelho (candidato há muito tempo), os outros potenciais candidatos à liderança continuam à espera. Invocam o direito à ponderação, observam-se uns aos outros, mas ninguém tem coragem para dar o primeiro passo. Este impasse tem impedido a clarificação e o debate interno que o partido precisa, mas que tem sido quase inexistente, com excepção dos debates promovidos pelo Instituto Sá Carneiro. É óbvio que o PSD precisa de se repensar. Precisa de perceber porque perdeu as últimas eleições legislativas, apesar da crise económica e do desgaste político do Governo. Perceber porque razão as suas propostas não foram mobilizadoras para o eleitorado.

Manuela Ferreira Leite, apesar as suas qualidades pessoais, não conseguiu (ou não quis?) promover a renovação interna do PSD. Não soube aproveitar uma nova geração de quadros profissionais que colaboraram activamente no Gabinete de Estudos do partido e no Instituto Sá Carneiro. O novo líder do PSD tem de conseguir fazer essa renovação, apostando em novos rostos com prestígio profissional fora da política. E assumir com maior clareza as rupturas necessárias que Portugal precisa para sair da estagnação económica da última década. Sabendo que, mais do que ideologia, as pessoas querem ouvir propostas concretas para os seus problemas.

Não vejo razões para que o PSD não apresente com maior clareza um projecto político alternativo ao “assistencialismo” socialista. Um partido reformista enfrentando o bloco central de interesses instalados. Que se assuma como o partido da liberdade de escolha na educação e na saúde. O partido do mérito e da igualdade de oportunidades. O partido da sociedade civil, da família e da subsidiariedade. Que defenda um Estado menos intervencionista na economia e nas nossas vidas. Só assim o PSD pode reconquistar a sua base social de apoio, ocupando o seu espaço político natural à direita do PS.

Enquanto não o fizer o PSD vai continuar a perder relevância social e política, cada vez mais distante do seu eleitorado natural. Continuará à espera do seu Godot que pode nunca mais chegar.

[Publicado hoje no Diário Económico]

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

O palhaço

... segundo Mário Crespo, hoje no Jornal de Notícias.

Belle and Sebastian

Escolhas

No recente estudo de Alberto Alesina e Silvia Ardagna analisam-se políticas orçamentais de 21 países OCDE, entre os quais Portugal. Da análise dos dados saem dois pontos importantes sobre o crescimento e sobre consolidação de finanças públicas, aquelas que são as duas questões económicas chave neste momento em Portugal, eles são:

1- Para o objectivo de aumento do crescimento económico, estímulos baseados em reduções de impostos têm muito mais probabilidade de sucesso do que estímulos baseados em gastos públicos;

2- Para o objectivo de consolidação das finanças públicas, a opção por redução da despesa sem aumento de impostos tem uma maior probabilidade de sucesso na redução de défice e dívida do que a opção de aumento de impostos;

Ponto extra: Ajustes realizados pelo lado da redução da despesa em vez do aumento de impostos têm menor probabilidade de causar uma recessão.

Uma política orçamental baseada nestas conclusões, e aplicada a este pesadelo económico socialista chamado Portugal, teria como opção a redução da carga fiscal (sobretudo a que lida com os incentivos ao investimento) e a redução da despesa pública. Sócrates preferiu no entanto avançar com um aumento de impostos via código contributivo (não entrou em vigor graças aos votos da oposição) e com o acelerar de algumas loucuras económicas neste momento como o TGV ou aumentos salariais. As escolhas são exclusivamente socialistas, mas as consequências vão-se sentir bem longe dos gabinetes de São Bento.

Livros

Lista dos 100 melhores livros da década apresentada pelo Times aqui.

Computadores ajudam as famílias carenciadas

Portugal vive um momento difícil. Muitas famílias lutam diariamente para manter os filhos nas escolas, procurando ultrapassar as dificuldades enfrentam. O Estado promove auxílio às famílias através da Acção Social Escolar. Ficamos a saber que o governo socialista retirou 50 milhões de euros à ASE para oferecer computadores, dinheiro esse que deveria ser canalizado para ajudar as famílias nos gastos directos com livros, material didáctico e alimentação. Acham isto normal?

Forte de São Sebastião

[Ilha de São Tomé, Novembro 2009, clique para ampliar]

É falso e não há notícia - o Público anda a brincar

Que o jornal Público ameaçou, desde a primeira hora da sua actual direcção, tornar-se num órgão de propaganda ideológica de esquerda, sabíamos pelo editorial de estreia.

Que a coisa caísse neste nível da indigência, é que não estávamos à espera. É olhar para a manchete de hoje e tentar acreditar: «Salário mínimo de 2010 está longe do poder de compra do de 1974». Vai-se à procura do trabalho que a sustenta e não há uma notícia. Uma declaração de alguém relevante, um documento produzido por uma instituição com qualquer representatividade ou responsabilidade social. Nada. Nem mesmo um desabafo de um simples sindicalista. Nada vezes nada. Um jornalista resolveu pegar na máquina de calcular e fazer contas. E já está.

É claro que as contas não têm qualquer siginificado. Resultam da construção de uma série para o salário mínimo nacional actualizado à taxa de inflação (não sabemos com que deflator), contrapondo depois essa série virtual à série real dos salários mínimos. Os comentários incidem sobra os valores obtidos para o momento actual.

Que em 1974/75 o país estivesse sob o domínio do Partido Comunista e, em consequência disso, a participação dos rendimentos do trabalho em geral na distribuição do rendimento nacional tivesse, momentaneamente, conhecido um surto não replicável, que essa distribuição tivesse sido posteriormente corrigida, e se mantenha, desde o ajustamento, extremamente estável, não há nada, mesmo nada de especial no assunto. Salvo o estado de alma do jornalista e, claro, a causa.

De resto, quanto ao salário mínimo nacional em si mesmo, um olhar de esguelha ao gráfico mostra que, desde meados da década de 90 para cá, as curvas do salário real e do salário virtual do jornalista se mantêm com diferenciais quase constantes e, se algo há a assinalar, é a diminuição recente desse diferencial.

«Crises, a repercussão indirecta nas contas do Estado e um pensamento económico liberal explicam a queda do seu [salário mínimo] valor real desde há 35 anos». É falso. E, claro, não é notícia.

Casamento homossexual: Dez razões para um referendo


1- Sabia que não existe um único país do mundo onde o casamento homossexual tenha sido instituído, sem que não esteja igualmente consagrado o acesso à adopção por casais homossexuais ?
2- Sabia que um estudo da CESOP (Universidade Católica), revela que mais de 40% dos eleitores que se consideram simpatizantes do PS, declaram-se contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
3- Sabia que as sondagens efectuadas até hoje indicam que os portugueses maioritariamente são a favor de um referendo sobre a matéria e contra a redefinição do conceito de casamento?
4- Sabia que existem organizações de promoção dos direitos dos homossexuais que não defendem a redefinição do conceito de casamento ?
5- Sabia que as questões concretas que são reclamadas pelos homossexuais têm várias outras soluções jurídicas, maioriárias no mundo ocidental, e que não passam pela necessidade de redefinição do conceito de casamento ?
6 - Sabia que nos Estados americanos da Califórnia e do Maine, o casamento entre pessoas do mesmo sexo já foi permitido no passado, tendo as normas jurídicas que permitiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo sido posteriormente revogadas ?
7- Sabia que, já este mês, o Senado de Nova Iorque debateu e chumbou por mais de 60% dos votos, uma proposta de lei que tinha por objecto o alargamento do casamento a pessoas do mesmo sexo ?
8- Sabia que no Senado de Nova Iorque, os Republicanos são uma minoria, e que para além dos Republicanos, também um em cada quatro senadores Democratas votou contra a proposta que iria permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
9- Sabia que nos EUA já foram efectuados trinta e um referendos em diferentes Estados, em que os eleitores foram chamados a pronunciar-se sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo ?
10 - Sabia que nos trinta e um referendos realizados, em todos eles sem excepção, os eleitores rejeitaram a redefinição do conceito de casamento e a instituição do casamento homossexual ?

Hoje no jornal Público.

A demagogia...

...é sempre um delírio simplista sobre a realidade. Como aqui.

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Portugal pode falir?

Falir não é uma aqui uma metáfora vaga. Estamos a falar de: falir mesmo. Pedro Braz Teixeira já sugeriu aqui que tomássemos «o caso grego como indicador avançado do que nos pode vir a acontecer». Salientando contudo que há uma pequena diferença que «poderá ser decisiva para nos fazer "ultrapassar" a Grécia: eles têm um governo maioritário e nós temos um governo minoritário e uma oposição que não prima pela responsabilidade.» Para quem não saiba: Pedro Braz Teixeira foi muitos anos economista-chefe do Santander em Portugal e, mais tarde, adjunto de Manuela Ferreira Leite, quando ela foi ministra de Estado e das Finanças.

E o que nos pode acontecer se o Estado português falir? Bem, Luís Campos e Cunha explicou na sexta-feira, a ler aqui, o que pode acontecer. Também explicou as diferenças entre o caso português e o caso grego: «Nós só temos 80% de dívida pública (se não contarmos com as responsabilidades das parcerias público-privadas), tivemos eleições, mas depois disso o défice e o desemprego pouco aumentaram. A Grécia no passado recente teve boas taxas de crescimento, enquanto Portugal está estagnado há quase dez anos. São tudo diferenças.» Registamos aqui o talento do Professor para o curto apontamento de humor negro.

Para quem não se recorde, Luís Campos e Cunha foi durante anos vice-governador do Banco de Portugal, e durante alguns dias ministro de Estado e das Finanças de Sócrates.

Ok. Já sabemos que os avisos não levam a nada. Estes talvez valha a pena ler. Pode ser que sejam os últimos.

O Governo que temos, ah! o Governo que temos responde a uma situação iminente de credit crunch (estava com um medo supersticioso de dizer a palavra, mas pronto, está dita) com o TGV e a um recorde absoluto de desemprego com um aumento do salário mínimo nacional. Chama-se a isto harakiri com paixão.

Ronda da noite

Mais um incréu que não acredita no Messias.

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Ricardo Reis, a economia e a política

Ricardo Reis, na sua crónica no i, lamenta-se por os portugueses não reagirem à ameaça económica e financeira que paira sobre as suas cabeças. Para os espevitar mobiliza dados económicos importantes, num tom muito semelhante ao artigo do Pedro Guerreiro que aqui ontem citei. Mas Ricardo Reis não se conforma com a cegueira portuguesa diante do naufrágio. Acusa-nos de inconsciência e de nos divertirmos com casos políticos sem qualquer importância. Um desses casos irrelevantes é o de se saber se "José Sócrates trata o amigo por 'Mando' ou 'Varinha'".
Deixemos de parte as tolices que sempre se dizem num artigo de opinião (falo de experiência pessoal), e passemos ao essencial. E o essencial é a surdez dos portugueses quando lhes gritam notícias económicas deste calibre. Eu concordo com o Ricardo Reis. E agradeço-lhe por ter alertado a nação - sem ironia. (Embora seja da mais elementar honestidade acrescentar que se a Pátria for ao fundo, tal não se ficará a dever a falta de avisos - com ironia).
Porém, tenho de perguntar o que é que Ricardo Reis disse quando, por exemplo, se começou a insistir no estado catastrófico das contas públicas e do endividamento da economia. Diz a minha memória que a sua participação no debate foi dizer que nos governos do PSD os défices eram ainda mais graves. Escolheu uma perspectiva sobre o assunto que eu não rejeito enquanto tal, mas é preciso ver que se paga um preço por essa escolha. Ou seja, a sua opção foi tentar conduzir o debate numa certa direcção - politicamente legítima, insista-se - que teria necessariamente de ser incompatível com uma discussão cerrada sobre os problemas actuais. Nessa altura, Ricardo Reis foi parte da solução ou parte do problema?
A política não deixa ileso ninguém que ouse penetrar as suas fronteiras. Este é um exemplo. Um outro seria o seguinte. Parece que na Irlanda vão cortar os salários dos funcionários públicos. Quando no ano passado em Portugal se decidiu aumentar os funcionários públicos, o governo agiu bem ou irresponsavelmente, Ricardo Reis? Que estamos a ir ao fundo, já sabemos. Agora é preciso tomar decisões. É a política, a política.

Perto do abismo

O Governo avançou hoje com o TGV. Numa época em que o país se afunda numa grave crise estrutural, com um défice elevado, taxa de desemprego acima dos 10% e níveis de endividamento excessivos, o Governo de Portugal está apostado em levar para a frente esta obra, que muitos consideram um verdadeiro elefante branco. E muitos outros consideram inadequada ao momento que o país atravessa. Um erro que Portugal pagará caro.

É bem mais do que simbólico ...

O retrato abaixo tem tudo para ser verdadeiro.

José Pacheco Pereira, "Coisas da Sábado" no Abrupto.

Cachimbos de lá


Thomas Fearnley, Rua de Sorrento, 1841

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

O Inverno do nosso descontentamento


"Na Grécia, sinaliza-se uma ruptura financeira. Na Irlanda, radicalizam-se cortes na despesa. Em Espanha, gere-se pressão na dívida. Em Portugal, deputados insultam-se. Palhaços.
(...)
A notícia mais importante do dia de ontem não foi a que abriu todos os telejornais. Não há palhaço que crie diversão suficiente para o agravamento das condições financeiras na Grécia, as medidas draconianas na Irlanda, os efeitos no risco da dívida espanhola, os impactos em Portugal.
A Grécia está em risco de precisar de um programa de ajuda, um "bail out", como nos bancos. Os países da Zona Euro "devem preparar-se para salvar a Grécia" se se chegar a esse ponto, alerta o professor de Leuven Paul de Grawe.
Se isso acontecer, a pequena economia portuguesa será afectada. Não porque tenha problemas tão graves como os da Grécia, que não tem, mas porque também é sulista, elitista e endividada, de que fugirão a sete pés os financiadores internacionais. É o que dizem os economistas. Foi o que disseram os mercados financeiros de todo o mundo, bolsas em queda, custos das obrigações do Tesouro em alta. As luzes dos painéis das agências de "rating" para esta Península estão todos a piscar.
Os parlamentos de todo o mundo estão concentrados nos seus problemas. Uns bem, outros provavelmente mal, mas com fito. Não com fitas, como cá. Em Portugal, ninguém parece querer compreender do que se fala quando se fala em redução rápida e grande do défice. Falamos de aumentar receitas sem querer assumir que provavelmente isso significa mais IVA ou mais IRS, como dizia ontem Daniel Bessa. Falamos de corte de despesas como se fosse possível fazer "forcinhas" nos ministérios.Olhai a proposta de Orçamento da Irlanda, ontem apresentada: redução de 5% a 15% dos salários dos funcionários públicos, menos abonos sociais e subsídios, novas taxas, reduções drásticas nas despesas da saúde, educação, segurança social. Está a acontecer-lhes a eles e vai acontecer-nos a nós. Agora é o Inverno do nosso descontentamento. Levem daqui os palhaços."
.
P.S. É bom que a claque de apoio ao actual estado de coisas esteja atenta. É que já não é só o velho Medina Carreira que torce o nariz à coisa. Há muita coisa que pode ser ridicularizada. Mas a realidade normalmente é imune ao ridículo.

Yosef Hayim Yerushalmi (1932-2009)

Aos 77 anos, morreu ontem Yosef Hayim Yerushalmi, em Nova Iorque, onde nasceu. Creio que ninguém contribuiu tanto como ele para a historiografia dos judeus portugueses. Não apenas pelo impressionante trabalho de investigação e cruzamento de fontes que realizou, descobrindo e analisando documentos inéditos, exumando designadamente o primeiro e, até há bem pouco tempo, único relato restante de uma testemunha ocular do massacre de 1506, compulsando as fontes hebraicas, às quais não puderam recorrer durante muitos anos os historiadores portugueses, mas, sobretudo, pelo seu labor de compreensão.

Yerushalmi foi simultaneamente um investigador exemplar, no monumental trabalho de pesquisa em arquivos dispersos pelas sete partidas do mundo, e um pensador - apto para a grande narrativa, capaz da interpretação luminosa. Ao que não eram alheios os seus dotes literários invulgares.

Os judeus ibéricos e, em particular, os portugueses não foram o único pólo da sua atenção. A reflexão sobre a complexa relação entre a memória e a história na formação da identidade nacional judaica foram objecto da sua obra mais conhecida - Zakhor. A circulação e reflexão que o livro suscitaram talvez se expliquem pelo facto de em nenhum outro caso nacional aparecerem com tanta clareza os problemas universais da sinuosa relação entre esses dois termos: memória e história, na formação de uma consciência nacional.

Que nenhum dos seus livros, publicados nas mais diversas línguas, esteja editado entre nós, é, no mínimo, irónico (há, é certo, o seu extraordinário estudo introdutório à edição fac-similada da Consolação às Tribulações de Israel, de Samuel Usque, na Fundação Calouste Gulbenkian). Afinal, a história judaica portuguesa tem uma relação altamente significativa com a história de Portugal como um todo; mesmo, e sobretudo, com a história de Portugal tornado Estado-nação de uma nação substancialmente homogénea. Poder-se-ia pensar: mas, precisamente por isso mesmo... Não é verdade: a história da Espanha e dos «seus» judeus não é menos problemática, menos traumática, menos complexa, menos decisiva. E, porém, não pode haver comparação entre o nível a que se processam os «estudos judaicos» nacionais, em Espanha e Portugal. Apesar dos trabalhos importantes de historiadores portugueses vivos como Elivra Mea ou José Alberto Tavim, ou da já jubilada Maria José Pimenta Ferro Tavares.

Contra essa ausência, fica a obra impressionante de Yosef Hayim Yersushalmi. Sobre a qual não vou escrever, pelo menos hoje, pois estou longe dos meus livros.

Obama em Oslo II

Aconselho a leitura de "Corajoso e Conservador", publicado no "i" por Bernardo Pires de Lima. Uma análise certeira à intervenção de Obama em Oslo.

Não deixo de achar estranho a ausência de reacções na esquerda lusa a este discurso de Barack Obama. Será que não gostaram de ouvir coisas como "usar a força unilateralmente se necessário" ou a palavra guerra 44 vezes? Onde estará a coerência de tantos críticos de George W. Bush, que agora se calam perante um discurso deste género de Barack Obama?

Ainda Obama e o flirt europeu


Os Estados Unidos jamais renunciarão ao seu compromisso no que respeita à segurança mundial. Mas, num mundo em que as ameaças são mais difusas e as missões mais complexas, os Estados Unidos não podem agir sós.

Não deviam. Mas é provável que Obama tenha já começado a perceber de que é feita a simpatia com que a sua chegada ao poder foi rodeada, na Europa, por exemplo. Na Europa de hoje, que é o espelho da impotência, forçada pelos desaires da história, mas nem por isso menos cultivada e gabada como virtude, Obama representou a esperança (louca) de que, com ele, também a América renunciasse. Que os Estados Unidos não pretendem, com Obama, renunciar, foi o que ontem expendeu o seu actual Presidente, ao longo dos tensos 36 minutos de Oslo. Vai acabar o flirt europeu. Para a Europa, é pura e simplesmente insuportável que a América - e, já agora, qualquer coisa - mexa.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Uma coisa é certa.

Obama em Oslo

Concordo com o Nuno: o discurso de Barack Obama merece aplausos. E redobrados, pelo facto de o ter realizado em pleno cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, numa sala que estaria à espera de outro tipo de palavras. Hoje assistimos a uma mudança substancial na retórica que tem sido utilizada por Obama desde o início do seu mandato. Robert Kagan fala mesmo num "moralismo musculado", na senda da tradição de Truman e Reagan, e recorda até The Just Man Armed de Teddy Roosevelt. O presidente americano terá desiludido alguns dos seus fãs hardcore, mas fez provavelmente um dos melhores discursos da sua presidência. Espero que Kagan tenha razão e que marque o inicio de uma nova abordagem aos desafios da política externa americana.

Adenda: Pelo que tenho lido na imprensa, este discurso foi muito bem recebido pelos conservadores americanos. Sarah Palin e Newt Gingrich também elogiaram as palavras de Obama. Até para consumo interno terá sido uma intervenção positiva. Num momento em que as sondagens não vão nada bem....

Biblioteca de Autor

A edição de livros escolhidos por escritores/autores começa a ter espaço no nosso mercado livreiro. A Presença publicou a selecção de contos fantásticos feita por Jorge Luís Borges, a D. Quixote editou a colecção Biblioteca António Lobo Antunes e a nova colecção da Tinta da China, de literatura de humor, é composta por clássicos sugeridos por Ricardo Araújo Pereira.

Nos livros escolhidos por Jorge Luís Borges encontramos escritores da literatura fantástica, sobrenatural e de terror, como Gustav Meyrink, Giovanni Papini, Henry James, Arthur Machen, Edgar Allan Poe, Rudyard Kipling, entre outros. Esta colecção, designada por Biblioteca de Babel, foi idealizada por Franco Maria Ricci, editor com especial interesse pela criação de edições de luxo. Borges recebeu Ricci numa biblioteca e disse «este é o centro do Labirinto e eu sou o Minotauro que espera a chegada de Teseu, para me matar ou para me salvar». Criada em 1970 os livros que compõem esta biblioteca são pequenos, pouco volumosos, impressos em papel especial.

O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, A Letra Encarnada, de Nathaniel Hawthorne, e Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, fazem parte da Biblioteca António Lobo Antunes. O objectivo desta colecção é colocar ao alcance do público, a preços acessíveis, grandes livros de todos os tempos. Dos gregos aos latinos até à literatura contemporânea, são livros escolhidos por Lobo Antunes, publicados há pelo menos 70 anos, para os quais gostaria de cativar leitores, porque são bons/excelentes livros.

Os primeiros títulos da colecção de humor são "Os Cadernos de Pickwick" de Dickens, "Jacques, o Fatalista", de Diderot, e uma antologia de textos de Robert Benchley. Escolhas em que , segundo Ricardo Araújo Pereira, «Um inglês, um francês e um americano entram numa colecção. E diz o inglês...». Para descobrir, basta ler.

Rectificações


___________________

"Winston discou «os números atrasados» na teletela e pediu os exemplares correspondentes do Times, que escorregaram da boca do tubo pneumático depois de uns minutos de espera. As mensagens recebidas referiam-se a artigos ou notícias que por um motivo ou outro deviam ser alterados ou, como se dizia oficialmente, rectificados. Por exemplo, o Times de 17 de Março publicara que o Grande Irmão, discursando na véspera, predissera que a frente meridional indiana continuaria serena, mas que seria lançada em breve uma ofensiva eurasiana no Norte de África. Entretanto, o alto comando eurasiano desencadeara a sua ofensiva no Sul da Índia, deixando a África em paz. Tornava-se portanto necessário escrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão de maneira a fazer crer que o mesmo tinha predito exactamente o que sucedera. Ou ainda, o Times de 19 de Dezembro publicara as previsões oficiais da produção de vários artigos de consumo no 4º trimestre de 1983, correspondente ao 6º trimestre do Novo Plano Trienal. O jornal de hoje continha uma notícia sobre a produção real pela qual se verificava que as profecias estavam redondamente erradas. O serviço de Winston era rectificar as cifras originais, fazendo com que concordassem com as posteriores. (…)
Assim que Winston fez as rectificações ordenadas, prendeu com um grampo as correcções falascritas aos exemplares correspondentes do Times e meteu-as no tubo pneumático. Daí, com um movimento tão inconsciente quanto possível, amarrotou a ordem original e as notas que havia feito e atirou-as para o buraco da memória, para pasto das chamas."
George Orwell, 1984, Capítulo 3

O discurso de Obama mudou: o Irão vai testar as consequências

Sem dúvida. O discurso de Obama mudou. Presumo que a corte mundial de peacniks que até agora o acompanhou deve estar em choque. Além das frases das frases-chave que aqui transcrevi, ouvido já o discurso na íntegra, passo a acrescentar estas:

- Eu, como qualquer outro chefe de Estado, reservo o direito de agir unilateralmente, se necessário, para defender a minha nação;

- Os que se preocupam com a sua própria segurança não podem ignorar o perigo de uma corrida aos armamentos no Médio Oriente; ou no Extremo Oriente;

- Sim, deve haver compromissos, sim, deve haver diplomacia, mas deve haver consequências, quando essas coisas falham.

Pode ser que a ausência completa de resposta de países como a Rússia ou o Irão - ou actores de certa importância como a Autoriade Palestiniana - às aberturas feitas por Obama o tenham forçado a uma abrupta mudança de doutrina. Pode ser. Right without might is worthless, justiça (ou direito), sem força, é nada, parece ser, agora, o seu mote. Não vale a pena acrescentar que o discurso foi sobre as virtudes do poder, da força. Em última instância, da guerra.

É cedo para avaliar o que efectivamente mudou. Custa-nos a acreditar que a pomba do Cairo ou de Praga tenha tão rapidamente compreendido que este mundo é dos falcões. Espero que assim seja.

O primeiro teste será a resposta que a Administração norte-americana dará, terá de dar, a muito breve trecho, à alacridade com que o Irão continua a desafiar tudo e todos no prosseguimento do seu programa nuclear. O que tem implicações na abordagem à Rússia. E à China.

A seguir, e - impossível não o fazer -, para já, a saudar Obama.

P.S: Parece que há um conjunto de alienados, os groupies indefectíveis, que insiste em não reparar que a música celestial acabou, e repete desesperadamente que o que Obama disse qualquer um com bom-senso o poderia ter dito. Pois é.


Animal perigoso

Parabéns, Obama

Tal como o Jorge diz, aqui mesmo em baixo, também eu só tenho conhecimento do discurso de Obama a partir do pequeno vídeo da CBS. Lerei o discurso completo logo que possa. Para já, deixo duas breves notas: (1) Quem quiser ser justo com Obama não poderá deixar de reconhecer o seguinte: G W Bush não teria sido capaz de discursar de forma diferente ou melhor; Obama esteve bem e à altura das suas responsabilidades. (2) Os noruegueses bem mereceram o que ouviram e outra coisa não seria de esperar da decisão de atribuir o Nobel da Paz ao recentemente eleito Presidente dos EUA.

Bem-vindo à realidade

Animal de confiança

Não consegui ainda ver, ouvir ou ler todo o discurso de Obama, na recepção do Nóbel.

O curto vídeo para já disponível deu para ouvir que:

- Temos de começar por reconhecer uma dura verdade: não vamos erradicar conflitos violentos no tempo das nossas vidas;

- Haverá alturas em que as nações agindo individualmente ou em concerto acharão o uso da força não apenas necessário, mas moralmente justificado;

- Olho para o mundo como ele é: não posso reagir passivamente às ameaças ao povo americano;

- Não se enganem: o mal existe no mundo;

- Negociações não convencerão os líderes da Al-Qaeda a baixar as armas;

- Dizer que a força pode ser necessária não é um apelo ao cinismo, é um reconhecimento da história, das imperfeições do homem e dos limites da razão.

Bem-vindo à realidade. Espero pela parte menos metafísica do discurso - para já, aplaudo -, para ver no que isto dá.

Cachimbo no feminino


Um mouro de trabalho

O que faz correr este mouro de trabalho?

Assim, que me recorde, só nos últimos meses, ele

- Foi à Líbia celebrar o 40º aniversário da permanência de Kadhafi no poder, onde teve, entre outras coisas, ocasião de assistir a um belo espectáculo de luz e cor, com um quadro edificante sobre a sorte que no país é dada aos inimigos do déspota e assassino mais kitsch do universo;


Amado aplaudiu no fim?

- Apoiou até ao fim a candidatura de Faruk Hosni, ex-ministro da Cultura do Egipto, a Director Geral da Unesco (a vergonha do embaixador português naquela organização foi tal, que se recusou a votar, pelo que teve de ir à última hora, das Necessidades, um votador substituto à reunião magna convocada para resolver a sucessão no cargo), conhecido pela sua declarada intenção de queimar todos os livros hebraicos existentes nas bibliotecas do seu país, bem como pelo orgulho com que afirmou ter participado no apoio ao sequestro terrorista do Achille Lauro; Amado perdeu, mas bateu-se denodadamente;

- Esteve quase sozinho, entre os seus parceiros ocidentais, no apoio, nas Nações Unidades, ao Relatório Goldestone, um relatório encomendado pela Comissão dos Direitos Humanos daquela organização com a expressa missão de condenar Israel, pela sua acção contra o terrorismo em Gaza, em Janeiro deste ano;

- Esteve com todo o activismo possível no apoio à versão inicial da proposta sueca aos ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27, visando estabelecer Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado palestiniano, no que foi uma vez mais derrotado.

Supondo que não é um ódio insanável a Israel que o move, permanece a pergunta: mas move-o o quê? O lugarzito no Conselho de Segurança das Nações Unidas? Só isso? E vale tudo? Até mesmo vender o prestígio externo de Portugal como voz democrática e portadora de valores no concerto das nações?

Porque não também o Nobel da Literatura?

É Isso Mesmo

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

A pegada ecológica de Sócrates

Esta linda coisa a que pudemos assitir hoje é o efeito explícito (porque há e haverá outros menos manifestos) de mais de quatro anos do Sócrates primeiro-ministro, com o seu modo peculiar de se dirigir às oposições. Temos tido um primeiro-ministro que, no parlamento, agredindo e troçando dos deputados, parece (como bem apontou Manuela Ferreira Leite) não ter consciência do lugar que ocupa e do cargo que desempenha. O seu comportamento em debate parlamentar oscila as mais das vezes entre o do valentão de feira provocador e o do malcriadão atabernado. A Louçã grita 'Tenha tento na língua!', a Rangel atira um 'Não seja ridículo!', virando-se para Portas, humilha-o com 'Tenha mas é juizinho!', quando Jerónimo de Sousa lhe dirige a palavra, revira os olhos e faz caretas para a sua trupe, dirige-se a Manuela Ferreira Leite ou a Heloísa Apolónia com as maneiras de um negreiro a repreender a criadagem, etc.
Isto, pelo lugar exemplar que o homem ocupa, continuado e reincidido, acaba por ter os seus efeitos. Propaga-se por contágio, gera um ambiente de confronto azedado, enodoa a linguagem política. Como se vê. E se verá.

Equívocos da luta de classes



Sempre pensei que a luta de classes é um somatório de equívocos. «Palhaço», para as pessoas do Campo Grande (atenção: a história da linha é falsa!), quer dizer palhaço. Para, como dizer?, as pessoas mais populares, por qualquer razão que não consigo entender (mas também não sou antropólogo ou linguista) é pior do que sei lá o quê. Quem anda de taxi sabe do que falo.

As aleivosias do PSD

Ando para dizer isto há uns dias: o PS tem muita razão de queixa do PSD. Estes deputados do PSD são uns extremistas, uns radicais, uns verdadeiros celerados. E, sobretudo, uns grandes ingratos. Então o PS instalou computadores individuais para cada deputado (a propósito, fui só eu ou mais gente notou uma substancial melhoria da qualidade da nossa democracia devido aos computadorezinhos no nosso hemiciclo? - tão longe daquela patética Câmara dos Comuns, onde os MPs se sentam apinhados em bancos corridos desconfortáveis) e os deputados do PSD, em vez de se dedicarem a pôr os mails em dia, de passarem os olhos pelos sites da comunicação social, de lerem aqui o Cachimbo, de renovarem as assinaturas das revistas estrangeiras, de visitarem os sites da Four Seasons e da Ritz-Carlton e da One&Only para planearem as férias seguintes, pretendem (mesmo!) fiscalizar os governos Sócrates? Em vez de agradecerem, penhoradamente, ao PS e aproveitarem os momentos de descontracção que o PS lhes proporciona, quem uma comissão de inquérito ao negócio do governo e da JP Sá Couto com o Magalhães, feito por ajuste directo? Não sabem que as salas onde reúnem as comissões ainda não têm computadores individuais? Em vez de lazer querem preocupar-se com o passivo de cerca de 600 mil euros da Fundação para as Comunicações Móveis? Onde já se viu isto? Uma oposição a fazer, de facto, oposição? Uns radicais. Uns extremistas. Uns fundamentalistas. Uns marinheiros de água doce. Uns invertebrados. Uns Vercingetorixes de Carnaval. Uns renegados. Não foi para isto que votei no PSD nem que pago os ordenados dos seus deputados com os meus impostos. Descontraiam, senhores deputados do PSD. Aproveitem o tempo na AR para marcarem uma massagem relaxante de aromaterapia num spa. E deixem os senhores do PS governarem sem incómodos. Já se viu, de resto, que no PS têm tanto jeito para nos governarem.

O fenómeno


Se este senhor não existisse, tinha de ser inventado. Olhem para a habilidade, a delicadeza com que estabelece o foco da frase em que avalia a declaração saída da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE sobre o conflito Israelo-árabe: «Foi dado um passo importante no sentido de se retomar o papel que a União Europeia deve ter neste processo, não deixando totalmente a iniciativa à administração americana». Note-se que a questão não é tanto a da ninharia do processo em si, mas a do monopólio da iniciativa pela América.

Quanto à declaração propriamente dita, considera este génio diplomático que ela «é equilibrada e coerente», já que exerce uma «pressão diferenciada». Equilibrada? Bem, lá «coerente» e «diferenciada» é a declaração: não há nenhuma exortação especificamente dirigida à Autoridade Palestiniana - que se recusa a iniciar as negociações -, salvo um vago apelo à «melhoria da ordem e da lei» (artigo 7º), nos territórios que administra, e, aos palestinianos em geral, para que se unam em torno de Mahmud Abbas (artigo 10º). Em contrapartida seria fastidioso inventariar as pesadas críticas dirigidas ao Estado de Israel: bloqueio a Gaza, muro de segurança, alegadas discriminações, colonatos, etc., etc., etc.

Considera este iluminado que a UE deu um passo para retomar iniciatva no processo de paz. Um detalhe de somenos: um processo de paz envolve a aceitação, das partes em conflito, daquele que quer participar na intermediação, isto é, o reconhecimento, por parte de ambas, de que o eventual mediador está de boa-fé no processo, como parte terceira.

Não ocorre (?) a esta cabecinha que a pressão, à força de ser «diferenciada», para usar o seu eufemismo, aliena completamente a confiança necessária de uma das partes: neste caso, Israel. A coerência tem o seu preço, Mr. Amado.

Ou então: Amado não é o génio que parece, e está em tudo isto a jogar noutro tabuleiro, onde o monopólio ou oligopólio da iniciativa no processo de paz é irrelevante, para não falar no processo de paz em si mesmo. Vendo bem as coisas...

Ainda a tempo (1)

Voltemos, quase um mês de ausência depois, aos posts que me foram dedicados a propósito do Prós e Contras sobre o "casamento" gay.
Antes de mais, um pequeno esclarecimento que ainda incluí nos comentários a este post. A célebre pergunta que fiz em directo a Miguel Vale de Almeida (se ele tenciona ou não casar, no caso de ter legalmente essa oportunidade) era dispensável, mas não pelas razões invocadas por muita gente. O que está mal na pergunta é a fulanização do debate, um debate que deveria ser geral e abstracto como a própria lei que se discute.
A pergunta, porém, não é uma violação da privacidade. O casamento é mais do que uma relação íntima entre duas pessoas: é um contrato que formaliza publicamente essa relação. E os seus efeitos legais, tanto no que diz respeito aos dois cônjuges, como no que diz respeito a terceiros - os filhos. Uma relação íntima tem direito à máxima privacidade, em princípio, se os envolvidos assim o desejarem. Mas quando se converte em casamento, passa a ser pública. Façam o favor de ler Código Civil, que define casamento, no tal artigo polémico que o PS quer alterar, como "o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida". Julgo que todos concordaremos ser a plena comunhão de vida algo de profundamente íntimo, mas está na lei. Assim como outro artigo dedicado à "Publicidade e solenidade" (sic) do casamento: "A celebração do casamento é pública e está sujeita às solenidades fixadas nas leis do registo civil."Quem invoca o direito à privacidade, que eu também defendo, para ver na minha pergunta uma ofensa, está apenas a mostrar uma grande ignorância - fingida ou real - sobre o casamento.
Isto diz muito sobre os defensores do "casamento" gay. Porque, no fundo, não lhes interessa o casamento enquanto instituição, com um conteúdo público e definido (e este ponto fundamental fica para o post seguinte), mas apenas o símbolo, que dá o reconhecimento social e a correspondente "dignidade", mantendo a "comunhão de vida" que o justifica fora do escrutínio público. Querem apenas o exterior do casamento: a respeitabilidade.
No que mostram ser mais conservadores do que julgam.
Começar pelo casamento para chegar à utopia é tão burguês, camaradas. É tão romance de cordel. É tão, sei lá, revista Maria...
Sejam revolucionários: exijam o impossível, não as noivas de Santo António. Levem a imaginação ao poder, não @ voss@ companheir@ ao registo. Se não querem responder a perguntas incómodas, garanto-vos que o casamento não é o melhor caminho.
(Amanhã continuo. A minha mulher acaba de perguntar se estou outra vez a perder tempo no blogue.)

Menor preço para a meia dúzia

Alexandre,

Essa estratégia de facilitar o programa dos outros independentemente das consequências práticas ou das preferências políticas dos restantes actores políticos não é um tanto ou quanto bizarra?

Cabe ao partido mais votado a responsabilidade primeira da iniciativa de garantir os apoios necessários para formar um governo suportado por uma maioria parlamentar. Se bem me recordo, Sócrates não só não o fez como encenou uma lamentável e tristemente vazia sessão continuada de convites para o seu desejável desfecho: acordo nenhum e governo de minoria, o que tem como consequência que em cada votação tem de negociar o voto maioritária da assembleia. Em linguagem popular, vai à feira. E quando se vai a uma feira, qual é o político português mais provável de encontrar?

Semipresidencialismo

No dia 11 de Dezembro (sexta-feira), terá lugar a sessão de lançamento do livro O Semipresidencialismo nos Países de Língua Portuguesa, de Marina Costa Lobo e Octávio Amorim Neto (orgs.). É às 18h, na Bulhosa (entrecampos).

O que só o CDS percebeu


O pior que se pode fazer a José Sócrates e ao Governo é obrigá-los a governar.

A sucessora

Maria João Seixas é a nova directora da Cinemateca. Não a conheço o suficiente para dizer se será ou não uma boa escolha, mas a sua nomeação mostra que a nova Ministra da Cultura está a arrumar rapidamente alguns dossiers complicados que António Pinto Ribeiro lhe deixou. É um ponto a favor de Gabriela Canavilhas e o exemplo do Museu de Arte Popular parece ter dado o mote. Recorde-se que João Bénard da Costa, o director da Cinemateca cuja vida se confundia há décadas com a da própria casa, se demitiu no ano passado por motivos de saúde - e sem sucessão à vista. Desde então, a gestão corrente tem sido assegurada por Pedro Mexia, que foi agora reconduzido como subdirector.
Maria João Seixas tem pela frente, portanto, um enorme desafio: o de fazer esquecer Bénard.
Pode começar por resolver dois problemas herdados do seu carismático antecessor.
O primeiro é o do alargamento do público da Cinemateca. Um público fiel, mas muito reduzido. Um equipamento cultural como este não pode estar apenas ao serviço de meio milhar de lisboetas, mesmo que sem eles não faça sentido.
O outro é o da criação de um pólo da Cinemateca no Porto. É uma antiga, e nunca atendida, exigência dos cinéfilos do Norte. Bénard da Costa opunha-se, argumentando que o transporte das películas podia causar-lhes danos, mas dificilmente se compreende que a segunda cidade do país não tenha cinema fora do circuito comercial ou dos festivais.
Em suma, falta democratizar e descentralizar a Cinemateca. Maria João Seixas, que já foi argumentista, está agora na cadeira de realizadora. Talvez do filme da sua vida.
Adenda: Um email amigo avisa-me, entretanto, que Gabriela Canavilhas já prometeu a abertura do pólo portuense da Cinemateca para o próximo ano. A notícia escapou-me, mas confirma a minha primeira impressão da Ministra: decide depressa e vem apagar fogos. O que não é necessariamente um mal. Resta saber se será uma política.

Não podia estar calado?

O que eles dizem! Nuno Morais Sarmento, representante do PSD ao Congresso do MPLA. «Angola é um país maduro.» Maduro? Se não queria dizer podre, porque é que deu a entrevista?

"Pedir batatinhas"

Certo e sabido. Mal se fizessem ouvir na Assembleia da República os primeiros estalos na cara do governo, regressariam os sensatos com os seus apelos à prudência e responsabilidade da oposição. E, claro está, ao papel mediador de Cavaco Silva. Faz sentido, é essa a função dos sensatos. (...) O que os sensatos se esquecem de dizer é que do desastre já ninguém nos livra.

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Nada, como de costume

Ao fim do dia, o resultado é este.


Ao cabo de muito ponderar, a UE na sua imensa sabedoria acabou por alterar o seu projecto para Jerusalém, que, de capital do futuro Estado palestiniano, passou a capital de dois Estados. Vá lá, dois sempre é o dobro de um.

Há apenas um ligeiro detalhe descurado pelos sábios ministros europeus: o principal obstáculo ao início das negociações de paz - a recusa da Autoridade Palestiniana - não é aflorado. Ah! Ok: e de «nota», a UE passou a «tomar nota positiva» relativamente à moratória do Governo de Israel à construção nos colonatos.

Ao fim do dia, nada, como de costume.

O Inverno Demográfico



Nestes dias em que tanto se fala, e ainda bem, do aquecimento global a propósito da cimeira de Copenhaga, convém recordar um outro fenómeno global não menos preocupante: o progressivo declínio demográfico, sobretudo das sociedades ocidentais. Há cada vez menos crianças, em muitos casos, nem sequer as suficientes para a renovação de gerações. Esta tendência terá consequências sociais e económicas desastrosas a médio prazo. Segundo Philip Longman (autor do livro The Empty Cradle: How Falling Birthrates Threaten World Prosperity):“The ongoing global decline in human birthrates is the single most powerful force affecting the fate of nations and the future of society in the 21st. century.” Convém lembrar que não há memória histórica de períodos de prosperidade económica com quebras de população. Bem sei que não é politicamente correcto, nem está na moda falar disto, mas aqui pelo Cachimbo gostamos de ser contra corrente. Para ver o filme Demographic Winter ou saber mais sobre este tema ver aqui.

Lá está Portugal a jogar ao ataque contra Israel...

Vai sendo hábito: sempre que é necessário castigar Israel, o Governo português oferece os seus préstimos.

O cérebro. Da coisa.

O último episódio está hoje a decorrer, numa reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em Bruxelas.

A Suécia, antes de abandonar a Presidência, quis deixar uma marca. Decidiu propor aos pares uma iniciativa, em que se toma posição face ao conflito israelo-árabe. Já dei todas as voltas à cabeça para tentar perceber porquê a iniciativa, porquê naqueles termos - inclui a expressão do desejo europeu de reconhecer Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestiniano, ou seja, inclui a manifestação do desejo de ver a cidade de novo dividida -, mas não consigo vislumbrar bem a coisa.

Contribui para fazer avançar, ou melhor, relançar um processo de paz? Obviamente que não. Na forma em que foi proposta pela Suécia, a iniciativa, no seu ponto quinto, «toma nota da decisão recente do Governo de Israel de congelar parcial e temporariamente a construção de colonatos e exprime a esperança de que este venha a ser um passo em direcção à retomada de negociações significativas» (o europês diplomático é das línguas mais bacocas que existem.)

Nenhuma referência é feita à rejeição da moratória, por insignificante, por parte da Autoridade Palestiniana, até ao seu anúncio considerada, pela mesma Autoridade Palestiniana, como condição para o lançamento das ditas negociações.

Em contrapartida, a iniciativa abunda em exortações ao que Israel deve fazer, ou não fazer, para que as negociações avancem, em direcção à criação de um Estado Palestiniano, que a UE afirma querer reconhecer, mesmo antes de estar negociado, e estabelecidos os seus contornos.

É evidente que, se a proposta vier a ser aprovada nos termos em que está redigida, terá como única consequência tangível o afastamento definitivo da «Europa» (o que quer que seja que isso queira dizer, sempre que questões diplomáticas importantes estão em jogo) do processo de paz, dada a sua posição completamente viciada a favor de uma das partes do conflito e de afrontamento da outra.

Por esse resultado heróico, está a bater-se Portugal, ao lado da Irlanda, Luxemburgo, Bélgica e Reino Unido, contra o bloco liderado pela Alemanha, França, Itália, Holanda e Espanha (que vai receber a próxima presidência).

Mas talvez que tudo se explique melhor - o mistério da iniciativa, atrás referido -, se se considerar o seguinte: a irresponsabilidade política é um dos privilégios dos insignificantes. Talvez o único. Que a «Europa» esteja «dispensada», no caso do conflito do Médio-Oriente, não será consequência desta iniciativa: ela, a iniciativa, é que só pode ser explicada pela insignificância da «Europa», já irreversivelmente interiorizada. Palavras (e papéis) levam-nas o vento...

Citação montesquieuana do dia

«Numa nação livre, é muitas vezes indiferente que os particulares raciocinem bem ou mal; basta que raciocinem: daí decorre a liberdade que protege dos efeitos desses mesmos raciocínios

Ai ...é feio (eólicas) IV

(e não é só em Copenhaga. Aqui um parque eólico à saída de Amsterdão)

Não quero terminar esta série de “post” só a dizer mal.
Faça-se justiça, nos últimos anos, Portugal deu um tremendo salto qualitativo em matéria de energias renováveis. É um dos raros casos em que, claramente, o poder executivo, e bem, tem liderado e puxado pela sociedade (ou, pelo menos, não tem colocado demasiados obstáculos à iniciativa privada). E estou convicto de que se não houvesse tanta esquisitice, tipo “Ai ... é feio” ainda tínhamos mais energia eólica graças à boa política energética nesta área (noutras já não tanto).

(e não é só em Copenhaga. Aqui vemos um aerogerador em Amsterdão, que, como sabemos, também pertence a um país subdesenvolvido...)

Ai ...é feio (eólicas) III

O mesmo se passa na justiça: quer-se uma justiça rápida, mas impõe-se ao juiz um calvário de fundamentação de dezenas, centenas de páginas, muitas vezes para coisas simples e, a seguir, não contentes, em lugar de uma instância de recurso, há duas ou três, com inúmeras possibilidades de repetição de julgamentos.
Queremos combater o crime, e, por razões excepcionais, por uns meses, à experiência, autorizam-se umas câmaras, mas fixas e que apontem apenas para os pombos.
As escutas – de utilização limitadíssima – em lugar de meio de prova, como é banal noutras paragens, são um dos maiores problemas nacionais: mais vale ter crime a sério e corrupção generalizada do que escutas, não vá dar-se o caso de se vir a saber o que alguém disse.

Não nos espantemos de sermos cada vez mais um “povo atrasadinho”, com cada vez mais quadros de valor a emigrar.
Ficamos cá a servir cafezinhos à espera das gorjetas para pagarmos as dívidas que andamos a contrair.

Ai ...é feio (eólicas) II

E cá... com um défice externo considerável, também graças à energia, andamos a discutir se é bonito ou se é feio ter um aerogerador no Tejo (mas já depósitos de produtos químicos e petrolíferos não nos incomodam, nem silos de cerais, nem contentores, nem os mamarrachos urbanísticos que vão aparecendo nas margens ou que se vêm das margens).
E em vários locais do país, perante a hipótese de colocação de aerogeradores.
– Ai, é feio ... dizem...

Feio é o nosso défice externo.
Feio é o nosso endividamento.
Feia é a nossa incapacidade para definir objectivos nacionais e levá-los à prática.
(Viagens-8)